O Governo Lula 3 e a construção de uma alternativa socialista

Com o fim do mandato e campanha eleitoral à vista, o Governo Lula vem encenando um suposto “giro à esquerda”, com a isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil, o “Gás do Povo” e, atualmente, busca apropriar-se da luta pelo fim da escala 6×1, que foi inicialmente rechaçada pelo governo.
Apesar dessas medidas, um balanço consequente mostra que a prioridade do governo Lula 3, desde o início, foi conciliar com as classes dominantes, mantendo a exploração sobre as massas e destruição social e ambiental. A luta contra a ameaça representada pela extrema-direita não pode nos cegar diante dessa realidade.
A política econômica do governo, sustentada pelo Novo Arcabouço Fiscal, mantém a lógica de austeridade que corta investimentos sociais para garantir remuneração dos super-ricos com juros da dívida pública. Foi por esse motivo que o governo apresentou projetos que atacavam direitos como o BPC, o abono salarial, Seguro-Defeso e programas como Bolsa Família e Farmácia Popular.
Também, como consequência direta do arcabouço fiscal, atacou o piso constitucional da Educação, inserindo como gastos do setor o programa “Pé de Meia”, o que resultará em cortes na educação.
As medidas tímidas de taxação de grandes fortunas são voltadas para garantir a meta fiscal, não em investimentos. As promessas eleitorais de revogação das contrarreformas da previdência, trabalhista e do Novo Ensino Médio, não foram pautadas em nenhum momento.
Favorecendo o rentismo e as privatizações
O Banco Central tem hoje o presidente e a maioria dos diretores indicados por Lula, e mantém a segunda taxa de juros mais alta do mundo, enriquecendo ainda mais a burguesia rentista, enquanto quase 80% das famílias estão endividadas.
Quase 40% dos trabalhadores vivem na informalidade e apesar do baixo desemprego, cerca de 70% dos trabalhadores e trabalhadoras recebem até 2 salários mínimos. Junto a isso, o próprio Governo Lula aprovou uma restrição ao crescimento do salário mínimo a 2,5% acima da inflação.
O governo Lula 3 segue a toada privatista entregando os recursos, infraestrutura e serviços ao capital privado, especialmente sob o formato de parcerias público-privadas, com o BNDES vem financiando a privatização de metrôs e do saneamento no país.
O atual governo atingiu o recorde de concessões de infraestrutura, como rodovias, portos, aeroportos e setor elétrico, superando os governos FHC, Temer e Bolsonaro e abriu também a possibilidade de privatização de presídios.
Compromisso com o agronegócio e a destruição ambiental
O Governo Lula mantém seu alinhamento com o agronegócio. O atual Plano Safra bateu recorde de recursos com mais de R$600 bilhões. Também está colocando em prática uma série de projetos de favorecimento a esse setor, como a construção da Ferrogrão e o decreto que incluía as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização. Esse decreto foi revogado após 33 dias de luta dos povos indígenas, incluindo a ocupação da Cargill. A luta obrigou o governo a recuar.
Além disso, em 2025 o Ministério da Agricultura liberou 725 novos produtos agrotóxicos, batendo novo recorde. O governo também luta para garantir a implementação do acordo Mercosul-União Europeia, um acordo que vai fortalecer o papel do país como exportador de grãos e minérios, aumentando sua subordinação aos países imperialistas.
Apesar de tentar promover uma imagem comprometida com a pauta ecológica, especialmente durante a realização da COP30 em Belém, o próprio presidente Lula pressionou pela liberação da exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas.
Política externa
A política externa do Governo Lula é mais um exemplo da distância entre propaganda e realidade. Enquanto tenta promover uma imagem de defesa da soberania nacional e de enfrentamento aos ditames de Trump, a realidade é de negociações favoráveis aos Estados Unidos e à União Europeia. Entre essas negociações estão acordos de exploração das terras raras por empresas estrangeiras e o avanço na instalação de Data Centers, subordinando ainda mais informações críticas do país aos monopólios internacionais e com forte impacto sobre o ambiente e comunidades locais.
A postura de Lula diante da ofensiva do imperialismo estadunidense sobre a América Latina foi de submissão, o que vimos no respaldo dado ao processo que levou à invasão da Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro, chegando a dizer que o importante era “fortalecer a democracia na Venezuela”. A tentativa de Trump de estrangular ainda mais Cuba, impedindo acesso ao petróleo, também está sendo implementada sem qualquer iniciativa de solidariedade do governo à ilha.
Apesar das tentativas de evitar lutas e canalizar o descontentamento para vias institucionais, muitas lutas vêm acontecendo, grande parte delas contra ações do próprio governo federal. Um exemplo importantíssimo foi a luta indígena contra a privatização de rios amazônicos, mas também tivemos as greves dos trabalhadores petroleiros e dos correios.
Não se derrota a extrema direita com conciliação e política de direita
Com o cenário eleitoral também ganha força o discurso de que a única forma de se combater a ascensão da extrema direita seria colocar a reeleição de Lula acima de qualquer outra coisa, incluindo a mobilização independente dos trabalhadores ou a defesa de um programa de esquerda e socialista.
Essa é uma ilusão em que a classe trabalhadora não pode cair. É verdade que a extrema direita precisa ser derrotada também no processo eleitoral e que há obviamente diferenças entre o governo Lula e de Bolsonaro. Mas, abrir mão de levantar uma alternativa socialista dos trabalhadores não ajuda em nada no combate à extrema direita. Afinal, não se derrota a extrema direita privatizando, cortando gastos sociais, subsidiando o agronegócio, atacando o meio ambiente, conciliando com o Centrão, enfim, adotando as políticas da direita.
O programa político e econômico que ajudou a extrema direita a crescer está sendo mantido pelo governo Lula. Contrariando a própria lógica do mal menor, pesquisas têm indicado que essa opção vêm desgastando a política institucional frente à população brasileira que busca alternativas, muitas vezes, de forma distorcida, na extrema direita.
Fortalecer as lutas, a independência de classe e um programa socialista
Por essa razão, é fundamental fortalecer as lutas com independência de classe e construir uma alternativa pautada por um programa socialista, que incorpore as reais demandas da classe trabalhadora, juventude e povos oprimidos.
Neste ano eleitoral, precisamos defender um programa contra as privatizações, o rentismo e contra o agronegócio. É fundamental colocar em pauta o fim do arcabouço fiscal, a estatização do sistema financeiro, a reforma agrária, a reversão das contrarreformas de Temer e Bolsonaro, entre outros temas. Esse debate não será feito pelo lulismo. Declarar apoio à reeleição de Lula sem propor uma alternativa à esquerda que leve esses debates sequer ao primeiro turno, como muitos setores, inclusive do PSOL, vêm fazendo, ajuda a despolitizar a população e favorece a extrema direita. Por isso, é fundamental reafirmar a independência da classe trabalhadora e a apresentação de uma alternativa com um programa realmente de esquerda, que combata a direita, a extrema direita, mas também crítica ao programa capitalista do lulismo.















