Guerra do Irã: Com ou sem acordo, o mundo está em crise

Prédios destruído em Teerã
Foto: Hossein Zohrevand, Tasnim News Agency, Wikimedia Commons

Após cinco semanas de guerra total contra o Irã e sete semanas de um cessar-fogo muito frágil, mais uma rodada de negociações está acontecendo entre os EUA e o Irã. Se o resultado será um acordo ou uma retomada da guerra (ou mais limbo) ainda é uma incógnita. Na manhã de terça-feira, 26 de maio, após vários dias de especulação — alimentada por Trump mais do que qualquer outra pessoa — de que um acordo era iminente, aviões de guerra estadunidenses realizaram bombardeios “defensivos” (sic!) no Irã e jatos israelenses intensificaram os ataques mortais contra o Líbano.

Mesmo que um acordo seja alcançado, provavelmente estará vinculado à continuidade das negociações, que certamente serão cheias de complicações.

O que é certo, no entanto, é que o mundo mudou ao longo desta guerra e que a possibilidade de estabilidade duradoura no Oriente Médio ou globalmente não está sobre a mesa. A guerra contra o Irã inaugurou uma nova fase de dificuldades para o governo Trump e minou ainda mais o imperialismo estadunidense no cenário mundial. Também intensificou as tendências de aumento das guerras e do militarismo em todo o mundo. Mesmo que a guerra termine em breve, seus impactos, incluindo o choque energético global e a crise alimentar, continuarão a se espalhar por todos os cantos do planeta.

Haverá um acordo?

Na sequência do fracasso das negociações em abril, a proclamação de um cessar-fogo por tempo indeterminado por Trump e o bloqueio dos EUA do Estreito de Ormuz pouco contribuíram, além de intensificar a disputa pelo controle do estreito. Isso continuou a mergulhar a economia mundial no caos. Alertas sobre um iminente “ponto de inflexão” ou “zona vermelha” para o setor energético pairam no ar.

Esses fatores, juntamente com a impopularidade da guerra, aumentaram a pressão sobre Trump para que ele tente chegar a algum tipo de solução “diplomática” às pressas. Ele faltou ao casamento do filho e JD Vance foi enviado de volta a Washington às pressas. Demonstrando seu desespero para escapar da guerra que iniciou, Trump teria feito ligações para autoridades da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Paquistão, Turquia, Egito, Jordânia, Bahrein e Israel. Mas o acordo parece estar em sérios apuros antes mesmo de entrar em vigor.

Caso as negociações fracassem, a possibilidade de um retorno à guerra em grande escala contra o Irã não está descartada, como exemplificado pelas frequentes ameaças de aniquilação de Trump, bem como pelo acúmulo de um número recorde de 50 aeronaves-tanque de reabastecimento militar estadunidenses no aeroporto Ben Gurion, em Israel. Contudo, apesar das complicações para se chegar a um acordo, a escalada também não é uma opção particularmente atraente para Trump, especialmente quando não há nenhuma garantia de que as ações militares serão mais bem-sucedidas do que a colossal campanha aérea conjunta EUA/Israel, que durou cinco semanas e não alcançou nenhum dos objetivos declarados. Apesar da bravata de Trump e da propaganda sobre o poderio militar estadunidense, relatórios revelaram que 30 dos 33 locais de armazenamento de mísseis iranianos ao longo do Estreito de Ormuz permanecem operacionais. As previsões de colapso total ou “explosão” da produção de petróleo iraniana também não se concretizaram. Até o momento, pelo menos, o regime iraniano conseguiu suportar os danos infligidos pelos EUA e seus aliados e mantém a vantagem.

No momento em que este texto é escrito, há relatos de que um acordo se basearia na reabertura do Estreito de Ormuz em troca do desbloqueio de ativos iranianos e da suspensão das sanções. Segundo fontes estadunidenses, isso estaria condicionado a um acordo do Irã para se desfazer de seus estoques de urânio altamente enriquecido, com detalhes a serem definidos nos próximos 60 dias. Aparentemente, o lado iraniano nega essa informação e, em geral, tem minimizado a iminência de um acordo.

Após tantas rodadas de negociações e pelo menos US$ 25 bilhões gastos na guerra, o fato de esses termos representarem, na melhor das hipóteses, um retorno ao status quo pré-guerra expõe a fragilidade da posição dos EUA.

Impactos globais

A guerra transformou a política e as alianças mundiais de uma forma irreversível. Chefes de Estado da Alemanha, Itália, Espanha e outros países estão se distanciando publicamente de Trump e da guerra dos EUA. Uma questão crucial será o impacto de qualquer acordo sobre a devastadora guerra de Israel contra o Líbano. Netanyahu, aparentemente excluído das negociações diretas, pretende “intensificar os ataques” contra o Hezbollah. Para o povo libanês, o chamado cessar-fogo não interrompeu o avanço das forças israelenses, com um número crescente de vítimas civis e ataques a hospitais, ambulâncias e profissionais de saúde, que só se intensificaram durante as negociações entre EUA e Irã.

Isso ocorre em um momento em que Israel está, sem dúvida, mais isolado do que nunca no cenário mundial. Seus ataques à Flotilha Global Sumud e o escárnio do abuso e da violência contra os ativistas da flotilha pelo Ministro da Segurança israelense, Ben Gvir, provocaram indignação internacional. Isso pressionou diversos governos a condenarem esses ataques, e o governo francês a proibir a entrada de Ben Gvir no país. Mesmo nos EUA, há uma queda acentuada no apoio ao governo israelense entre eleitores democratas e republicanos.

A agressão genocida contra o povo palestino também continua. Segundo o Programa Mundial de Alimentos, 1,6 milhão de pessoas, ou 77% da população de Gaza, enfrentam níveis graves de insegurança alimentar aguda. O Estado israelense intensificou os ataques e expandiu o controle militar para 60% de Gaza, e o plano de “paz” farsesco de Trump só levou ao aumento do sofrimento dos palestinos. Na Cisjordânia, a violência dos colonos está atingindo níveis alarmantes.

Trump também solicitou que os aliados da região assinem os Acordos de Abraão, normalizando as relações com Israel, como parte de qualquer acordo para pôr fim à guerra – mas foi ignorado. Isso seria extremamente provocativo para a população desses países — que sente uma enorme solidariedade com o povo palestino — e extremamente arriscado politicamente para esses regimes autocráticos. O Irã bombardeou os países do Golfo, aprofundando as tensões entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos e destruindo a ilusão de que esses países eram refúgios estáveis. Esses regimes querem evitar um Irã ainda mais ousado.

O recente encontro entre Trump e Xi Jinping também ocorreu sob a sombra da guerra com o Irã, que Trump esperava que estivesse encerrada até a data da reunião. Com essa crise crescente pairando sobre seus ombros, ele compareceu em uma posição relativamente enfraquecida. Os EUA esperavam envolver a China na pressão sobre o Irã para negociar, mas o encontro não produziu compromissos concretos sobre a guerra. Embora a cúpula tenha sido apresentada como uma distensão entre os dois rivais, isso é apenas um reflexo da fragilidade de ambos os lados. A rivalidade interimperialista entre EUA e China está longe de ser amenizada.

A bagunça de Trump em casa

O governo Trump também enfrenta problemas internos cada vez mais graves. Os índices de aprovação para o segundo mandato de Trump atingiram níveis recordes de baixa, com particular frustração em relação às consequências econômicas da guerra. Embora Trump ainda mantenha um controle firme sobre o partido, exemplificado pelas recentes vitórias nas primárias de seus apoiadores leais, fissuras notáveis ​​estão surgindo até mesmo dentro da base mais fiel de Trump.

Divisões mais profundas surgiram no Partido Republicano, especialmente em relação à guerra no Irã. Mais uma votação sobre a Resolução de Poderes de Guerra, que exigiria a aprovação do Congresso para a guerra no Irã, estava agendada, mas foi cancelada às pressas depois que ficou claro que os republicanos não tinham votos suficientes para derrotá-la após a deserção de quatro republicanos. Do outro lado, Trump está sob fogo cruzado de republicanos mais linha-dura, como Ted Cruz e Lindsey Graham, sobre a possibilidade de um acordo com o Irã.

Um acordo significará um retorno à normalidade?

A perspectiva de um retorno real à “normalidade” é uma ilusão. A destruição deixada no Oriente Médio, em particular em termos de vidas humanas e infraestrutura no Líbano e no Irã, será sentida por décadas. A guerra entre EUA e Israel matou pelo menos 3.186 pessoas no Irã, 3.185 no Líbano e milhões foram deslocadas.

A guerra causou danos à infraestrutura energética que levarão anos para serem reparados. Há um déficit estimado de 10 a 12 milhões de barris de petróleo por dia, a produção de petróleo da OPEP caiu quase 30% e espera-se que leve meses para retornar aos níveis pré-guerra. Reiniciar a produção não será tão simples quanto abrir a torneira novamente, e os preços não cairão drasticamente no curto prazo.

A reabertura do Estreito em si também não depende apenas de um cessar-fogo formal. Analistas preveem que o retorno à capacidade de trânsito anterior para petroleiros no Estreito pode levar cerca de três meses. As minas instaladas precisarão ser removidas, e os cerca de 1.500 a 2.000 navios com 20.000 marinheiros a bordo, que permanecem presos no Estreito, precisarão ser retirados. Como esses navios ficaram parados nas águas quentes do Golfo Pérsico por tanto tempo, muitos agora estão cobertos de cracas, algas e águas-vivas, o que tornará a saída do estreito mais difícil e custosa.

Mesmo que o Irã concorde com a retomada total e irrestrita do tráfego marítimo, sem taxas (à qual já se opôs), o regime iraniano demonstrou que controla a passagem, aumentando a possibilidade de futuros bloqueios e introduzindo séria incerteza para o setor de transporte marítimo. O tráfego marítimo no Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, ainda não retornou aos níveis anteriores aos ataques dos houthis em 2023.

E não é apenas o Estreito que é complicado. Os impactos econômicos da guerra não podem ser facilmente resolvidos. O choque no setor energético e a escassez de itens cruciais, como o hélio, se propagarão para a indústria manufatureira e continuarão a pressionar os preços dos produtos para cima. A falta de fertilizantes impacta a agricultura e os preços dos alimentos. A inflação, aliada ao crescimento lento ou nulo da economia, aumenta a possibilidade de estagflação. Mesmo que a guerra termine amanhã, os danos à economia mundial não poderão ser simplesmente apagados.

Não pagaremos por suas guerras

Esta guerra tem sido um desastre e um constrangimento para o imperialismo estadunidense. Mas, enquanto Trump busca desesperadamente uma saída do Irã, a máquina de guerra imperialista dos EUA não se contentará em simplesmente ir embora. Ela continuará intensificando sua campanha militarista e se preparando para futuros conflitos.

Aqueles que se posicionaram como oposição a Trump – por exemplo, o Partido Democrata corporativo e algumas potências da OTAN – também intensificarão sua agenda militarista, apesar de disfarçá-la com retórica sobre defesa. A ditadura islâmica no Irã, que brutalizou seus próprios manifestantes no início deste ano, não oferece alternativa para os trabalhadores e os oprimidos. O imperialismo chinês, embora tente se apresentar como a potência mais amigável e diplomática no conflito interimperialista, tem observado atentamente e continuará a perseguir seus próprios interesses imperialistas.

A classe trabalhadora e os pobres estão sofrendo o impacto mais severo desta guerra e de seus efeitos econômicos. O mundo neocolonial foi particularmente atingido. Greves e protestos eclodiram nas Filipinas e na Índia, e mais recentemente no Quênia, Moçambique e Comores, bem como na Irlanda, com greves nos transportes e protestos de massas. Trabalhadores e pobres em todo o mundo têm interesses comuns contra os belicistas que estão levando o mundo à crise. Há uma necessidade urgente de uma luta internacional de massas contra a guerra e o militarismo, ligada à luta contra a crise do custo de vida.

Nós defendemos:

  • Não à guerra imperialista! Por ações de massas da classe trabalhadora para impedir os ataques EUA-Israel ao Irã e ao Líbano.
  • Fim da ocupação de Gaza e desmantelamento de todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia. Fim do bloqueio e organização de ajuda humanitária urgente para deter a crise em Gaza.
  • Controle de preços e perdão de dívidas para trabalhadores e pobres para enfrentar a crise energética. Nacionalização da indústria de energia sob controle democrático dos trabalhadores.
  • Por uma transição verde genuína e coordenada internacionalmente, com um programa massivo de empregos verdes que defenda os salários, os benefícios e a representação sindical dos trabalhadores em indústrias poluentes.
  • Dinheiro para empregos, educação, moradia, saúde e serviços sociais, não para orçamentos militares.
  • Construir uma luta organizada da classe trabalhadora no Irã contra a ditadura islâmica de direita, com apelos à luta comum para trabalhadores de toda a região.
  • Intensificar a luta contra Trump nos Estados Unidos: construir ações de massas dos trabalhadores contra os ataques aos trabalhadores nos EUA e no mundo todo.
  • Construir movimentos contra todo o imperialismo. Por partidos antiguerra e da classe trabalhadora em todos os países para combater a extrema direita e os bilionários.
  • Pela luta socialista revolucionária contra o capitalismo! Acabar com a ditadura dos patrões e lutar por um mundo socialista livre de guerra, opressão e exploração.

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