Cuba sob ataque – Não à agressão imperialista! Não à restauração capitalista!

Defender Cuba com a mobilização de massas, solidariedade internacional e a luta pelo socialismo com democracia dos trabalhadores!
Nas últimas semanas, o risco de algum tipo de intervenção militar dos EUA sobre Cuba aumentou consideravelmente. Além de impor uma série de sanções e um bloqueio energético desde janeiro visando asfixiar o país e gerando terríveis consequências humanitárias, os EUA também tem mobilizado um forte aparato militar em torno da ilha caribenha. Mesmo que o objetivo imediato seja principalmente o de intimidar o regime cubano e arrancar mais concessões, além das que o regime já está oferecendo, a ameaça é real.
É verdade que muitas das conquistas políticas, econômicas, sociais e mesmo simbólicas da revolução de 1959 vem se perdendo nos últimos anos. Mas também é verdade que um ataque imperialista contra Cuba terá consequências terríveis para seu povo e precisa ser confrontado, dentro e fora da ilha, com o mesmo espírito revolucionário e socialista que marcou a história desse país.
Como parte dessa escalada de agressão e intimidação, o porta-aviões USS Nimitz foi direcionado para o Caribe junto com contratorpedeiros e cruzadores de mísseis capazes de atingir alvos em terra. Drones e aeronaves de vigilância também sobrevoam Cuba com frequência. Navios anfíbios USS Kearsarge e suas escoltas, que podem transportar cerca de 2,5 mil fuzileiros navais, também estão de prontidão na costa da Virgínia, assim como aviões de combate na Flórida e em Porto Rico.
No momento em que completa 95 anos, Raúl Castro tornou-se o mais novo pretexto usado pelo imperialismo dos EUA como potencial justificativa para uma intervenção militar sobre Cuba. A mobilização do USS Nimitz coincidiu com a decisão do Ministério Público Federal dos EUA de apresentar uma acusação formal contra o ex-presidente cubano, tornando-o um foragido da justiça dos EUA, por sua suposta autorização de um ataque contra um avião civil contendo cidadãos estadunidenses.
O episódio em questão, ocorrido em 1996, não passou de uma provocação de setores da extrema direita cubana no exílio. Eles promoveram a invasão do espaço aéreo cubano visando gerar um fato político que atrapalhasse as intenções do então presidente Clinton de flexibilizar o embargo econômico contra Cuba, permitindo que investimentos privados estrangeiros na ilha minassem por dentro as conquistas da revolução. Com a crise gerada pelo episódio, Clinton mudou de postura e o bloqueio econômico sobre a ilha se manteve.
Cerca de 20 anos depois, uma nova tentativa de adotar uma estratégia menos beligerante (sem deixar de ser imperialista) foi iniciada por Obama, que restabeleceu parcialmente relações diplomáticas com Cuba e chegou a visitar a ilha em 2016, em um contexto de reformas pró mercado promovidas pelo então presidente Raúl Castro. Mas, isso durou pouco. Quando Trump assumiu seu primeiro mandato em 2017, a postura do imperialismo estadunidense logo voltou a ser de maior truculência.
Em seu segundo mandato, Trump adotou uma postura ainda mais agressiva contra potenciais inimigos e ameaças na América Latina. Nos marcos da disputa inter-imperialista com a China, o governo dos EUA reforçou a busca pelo controle sobre o hemisfério ocidental e, em particular, o que consideram seu “quintal” latino-americano, nos termos da ‘Doutrina Monroe’ atualizada e aplicada por Donald Trump.
A intervenção militar na Venezuela em 3 de janeiro, sequestrando o presidente do país, permitiu na prática o controle dos EUA sobre o petróleo e outras riquezas venezuelanas e uma verdadeira tutela sobre o atual governo encabeçado por Delcy Rodríguez. Essa vitória do imperialismo acabou por estimular uma arrogância e agressividade ainda maiores por parte de Trump na região e fora dela.
Seja sob a falsa justificativa do combate ao que chama de “narcoterrorismo”, seja sob argumentos diretamente ideológicos, políticos e econômicos, Trump vem promovendo atentados à soberania nacional de vários países latino-americanos e atuando explicitamente em apoio a seus aliados de extrema-direita na região.
A excessiva autoconfiança do imperialismo estadunidense depois de 3 de janeiro, no entanto, também tem mostrado sua fragilidade. Os desdobramentos da guerra promovida por Trump contra o Irã acabaram por colocar seu governo em uma situação extremamente difícil tanto interna como externamente. Um fiasco no Irã, como estamos vendo, fragiliza Trump nas vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA e também no cenário internacional.
Nesse contexto, conseguir uma vitória contra Cuba poderia representar uma compensação simbólica diante do fracasso no Irã e desviaria a atenção daquele vexame internacional. Uma agressão militar sobre Cuba, seja qual for a sua dimensão, para além dos ataques que já estão em curso, é portanto um perigo real e merece a atenção, a mobilização e o rechaço de todo o movimento dos trabalhadores e povos oprimidos na América Latina e no mundo.
Uma operação fácil?
Apesar disso, as coisas podem não ser tão fáceis assim para Trump, mesmo em se tratando de uma pequena ilha localizada a apenas 90 milhas (150 quilômetros) dos EUA. Há 67 anos essa mesma ilha e seu povo vem resistindo às agressões imperialistas. O risco de um novo fiasco, depois daquele vivido em relação ao Irã, precisa ser bem calculado pois poderia acabar sendo desastroso para Trump. É nesse contexto que uma invasão por terra, por exemplo, seria extremamente arriscada e pouco provável.
Ainda assim, o secretário da guerra de Trump, Peter Hegseth, continua repetindo, como fez recentemente em sua visita a Guantánamo, que “todas as opções estão sobre a mesa” e Trump decidirá o futuro de Cuba. É possível imaginar que Trump, Rubio e Hegseth tenham em mente repetir na Cuba de Raúl Castro e Miguel Díaz-Canel o que fizeram na Venezuela de Nicolás Maduro.
Depois de impor uma asfixia econômica sobre o país e seu povo, eles esperam que uma intervenção militar pontual, sem maiores baixas, que decapitasse o governo e impusesse a submissão de um novo mandatário que colaboraria em implementar reformas pró capitalistas e pró-EUA e ao mesmo tempo contivesse qualquer manifestação de insatisfação popular.
No entanto, o cenário de Cuba não é o mesmo da Venezuela e o momento também é outro. Embora prefira negociar um acordo e mesmo fazer concessões, o regime cubano sabe que isso pode não ser suficiente para evitar um ataque, como não foi na Venezuela. O regime cubano não subestima a possibilidade de um ataque, tenta preparar-se para essa situação e possui mais experiência diante desse tipo de ameaça. Apesar da precariedade da situação em Cuba, sua evidente inferioridade do ponto de vista militar e tecnológico, e mesmo do desgaste do regime, não se pode comparar o potencial de resistência existente na ilha com o que se passou na Venezuela em janeiro.
Além disso, podemos dizer que na própria Venezuela o cenário está longe de ter se consolidado e ser sustentável no médio e longo prazo. É claro, Trump conseguiu cooptar o regime venezuelano e impor uma tutela sobre o país, mas até quando isso se manterá? A frustração com os resultados das contrarreformas em favor dos EUA e do grande capital privado na Venezuela tende a crescer e a forte tradição de luta e resistência do povo venezuelano emergirá novamente. Nesse cenário de insatisfação e resistência contra os EUA e a capitulação de Delcy Rodríguez, novas alternativas surgirão, além de novas crises e divisões na cúpula do governo.
Concessões do regime
Com relação a Cuba, nesse momento, o principal objetivo do bloqueio energético, das sanções sobre a ilha e da mobilização militar no Caribe é intimidar e obrigar o regime a fazer concessões. Novas sanções e medidas contra empresas que atuam em Cuba ou autoridades do país continuam sendo tomadas são tomadas. A mais recente é o bloqueio dos ativos financeiros da estatal cubana do petróleo CUPET, logo depois do anúncio do bloqueio de contas bancárias de Díaz-Canel e outras autoridades.
Medidas mais drásticas de intimidação, de cunho militar inclusive, podem ser tomadas a qualquer momento. Mas, mesmo em meio à escalada de sanções e ameaças, conversações entre o regime cubano e autoridades dos EUA vem acontecendo.
Um dos principais negociadores do lado cubano, ainda que de forma mais discreta, é Raúl Guillermo Rodriguez Castro, neto do ex-presidente Raúl Castro. Ele possui uma visão tão ou mais aberta a políticas pró mercado, pró capitalistas, do que seu avô, que foi quem deu o pontapé inicial para as reformas com esse caráter quando era presidente de Cuba. Além disso, tem influência sobre o aparato militar cubano, incluindo a GAESA, o conglomerado empresarial vinculado às forças armadas que controla 40% da economia cubana.
Desde que o presidente Miguel Díaz-Canel assumiu publicamente que negociações estavam em curso, vários contatos entre autoridades dos dois governos se deram de forma pública. Em maio, o diretor geral da CIA John Ratcliffe esteve em Havana para reuniões com autoridades de segurança cubanas, além de Raúl Rodriguez Castro. Pouco tempo depois, o chefe do Comando Sul dos EUA, general Francis Donovan, encontrou-se em Guantánamo com o chefe do Estado Maior das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, general Roberto Legrá Sotolongo.
O regime cubano fala frequentemente em resistência contra uma invasão, como no caso da distribuição à população da cartilha “Guia familiar para proteção diante de uma agressão militar”. Ao mesmo tempo, aposta nas negociações oferecendo concessões aos grande capital imperialista e ao governo dos EUA.
Investimentos privados de cubanos no exílio, de qualquer dimensão e incluindo setores produtivos, de infraestrutura e mesmo bancários e financeiros, passaram a ser permitidos na ilha. Ao mesmo tempo, a distribuição de alimentos assegurada pelo Estado foi duramente restringida e os cubanos tem agora que comprar alimentos básicos a preços altos exatamente no momento em que a crise social se aprofunda.
Apesar das medidas pró mercado, várias empresas europeias e de outras regiões, incluindo hotéis espanhóis, empresas marítimas alemãs e mineradoras canadenses, por exemplo, tem deixado Cuba nas últimas semanas. Isso é um reflexo das sanções dos EUA, mas também do colapso econômico do país provocado pelo bloqueio.
Os apagões em várias regiões do país são longos e frequentes, com alguns episódios de colapso geral no fornecimento de energia elétrica. Além de não se poder armazenar alimentos, quando se consegue obtê-los, o próprio bombeamento de água depende da eletricidade e é afetado pelos apagões. O transporte público está profundamente afetado. A saúde pública, uma das grandes conquistas da revolução, está fortemente atingida. Há falta de medicamentos e, nos hospitais, os dados oficiais mostram que mais de 96 mil cubanos aguardam atualmente por cirurgias. Essa lista de espera para cirurgias pode chegar a 160 mil pacientes até o final do ano.
A ajuda humanitária que chega de alguns países é importante, mas está longe de ser suficiente diante da gravidade do cenário. A única vez que o bloqueio petrolífero foi flexibilizado aconteceu em abril quando um navio russo com cem mil toneladas de petróleo (cerca de 700 mil barris) foi autorizado pelos EUA a desembarcar em Cuba. Mas, o alívio foi de curto prazo e não chegou a cobrir 1/8 da demanda mensal do país.
Ao mesmo tempo, ainda que exista um alto grau de imprevisibilidade e irracionalidade na postura de Trump, autoridades dos EUA sabem que as consequências de um colapso social, econômico e político em Cuba dariam lugar a todo tipo de instabilidade e caos. Isso impactaria não apenas a ilha, mas teria repercussões para os EUA também, incluindo temas como uma explosão migratória ainda maior e uma enorme instabilidade política e social. Por isso, temem perder o controle da situação e preferem uma transição mais controlada, como estão tentando fazer na Venezuela. Mas trata-se de um objetivo difícil de ser alcançado.
A insatisfação social interna em Cuba se expressa em inúmeros protestos com panelaços nos bairros e mesmo alguns protestos maiores. O governo, por sua vez, busca celebrar os símbolos do passado revolucionário de Cuba, incluindo a referência ao centenário de Fidel Castro (nascido em 26 de agosto de 1926), em grandes manifestações públicas oficiais, mesmo que os vínculos do atual governo de Díaz-Canel com esse passado anti-imperialista e anticapitalista sejam mais tênues a cada dia.
Fora de Cuba, as ações dos governos considerados “progressistas” na América Latina diante das ameaças e ataques contra a ilha são extremamente tímidas, muitas vezes não indo além da retórica limitada. Nenhum deles ousou romper o bloqueio petrolífero imposto por Trump, limitando-se quando muito a uma ajuda humanitária pontual. Grande parte das direções sindicais, dos movimentos sociais e da esquerda, muitas vezes vinculadas a esses governos, não conseguem avançar na conversão de seu discurso condenando os ataques de Trump em ações robustas de mobilização.
A máxima unidade possível deve ser buscada para as ações de solidariedade ao povo cubano e de condenação do imperialismo estadunidense. Ao mesmo tempo, é decisivo que se construa uma alternativa de esquerda, socialista e revolucionária, internacionalista e anti-imperialista, e que mantenha independência em relação ao regime cubano e condene suas políticas pró-capitalistas que só servem para aprofundar a crise e conduzir à derrota das conquistas da revolução.
Cuba só poderá se libertar da ofensiva imperialista e capitalista através da mobilização dos trabalhadores e oprimidos na ilha, na América Latina, mas também nos países imperialistas, em particular nos EUA.
A verdadeira rebelião operária e popular em curso na Bolívia contra o governo do lacaio de Trump Rodrigo Paz, assim como as mobilizações contra Kast e Milei, governos de extrema direita no Chile e Argentina, mostram o caminho para derrotar Trump e o imperialismo. Da mesma forma, as lutas de massas contra Trump dentro dos EUA, como temos visto desde o ano passado, são essenciais para defender o povo cubano das agressões que vem do norte.















