A extrema-direita vence na Colômbia

Com discurso agressivo e margem estreita, Abelardo de la Espriella vence o segundo turno e abre um cenário de acirramento da luta de classes
Com uma diferença abaixo de 1%, o candidato da extrema-direita, Abelardo de la Espriella, saiu vencedor no segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, segundo a contagem preliminar. Ele derrotou Iván Cepeda, o candidato apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro e pela frente ampla de esquerda, o Pacto Histórico. Cepeda e Petro ainda não reconheceram o resultado dessa pré-contagem, aguardando o resultado final da justiça eleitoral, que pode demorar alguns dias.
Espriella promete “estripar” a esquerda, matar criminosos como “baratas” e cortar 40% do orçamento público. Longe de ser uma receita para trazer paz social e acabar com o crime, como promete, essa política levará ao aumento da repressão e da violência estatal, além do acirramento da luta de classes.
Os movimentos sociais que sacudiram o país desde 2019 e levaram à eleição do primeiro presidente de esquerda precisam responder à altura. Para isso, devem aprender as lições dos últimos anos e ir além das direções que buscam uma saída dentro dos marcos do sistema atual, podre até os ossos.
Espriella surpreendeu ao vencer o primeiro turno no dia 31 de maio, relegando a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia, a um distante terceiro lugar. Ele se projetou como um outsider, alguém de fora da política contra os “de sempre”. De fato, ele nunca ocupou um cargo eletivo. É um empresário milionário e advogado que fez carreira representando celebridades infames, paramilitares, narcotraficantes e um dos responsáveis por um grande esquema de pirâmides financeiras. Ele também foi peça-chave na absolvição, em 2012, de um pastor evangélico acusado de abuso por 20 mulheres, às quais acusou de buscarem “ascensão social”.
Sua vitória no segundo turno foi apertada e impulsionada por uma participação recorde nas urnas. Iván Cepeda teve, na verdade, mais votos do que Gustavo Petro nas eleições de 2022. A derrota eleitoral expôs os limites da política de conciliação de classes de Petro, que não buscou atacar as estruturas de poder da elite, limitando o alcance das negociações e das pressões por reformas sociais.
Isso se mostrou ainda mais decisivo no enfrentamento ao alto nível de violência, especialmente no campo. A política de reforma agrária de Petro limitou-se à compra de terras para distribuição a camponeses, indígenas e afrodescendentes, sem alterar as estruturas de poder agrárias. Isso agravou os limites da tentativa de implementar a “Paz Total”, uma proposta de desarmamento negociado com os grupos armados que atuam no interior.
Resistir à agenda reacionária de Espriella
A campanha de Espriella focou nos temas da violência e da corrupção, o que foi um fator determinante para sua vitória. Mas sua política não resolverá esses problemas – pelo contrário. Espriella moldou suas propostas na política de Nayib Bukele, em El Salvador, prometendo a construção de 10 megaprisões e a legalização do porte de armas, sob a alegação de que assumirá o controle do país em três meses. Porém, a política de forte repressão estatal de Bukele – que colocou 3% da população masculina adulta atrás das grades e conseguiu, temporariamente, baixar os índices de criminalidade por meio de uma repressão que se estende a qualquer oposição política – não será facilmente replicada na Colômbia. O país é 54 vezes maior que El Salvador, possui a segunda maior população da América do Sul, enfrenta décadas de conflitos armados internos e tem grandes áreas cobertas por montanhas e selvas.
Ao contrário do prometido, a política de Espriella deve agudizar os conflitos sociais devido à sua promessa de cortar 40% dos gastos sociais, além da intenção de expandir a extração de combustíveis fósseis, liberando o fracking e reduzindo as regulamentações de proteção ambiental.
A base de Espriella no parlamento é ainda mais insignificante do que a de Javier Milei no início de seu governo na Argentina. Ele se candidatou como independente, apoiado pelo minúsculo “Movimento de Salvação Nacional”, que conta com apenas um deputado e quatro senadores. Embora prometa publicar 90 decretos executivos, ao estilo de Trump e Milei, Espriella dependerá dos partidos tradicionais da direita para governar, o que garantirá a continuidade da corrupção endêmica.
A vitória de Espriella é saudada por Trump, que ganha mais um importante aliado para o seu “Escudo das Américas” – iniciativa que, sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, visa promover a influência e o poder do imperialismo estadunidense.
Os sindicatos e movimentos sociais devem preparar, desde já, a resistência contra os ataques de Espriella a partir do seu primeiro dia de posse, em 7 de agosto. Os movimentos precisam absorver as lições dos protestos contra os governos de extrema-direita no Chile e na Argentina, bem como da insurreição popular que sacudiu a Bolívia nos últimos meses. É preciso unificar as lutas e construí-las a partir de estruturas democráticas pela base, para não deixar o controle nas mãos de direções burocráticas que tendem a buscar acordos e tréguas com os governos. Para levar a luta até às últimas consequências e derrotar a extrema-direita de vez, é necessário construir uma alternativa socialista contra o sistema capitalista como um todo, que é o verdadeiro gerador desses monstros.














