Perspectivas Mundiais: Trump 2.0 mergulhado em crise irreversível – intensificar a resistência global

Trump

Esta é a quarta declaração de Perspectivas Mundiais produzida pela ASI (Alternativa Socialista Internacional) desde a posse do segundo mandato de Donald Trump. A última, publicada em 12 de fevereiro, comentava sobre onde sua ofensiva imperialista de 2026 dos EUA poderia levar a seguir: “Após sua bem-sucedida decapitação e subjugação do governo venezuelano, sua arrogância foi turbinada. No momento em que este texto é escrito, o Irã e Cuba estão no topo da lista de ‘alvos fáceis’ e aliados do imperialismo chinês que ele está preparando a atacar em seguida.”

Ao mesmo tempo, deixamos claro que a postura então tão arrogante e prepotente de Trump se voltaria contra ele: “sua arrogância levará inevitavelmente a erros de cálculo em todas as esferas, e os erros de cálculo militares são os mais caros de todos. A agressão cada vez mais desenfreada de Trump, combinada com a incapacidade do imperialismo dos EUA de enviar tropas terrestres significativas, é uma receita para novas crises e atoleiros.” Menos de três semanas depois, foi precisamente isso o que aconteceu quando Trump iniciou sua catastrófica guerra contra o Irã.

Em junho de 2026, está mais do que claro que seu segundo governo passou por um ponto de inflexão. Após pouco mais de um ano no cargo, Trump 2.0 foi mergulhado de forma irreversível em uma crise. Seus sonhos de um lugar no Monte Rushmore viraram fumaça. Em vez disso, ele entrará para a história (burguesa) como um dos presidentes mais desastrosos dos EUA em todos os tempos. Sua liderança estará para sempre associada não à “grandeza” estadunidense, mas ao declínio acelerado do imperialismo dos EUA.

No entanto, isso não significa que Trump irá apenas arrastar-se pelo resto de sua presidência como um “pato manco” [governante enfraquecido incapaz de iniciativas]. Após sua derrota humilhante no Irã, ele tem Cuba firmemente em sua mira como um próximo “alvo fácil”. Nos próprios EUA, sua agenda reacionária continua, com os últimos meses marcados por ataques históricos aos direitos democráticos, em particular da população negra dos EUA.

Também é importante compreender que os problemas de Trump não irão, por si mesmos, fazer recuar a agenda reacionária internacional das classes dominantes, que continua a todo vapor. De fato, aqueles entre os bilionários e seus representantes que estão começando a se voltar contra ele não o fazem por qualquer oposição ao seu programa geral. Eles o apoiaram não apesar de suas políticas reacionárias, mas porque a essência de suas promessas reacionárias era música para seus ouvidos. Além disso, uma guinada em direção a um governo liderado por um “homem forte” e reacionário é, em muitos aspectos, uma resposta necessária da classe dominante diante do desgaste dramático da base de apoio social ao chamado capitalismo liberal e todas as suas instituições.

Como ocorreu com todos os regimes bonapartistas da história, o Trump 2.0 foi apoiado pela classe dominante para perseguir seus interesses no meio de uma crise profunda de seu regime. A estupidez senil deste Bonaparte em particular sublinha a podridão do decadente capitalismo dos EUA e a escassez de opções políticas à sua disposição após a crise terminal do establishment político neoliberal.

O que agora deixa a classe capitalista dos EUA e muitos capitalistas internacionalmente cambaleando são as consequências do tipo “monstro de Frankenstein” de sua aposta neste presidente desastroso. Isso inclui a imprudência econômica que fez Trump levar a economia mundial à beira de uma recessão não em uma, mas em várias ocasiões – mais recentemente com o desastre no Irã/Estreito de Hormuz. Inclui também, contudo, o risco de convulsão social e revolta.

Para os bilionários, a rápida queda de Trump nas pesquisas de opinião é uma preocupação muito menor do que o fato de que, sob sua liderança, os EUA testemunharam um surto histórico de protestos e, crucialmente, o retorno de greves políticas de massas. E embora a guerra do Irã tenha sido decisiva para mergulhar o Trump 2.0 na crise, ela não foi o único fator. Apenas algumas semanas após a “grande vitória” de Trump na Venezuela, sua sangrenta ofensiva do ICE [polícia de imigração] foi decisivamente rechaçada pela classe trabalhadora de Minnesota em sua primeira grande derrota.

Esta é a questão mais decisiva para os marxistas. Ao analisar o afundamento do regime de Trump no caos e na crise, procuramos identificar aberturas potenciais para o aumento da luta e da organização entre a classe trabalhadora e os oprimidos. Muitas vezes na história, o enfraquecimento de um regime reacionário, acompanhado por divisões na classe dominante, aumentou a confiança da classe trabalhadora para revidar. Como temos repetido frequentemente, as nossas perspectivas são um guia para a ação: para ajudar a construir esta resistência, lutando simultaneamente para reconstruir o movimento da classe trabalhadora com base em um programa socialista revolucionário.

Duas superpotências em declínio

Outro aspecto crucial da análise de Perspectivas Mundiais da ASI ao qual devemos retornar neste momento de profunda crise do imperialismo estadunidense é a nossa compreensão de que a disputa de poder imperialista entre EUA e China, que está no centro das relações mundiais hoje, é uma batalha entre duas superpotências em declínio. Isso difere da concepção da maioria dos comentadores capitalistas e, de fato, de grande parte da esquerda internacional. Embora a maioria consiga identificar o declínio dos EUA, continuam a ver o imperialismo chinês, em contraste, como uma potência em ascensão. Esse mal-entendido gera diferentes formas de confusão.

Na cúpula de Pequim entre Xi Jinping e Donald Trump em maio, Xi mencionou a “armadilha de Tucídides”, uma metáfora que ele também usou em reuniões com presidentes estadunidenses anteriores. Tucídides escreveu a história dos primeiros 20 anos da guerra de 27 anos entre Atenas e Esparta, há 2.400 anos. A guerra foi travada entre um império ateniense em ascensão e a potência dominante, Esparta. O objetivo de Xi é tanto apontar que existem duas superpotências hoje, uma em declínio e outra em ascensão para superá-la, quanto afirmar que ele quer evitar uma guerra inevitável entre as duas – a “armadilha” em questão.

A principal lacuna nessa comparação, no entanto, é que a China não está mais em ascensão. As crises profundas e interligadas de ambas as superpotências concorrentes do mundo expressaram-se claramente na cúpula de maio. Lá, evitou-se qualquer discussão real sobre as questões mais controversas, incluindo minerais críticos, terras raras, semicondutores e IA. Ambos os regimes queriam projetar “estabilidade estratégica”, uma frase-chave lançada por Xi. Trump ecoou isso, elogiando a relação entre os governos do “G2” e até citando favoravelmente a menção de Xi ao declínio dos EUA – assegurando-nos que ele estava se referindo à era Biden!

Em épocas anteriores da história capitalista – que foram marcadas por uma sucessão de conflitos entre potências imperialistas em ascensão e em declínio, engajadas em uma luta constante para redividir o mundo –, erros tão catastróficos como os de Trump seriam rápida e decisivamente capitalizados por grandes rivais imperialistas. Hoje, porém, as fraquezas da China a têm impedido, em grande parte, de fazê-lo. O país permitiu que aliados fossem intimidados e derrotados pela agressão de Trump, emitindo apenas palavras de forte “preocupação” em resposta, enquanto simultaneamente estendia o tapete vermelho para Trump em Pequim.

Enquanto as crises crescentes de Trump são transmitidas ao vivo constantemente, a profunda crise na China passa, em grande medida, despercebida pelo radar internacional. Por um longo período, o crescimento econômico chinês baseou-se no setor imobiliário que, entre 2006 e 2020, construiu metade de todas as novas habitações globalmente. Desde então, o setor despencou de 33% do PIB para 11%, e esse colapso continua. Novos setores de alto perfil – veículos elétricos, painéis solares, baterias, IA – não estão, apesar de investimentos gigantescos, compensando esse declínio. O crescimento real está estagnado muito abaixo das estatísticas oficiais, com o desemprego subindo para 20% (na realidade, mais alto) entre os jovens, e os trabalhadores migrantes deixando as cidades devido à completa falta de uma rede de seguridade social, seguro-desemprego, etc. A dívida total é equivalente a 330% do PIB e uma das mais altas do mundo no setor privado, segundo o FMI.

Trata-se de um processo de “Japanificação” – batizado em referência aos 35 anos de deflação, baixo crescimento e dívidas enormes do Japão. No caso da China, estamos no quinto ano dessa fase de crise. Sendo uma sociedade maior, mais pobre, com extremos de desigualdade muito maiores e atolada em um agudo conflito interimperialista, o resultado pode ser significativamente pior do que no Japão.

Este é o pano de fundo da disputa de poder na cúpula. Em janeiro, o general Zhang Youxia, membro do Politburo do PCC [Partido “Comunista” Chinês] e líder militar de mais alta patente do país, foi preso, acusado de crimes políticos como deslealdade e espionagem, em vez de corrupção, a acusação mais habitual nos expurgos do PCC/ELP. Isso ocorreu após mais de 100 oficiais de alto escalão do ELP [Exército de Libertação Popular] terem sido expurgados desde 2023, muitos dos quais haviam sido promovidos pelo próprio Xi para consolidar seu controle sobre as forças armadas. No entanto, meses após sua prisão, Zhang Youxia, cujo paradeiro é desconhecido, ainda não foi formalmente destituído de seus cargos. Isso indica uma forte resistência por parte do exército e de outros setores de elite do Estado-PCC. Em 7 de maio, dois ex-ministros da Defesa que haviam sido presos três anos antes nos expurgos de Xi, os generais Wei Fenghe e Li Shangfu, receberam sentenças de morte suspensas por “deslealdade ao partido”. Essa sentença draconiana serve para enviar uma mensagem às frações anti-Xi no exército e mostra que a disputa de poder está longe de terminar.

Embora seu erro de cálculo catastrófico na guerra do Irã tenha minado severamente a posição de Trump e do imperialismo estadunidense, é impressionante como o regime de Xi tem sido incapaz de virar o jogo no conflito interimperialista. A guerra tarifária de Trump em 2025 resultou em uma “trégua”, acordada na Coreia do Sul em outubro, com tarifas de 30% sobre as exportações dos EUA para a China e de 47% sobre as exportações chinesas para os EUA.

Apesar do desejo de ambos os lados por um período de desescalada, não pode haver estabilidade a longo prazo nessa “relação”. Todas as áreas de confronto permanecem e podem desencadear novas explosões. A escalada militar continua em ritmo acelerado, assim como a grande disputa por recursos, energia, IA e poder. A extrema dependência da China em relação às exportações em um mundo em desglobalização, e o lugar dos EUA no coração das bolhas do setor financeiro, são vulnerabilidades que podem alimentar novas e agudas reviravoltas e crises. O mesmo vale para o descontentamento crescente dentro de ambos os países, que se acumula para lutas explosivas.

De modo geral, continua sendo verdade que, nesta fase do confronto contínuo, nenhum dos lados pode infligir um “nocaute” decisivo contra o outro, nem pode se dar ao luxo de simplesmente recuar e conceder ao adversário uma vitória total.

Irã: o Vietnã de Trump? Ou pior

Em 31 de maio, o editor de diplomacia do jornal britânico The Guardian fez a seguinte pergunta: “Poderia a incursão de Trump no Irã ser um ponto de inflexão global maior do que o Vietnã?”. Embora a perda de vidas no Vietnã (incluindo a de militares estadunidenses) e a crise devastadora desencadeada nas forças armadas e na sociedade dos EUA tenham sido muito maiores em comparação, é certamente o caso que as consequências internacionais da humilhação de Trump no Oriente Médio são mais abrangentes. Isso reflete o quão longe progrediu o declínio do imperialismo estadunidense desde a década de 1970.

Longe de ser uma “pequena incursão”, como afirma Trump, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã foi um esforço colossal. Ao longo dos 40 dias de guerra que precederam o “cessar-fogo” de 10 de abril, as forças estadunidenses e israelenses lançaram mais bombas sobre o Irã do que as que foram disparadas durante a invasão do Iraque pelos EUA em 2003. Durante esses mesmos 40 dias, as forças dos EUA dispararam 850 mísseis Tomahawk, em comparação com os 57 que estavam programados para serem produzidos em todo o ano de 2026.

Trata-se de uma diminuição significativa dos estoques estadunidenses, com consequências que ecoarão muito além do Golfo Pérsico. À medida que Trump entrava no atoleiro, armas, sistemas e pessoal foram desviados em grande número do Pacífico Ocidental (a prioridade estratégica do imperialismo estadunidense) e da Europa. Serão necessários vários anos para repor as munições gastas, apesar da aceleração massiva na produção que Trump está exigindo. O custo real para o tesouro dos EUA chegará às centenas de bilhões, com um importante economista de Harvard prevendo um custo total de até um trilhão de dólares.

E o que Trump conseguiu em troca de um gasto tão devastador? Nem sequer uma vitória de Pirro, como no caso do Iraque, mas sim uma derrota. No momento em que este texto é escrito, o frágil acordo firmado entre Washington e Teerã torna esse resultado cristalino. O regime iraniano, mesmo em um momento de fraqueza histórica, era simplesmente forte demais para que o imperialismo decadente e em crise dos EUA o superasse.

Inicialmente, quando Trump não conseguiu forçar a capitulação de Teerã, um cenário de escalada em direção a uma guerra terrestre foi seriamente considerado em Washington. Nos dias anteriores ao anúncio do acordo de junho, Trump disse abertamente aos jornalistas que “tomar a Ilha de Kharg” sempre foi sua “preferência”, mas que “não sei se a América tem estômago para isso, para ser honesto”.

Aqui, Trump está, na verdade, se referindo a uma das limitações mais importantes do imperialismo estadunidense no cenário mundial hoje, a qual a ASI tem apontado repetidamente em materiais recentes: sua incapacidade de conduzir guerras terrestres em grande escala – de “colocar botas no terreno”. Isso é um reflexo do longo declínio do imperialismo estadunidense: a “síndrome do Vietnã” seguiu-se à sua derrota lá na década de 1970, a qual foi agravada pela síndrome do Iraque/Afeganistão após a desastrosa “guerra ao terror” no início deste século. Longe de resolver com sucesso esse problema fundamental para a principal superpotência do mundo, Trump agora o tornou muito pior.

Equilíbrio de poder regional

O impacto desta derrota dos EUA no equilíbrio de poder no Oriente Médio é difícil de superestimar. A guerra de Trump não apenas implodiu a autoridade e a credibilidade estadunidense na região, mas também dinamitou todos os alicerces econômicos e geopolíticos dos países do Golfo, cujas ditaduras estavam cheias de otimismo no período anterior. Toda a estrutura da relação de dependência desses países com Washington – a ideia de que o poderio militar dos EUA e a ampla importação de armas estadunidenses poderiam proteger sua indústria de combustíveis fósseis – virou fumaça. Na hora do aperto, sua sagrada aliança com Washington tornou-se uma fonte de vulnerabilidade, não de força.

Mesmo que o atual acordo se mantenha, a situação no Golfo continuará a mudar rapidamente. Juntamente com a reparação da infraestrutura danificada, que levará vários anos para estar totalmente operacional, os regimes da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos (EAU), do Qatar, etc., terão de investir bilhões em novas infraestruturas – especialmente oleodutos – para reduzir sua dependência do Estreito de Hormuz. A guerra também levou a relação já desgastada entre a Arábia Saudita e os EAU a um novo ponto baixo, com os EAU se aproximando de Israel e deixando a OPEP, o cartel de petróleo liderado pelos sauditas.

Para alguns regimes, uma reaproximação com o Irã – que provou ser o garantidor mais importante das exportações de petróleo e gás da região – também surgirá como uma opção assim que a poeira baixar. No caso de Omã – um aliado dos EUA que Trump ameaçou “explodir” caso fizesse acordos com o Irã –, isso já parece estar em andamento. Além disso, consta que o acordo de junho inclui o pagamento de somas astronômicas por parte de outros países do Golfo a Teerã para a reconstrução.

A força do regime iraniano não deve ser superestimada. Embora tenha claramente saído por cima, ele também foi levado ao limite. A guerra elevou a inflação no Irã ao seu nível mais alto desde a Segunda Guerra Mundial – 77% – e o país sofreu a decapitação de vários escalões de sua hierarquia estatal, militar e política. As repetidas alegações de Trump de que uma “mudança de regime” havia sido realizada são evidentemente absurdas. No entanto, o regime passou por uma certa recomposição, com o Estado policial, representado pelo IRGC [Guarda Revolucionária Islâmica], desempenhando agora um papel mais central, apesar da manutenção formal da liderança clerical e da tutela política.

Dito isso, o resultado mais significativo da guerra para o equilíbrio de poder regional é o claro controle de fato que Teerã exerce agora sobre o Estreito de Hormuz. Isso amplia dramaticamente o poder iraniano. Também envia uma mensagem a inúmeros outros países e atores não estatais sobre quão eficazmente, e de forma relativamente fácil, esses pontos estratégicos de estrangulamento podem ser explorados. Isso segue a bem-sucedida restrição do trânsito pelo estreito de Bab-el-Mandeb por parte dos Houthis em 2024, cuja repetição era um dos maiores temores do imperialismo estadunidense no caso de uma nova escalada contra o Irã.

O resultado da guerra e o acordo de junho entre os EUA e o Irã são, naturalmente, um golpe formidável para o regime israelense. Seu “progresso” ensanguentado em alterar o equilíbrio de poder regional a seu favor está agora sob grave ameaça. A guerra contra o Líbano, com quase quatro mil mortos no momento em que este texto é escrito, é a linha de fratura mais explosiva que ameaça o acordo. O governo de extrema-direita de Netanyahu não está disposto a frear sua ofensiva regional. Também continua a cravar a faca em Gaza e a intensificar a limpeza étnica na Cisjordânia. A Al Jazeera relata que as FDI [Forças de Defesa de Israel] ocuparam totalmente mais de mil quilômetros quadrados de Gaza, Líbano e Síria nos últimos dois anos, uma expansão de mais de 5% do território total sob seu controle.

Uma das declarações mais absurdas de Trump durante esta guerra (em meio a um vasto leque de opções!) foi feita em 25 de maio. Em uma enxurrada de postagens, ele afirmou que o resultado do conflito levaria a uma enorme extensão dos “Acordos de Abraão”, mencionando uma longa lista de países, da Turquia à Arábia Saudita e ao Paquistão, como alguns dos que estariam prestes a “normalizar” as relações com Israel. A realidade é precisamente o oposto.

De fato, esta guerra avançou ainda mais o processo de aquisição do “status de pária” pelo capitalismo israelense no cenário mundial, o qual foi turbinado desde outubro de 2023. Sua ofensiva genocida contra o povo palestino é um dos eventos moldadores de consciência mais dramáticos da memória recente.

Impulsionada pela indignação internacional massiva, que se expressou em um movimento de massas internacional histórico ao longo de mais de dois anos, a política global começa a mudar decisivamente. Os defensores abertos e entusiasmados do terrorismo de Estado israelense – que até recentemente incluíam a vasta maioria da mídia ocidental e do establishment político – foram reduzidos a uma franja estreita na maioria dos países do mundo. Mesmo nos EUA, o apoio a Israel despencou nas pesquisas, tanto entre os apoiadores dos dois principais partidos quanto, especialmente, entre a população mais jovem.

O próprio Trump – o principal facilitador de Netanyahu – veio a público hipocritamente em junho para criticar os ataques israelenses contra civis no Líbano. É claro que isso não tinha nada a ver com preocupação pelos civis libaneses, mas sim com seu desespero para que sua capitulação perante o Irã não fosse perturbada por mais bombardeios israelenses. Mas qual é o significado das tensões existentes entre esses dois assassinos?

Grande parte da discussão entre os comentadores críticos da guerra do Irã, em particular dentro dos EUA, tem enfatizado a ideia de que Israel, auxiliado por seu poderoso “lobby” em Washington, é na verdade o “rabo que abana o cachorro” da política externa estadunidense. Essa é uma parte particularmente proeminente do discurso da direita “antiguerra” na política dos EUA, exemplificada por figuras como Tucker Carlson e Marjorie Taylor Greene, embora não se restrinja de forma alguma a esses setores.

Os marxistas compreendem que o conflito no Oriente Médio, assim como em todas as regiões, é parte de uma correlação de forças imperialista global. Nesse contexto, os regimes dos EUA e de Israel estão, de fato, intimamente conectados e integrados um ao outro, uma “aliança” que se estende através de cada governo que passa. E, certamente, nenhuma relação geopolítica imperialista ocorre entre iguais.

No entanto, por todos e quaisquer critérios, são os EUA que figuram como o parceiro majoritário neste caso, e por uma margem muito ampla. O capitalismo israelense desempenha um papel fundamental na aplicação dos interesses estadunidenses em uma região que tem sido decisiva para suas pretensões. Mas ele, por sua vez, é completa e totalmente dependente de Washington para sua sobrevivência. A ideia de que Trump estaria às ordens de Netanyahu é, portanto, uma caricatura incorreta.

Contudo, isso não significa que o regime israelense não tenha nenhuma influência nesta situação. Embora Trump tenha implodido o bloco ocidental, Israel é o único aliado tradicional dos EUA com o qual ele forjou relações mais estreitas em seu segundo mandato. Netanyahu fez várias tentativas, frequentemente com sucesso, de descarrilar as iniciativas de Trump para impor acordos malfeitos e “planos de paz”.

A escalada da guerra no Líbano em junho foi uma tentativa extremamente transparente de frear o ímpeto em direção ao acordo de capitulação de Trump. E nada indica que o governo israelense vá deixar de tentar. Ele também é motivado por considerações políticas, com Netanyahu desesperado para entrar nas eleições israelenses de outubro como um “líder de tempos de guerra” para reter o poder e evitar a prisão, enquanto Trump está determinado a entrar nas eleições de meio de mandato dos EUA exatamente no cenário oposto.

Essa é uma das razões que torna um fim mais duradouro das hostilidades na região altamente improvável no futuro previsível. A nova definição de cessar-fogo de Trump como “atirar de maneira mais moderada” já é, nos casos de Gaza e do Líbano, a nova norma. Um cenário de conflito armado contínuo entre o Irã e Israel sem a participação (formal) dos EUA também é possível. No início de junho, o Irã citou os ataques israelenses a Beirute como motivo direto para ataques com mísseis pela primeira vez, e seus aliados Houthis também intervieram intermitentemente com ataques a alvos israelenses.

No entanto, isso colocaria uma grande pressão sobre Trump. As forças armadas israelenses são uma força formidável por si sós, mas são inteiramente dependentes dos EUA, não apenas para suprimentos, mas também pelas instalações de inteligência, satélite e radar que tornam possíveis seus bombardeios ao Irã. Se um regime iraniano autoconfiante permitirá que o conflito seja “desvinculado” dessa forma – concordando, por exemplo, em não fechar Hormuz novamente em resposta à agressão israelense – também é uma questão em aberto.

Na realidade, o “acordo” de junho entre os EUA e o Irã é um compromisso para 60 dias de negociações contínuas, que podem ser estendidas por mais tempo. Isso significa que o Oriente Médio continua à beira de novas guerras e crises, incluindo o potencial de movimentos vindos de baixo para desafiar os regimes locais e o imperialismo.

Crise energética: longe de estar resolvida

O momento do acordo de junho e o desespero crescente de Trump para aprová-lo tinham tudo a ver com a bomba-relógio da crise energética que ele pessoalmente fabricou – a pior da história mundial. O pânico estava se espalhando por toda o setor, com o chefe da AIE (Agência Internacional de Energia) alertando no final de maio sobre uma iminente “zona vermelha” para os mercados de energia a partir de julho. Embora as constantes garantias de Trump aos mercados, e agora o acordo de junho, possam ter afastado o pior cenário de um colapso econômico catastrófico, os efeitos persistentes continuarão a pairar sobre a economia mundial.

Mesmo que Hormuz seja reaberto – uma grande incógnita –, a economia mundial estará muito longe de estar fora de perigo. A remoção de minas e a evacuação das centenas de embarcações que contêm mais de 20 mil marinheiros atualmente retidos no estreito levarão semanas. Levaria então muitas outras semanas para que os suprimentos globais fluíssem totalmente, já que os petroleiros levam meses para transitar de Hormuz até os portos asiáticos e estadunidenses. As seguradoras marítimas também levariam tempo para se convencer de que o trânsito em grande escala pelo estreito vale o risco. O exemplo do estreito de Bab-el-Mandeb – que ainda não retornou a nada próximo dos níveis de tráfego anteriores a 2024 – é ilustrativo. Além disso, o regime iraniano quase certamente favorecerá uma reabertura lenta e gradual do estreito, a fim de manter uma moeda de troca em futuras negociações ou impasses com Trump.

A maioria dos economistas espera que os preços elevados do petróleo e do gás continuem pelo menos durante o restante de 2026. O impacto inflacionário em cadeia está apenas começando a ser registrado na economia mundial e terá impactos profundos, especialmente no mundo neocolonial, onde milhões de pessoas estão sendo empurradas da miséria para a fome. A interrupção no fornecimento de fertilizantes causada pela guerra também já está tendo impacto, com colheitas menores e preços mais altos garantidos nos próximos 12 meses.

A crise energética também envolve mais do que uma cadeia de suprimentos congestionada. Danos extensos foram causados às instalações de produção, e a reabertura de poços fechados é um processo complicado. O mesmo chefe da AIE citado acima previu que o retorno à produção total de petróleo no Golfo levaria pelo menos um ano, e algumas das maiores instalações de gás do mundo levarão entre três e cinco anos para serem totalmente reparadas após os ataques iranianos em março.

A IA e a economia mundial

Em suma, a guerra levará a um longo, dispendioso e complicado processo de reparação e reestruturação da indústria energética da região, o que terá implicações mundiais a longo prazo. Entre os setores da economia mais duramente atingidos por esse choque energético estará a indústria responsável por mais de 80% do crescimento do mercado de ações e o único fator que impede a economia mundial de entrar em uma profunda recessão: a Inteligência Artificial.

Ao inflar a bolha da IA até as suas atuais proporções extremas, os investidores estão apostando não apenas no desenvolvimento da tecnologia em si, mas também em uma rápida expansão de energia barata para os data centers sem fim necessários para dar um retorno aos seus investimentos. Mais de 300 bilhões de dólares desses investimentos foram feitos no próprio Golfo Pérsico! Isso realça a insustentabilidade da bolha da IA e, portanto, da situação no setor financeiro global, fadada a estourar em algum momento.

A total dependência da economia mundial em relação a uma única indústria, que ainda não apresentou retornos lucrativos reais, é um sintoma claro do estágio ultraparasitário a que o capitalismo chegou na década de 2020. O mesmo se aplica ao fato de essa bolha ter impulsionado o grotesco Elon Musk ao título de primeiro trilionário da história. O fato de ele, por acaso, ser simultaneamente o principal financiador mundial de supremacistas brancos e neonazistas apenas completa o quadro.

De fato, a IA é um reflexo da guinada reacionária do sistema em geral. Juntamente com a busca obscena por lucros gigantescos, ela é caracterizada por um ecocídio climático e destruição ambiental turbinados. Da África ao Arizona, os suprimentos de água domésticos secarão e as emissões de carbono dispararão para alimentar seu apetite monstruoso. Junto com a outra indústria de crescimento global – o militarismo –, ela realça a velocidade com que o capitalismo está se precipitando em direção a cenários de pesadelo de colapso climático.

Ela também é profundamente reacionária do ponto de vista da luta de classes. As aspirações da classe dominante em relação à IA baseiam-se, em última análise, na redução qualitativa dos custos com trabalhadores. Amazon, Microsoft, Meta e outras megacorporações já começaram a tirar proveito dos “benefícios” da IA ao anunciar demissões em massa. Como ocorreu com todas as outras tecnologias de “economia de mão de obra” implementadas pela classe capitalista na história, a implementação da IA se tornará inevitavelmente um campo de batalha na luta de classes.

A IA está no cerne da nova era de conflito imperialista e militarismo. Seus modelos permitem o planejamento quase instantâneo de lançamentos de mísseis assassinos estadunidenses e israelenses no Oriente Médio, e milhões de dólares e horas de energia humana estão sendo investidos na busca por máquinas de matar automatizadas.

Trata-se também de um front crucial no conflito entre EUA e China e já era um fator-chave na proibição de vendas de chips avançados para Pequim sob a presidência de Biden. O imperialismo estadunidense está agora fazendo de tudo para capitalizar sua vantagem sobre Pequim em tecnologia avançada. A proposta de capitalismo de Estado de Trump para que o Tesouro dos EUA compre ações de grandes empresas de IA é um indício disso, mas também terá a consequência não intencional de expor ainda mais as finanças públicas de Washington ao impacto do colapso que se aproxima.

A China não investe menos na corrida da IA, mas parece estar focada não em superar os avanços tecnológicos das empresas estadunidenses, mas sim em implantar a tecnologia existente de forma mais rápida e extensiva. Seu sistema mais centralizado e a total ausência de sindicatos independentes permitiram-lhe normalizar fábricas de “luzes apagadas” (totalmente automatizadas). É claro, porém, que isso não será um antídoto para as crises subjacentes do capitalismo chinês de superprodução, consumo reprimido e deflação. Poderia até exacerbar essas tendências em alguns aspectos, uma vez que a substituição de trabalhadores por IA e robôs agravará o colapso nos gastos dos consumidores.

As perspectivas para a economia mundial devem permanecer abertas, mas os fundamentos – em particular uma crise energética histórica e um setor financeiro superinflado – apontam em uma direção clara. A crise que se aproxima também será muito piorada pelo fato de o sistema capitalista estar em uma posição imensamente mais fraca em comparação com o período que antecedeu o colapso financeiro de 2008. Montanhas de dívidas, o fim da ascensão da China e a ausência de quaisquer instituições eficazes de cooperação internacional significam que o kit de ferramentas do sistema para enfrentar uma recessão grave está esgotado.

Crise doméstica nos EUA

Internamente, Donald Trump está em seu ponto mais fraco de seus mandatos. Seus números gerais de aprovação nas pesquisas estão na casa dos 30%, com um nível líquido de aprovação positiva em apenas quatro dos 50 estados estadunidenses, de acordo com o The Economist. Sua aprovação sobre a economia – que foi um tema central para sua reeleição – é particularmente ruim. Isso ocorre após reveses fundamentais.

Seu exército pessoal do ICE, cuja missão é aterrorizar a população imigrante e qualquer um que se coloque em seu caminho, foi rechaçado na Batalha de Minneapolis, culminando na greve geral de 23 de janeiro. A guerra perdida de Trump no Irã e seus efeitos econômicos têm sido profundamente impopulares desde o início, especialmente a disparada da inflação. No final de maio, o preço da gasolina havia subido 47% e a inflação geral havia chegado a 4%, a mais alta em três anos.

Apesar disso, a economia dos EUA apresenta um desempenho melhor do que o de outras grandes potências capitalistas, impulsionada pela bolha de investimentos em IA e por uma crescente indústria nacional de combustíveis fósseis. Se a bolha da IA estourar em um futuro próximo, levando certamente a um colapso do tipo 2009, a posição interna de Trump se tornará completamente insustentável.

Mesmo agora, uma grande parcela da classe trabalhadora enfrenta uma situação precária. Uma medida disso é que a inadimplência nos cartões de crédito nacionalmente atingiu seu nível mais alto desde 2011, quando a economia ainda se recuperava da Grande Recessão. Há inúmeros relatos sobre a sobrecarga nos centros de distribuição de alimentos, desencadeada pelos cortes na assistência federal sob o governo Trump e pela enorme crise de custo de vida. A NPR publicou recentemente a seguinte manchete: “Mais pessoas estão passando fome do que no auge da pandemia”, quando havia desemprego em massa.

Nessa situação, uma forte desaceleração econômica poderia detonar a raiva contida sob a superfície diante do nível sem precedentes de corrupção por parte de um governo estadunidense, com a família Trump se enriquecendo na casa dos bilhões; a fúria com o encobrimento das revelações sobre Epstein; as incessantes provocações contra a população negra por parte do governo mais abertamente racista em mais de 100 anos; a enxurrada de ataques às pessoas trans e as multifacetadas medidas autoritárias de Trump. E a implosão da economia não é o único cenário onde Trump enfrenta um acerto de contas mais decisivo.

Mas, apesar do acúmulo de material combustível, seria um erro crasso concluir que Trump é um “pato manco”. Ele buscará desviar a atenção e encontrar vitórias “fáceis”, seja atacando Cuba ou realizando novos ataques contra setores oprimidos da sociedade.

Embora os republicanos no Congresso e a Suprema Corte, dominada pela direita, tenham mostrado um pouco mais de disposição para conter alguns dos pedidos mais extravagantes de Trump – mesmo sendo por autopreservação –, como um bilhão de dólares para seu salão de festas na Casa Branca, ele também continua a alcançar vitórias importantes para sua agenda reacionária. Duas delas se destacam. A primeira é o esvaziamento efetivo da Lei de Direitos de Voto de 1965, uma conquista do movimento pelos Direitos Civis que garantia distritos eleitorais de maioria negra no Sul, como parte da reversão da histórica privação de direitos políticos da população negra sob o regime de Jim Crow.

A outra vitória fundamental recente de Trump são os 70 bilhões de dólares aprovados pelo Congresso para financiar as operações do ICE até o fim de seu mandato em 2029. O regime continua seus ataques implacáveis contra os imigrantes, com 60 mil pessoas atualmente em centros de detençãos do ICE sob condições terríveis. Uma greve de fome e de trabalho no centro de detenção Delaney Hall, em Nova Jersey, provocou semanas de protestos.

O “czar da imigração” de Trump, Tom Homan, ameaçou enviar tropas de choque do ICE para a cidade de Nova York em resposta às medidas de “cidade santuário”. Isso poderia provocar uma reação que faria o que aconteceu em Minneapolis parecer pequeno, e colocaria imediatamente a greve de massas na ordem do dia. Não está claro se Trump está pronto para essa batalha, mas o fato de que o tema tem sido levantado mostra que seus subordinados estão se preparando para mais provocações.

Enquanto isso, o regime retirou a proteção de pelo menos 1,6 milhão de “residentes legais”, incluindo pessoas de determinados países que haviam recebido asilo temporário, e busca caminhos para aprofundar essa ofensiva. O objetivo é pressionar as pessoas a irem embora, e centenas de milhares já estão indo. O esforço implacável de Trump para forçar a “remigração” serve de modelo para a direita internacionalmente, com o Parlamento Europeu decidindo, em junho, por um enorme programa de deportação.

O indiciamento de 15 pessoas envolvidas na resistência anti-ICE em Minneapolis sob acusações completamente espúrias de “conspiração” criminal é também um sinal de que Trump buscará intensificar a repressão contra todos aqueles que resistem ao seu governo sem leis. A questão de como o movimento sindical e a esquerda responderão a esses ataques será crucial.

Eleições de meio de mandato se aproximam

As eleições parlamentares de meio de mandato (midterms) serão em menos de cinco meses. Os democratas estão a caminho de conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e possivelmente no Senado. Isso não significa, contudo, que Trump e os republicanos tenham desistido de procurar todas as formas de roubar a eleição, seja de maneira “legal” ou por outros caminhos. O gerrymandering [manipulação das fronteiras dos distritos eleitorais], inclusive tirando vantagem do esvaziamento da Lei de Direitos de Voto, poderia render-lhes, por exemplo, cerca de 10 mandatos extras.

Há uma desilusão massiva na base democrata com o próprio establishment do partido – particularmente por sua falha em combater Trump de qualquer forma significativa. Embora os eleitores democratas compareçam em peso para votar nas eleições de meio de mandato em uma tentativa de conter Trump, isso não será impulsionado por nenhum entusiasmo profundo pelo Partido Democrata.

Nas midterms, já existem alguns exemplos de candidatos que desejam emular Mamdani, o prefeito da cidade de Nova York, bem como AOC [Alexandria Ocasio-Cortez] e Bernie Sanders no Congresso. É provável que AOC concorra na corrida presidencial de 2028, que começa efetivamente no dia após as eleições de meio de mandato, em novembro. Isso, somado à falta de uma liderança e de uma direção claras para a ala do establishment dos democratas, têm o potencial de abrir uma nova rodada de debates sobre os rumos do partido.

O início da declaração de intenção dos candidatos para concorrer e os debates partidários que antecedem as primárias também marcarão o começo de uma discussão pública e caótica sobre o futuro do Partido Republicano pós-Trump. Trump, sem dúvida, tentará coroar um sucessor, mas seria ilusório prever uma transição ordeira, dadas as linhas de fratura que começaram a surgir dentro do movimento MAGA [Make America Great Again – Torne a América Grande Novamente], as quais foram exacerbadas pelo desastre no Irã. O que é essencialmente garantido é que, independentemente de quem surja como o próximo candidato republicano, não haverá retorno ao Partido Republicano pré-MAGA.

Luta social e luta de classes nos EUA

O ano de 2025 testemunhou o grande ressurgimento de protestos de massas e de lutas sociais nos EUA, desde as mobilizações de massas No Kings (Sem Reis), que arrastaram milhões de pessoas, até a resistência anti-ICE em várias cidades, incluindo as cruciais redes de resposta rápida nas comunidades locais. Também ocorreram algumas greves importantes, como a das enfermeiras na cidade de Nova York, e a disparada da inflação provavelmente provocará mais greves econômicas.

A oposição à construção de data centers também mobilizou a população, em particular em muitas áreas rurais. Uma pesquisa recente mostrou que mais de 70% das pessoas se opõem à construção de data centers em suas regiões.

Apesar dos ataques implacáveis contra a população negra e trans, até o momento houve pouca luta em torno dessas questões, mas isso pode mudar rapidamente. Provocações e atrocidades são inevitáveis por parte deste regime em retirada, e isso provocará uma resposta de massas. Um período de luta de massas mais explosiva e sustentada pode ser o fator que finalmente empurrará a classe dominante, ou uma parte dela, a agir de forma mais decisiva contra Trump. O que é decisivo é que o poder social da classe trabalhadora seja colocado em jogo, como começou a ocorrer em 23 de janeiro em Minneapolis.

Mas, mesmo assim, a classe dominante não abandonará a agenda reacionária que a levou a apoiar Trump em primeiro lugar. No entanto, ela terá de encontrar novos meios, e isso pode provocar divisões diante de um ascenso histórico de lutas da classe trabalhadora e dos oprimidos que enfrentam o chicote da contrarrevolução. Essas divisões, evidentemente, não serão para se aliar às revoltas vindas de baixo, mas sim divergências estratégicas sobre a melhor forma de estabilizar a situação para a classe dominante.

Europa e Ucrânia

Uma característica fundamental deste período é o declínio do poder da Europa, cujos imperialistas sitiados estão entre os maiores perdedores em cada corrida que define a década de 2020. Os capitalistas europeus estão investindo na IA estadunidense, por exemplo, em vez de em startups europeias. A União Europeia (EU) está, como sempre, paralisada por sua contradição fundamental – o fato de não ser, e nunca poder ser, um Estado-nação. Atualmente, ela possui 27 estruturas regulatórias diferentes para a IA! O mesmo problema mina sua massiva campanha de rearmamento, com empresas nacionais concorrentes produzindo caças, drones e tanques incapazes de coordenar um projeto em escala europeia.

A Europa é também a maior perdedora geopolítica da década de 2020. A fúria de Trump diante da recusa das potências europeias em apoiar sua guerra no Irã avançou ainda mais o processo de desintegração do bloco ocidental. Além da retirada de 5 mil soldados estadunidenses da Alemanha, anunciada após o início da guerra, Washington também comunicou sua intenção de remover um terço de seus caças atualmente baseados na Europa. Essa retirada pode se aprofundar ainda mais na segunda metade da presidência de Trump.

Outro efeito da guerra do Irã foi desviar a atenção internacional da contínua e perigosa escalada da guerra europeia mais longa desde a Segunda Guerra Mundial. Em questão de poucos dias em maio, ataques massivos de drones ucranianos atingiram tanto Moscou quanto São Petersburgo, um cenário que seria totalmente impensável na memória recente. Paralelamente, a guerra aérea da Rússia intensificou-se drasticamente, com 24% mais drones de longo alcance direcionados a cidades ucranianas em maio em comparação com abril, registrando o maior número de mortes de civis desde 2022.

Desde a estagnação da ofensiva de inverno da Rússia, o ímpeto no conflito tendeu a se deslocar em direção ao lado de Kiev, apesar de a linha de frente permanecer amplamente estática. Putin está agora sob séria pressão. No campo de batalha, as perdas russas parecem insustentáveis a longo prazo sem outra mobilização em massa forçada, o que seria extremamente arriscado do ponto de vista político apenas três anos após o motim de Prigozhin. O impacto econômico dos ataques de drones ucranianos às instalações de energia russas também é significativo. A produção das refinarias caiu 15% na primavera, apesar da bonança dos altos preços do petróleo e do alívio parcial das sanções devido à guerra do Irã.

Após o fracasso total da pressão de Trump pela paz no ano passado, a perspectiva de Putin buscar um acordo a partir de uma posição mais fraca hoje é ainda mais remota. Em vez disso, o imperialismo russo pode tentar escalar ainda mais o conflito para aumentar a pressão sobre Kiev e as potências europeias. Em junho, uma fragata russa disparou tiros de advertência contra uma embarcação britânica no Canal da Mancha, depois que um navio-tanque da frota fantasma foi apreendido pelas forças do Reino Unido. Nos últimos meses, drones russos invadiram o espaço aéreo de pelo menos Romênia, Letônia, Lituânia, Estônia, Finlândia, Moldávia e Polônia.

Embora o cenário de pesadelo constantemente propagado pelos belicistas europeus – de um ataque russo contra a OTAN – não esteja na mesa, é possível que Putin tente seguir o manual do Irã de “escalada horizontal”. Por exemplo, a inteligência europeia tem especulado sobre a possível entrada de Belarus na guerra de forma mais integral, o que abriria uma nova frente para encurralar ainda mais as forças ucranianas.

Ásia-Pacífico

A decisão de Trump de redirecionar o poder militar dos EUA para o Oriente Médio, ainda que temporariamente, e a apresentação de uma doutrina de “o Hemisfério Ocidental em primeiro lugar”, abrem uma nova fase de conflito imperialista na região da Ásia-Pacífico. Este é o cenário que permanece objetivamente como o mais importante no conflito interimperialista geral. Mesmo uma redução parcial da presença militar estadunidense na região teria consequências de grande alcance, com outras potências assumindo o espaço – mais notadamente um Japão em rápido processo de remilitarização.

Em junho de 2025, no Fórum de Segurança da Ásia em Singapura, o secretário de guerra dos EUA, Pete Hegseth, alertou que uma invasão chinesa de Taiwan era iminente. Isso seguiu declarações de altos oficiais militares estadunidenses que previam um ataque militar chinês em 2027. No fórum deste ano em Singapura, contudo, Hegseth sequer mencionou Taiwan. A conclusão a ser tirada disso não é a de que o conflito está abrandando, mas sim de que tanto Washington quanto Pequim defendem a preparação em detrimento do confronto nesta etapa.

A corrida armamentista na região continua. Trump interrompeu o pacote mais recente de venda de armas para Taiwan, bem como a entrega de mísseis de cruzeiro para o Japão, mas ainda assim vendeu mais armas para Taipé do que qualquer outro presidente estadunidense, com o acordo de 11 bilhões de dólares em dezembro de 2025, o maior já registrado.

As posições fundamentais do imperialismo estadunidense e do PCC, respectivamente, em relação a Taiwan não mudaram. Para ambos, essa é a linha vermelha mais nítida, onde qualquer recuo iria ameaçar seus poderes. O nacionalismo, tendo Taiwan como questão central, é a base principal da propaganda do PCC para conter as forças centrífugas dentro do atual Estado chinês, enquanto Taiwan possui uma importância militar, estratégica e econômica crucial para o poder do imperialismo estadunidense na Ásia-Pacífico.

A presença militar e os exercícios em grande escala na região são constantemente ampliados. O exercício anual Balikatan, liderado pelos EUA “em defesa das Filipinas”, em abril-maio, envolveu 17 mil soldados, incluindo 1,4 mil soldados japoneses pela primeira vez. No final de dezembro, o ELP chinês realizou um grande treinamento com caças e navios de guerra simulando o cerco a Taiwan. Em junho, o exército de Taiwan realizou um grande exercício de preparação para a defesa do Estreito de Taiwan.

O confronto em relação a Taiwan ocorre completamente à revelia dos trabalhadores e da juventude de Taiwan e da região. O governo taiwanês do PDP (Partido Democrático Progressista) está aumentando seu orçamento militar, totalmente dependente do imperialismo estadunidense. Os dois partidos de oposição, o KMT (Kuomintang) e o TPP (Partido do Povo de Taiwan), no geral endossam essa postura, embora o KMT também se posicione como alguém que “conversa com ambos os lados” – Washington e Pequim. O governo também utiliza suas políticas militaristas para implementar cortes orçamentários e restringir direitos democráticos.

A pressão contínua para alterar a constituição “pacifista” do Japão – que restringe seu grande exército puramente à “defesa” – acelerou drasticamente com a nacionalista de direita Sanae Takaichi assumindo o cargo de Primeira-Ministra. Os gastos militares aumentaram 9,7% no ano passado, com a meta de quase dobrar o orçamento nos próximos anos. O militarismo de Takaichi também enfrenta resistência, com 50 mil pessoas protestando em Tóquio em maio. Suas políticas também incluem ataques a “estrangeiros”, abrangendo muitos grupos diferentes.

A declaração de Takaichi em dezembro passado de que um bloqueio chinês ou uma guerra contra Taiwan seria uma “crise existencial” para o Japão desencadeou uma nova crise na relação entre Pequim e Tóquio, incluindo exercícios navais chineses perto do Japão e restrições por parte de Pequim às viagens de cidadãos chineses ao Japão, uma fonte importante de receita turística. O governo japonês aproximou-se de sua contraparte sul-coreana em busca de cooperação militar, uma questão altamente controversa devido à brutal ocupação da Coreia pelo Japão de 1910 a 1945. A eleição de um presidente “de esquerda” e mais favorável à China, Lee Jae-myung, não freou de forma alguma a acomodação de Seul com o imperialismo japonês, que havia começado sob seu antecessor de extrema-direita. A ansiedade extrema em relação aos rumos da política de Trump para a Ásia-Pacífico é um fator preponderante que aproxima Tóquio e Seul.

Os últimos anos também testemunharam uma consolidação da posição do regime norte-coreano, com uma guinada acentuada se distanciando da “reunificação” e da diplomacia Sunshine (política de sol/aproximação) com o Sul, especialmente desde que Pyongyang entrou na guerra russa contra a Ucrânia. A recente visita de Estado de Xi Jinping foi uma tentativa de reafirmar a dominância da China sobre a Coreia do Norte, que foi diluída pelos laços crescentes de Pyongyang com a Rússia. Isso sublinha o quanto o imperialismo chinês foi colocado na defensiva, com suas ambições redirecionadas para estabilizar suas esferas centrais de influência.

Os efeitos globais da guerra no Irã – sobre o petróleo e a energia, cadeias de suprimentos e rotas de transporte, inflação e outros aspectos – foram mais agudos na Ásia, devido à sua alta dependência de energia importada. O Banco Asiático de Desenvolvimento informou que “15 países haviam solicitado financiamento, incluindo Bangladesh, Fiji, Filipinas e Sri Lanka, pois enfrentam a perda de remessas e de receitas de turismo, além de suprimentos restritos de combustível e fertilizantes. O maior pedido individual foi de 1,75 bilhão de dólares por parte das Filipinas, que declararam estado de emergência energética nacional e passaram a comprar petróleo russo” (Financial Times, 13 de junho). A Índia, que anteriormente previa ter o maior crescimento entre as economias maiores, também solicitou apoio.

Os aumentos de preços e o racionamento causados pela guerra contra o Irã provocaram protestos generalizados. A ONG de monitoramento ACLED registrou um total de 1,2 mil manifestações contra a escassez e os altos preços em todo o Sul da Ásia desde o início da guerra. O ritmo está aumentando, com 15 protestos por dia ocorrendo no início de junho. Nas Filipinas, os trabalhadores dos transportes entraram em greve no final de março. Os movimentos de protesto crescerão, com os desdobramentos da guerra ameaçando governos, muitos dos quais são aliados do imperialismo estadunidense.

Cuba na mira de Trump

Após a humilhação de Trump no Irã, o próximo alvo mais provável de sua agressão parece ser Cuba. No entanto, resta saber exatamente como ele conseguirá a “vitória fácil” que tanto espera.

A situação na ilha após meses de um embargo extremo é completamente insustentável – com a formação de um desastre humanitário de grandes proporções. O regime de Havana está fazendo de tudo para se acomodar às exigências do imperialismo estadunidense, e negociações de alto nível – que recentemente contaram com a presença do diretor da CIA em Havana – estão em andamento. O presidente cubano, Díaz-Canel, anunciou várias “reformas”, incluindo a remoção de todas as restrições ao investimento privado na ilha por parte de exilados cubanos. Essas medidas representam avanços significativos na política já estabelecida pelo regime em direção à restauração capitalista.

Apesar dessas concessões, contudo, há indícios de que Trump planeja atos de agressão militar contra a ilha. O indiciamento de Raúl Castro por alegações históricas tem sido amplamente interpretado como a criação de um pretexto para um sequestro militar ao estilo do que fizeram com Maduro. O envio de importantes recursos navais e militares dos EUA para a região, incluindo o porta-aviões USS Nimitz, aponta em direção semelhante. Também é possível que Trump pretenda usar ataques aéreos – uma demonstração limitada de força militar – como ferramenta para pressionar o regime a novas capitulações na mesa de negociações.

Cuba não é o Irã, sob nenhum aspecto. Não há perspectiva de uma retaliação militar eficaz a um ataque dos EUA, e Havana não possui nenhuma influência econômica real sobre os EUA ou sobre a região em geral. Seus aliados poderosos também já praticamente confirmaram que nenhuma assistência significativa estará disponível. No entanto, isso não significa que a arrogância de Trump não possa colocá-lo novamente em um atoleiro.

A execução de uma “manobra Delcy Rodríguez” – o estabelecimento de um regime fantoche de continuidade liderado por alguém de dentro – é muito mais difícil de imaginar em Cuba do que na Venezuela. O regime de Havana está totalmente entrincheirado há décadas, sem oposição interna ou frações simpáticas a Washington, e é moldado de forma muito mais consistente e ideológica por sua oposição à dominação imperialista estadunidense. O poderoso “lobby cubano” nos EUA – que se baseia essencialmente nos herdeiros da antiga elite capitalista desprovida de seus bens pela revolução cubana de 1959 – também será extremamente difícil de convencer de que qualquer quantidade de reformas pró-mercado converterá o regime do Partido Comunista em um parceiro aceitável. Uma invasão dos EUA à ilha para instalar um regime capitalista completamente novo também é totalmente impossível.

Portanto, não se pode descartar um ataque dos EUA que termina com a permanência de um regime desafiador em Havana governando sobre uma catástrofe humanitária provocada por Trump. O status quo insustentável da fome forçada imposta por Trump à ilha também pode se tornar uma fonte aguda de crise para Washington e levar a poderosos movimentos de protesto na região e internacionalmente.

Os socialistas devem lutar pela mobilização da classe trabalhadora e dos oprimidos em toda a região e nos EUA em oposição ao estrangulamento de Cuba, e para impedir quaisquer bombardeios estadunidenses. A solidariedade internacional da classe trabalhadora é a única força capaz de salvar o povo cubano.

Os socialistas também se opõem às políticas pró-capitalistas do regime cubano, que estão minando as próprias conquistas da revolução cubana que permitiram ao seu povo resistir a décadas de agressão e cerco imperialistas. Os sonhos frustrados do regime de uma restauração capitalista controlada e bem-sucedida ao estilo chinês são uma ilusão. Uma Cuba capitalista, em uma ilha isolada, com forças produtivas primitivas e escassez de recursos, seria algo muito mais parecido com o Haiti ou o Porto Rico do que a China.

A única saída para o povo cubano é o caminho da transformação socialista internacional – a luta por governos de trabalhadores baseados na propriedade pública e democrática dos recursos e dos setores-chave da economia em toda a América Latina e no Caribe.

Trabalhadores bolivianos apontam o caminho

No momento em que este texto é escrito, a classe trabalhadora e os camponeses da Bolívia representam a força mais poderosa resistindo à ofensiva imperialista de Trump no continente. A greve geral por tempo indeterminado e os bloqueios de estradas – que paralisaram o país por mais de sete semanas exigindo a queda de Rodrigo Paz – dão um vislumbre da resposta com a qual a nova leva de governos de direita em todo o continente está começando a se deparar. Isso também demonstra que as tradições revolucionárias do continente sobreviveram a uma série de derrotas ao longo das últimas duas décadas.

Ao mesmo tempo, com a ameaça latente de capitulação por parte da direção da poderosa COB [Central Operária Boliviana], a ausência de uma direção revolucionária nesta situação mostra que os problemas fundamentais que levaram à derrota da onda revolucionária do início dos anos 2000 continuam sem solução. Após o fracasso das sucessivas “ondas rosas” de governos reformistas que chegaram ao poder nas últimas duas décadas, a reconstrução de uma nova esquerda latino-americana armada com políticas socialistas revolucionárias é a principal necessidade política do momento.

Eleições cruciais e acirradas em junho entre a extrema-direita trumpista e a esquerda reformista, tanto na Colômbia quanto no Peru, também desempenharão um papel importante nas perspectivas para a região. No Peru, embora o resultado oficial ainda não tenha sido anunciado e existam sérias preocupações quanto ao processo de apuração dos votos, a ultradireitista Keiko Fujimori detém uma minúscula vantagem (0,1%), com mais de 99% dos votos apurados. Qualquer que seja o desfecho, o padrão recente de turbulência e revolta de massas certamente continuará. Uma possível vitória do candidato de extrema-direita de la Espriella na Colômbia, no segundo turno das eleições em 21 de junho contra o candidato de Gustavo Petro, Iván Cepeda, representaria um grande impulso para a agenda de Trump.

África

A África é outro centro do conflito interimperialista e está na linha de frente das consequências da guerra contra o Irã. As greves de maio por parte dos trabalhadores dos transportes no Quênia e nas Comores, e dos motoristas de vans (chapas) em Moçambique contra o aumento dos preços do diesel causaram paralisações em grande escala. Os protestos de massas, ou o medo deles, forçaram governos de muitos países a mitigar os aumentos de preços. Mas isso é apenas o começo, com as crescentes dívidas públicas levando a novos ataques. O aumento dos preços dos alimentos e a escassez também terão um efeito cada vez maior à medida que o impacto da guerra do Irã continuar a ser sentido.

O continente testemunhou muitos movimentos impressionantes nos últimos anos, iniciados principalmente pela juventude da Geração Z – no Quênia, em Madagascar, na Tanzânia, no Marrocos e em outros lugares. Esses movimentos corajosos, contudo, não levaram a mudanças fundamentais, mas foram desviados por líderes autoproclamados, dirigentes de partidos de oposição e até mesmo, como no caso de Madagascar, pelos militares. É preciso extrair lições sobre a necessidade de organizações democráticas da classe trabalhadora e de um programa socialista revolucionário.

Na Nigéria, que realizará eleições no início de 2027 em meio a uma austeridade extrema, repressão e aumento da violência, a necessidade de uma alternativa de esquerda forte é urgente. O MSA (Movement for a Socialist Alternative, seção da Alternativa Socialista Internacional na Nigéria) está envolvido em discussões com outras forças de esquerda, em uma situação na qual a burocracia sindical está se esquivando de fornecer uma direção para canalizar a indignação de massas contra o regime de Tinubu. Isso deixa apenas a oposição burguesa oficial, que não representa nada de diferente de Tinubu, como uma alternativa para a qual as massas trabalhadoras possam se voltar.

Protestos anteriores da juventude, como os de agosto de 2024, mostraram um forte apoio a ações contra o governo e suas políticas ditadas pelo FMI. A possibilidade de construir um movimento anticapitalista que possa propor uma alternativa socialista também ficou evidente, mas isso exigirá uma luta organizada para conscientizar a classe trabalhadora sobre o seu papel de liderar todas as massas trabalhadoras para enfrentar as elites dominantes e derrubar o capitalismo e o poder dos latifundiários.

Na África do Sul, as recentes ondas de violência contra trabalhadores de outros países africanos são resultado da situação desesperadora e da falta de uma alternativa de massas dos trabalhadores. O governo do CNA (Congresso Nacional Africano) levou o país a um beco sem saída, com desemprego em massa e pobreza, uma consequência da implementação de políticas neoliberais capitalistas que atacam as condições da classe trabalhadora. Nenhuma ação fundamental foi tomada para reverter as estruturas econômicas estabelecidas pela África do Sul do apartheid. A atual indignação de massas e a violência xenófoba reacionárias visam apenas culpar os imigrantes pelo beco sem saída em que o capitalismo e o CNA enfiaram a África do Sul.

Apenas a ação unificada do movimento da classe trabalhadora sob uma direção revolucionária, colocando a questão do poder, pode, em última análise, afastar a massa de trabalhadores sul-africanos e camponeses pobres da reação xenófoba e direcionar sua fúria contra o capitalismo. Essa é a postura geral necessária em todo o continente.

Na região do Sahel, os desdobramentos no Mali mostraram como os militares, após chegarem ao poder e se aliarem a mercenários russos, não foram capazes de deter as forças insurgentes islâmicas. Os regimes militares no Sahel, que inicialmente contavam com amplo apoio público, falharam em garantir a segurança ou em melhorar as condições das massas. Apesar de uma retórica por vezes radical e de alguns gestos puramente simbólicos, eles permanecem dentro da estrutura do capitalismo e agem de forma militar vertical contra as massas, em vez de facilitar um movimento da massa dos trabalhadores para enfrentar o capitalismo e o imperialismo.

A guerra no Sudão continua, apesar de este ser outro país no qual o imperialismo estadunidense tentou impor o tipo de acordo de paz de Trump – mais focado no acesso dos EUA aos recursos naturais do que em qualquer outra coisa. O Sudão foi um dos países que viram fortes movimentos de massas em 2019, derrubando o governo e oferecendo um curto período de organização pela base. Mas o governo de transição democrático-burguês foi atropelado e teve início a catastrófica guerra civil. As potências regionais estão em lados opostos, com a Arábia Saudita e o Egito apoiando o exército oficial, e os Emirados Árabes Unidos, junto com a Etiópia, dando apoio às forças das Forças de Apoio Rápido (RSF). Alguns observadores preveem que as guerras na região se espalharão se a Etiópia, após suas recentes eleições antidemocráticas, atacar a Eritreia.

No Congo, há agora relatos de que minerais críticos estão sendo oferecidos aos EUA pelo M23, o principal grupo rebelde. Washington persegue tais prioridades – mais pilhagem imperialista – em meio à propagação de uma nova variante do Ebola, para a qual não há vacina. Este novo surto é, em parte, resultado da retirada dos EUA da Organização Mundial da Saúde e do fechamento da USAID.

As perspectivas para a África estão estreitamente ligadas aos eventos internacionais, e os novos movimentos e lutas dos trabalhadores no continente também ganharão eco internacional. As mudanças climáticas e as lutas ambientais são também crucialmente importantes, com a escassez de água e eletricidade servindo de estopim para conflitos.

Crise política se acirra

A crise política é onipresente em escala mundial, desde a ditadura do PCC até as democracias burguesas da Europa e da América do Norte. Em geral, sua principal expressão é a de uma polarização nítida e crescente, em meio ao rápido colapso do “centro” político (as forças que estão sendo responsabilizadas pelas misérias da já superada era neoliberal).

No Reino Unido, as eleições municipais na Inglaterra e as votações no País de Gales e na Escócia em 7 de maio desferiram um golpe esmagador no governo do Labour, o qual certamente será fatal para Keir Starmer. Em meio às repercussões, é verdadeiramente impressionante que nenhum dos 402 membros do Parlamento do Labour seja visto como um substituto viável para o cargo de primeiro-ministro.

Em vez disso, o partido parece decidido a recorrer ao prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham, em uma tentativa de estabilizar o barco após sua vitória na eleição suplementar de 18 de junho. O espetáculo de um político de um partido governista conduzindo uma campanha eleitoral com o objetivo explícito de derrubar imediatamente o primeiro-ministro é, sem dúvida, bizarro, e ilustra a profundidade da crise política do capitalismo britânico.

Burnham é singularmente popular precisamente por ter mantido distância do Parlamento e do governo trabalhista. Sua ascensão ao poder, acompanhada de sinais de uma vaga guinada à esquerda com discursos sobre um maior “controle público” (em contraste específico com a propriedade pública) sobre os setores de água e energia, sem dúvida melhorará a popularidade do Labour no curto prazo. Isso também atrairá uma seção importante da burocracia sindical de volta ao partido.

Seu perfil também pode ter um impacto limitado internacionalmente, sendo utilizado para semear ilusões de uma guinada à esquerda na social-democracia. A capacidade de Burnham de derrotar o partido racista Reform UK nas urnas também pode dar um grande impulso à ideia da utilidade do Labour como uma força nacional do “mal menor” para manter Nigel Farage fora do número 10 da Downing Street [residência do primeiro-ministro]. Isso também representará um desafio para o Partido Verde, que vem registrando um rápido crescimento do número de filiados e de apoio sob o comando de seu novo líder de esquerda, Zack Polanski.

Contudo, é improvável que a bagunça subjacente da crise do capitalismo britânico permita a Burnham desfrutar de uma longa lua de mel. Pressionado pelos “mercados” mesmo antes de ser eleito, ele assumiu compromissos de respeitar as “regras fiscais” do governo, que limitam os gastos públicos. Ele também deu seu apoio às propostas de política de imigração draconianas do governo.

As eleições presidenciais de 2027 na França são de grande importância para as perspectivas europeias e mundiais. A liderança isolada de Jordan Bardella, do partido de extrema-direita Rassemblement National (Reunião Nacional), em todas as pesquisas de opinião é mais um indício de que, apesar dos tropeços de Trump – que se tornou um grande fardo para seus amigos internacionais –, a ascensão da direita ainda não atingiu o seu pico em escala mundial. A extrema-direita lidera agora as pesquisas em cada uma das três potências mais importantes da Europa: Alemanha, Reino Unido e França. Caso chegue ao poder em apenas uma delas, o impacto regional e global já seria imenso.

Esse processo também vai muito além da Europa. Paralelamente a uma série de vitórias da extrema-direita latino-americana, a vertente japonesa do trumpismo, liderada por Takaichi, está remodelando o cenário político na quarta maior economia do mundo.

Ao mesmo tempo, vários acólitos importantes de Trump que ocupam cargos de poder compartilharam de sua má sorte. O exemplo mais proeminente é o de Viktor Orbán, na Hungria, que foi estrondosamente derrotado em abril. Na Argentina, os índices de aprovação de Milei nas pesquisas de opinião atingiram uma mínima histórica em maio, em meio a uma retomada dos protestos. E a direita não desfrutou de nenhuma lua de mel ao retornar ao poder na Bolívia ou no Chile, e tampouco o fará no Peru ou na Colômbia (caso Fujimori e de la Espriella sejam eleitos).

A luta para derrotar a direita em ascensão é de enorme importância no programa dos marxistas hoje. Nessa frente, nosso programa tem um ponto de partida claro: a construção de uma oposição independente da classe trabalhadora. O medo legítimo dos monstros políticos da extrema-direita pode fazer com que o conceito de “coalizões arco-íris” de frente ampla para derrotá-los pareça uma necessidade de bom senso. No entanto, os marxistas apoiam-se na memória histórica da classe trabalhadora para explicar pacientemente o beco sem saída que significa apegar-se às rabeiras das forças desacreditadas da era neoliberal – cujo ódio, em primeiro lugar, impulsionou a ascensão da direita. Essa é a estratégia fracassada que, através de sucessivas traições e capitulações, resultou nos pesadelos de Trump e Bolsonaro.

A direita não está apenas em ascensão, mas também se deslocando ainda mais para a direita, em conjunto com o restante do establishment político. A “janela de Overton” (conceito que se refere ao conjunto de ideias consideradas “aceitáveis” na sociedade oficial) mudou drasticamente nos últimos anos. Em muitos países, a direita agora pode proferir orgulhosamente o tipo de sujeira que até mesmo os neofascistas do início dos anos 2000 tinham medo de dizer. O conceito de “remigração” – que significa literalmente expulsar cidadãos não brancos de países ocidentais – foi normalizado pela direita estadunidense e europeia. Racistas – incluindo o primeiro trilionário do mundo –, com milhões de seguidores, estão “dizendo em voz alta o que antes se sussurrava”: que as sociedades europeia e norte-americana já não são brancas o suficiente. Essas são as ideias que alimentaram os pogroms racistas, mobilizados por Elon Musk, que resultaram em dezenas de famílias desalojadas após terem suas casas incendiadas em Belfast, em junho.

Junto com o racismo descarado, a direita também continuou a abraçar a ideologia reacionária sobre gênero e a família nuclear. Para muitas forças de extrema-direita hoje, as ideias sexistas não são apenas relevadas, mas constituem parte central de sua identidade política. Seus ataques não se limitam à retórica misógina – que, por si só, alimenta a violência e o assédio de gênero –, mas incluem também medidas de austeridade e ataques aos direitos das mulheres. Em vários países, a direita também camuflou suas ideias racistas e anti-imigrantes sob argumentos de “defender nossas mulheres” contra “homens estrangeiros”. Os ataques aos direitos LGBTQIA+ são igualmente uma marca registrada da direita globalmente, tendo as pessoas trans como alvo particular de seu veneno. Eles visam banir as pessoas trans da vida pública e atacar até mesmo as conquistas limitadas que foram alcançadas em alguns países nas últimas décadas.

No entanto, essa polarização não é unilateral. Mesmo onde a extrema-direita lidera as pesquisas, muito mais pessoas a odeiam do que a apoiam. Isso também tem se expressado frequentemente nas ruas, inclusive no Reino Unido, onde a manifestação “Together” (Juntos) em 28 de março superou de longe a histórica marcha da extrema-direita de mais de 100 mil pessoas em setembro de 2025.

Isso também tem uma expressão política. Na França, a campanha de Jean-Luc Mélenchon para as eleições de 2027 foi lançada em um comício de dezenas de milhares de pessoas em Saint-Denis, onde seu partido, a La France Insoumise (LFI / França Insubmissa), venceu recentemente uma eleição municipal contra os racistas. As pesquisas mostram que ele tem chances reais de passar para o segundo turno das eleições presidenciais, o que representaria um terremoto político. Um confronto épico dessa magnitude entre esquerda e direita proporcionaria uma oportunidade enorme para mobilizar a maioria trabalhadora e jovem no tipo de movimento que é necessário para fazer o RN recuar.

Nas eleições da Andaluzia, a região mais populosa do Estado espanhol, uma nova força à esquerda do decadente Podemos – o Adelante Andalucía – obteve um avanço expressivo em maio. O Novo Partido Democrático (NDP) do Canadá também passou por um renascimento sob o comando de seu novo líder, o autodeclarado socialista Avi Lewis, que derrotou o establishment da legenda em uma eleição interna que ecoou a impressionante ascensão de Jeremy Corbyn à liderança do Labour em 2015.

Ao mesmo tempo, o desperdício calamitoso e – politicamente falando – criminoso por parte de Corbyn da oportunidade histórica representada pela formação do Your Party (Seu Partido) no Reino Unido constitui uma das ilustrações mais gráficas da falência do reformismo na memória recente. A Socialist Alternative (seção da ASI na Inglaterra, País de Gales e Escócia) travou uma luta vigorosa e combativa para tornar o YP a força socialista, enraizada na organização e na luta da classe trabalhadora, que ele precisava ser. Figuras de liderança como Zarah Sultana, junto a milhares de ativistas, também compreenderam a necessidade de ir além de um “Corbynismo 2.0”. Mas, em última análise, as forças da esquerda organizada, e em particular do marxismo revolucionário, demonstraram ser numericamente pequenas demais para desempenhar um papel mais decisivo.

Conclusão

Deve-se notar que, em contraste com o genocídio em Gaza, a guerra de Trump contra o Irã não gerou um movimento internacional antiguerra. Não obstante, os processos que ela desencadeou serão motores históricos da luta de classes no próximo período, conforme já foi observado em relação à Ásia e à América Latina.

Devemos observar como as tendências inflacionárias que se seguiram à pandemia da Covid e ao início da guerra na Ucrânia impulsionaram a luta de classes na América do Norte e na Europa Ocidental. A confiança e a experiência adquiridas com essas ondas de greves podem agora ser um fator em novas rodadas de batalhas de classe no horizonte.

No Irã, assim que a névoa da guerra se dissipar, a classe trabalhadora e a juventude poderão se mobilizar mais uma vez, inclusive para exigir os “dividendos da paz” e a sua parcela do espólio dos fundos multibilionários que, segundo relatos, serão colocados à disposição do regime. Todos os fatores que causaram o movimento de massas há cinco meses e também antes disso – aumentos extremos de preços, crise social, repressão brutal, escassez de água – agravaram-se após a guerra, com a perda de um milhão de empregos e a destruição generalizada provocada pelos bombardeios. Nos EUA, a fraqueza exposta de Trump pode convidar a uma justa ofensiva por parte de uma classe trabalhadora que já traz na bagagem a Batalha de Minneapolis.

A ofensiva do capitalismo por meio da IA também será uma fonte de conflitos. Isso incluirá lutas ambientais nas comunidades contra os data centers que destroem o clima, e uma contraofensiva nos locais de trabalho contra as tentativas de implantar tecnologias às custas de empregos e de condições de trabalho.

Os cientistas preveem que há uma probabilidade de 90% de ocorrência de um fenômeno meteorológico “super El Niño” na segunda metade de 2026, que poderá ser o mais intenso da história. Esse fenômeno tem sido historicamente associado não apenas à fome e à miséria, mas também a revoluções.

Centenas de milhares de pessoas voltaram às ruas da Argentina contra o feminicídio em maio, após os assassinatos brutais de duas adolescentes, quase exatamente 11 anos após o histórico movimento “Ni Una Menos” que abalou o mundo. E milhões continuarão a se organizar e a se mobilizar contra a guerra, o racismo e a extrema-direita. O heroísmo de Renee Good e Alex Pretti – e de incontáveis outros combatentes de classe anônimos que tombaram – é apenas a ponta do iceberg das novas gerações preparadas para lutar até o fim contra o sistema capitalista nesses tempos de monstros.

Em última análise, a necessidade mais premente em resposta às viradas bruscas e mudanças repentinas descritas neste documento é a construção de um partido revolucionário internacional. Somente o marxismo pode fornecer uma explicação para as múltiplas crises do sistema, todas enraizadas nas contradições fundamentais do capitalismo – em particular, a propriedade privada e o Estado-nação. E somente o socialismo – que resolverá essas contradições ao socializar a economia e unificar o mundo em paz e cooperação – pode oferecer um futuro de esperança e dignidade para a humanidade e para o planeta. É hora de redobrar todos os esforços em busca desses objetivos.

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