90 anos da revolução e contrarrevolução na Espanha: lições para enfrentar a extrema-direita

Esse julho comemoramos 90 anos do levante revolucionário dos trabalhadores na Espanha contra a revolta militar fascista de 17 de julho de 1936, liderada pelo general Franco. Esse foi um dos mais poderosos movimentos da classe trabalhadora na história que, em poucos dias, tomou o controle da Catalunha, de Aragão e de outras partes do país. Foi o auge de um processo revolucionário que havia se iniciado em 1931 e perdurou até 1937.
Segundo Trotsky, que liderou a Revolução Russa em 1917 junto com Lenin, os trabalhadores espanhóis foram a mais poderosa força revolucionária durante a década de 1930. Essa força só foi vencida com uma brutal guerra civil em 1936-39, que causou centenas de milhares de mortes. A derrota da Revolução Espanhola não só abriu o caminho para a ditadura de Franco, que durou até a sua morte em 1975, mas também foi o último obstáculo que poderia ter impedido a Segunda Guerra Mundial.
A profunda crise do sistema capitalista está levando novamente ao crescimento de uma extrema-direita cada vez mais autoritária. A Revolução Espanhola é uma enorme fonte de lições para a nossa luta de hoje.
Império decadente, capitalismo fraco
A Espanha era um poder decadente, tendo perdido quase todas as suas antigas colônias. O capitalismo espanhol desenvolveu-se tardiamente e a fraca classe capitalista era atrelada ao sistema latifundiário, sendo incapaz de modernizar o país. Por outro lado, existia uma jovem e combativa classe trabalhadora, que cresceu rapidamente como uma força social durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18). Os anarquistas eram a principal força entre os trabalhadores, e sua central sindical, a CNT, teve no seu auge 2 milhões de membros em 1936.
A questão da terra era fundamental. Cerca de 70% da população de 24 milhões morava no campo. Os grandes latifundiários, que representavam apenas 0,2% da população, eram donos da metade da terra. Três quartos da população rural eram de trabalhadores rurais sem terra ou de pequenos camponeses que eram forçados a trabalhar para os camponeses ricos em condições subumanas.
A questão nacional também era central. Após a perda de Cuba para os EUA na guerra de 1898, a monarquia travou uma guerra brutal para conquistar o Marrocos, no norte da África. Na própria Espanha havia fortes movimentos regionais por autonomia, como na Catalunha, no País Basco e na Galiza, presentes ainda hoje.
A economia espanhola sofreu muito com a crise econômica depois da guerra. Em 1923, Primo de Rivera liderou um golpe de Estado que estabeleceu uma ditadura, mas manteve a monarquia. Rivera renunciou em 1930, após o estopim da crise econômica mundial iniciada em 1929.
Nascimento da república e começo do processo revolucionário
A pressão crescente da população forçou a realização de eleições em 1931. Após a grande vitória dos republicanos nas eleições municipais nos centros urbanos em abril, o rei Alfonso XIII abdicou. Nas eleições para o congresso em junho, o Partido Socialista (PSOE) tornou-se a maior força e formou um governo de coalizão junto com os republicanos. Manuel Azaña, líder da Esquerda Republicana, tornou-se primeiro-ministro.
O resultado dessas eleições foi o estopim para um movimento de massas que deu início ao processo revolucionário. Um processo revolucionário não é um evento pontual, mas uma série de eventos com avanços e retrocessos. Porém, a onda de greves durante julho e agosto foi reprimida pelo exército, sob ordens do próprio governo republicano.
A decepção com a repressão e com a política de direita do governo republicano, somada ao boicote às eleições impulsionado pela CNT, abriu caminho para a vitória dos partidos de direita e monarquistas nas eleições de 1933. Quando o novo primeiro-ministro, Alejandro Lerroux, do Partido Radical, incluiu em outubro de 1934 ministros da CEDA (um partido cristão de direita com vínculos fascistas), a UGT, central sindical vinculada ao PSOE, declarou greve geral nacional.
O movimento foi mais forte nas Astúrias, onde os trabalhadores tomaram o poder, liderados pelos mineiros. Porém, enquanto nas Astúrias os trabalhadores anarquistas faziam parte da luta, no resto do país a direção da CNT não participou, alegando que se tratava de uma “disputa política”. Isso garantiu o funcionamento das ferrovias, facilitando o transporte e a concentração de tropas – lideradas pelo então general Franco – para esmagar a Comuna das Astúrias, deixando 5 mil mortos e 30 mil presos. A derrota desse movimento abriu um período de retrocesso e opressão chamado de “biênio negro”, no qual muitas das conquistas das lutas anteriores foram retiradas. Porém, essa derrota não foi capaz de extinguir a chama revolucionária e, após dois anos, ela voltou a se alastrar.
Frente Popular
No início de 1936, o governo Lerroux, já desgastado, renunciou após um escândalo financeiro. Em fevereiro de 1936 ocorreram novas eleições, nas quais a aliança entre o partido socialista, os republicanos e os comunistas (PCE) – a chamada “Frente Popular” – saiu vitoriosa. Apesar de o PSOE ser a maior força, o acordo impulsionado pela ala direita do partido, com o apoio dos stalinistas do PCE, garantia a maioria dos cargos para os republicanos burgueses. Pior ainda: o programa da Frente era uma repetição da política de direita do governo de 1931-33.
Apesar do fracasso anterior da coalizão entre republicanos e socialistas, a mesma tática foi implementada novamente. Segundo Trotsky, essa frente foi resultado de dois fatores. Primeiro, a pressão popular por unidade contra a direita e a ameaça fascista, após a tomada do poder por Hitler na Alemanha em 1933. Segundo, a guinada à direita dos stalinistas do PCE.
No fim dos anos 1920, a linha ultraesquerdista de Stalin do chamado “terceiro período” significava que os stalinistas eram contra a unidade na luta antifascista entre comunistas e socialdemocratas (aos quais chamavam de “social-fascistas”). Após a vitória de Hitler, Stalin mudou completamente de posição e buscou o apoio de potências como França e Inglaterra, declarando a necessidade de constituir “frentes populares” com setores burgueses supostamente “progressistas”.
Isso significou sacrificar a luta direta dos trabalhadores e camponeses em nome dessas alianças. Diante da luta revolucionária na Espanha, a maior parte da burguesia já havia se alinhado com a reação. Segundo Trotsky, a aliança da Frente Popular foi com a “sombra da burguesia” – algo que se tornaria evidente no percurso da revolução e da guerra civil.
O PCE, que até então era uma força pequena, cresceu com a radicalização da juventude e dos trabalhadores, utilizando-se do prestígio da Revolução Russa (apesar de sua degeneração burocrática sob Stalin). O PCE também se aproveitou dos erros táticos do grupo ligado à Oposição Internacional de Esquerda no país, a Esquerda Comunista da Espanha (ICE, na sigla em espanhol), liderada por André Nin. A oposição trotskista havia sido expulsa dos partidos comunistas oficiais e, a partir de 1933, trabalhava para construir uma nova internacional revolucionária.
Trotsky havia aconselhado o grupo espanhol a entrar no PSOE, onde ocorria uma forte radicalização, especialmente na juventude, e onde havia uma grande ala de esquerda liderada por Largo Caballero. Caballero, líder da UGT, havia participado do governo de 1931-33 como ministro do Trabalho, mas foi empurrado para a esquerda pelo ascenso das lutas. A direção da juventude socialista, que contava com 100 mil militantes, ofereceu à ICE a oportunidade de entrar na organização para ajudar a formá-los como “bolcheviques”. No entanto, estes recusaram, deixando o espaço aberto para os stalinistas, que ocuparam o vácuo e conquistaram uma base de massas. Andrés Nin e a Esquerda Comunista romperam com Trotsky, fundiram-se com o BOC (Bloco Operário Camponês, alinhado à oposição de direita ao stalinismo) e formaram, em 1935, o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista).
A primeira composição do governo da Frente Popular continha apenas ministros republicanos burgueses. Largo Caballero conseguiu barrar a participação direta do PSOE no ministério, lembrando o fracasso de 1931-33, apesar da forte pressão da ala direita do PSOE (liderada por Indalecio Prieto) e do PCE. Contudo, fez isso sem romper politicamente com a Frente.
Mesmo assim, a vitória da Frente Popular – que recebeu o apoio dos anarquistas e do POUM nas eleições – foi saudada com enorme entusiasmo. As massas não esperaram as decisões do governo e começaram a impor suas próprias demandas. Nos dias seguintes às eleições, 30 mil presos políticos foram libertados diretamente pelas massas. Quando Azaña assumiu como primeiro-ministro, apenas confirmou o que já era realidade por meio de um decreto de anistia. Entre fevereiro e julho de 1936, ocorreram 113 greves gerais locais e inúmeras outras paralisações, conquistando aumentos salariais e melhores condições de trabalho. No campo, os camponeses ocuparam terras. As organizações de esquerda cresceram rapidamente. Em seis semanas, o POUM saltou de mil para 60 mil militantes. Entre fevereiro e julho, duas pessoas morreram em média por dia em confrontos entre revolucionários e fascistas nas ruas, com os fascistas sofrendo a maior parte das baixas.
A grande maioria da burguesia chegou à conclusão de que o “biênio negro” não havia sido suficiente para derrotar a ameaça revolucionária. Eles apostaram, então, no golpe de Franco para afogar o movimento em sangue.
Golpe fascista e a resposta revolucionária
No dia 17 de julho de 1936, o general Franco deu início ao golpe fascista a partir de sua base em Marrocos. O governo da Frente Popular tentou inicialmente negociar com os fascistas, ocultou as notícias do golpe e censurou os jornais que tentavam alertar a população. A paralisia do governo permitiu que Franco, apoiado por quase a totalidade da cúpula militar, controlasse um terço do país em uma semana. Porém, os trabalhadores reconheceram imediatamente a ameaça e partiram para a ação direta, barrando qualquer tentativa de conciliação com os fascistas.
Em Madri, centenas de milhares marcharam no dia 18 exigindo armas, provocando uma crise no governo. Após a renúncia de dois primeiros-ministros em poucas horas, o terceiro finalmente liberou o armamento. Os mineiros das Astúrias organizaram uma milícia de 6 mil combatentes e iniciaram uma marcha em direção à capital.
Em Barcelona, a resistência começou em 19 de julho. Armados com pedaços de madeira, dinamite de canteiros de obras, rifles de caça e armas obtidas com simpatizantes da polícia local, os trabalhadores enfrentaram os militares e invadiram os quartéis. Em quatro dias, toda a Catalunha estava nas mãos dos trabalhadores e camponeses. Fábricas e terras foram coletivizadas sob o controle de comitês eleitos.
Em Aragão, o líder anarquista Buenaventura Durruti liderou uma coluna militar revolucionária, libertando povoados e cidades onde as terras foram coletivizadas e colocadas sob controle de comitês de camponeses.
“Há apenas dois caminhos: ou a vitória dos trabalhadores, a liberdade, ou o triunfo do fascismo, que significa a tirania. Ambos os lados sabem o que os espera. Nós estamos decididos a terminar de uma vez por todas com as injustiças econômicas, custe o que custar”, afirmou Durruti em uma entrevista concedida ao jornalista canadense Pierre van Paassen.
Em cinco dias, Aragão estava sob controle revolucionário. Durruti só não tomou a capital regional, Saragoça, porque o governo central se recusou a enviar armamentos para as milícias anarquistas. Mais tarde, ele foi convocado para a defesa de Madri, onde morreu em condições misteriosas.
Esse foi o momento-chave. O Estado burguês havia colapsado e grande parte do país estava sob o controle dos comitês de trabalhadores e camponeses. Seria perfeitamente possível formar um governo de trabalhadores baseado nesses comitês de fábrica, de camponeses e das milícias. No entanto, a direção anarquista da CNT era contra a criação de um Estado centralizado, enquanto as outras forças de esquerda preferiam manter a aliança com os republicanos burgueses.
A contradição da posição dos grupos com uma linha revolucionária ficou evidente quando, em setembro de 1936, a direção da CNT e também o POUM aceitaram cargos no governo da Frente Popular da Catalunha (a Generalitat), ao lado de representantes burgueses. Em dezembro, Andrés Nin foi expulso desse governo, sob pressão dos stalinistas, mas o POUM continuou demandando o retorno ao posto. Em novembro, a CNT assumiu também ministérios no governo central.
A pressão das massas forçou os republicanos a aceitarem Largo Caballero como primeiro-ministro em setembro, compondo um ministério que incluía stalinistas e, posteriormente, os próprios anarquistas.
Para Marx e Engels, a experiência da Comuna de Paris já havia demonstrado que a classe trabalhadora não pode simplesmente se apoderar da máquina do Estado burguês e usá-la para seus próprios fins. Era necessário desmontar esse aparato e construir um novo Estado dos trabalhadores, com bases realmente democráticas e controle sobre a economia. Essa lição foi confirmada de forma trágica na Espanha.
A única força real capaz de derrotar as tropas de Franco eram as milícias revolucionárias, mas o seu avanço colocava em xeque o direito de propriedade da burguesia. Os líderes liberais e republicanos temiam mais a revolução dos trabalhadores do que a vitória do fascismo. Em vários casos, como no País Basco, os dirigentes burgueses preferiram entregar o território e as indústrias intactas aos fascistas a armar os trabalhadores e arriscar que esses tomassem o controle.
A direção da CNT não fazia distinção prática entre um Estado burguês e um Estado dos trabalhadores. Enquanto os trabalhadores na Catalunha controlavam as fábricas e os transportes, o governo burguês local (Generalitat) permaneceu intacto institucionalmente, tolerado pelos anarquistas. Diante da necessidade de centralizar o esforço de guerra, a CNT preferiu integrar o Estado burguês a destruí-lo. Por sua vez, o POUM defendia formalmente o poder dos comitês (sovietes), mas na prática não desafiava a linha política da CNT e continuava reivindicando o governo da Frente Popular.
Largo Caballero, apesar de discursar em favor de uma “ditadura do proletariado” (termo que na época designava o poder democrático da classe trabalhadora em oposição ao domínio da burguesia), não possuía uma estratégia para concluir a revolução socialista. Ele adotou a linha stalinista de que era preciso “vencer a guerra primeiro”, recusando-se a romper com os ministros capitalistas.
Andrés Nin criticou corretamente essa linha, dizendo: “O problema fundamental da nossa revolução não é militar, é político. A guerra só será vencida se os trabalhadores sentirem que estão lutando pelas suas próprias conquistas, pelas fábricas coletivizadas e pela terra livre, e não para restaurar a república burguesa que os reprimiu no passado.”
Os stalinistas utilizavam o fato de a URSS ser o único país a fornecer armas para chantagear o governo, exigindo a repressão às medidas revolucionárias e a defesa estrita da “ordem republicana” e até mesmo a “propriedade privada”. Sob o governo de Caballero, mecanismos de censura contra jornais e rádios operárias foram mantidos e ampliados.
Stalin não queria uma revolução socialista vitoriosa na Espanha, pois temia que isso colocaria em xeque sua aliança militar com a França e a Inglaterra, além do receio de que uma revolução operária saudável servisse de inspiração para a própria classe trabalhadora soviética se levantar contra a burocracia do Kremlin – que, naquele momento, executava os sangrentos expurgos, execuções e prisões da oposição, os chamados “Processos de Moscou”.
França e Inglaterra, apavoradas com a mobilização revolucionária e temendo um confronto direto com a Alemanha e a Itália, adotaram a política de “Não Intervenção”. O apoio internacional à revolução, contudo, foi massivo entre os trabalhadores de todo o mundo: cerca de 40 mil voluntários formaram as Brigadas Internacionais que lutaram na Espanha. A União Soviética, diante do envio de armas e tropas da Alemanha e Itália para os fascistas, enviou armas para o lado republicano, mas cobrou o preço em ouro e utilizou seu peso político e policial para sufocar o processo revolucionário por dentro.
Os stalinistas desempenharam o papel central na reconstrução do Estado burguês.
“O paradoxo da Espanha era trágico: enquanto os trabalhadores nas fábricas e os camponeses nos campos criavam as bases do socialismo, o governo de Frente Popular, sob comando direto dos stalinistas, usava as armas soviéticas não para avançar, mas para reconstruir a velha polícia e o velho Estado que protegeriam a propriedade privada”, escreveu Felix Morrow, jornalista e militante trotskista, autor do livro “Revolução e contrarrevolução na Espanha”.
Em outubro de 1936, o governo decretou a dissolução das milícias operárias e sua incorporação a um exército regular burguês e hierárquico, proibindo inclusive a presença de mulheres nas frentes de batalha. Recursos e armas eram frequentemente negados às frentes controladas pelo POUM e pelos anarquistas por motivos políticos. As indústrias e terras coletivizadas passaram a ser combatidas pelo governo central para serem devolvidas aos antigos proprietários.
Outro erro trágico da Frente Popular foi recusar-se a declarar a independência do Marrocos espanhol (de onde Franco retirava grande parte de suas tropas), para não contrariar os interesses imperialistas da França e da Inglaterra.
1937 – a última chance da revolução
O ponto de inflexão definitivo ocorreu em maio de 1937, quando os stalinistas lançaram uma ofensiva armada para tomar a central telefônica de Barcelona, que era controlada pelos trabalhadores anarquistas. Isso desencadeou um levante armado espontâneo da classe trabalhadora, que em poucas horas retomou o controle de quase toda a cidade. No entanto, após quatro dias as direções da CNT e do POUM apelaram pelo cessar-fogo e pelo recuo das barricadas. Essa foi a última chance de virar o jogo em prol das forças revolucionárias.
O recuo desarmou politicamente o proletariado e abriu as portas para uma repressão implacável liderada pelos stalinistas. Em junho de 1937, o POUM foi declarado ilegal e seus principais dirigentes foram encarcerados. Andrés Nin foi sequestrado, torturado e assassinado em uma prisão clandestina da polícia secreta soviética. Largo Caballero, por ter se recusado a capitanear a repressão aberta contra o POUM e a ala esquerda dos anarquistas, foi substituído por Juan Negrín, da ala direita do PSOE e totalmente alinhado aos stalinistas.
George Orwell, que lutou nas milícias do POUM, descreveu o recuo de maio de 1937 em seu livro Homenagem à Catalunha:
“O sentimento de que os trabalhadores eram os donos da situação havia desaparecido de Barcelona… Todos sabiam que os stalinistas estavam no comando e que a revolução havia sido adiada para depois da guerra – o que significava, na prática, adiada para sempre.”
A destruição da revolução selou o destino militar da própria república. Ao esmagar o entusiasmo revolucionário e as conquistas econômicas dos trabalhadores e camponeses, o governo destruiu o motor que sustentava a resistência armada. Em fevereiro de 1939, as potências “democráticas” (França e Inglaterra) reconheceram oficialmente o regime de Franco, enquanto os republicanos ainda resistiam em um terço do território. Em março, as tropas franquistas entraram em Madri. Foi o início de uma noite ditatorial que durou quase quarenta anos, marcada por dezenas de milhares de execuções sumárias e centenas de milhares presos em campos de concentração.
O que poderia ter sido feito?
A vitória do fascismo não foi uma fatalidade histórica. Os trabalhadores e camponeses espanhóis demonstraram força suficiente para vencer. Uma vitória da revolução socialista na Espanha teria alterado completamente a situação na Europa – a própria França vizinha vivia um ascenso revolucionário de greves de ocupação em 1936, porém também contido pela política da Frente Popular. Uma vitória para uma revolução socialista na Espanha e seguida na França poderia ter alterado os rumos da história e evitado a Segunda Guerra Mundial.
No entanto, as direções oficiais vacilaram nos momentos decisivos ou, no caso do stalinismo, atuaram conscientemente como a ala policial da contrarrevolução. Essa capitulação não salvou nem os stalinistas. Os setores burgueses da Frente Popular acabaram por abandoná-los e fazer as pazes com Franco antes mesmo do término formal da guerra e muitos deles foram presos e executados.
A derrota estava inscrita na própria concepção política de colaboração de classes da Frente Popular. Os ministros burgueses não eram só uma ala direita dentro da Frente Popular, eles eram representantes da classe dominante.
A revolução e guerra civil espanhola é uma enorme fonte de inspiração, mostrando a capacidade de luta e heroísmo da classe trabalhadora. Mas também mostra que vontade de lutar não é suficiente. É preciso tirar lições dos erros da política de conciliação de classes que ainda continua sendo a política dominante entre partidos de esquerda hoje. É preciso construir partidos políticos socialistas revolucionários preparados para levar a luta até às últimas consequências. Aprendendo com as ricas lições da revolução espanhola será possível derrubar esse sistema nefasto e conquistar o futuro – um mundo socialista.














