Primeiro turno na Colômbia: a urgência das ruas frente à ameaça de Espriella

Comício de Espriella

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia neste domingo (31/05) acende o sinal de alerta para a possibilidade de vitória do candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella. Espriella, que se autodenomina “El Tigre”, projeta-se como um “Bukele colombiano” (em referência ao presidente de El Salvador) e promete liberar armas, construir megaprisões, cortar gastos públicos e liberar a exploração de petróleo.

Espriella obteve 43,7% dos votos, contra 40,9% de Iván Cepeda, candidato do atual presidente de esquerda, Gustavo Petro, e do Pacto Histórico, uma frente ampla de esquerda. Os dois vão se enfrentar no segundo turno no dia 21 de junho.

É necessário mobilizar todas as forças para barrar a extrema-direita, mas também para preparar os trabalhadores para a resistência e a luta. Independentemente do resultado, a Colômbia caminha para um novo período turbulento e de confrontos sociais, no qual será fundamental tirar as lições do seu primeiro governo de esquerda e compreender os limites de tentar promover mudanças nos marcos do sistema capitalista – especialmente em um país marcado por um histórico de violência política.

Limites da estratégia de Petro

Gustavo Petro foi o primeiro presidente de esquerda na Colômbia. Ele foi eleito em 2022, após uma forte onda de lutas nos anos anteriores, incluindo greves gerais em 2019, 2021 e 2022. A poderosa greve geral de abril de 2022 barrou a contrarreforma tributária do então presidente Iván Duque e poderia ter derrubado o governo. Porém, a direção sindical fez um acordo com o presidente, apostando na via institucional e nas eleições que aconteceriam alguns meses depois.

Gustavo Petro elegeu-se propondo uma série de reformas sociais e tem sido o presidente com o perfil mais radical da última leva de governos de esquerda no continente. Porém, desde o início ele deixou claro que não iria promover mudanças estruturais, mas sim “modernizar” o capitalismo colombiano. Ele fez uma aliança com partidos burgueses como o Partido Liberal, o Partido Conservador e o Partido da U, e incluiu ministros “técnicos” e moderados para acalmar os mercados, como o economista José Antonio Ocampo na liderança do Ministério da Fazenda.

Inicialmente, Petro conseguiu implementar algumas reformas, como a da previdência e a Renda Cidadã, com transferência de renda para os mais pobres. Foi também implementada uma reforma tributária com maior taxação sobre os setores de petróleo e carvão, altas rendas e fortunas, além de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas.

Porém, rapidamente começaram os conflitos dentro do governo. Uma das principais reformas de Petro seria a da saúde, com o objetivo de tirar o controle do dinheiro público das EPS (Empresas Promotoras de Saúde — entidades privadas que administram os recursos da saúde na Colômbia). Em abril de 2023, os partidos aliados burgueses bloquearam a reforma, e Petro demitiu 7 dos 18 ministros, pondo fim à coalizão.

A partir de então, Petro tentou fazer acordos voto a voto, apostando na pressão popular e defendendo a realização de um referendo popular sobre as reformas, algo que acabou bloqueado no Congresso.

O auge das mobilizações deu-se em maio de 2025. Uma marcha de 25 mil indígenas chegou à capital, Bogotá, para se juntar ao ato gigantesco de 1º de Maio em defesa das reformas e da consulta popular. A CUT, central sindical, convocou uma greve geral de 48 horas no fim do mês, conseguindo pressionar a votação de uma reforma trabalhista que conquistou melhorias no adicional noturno e no pagamento adicional para o trabalho em domingos e feriados.

Porém, embora as mobilizações populares sejam fundamentais, elas foram limitadas a instrumentos de pressão para a tática institucional de Petro, e não para ir além das estruturas do poder. Isso fez com que várias outras reformas acabassem não sendo implementadas. Além da reforma da saúde, também não foram votadas a reforma da educação, que visava garantir o ensino superior gratuito, e a transição energética defendida por Petro. Ele propunha paralisar novos contratos para ampliar a exploração de petróleo e gás – que, junto com o carvão, responderam pela metade das exportações do país –, porém sem tocar no poder das grandes multinacionais envolvidas.

A estratégia de Petro foi criticada até por sua vice, Francia Márquez, a primeira mulher negra no cargo no país (e a terceira nas Américas!). Ela foi contra a inclusão de políticos tradicionais de centro-direita no governo e, quando Petro rompeu com a coalizão em abril, Francia esperava que o governo se voltasse para as bases comunitárias. No entanto, a estratégia de Petro foi a de continuar negociando “voto a voto” com parlamentares tradicionais e focar a narrativa em sua própria figura presidencial.

Questão agrária e violência

A questão agrária é fundamental no país. Ela está ligada às estruturas de poder e é o fator central no conflito que há décadas perdura nas zonas rurais. A concentração de terra é gigante: 1% das propriedades controla 80% das terras produtivas. Os grandes latifundiários detêm um imenso poder político, contando com uma poderosa bancada ruralista no Congresso.

As zonas rurais foram palco de conflitos durante décadas entre guerrilhas de esquerda, o Exército, forças paramilitares criadas pelo Estado, o narcotráfico, donos de terras e forças de direita.

Esses conflitos levaram ao deslocamento de milhões de camponeses, indígenas e afrodescendentes. Segundo o Registro Único de Vítimas (RUV) do governo colombiano, 9 milhões de pessoas foram deslocadas historicamente e, segundo relatórios recentes, cerca de 7 milhões permanecem nessa situação. Muitas delas migraram para as periferias das grandes cidades, sobrevivendo no trabalho informal. Houve também centenas de milhares de mortes nesses conflitos. Segundo o relatório da Comissão da Verdade, publicado no final de 2022, os grupos paramilitares foram responsáveis por 45% das mortes, em comparação com 27% causadas por grupos guerrilheiros e 12% por agentes do Estado (que muitas vezes agiam em conjunto com os paramilitares).

O país também foi marcado pelo assassinato de ativistas de esquerda, defensores dos direitos humanos e jornalistas. O pai de Iván Cepeda, Manuel Cepeda – senador e dirigente do partido comunista  –, foi um dos milhares de mortos na onda de assassinatos contra militantes de esquerda em 1994.

Nos anos 2000, houve um processo de desarmamento dos grupos paramilitares, mas este foi parcial, e hoje muitos desses grupos estão organizados no “Clã do Golfo”. Esse grupo criminoso está presente em um terço dos municípios do país, controla grandes extensões de terra e expandiu seus negócios para além do narcotráfico. Eles atuam no garimpo ilegal de ouro, no tráfico de madeira, cobram taxas para qualquer atividade nas áreas que controlam e extorquem migrantes que atravessam o Tampão de Darién em direção aos EUA.

Após um longo período de negociação, as FARC, que eram o principal grupo guerrilheiro, assinaram um acordo de desarmamento em 2016. Contudo, dissidências das FARC e outros grupos, como o ELN, mantiveram suas armas e continuaram a lutar pelo controle de territórios e mercados, perdendo qualquer caráter político de outrora. Apesar da política de “Paz Total” de Petro – de buscar acordos de desarmamento inclusive com o Clã do Golfo –, os conflitos não só se mantiveram, como se agravaram recentemente em uma contínua guerra civil interna entre os próprios cartéis e facções. Segundo um relatório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR), mais de 300 mil pessoas foram forçadas a se deslocar em 2025, mais que o dobro do ano anterior.

Nesse contexto, a política de reforma agrária de Petro tem sido totalmente insuficiente. Sua estratégia baseou-se na compra de terras ociosas a preço de mercado e na formalização do direito de camponeses, indígenas e comunidades afrodescendentes à terra, mas sem garantir reais condições de apoio econômico ou segurança. Além disso, não arranhou a estrutura de poder dos grandes latifundiários, que continuam sendo uma força poderosa e intocável.

A falta de segurança tem sido um fator alarmante também nas cidades, com o aumento de sequestros. O tema da segurança tornou-se o motor central para o crescimento do apoio a Espriella. Ele promete implementar uma ofensiva aérea em seus primeiros 90 dias no cargo, respaldada pelos Estados Unidos e por Israel, para acabar com os cartéis da cocaína. O crime organizado está totalmente embricado no Estado colombiano e essa política só vai aumentar a repressão, sem resolver o problema do narcotráfico. A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã já mostrou os limites de tentar impor uma nova realidade apenas pela via aérea. O “combate ao crime organizado” será o pretexto que Espriella utilizará para aumentar a repressão contra qualquer oposição, nos moldes de Bukele, e é preciso estar preparado para enfrentar um possível governo de extrema-direita desde o primeiro dia.

Espriella tem se projetado como “o homem de Trump na Colômbia”, mas, curiosamente, Trump ficou calado no primeiro turno e nos primeiros dias após o primeiro turno até finalmente declarar apoio a Espriella, enquanto Milei na Argentina e Noboa no Equador comemoram abertamente. Ao mesmo tempo, Trump tem dado continuidade à política de bombardeio de embarcações supostamente ligadas ao tráfico no Caribe e no Pacífico, perto da Colômbia, com o número de mortos já ultrapassando 200.

Iván Cepeda repete os erros de Petro

Cepeda promete dar continuidade às reformas de Petro, mas mantendo a mesma estratégia de buscar mudanças dentro do sistema que já se mostraram insuficientes. Sua aliança eleitoral, “Aliança pela Vida”, conta com uma série de movimentos sociais, mas no Congresso as principais forças são a Alianza Verde, de centro-esquerda, e o “En Marcha”. O En Marcha é uma pequena dissidência dos liberais liderada por Juan Fernando Cristo que, apesar do peso mínimo no Congresso, espera atrair dissidências de outros partidos de centro.

Apesar do resultado positivo nas eleições parlamentares de março, onde o Pacto Histórico saiu como o maior partido no Senado e na Câmara de Representantes, a aliança por trás de Cepeda tem apenas cerca de um terço dos mandatos. Não é possível qualquer real avanço social nos marcos do capitalismo em crise. A solução tem que vir por fora das instituições do sistema, na luta independente da classe trabalhadora, dos camponeses e dos povos indígenas.

Seja quem for o vencedor no segundo turno, a Colômbia caminha para um período turbulento. É necessário preparar-se para as lutas, resgatando as lições dos últimos anos e construindo uma alternativa socialista preparada para levar as mobilizações para além dos limites desse sistema podre.

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