Bolívia – Derrubar Rodrigo Paz com a força das ruas!

Que a luta de massas na Bolívia seja exemplo para o resto da América Latina!
A verdadeira rebelião popular em curso na Bolívia contra o governo de Rodrigo Paz e suas políticas simboliza o grande desafio da classe trabalhadora e dos povos oprimidos na América Latina nesse momento – enfrentar nas ruas, com ações de massas, e não apenas nos processos eleitorais, a ascensão da extrema direita e a ofensiva imperialista de Trump na região. O desfecho dessa batalha definirá os rumos da Bolívia daqui em diante, mas também influenciará a correlação de forças políticas e sociais em toda a região.
Não houve “lua de mel” para a direita em sua volta ao poder na Bolívia. Pouco mais de seis meses após sua posse como presidente, o direitista Rodrigo Paz Pereira não teve um minuto de paz e a Bolívia vive uma profunda crise social e política. A renúncia de Paz é exigida pelo movimento de massas nas ruas de La Paz, nas mobilizações indígenas e camponesas e nos mais de 50 pontos de bloqueio de estradas e caminhos em várias partes do país.
Logo nos primeiros dias de mandato, Paz decidiu aplicar de uma só vez seu ‘pacote de maldades’. Baixou um decreto que eliminava a subvenção sobre os hidrocarbonetos, provocando uma alta explosiva nos preços dos combustíveis (86% na gasolina e 160% no diesel). Além de outros ataques, o decreto flexibilizava controles legais e ambientais e autorizava o governo a realizar contratos confidenciais com investidores privados nacionais e estrangeiros em setores estratégicos como mineração e energia.
A reação do movimento de massas no início do ano, com uma paralisação nacional convocada pela COB e dezenas de bloqueios de estradas, obrigou o governo a sinalizar um recuo. O decreto original foi revogado e o governo prometeu negociar com os movimentos sociais um novo decreto. Embora o governo seguisse com a intenção de manter sua política de ataques, isso serviu para que as direções do movimento também recuassem.
Mas foi por pouco tempo. Em abril, comunidades indígenas e camponesas, principalmente da região amazônica da Bolívia, passaram a se mobilizar com bloqueios de rodovias e uma longa marcha em direção a La Paz exigindo a revogação da chamada Lei Marinkovic (Lei 1720). A lei reverte conquistas históricas de camponeses e indígenas, permite a reclassificação das pequenas propriedades rurais tornando-as passíveis de embargo por dívidas e outras razões, servindo aos interesses dos grandes latifundiários que ambicionam o controle dessas terras.
No mesmo período, sindicatos e federações do transporte público denunciaram que o governo estava vendendo “gasolina basura” aos usuários, uma gasolina adulterada ou de má qualidade que já havia danificado milhares de veículos e causado enormes prejuízos. O movimento pela compensação dos danos e perdas sofridas também ajudou a alimentar a luta geral.
Junto com isso, várias categorias de trabalhadores (educação, saúde, mineiros, fabris) saíram à luta por reposição de perdas e reajuste salarial, o que levou a direção da COB a realizar um “Cabildo” (assembleia) nacional no dia 1º de maio com milhares de trabalhadores participando e que decidiu pela convocação de uma greve nacional por tempo indeterminado pelas reivindicações dos diferentes setores em luta.
Ainda em maio, o governo anunciou as primeiras movimentações no sentido de reformar a Constituição de 2009 de forma a eliminar o que consideram obstáculos para os investimentos estrangeiros. Na prática, o objetivo é retirar as conquistas sociais e políticas obtidas pela luta de massas e garantir os interesses dos grandes empresários e do imperialismo.
O movimento cresceu e se radicalizou ao confrontar-se com a dura repressão por parte do governo e sua recusa em atender as reivindicações de trabalhadores, camponeses, indígenas e do povo pobre boliviano. O movimento reivindicatório assumiu elementos de uma verdadeira rebelião popular.
A dura repressão durante a marcha de massas em El Alto no dia 16 de maio resultou em pelo menos quatro mortos. A mobilização seguiu até La Paz onde os enfrentamentos com a polícia a partir de 18 de maio se deram nas ruas e no entorno da Plaza Murillo, onde fica o palácio de governo. Nesse momento, nas mobilizações em La Paz, nos mais de 50 bloqueios em pelo menos sete departamentos, a principal bandeira de luta passou a ser a exigência da renúncia de Rodrigo Paz e a queda do governo.
Paz: um governo a serviço dos grande empresários e do imperialismo
Rodrigo Paz tomou posse em novembro passado como o primeiro o primeiro presidente de direita eleito na Bolívia depois de 18 anos anos de governos do MAS (Movimento Al Socialismo), encabeçados por Evo Morales (2006 a 2019) e Lucho Arce (2020 a 2025). Antes de Rodrigo Paz, em 2019/20, um governo de extrema direita, encabeçado pela autoproclamada presidente Jeanine Áñez, foi estabelecido a partir de um golpe de Estado, mas novas eleições foram convocadas em 2020 a partir da pressão do movimento de massas.
Rodrigo Paz elegeu-se em 2025 aproveitando-se do enorme desgaste do governo de Lucho Arce e do MAS em geral. A crise do MAS que levou ao colapso dessa força política é resultado direto de sua incapacidade de aprofundar um processo de transformações demandado pelo movimento de massas desde as grande lutas com potencial revolucionário do início dos anos 2000, como a guerra da água (2000), a guerra do gás (2003) e a radicalização do movimento de massas como resposta à tentativa de golpe da extrema direita da ‘media luna’ boliviana em 2008.
O campo político considerado “progressista” e que durante anos se organizou em torno do MAS foi para o processo eleitoral completamente fragmentado e desmoralizado. A ruptura política entre Evo Morales e o então presidente Lucho Arce refletiu uma disputa pelo controle do partido e a candidatura presidencial e foi alimentada também pela crise e as políticas de ajuste e ataques do então presidente.
Evo Morales, impedido de concorrer, formou seu próprio partido (Evo Pueblo) e chamou voto nulo nas eleições. Com outras divisões no MAS acontecendo (como a do ex-presidente do senado Andrónico Rodríguez que obteve 8,5% dos votos na disputa presidencial), o MAS foi praticamente dizimado nas eleições. Seu candidato a presidente teve apenas 3% dos votos e o partido perdeu todos os assentos que tinha no Senado e o número de deputados caiu de 75 para apenas dois.
Na disputa do segundo turno entre dois candidatos de direita, Rodrigo Paz, optou por construir um perfil mais pragmático e moderado diante do ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, que adotou uma linha de combate frontal a tudo que representava os anos anteriores do MAS, incluindo as conquistas sociais obtidas com luta. Ambos, porém, representavam igualmente os interesses dos grandes empresários, do agronegócio e do imperialismo estadunidense no país.
Tendo vencido a eleição, Rodrigo Paz passou a aplicar a receita típica de cortes, privatizações, isenções tributárias aos super ricos, retirada de direitos, etc. Diante de uma resposta popular e dos trabalhadores muito mais forte do que esperava, Paz tentou combinar repressão com cínicos acenos ao diálogo. Paz demitiu o ministro do trabalho e promoveu mudanças no governo, além de criar um conselho econômico e social supostamente para dialogar com setores da sociedade civil.
O que prima, no entanto, é a repressão brutal na capital e nos departamentos, com mortos, feridos, prisões e perseguição contra os movimentos sociais. Há ordens de prisão contra vários dirigentes do movimento, incluindo Mario Argollo, secretário executivo da COB, que está na clandestinidade nesse momento. Uma poderosa campanha midiática está em curso para criminalizar os movimentos sociais por estarem provocando uma “crise humanitária” nas cidades com os bloqueios de rodovias e a “desordem” provocada.
Esse foi o tom adotado por uma “declaração conjunta sobre a situação na Bolívia” assinada por presidentes de direita e extrema-direita da América Latina em apoio a Rodrigo Paz. Na declaração, os presidentes da Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru condenam os movimentos sociais bolivianos nitidamente temendo a repetição de uma situação semelhante em seus próprios países.
Esse é especialmente o caso do Chile, onde os primeiros dias de governo do ultradireitista José Antonio Kast também foram marcados por fortes lutas estudantis e de outros setores da classe trabalhadora contra as medidas de ataque do novo governo. O medo de uma reedição da explosão social de 2019 está no ar no Chile e em outras partes e isso preocupa toda a direita latino-americana e o imperialismo estadunidense.
O vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, cinicamente denunciou os movimentos na Bolívia como uma tentativa de golpe de Estado. O titular da pasta, Marco Rubio, ecoou a posição do chamado “Escudo das Américas”, a confraria de lambe botas de Donald Trump e do imperialismo estadunidense, que, além da cínica preocupação “humanitária” causada pelos bloqueios, buscou justificar a repressão acusando de narcotraficantes os movimentos sociais.
Rodrigo Paz está pressionado pela força dos movimentos pela base mas também pela insatisfação daqueles setores da direita boliviana que querem uma postura mais dura e firme. Tuto Quiroga exigiu do governo a decretação de estado de sítio e mais repressão. Organizações protofascistas como o Comitê Cívico de Santa Cruz ameaçaram com ações violentas contra o movimento se os bloqueios não forem suspensos. O próprio vice-presidente, Edman Lara, um ex-policial populista de extrema direita, que já estava em conflito com Rodrigo Paz, agora distancia-se ainda mais do presidente de forma oportunista.
A crise política e divisões na cúpula dominante reflete a força que vem de baixo. Mas essa força precisa de uma organização, estratégia e programa à altura do momento histórico.
Potencializar a força do movimento de massas com uma estratégia e programa socialistas
A direita acusa o movimento de massas atual de ser uma ação orquestrada por Evo Morales, que hoje vive refugiado na região do Chapare para se proteger das condenações judiciais que tem contra si. Mas o movimento é muito mais do que isso, tem raízes mais profundas na tradição de luta do povo boliviano, nas suas iniciativas e organizações de base e na enorme insatisfação popular com a situação atual e o governo de Rodrigo Paz.
A direção da COB e das principais organizações camponesas e indígenas já demonstraram que, sem a pressão da base, tendem a conduzir negociações e fazer acordos que acabam frustrando aqueles que hoje estão na linha de frente da luta. Mas essa base ativa de trabalhadores, camponeses e povos originários também já demonstrou que é capaz de empurrar suas organizações para lutas radicalizadas que vão além do que pretendiam os dirigentes.
Os últimos dias demonstraram que é possível derrubar o governo de Rodrigo Paz e lutar por uma alternativa dos trabalhadores e dos povos oprimidos bolivianos.
Para isso, é decisivo que se fortaleça a paralisação da produção e distribuição de mercadorias, consolidando a greve geral por tempo indeterminado e organizando-a pela base. Comitês de trabalhadores podem assumir a responsabilidade pela organização democrática da luta na base, incluindo a paralisação das atividades econômicas e os bloqueios de estradas, e que somente eles, de forma independente, organizem o abastecimento para os setores populares necessitados. É preciso asfixiar o grande capital e construir a solidariedade entre os oprimidos e explorados.
O centro da luta é a derrubada desse governo e com ele de suas políticas anti-trabalhadores e anti-populares. Derrubar Rodrigo Paz implica também em repudiar qualquer saída de continuidade institucional, seja através do vice-presidente ou uma saída com base na Assembleia Legislativa dirigida pela direita. Partindo da organização da luta pela base é possível que se estabeleçam as bases para uma alternativa de governo baseadas nas organizações da classe trabalhadora, camponeses, povos originários e todo o povo oprimido.
É preciso aprender as lições dos limites, erros e traições dos governos anteriores do MAS e, com base na luta de massas, levantar um programa anticapitalista e socialista como alternativa à crise na Bolívia e no conjunto da América Latina.
Uma vitória dos trabalhadores, camponeses e povos originários e oprimidos na Bolívia contra esse governo representará um enorme estímulo para a luta contra a ascensão da extrema direita em toda a América Latina. Essa é a base para se rechaçar a intervenção imperialista dos EUA sobre a Venezuela e as ameaças cada vez mais concretas sobre Cuba. Em todos esses casos o caminho prioritário é a luta de massas e um programa socialista.















