Por que a extrema direita segue sendo uma ameaça?

Mesmo após a condenação e prisão de Jair Bolsonaro, a extrema direita segue sendo uma ameaça e a perspectiva que se abre é de um cenário eleitoral apertado em 2026. É importante um esforço para compreender as razões para isso.
A extrema direita passou a ser parte da paisagem política no Brasil e no mundo. O sistema capitalista e o modo de acumulação neoliberal entraram em crise e não garantem os lucros da burguesia. Agora recorrem a mais militarismo, guerras, imperialismo e autoritarismo. Neste cenário, a extrema direita se apresenta como uma alternativa à qual a elite não sente vergonha de recorrer. O retorno de Trump à presidência dos EUA é a prova disso.
Por aqui, existe um conservadorismo tradicional que serve de base para o reacionarismo, baseado em uma economia exportadora de bens primários e parasitada por um capital financeiro rentista. E nunca será excessivo lembrar a raiz escravocrata de toda esta estrutura.
Mudar esta realidade é possível através da luta política. Mas, parte do sucesso da extrema direita explica-se por como esta luta foi realizada até aqui. Frente ao sofrimento das massas causado por décadas de neoliberalismo, os governos do PT não apresentaram uma alternativa, no máximo reduzindo seus efeitos mais nocivos, mas aplicando a sua estrutura essencial. No momento da crise, a extrema direita se apresentou como uma alternativa “antissistêmica”. Por mais hipócrita que seja, termina por convencer, na medida em que a esquerda passa a ser confundida com os partidos da ordem.
Mesmo com tudo isso, foi possível impôr derrotas ao bolsonarismo no último período. Acima de tudo, uma derrota eleitoral, mas também o impedimento de uma tentativa de golpe e o julgamento dos golpistas. Por que essas derrotas não fizeram a extrema direita recuar definitivamente?
É preciso a ação direta das massas para derrotar a extrema direita
Até o momento, este combate foi realizado basicamente no campo da luta institucional. Primeiro, priorizou-se a luta eleitoral. Certamente, derrotar Bolsonaro nas urnas era uma tarefa incontornável para a classe trabalhadora e os setores oprimidos. Mas isto pode ser feito de maneira a apoiar-se na ação direta do movimento de massas, dando-lhe protagonismo. As principais direções de organizações populares do Brasil fizeram o contrário: canalizaram todas as mobilizações surgidas no movimento para o apoio passivo à candidatura de Lula em 2022.
Com isso, foi possível manter o controle sobre o movimento impedindo que, na luta contra a extrema direita, as forças populares exigissem até mesmo maiores conquistas de direitos. Isso serviu à conformação de uma tática eleitoral de Frente Ampla com setores de direita não contemplados pelo bolsonarismo. O resultado é um governo em eterna busca por conciliação com as figuras mais nefastas da direita fisiológica, mesmo sem sucesso. As poucas mobilizações que acontecem são transformadas em atos de apoio ao governo apenas para pressionar por melhores condições de negociação com o “Congresso inimigo do povo”.
No poder, nenhuma medida de mobilização efetiva para enfrentamento político contra a extrema direita foi tomada. Pelo contrário, o governo tenta trabalhar de forma cooperativa com os governos estaduais do campo bolsonarista! Basta ver o apoio do BNDES às privatizações de Tarcísio de Freitas em São Paulo.
Posteriormente, o combate à extrema direita e ao golpismo foi entregue ao judiciário. Dessa maneira, a necessária e justa condenação e prisão de Bolsonaro e os demais golpistas aconteceu por fora da pressão do movimento de massas. O STF selecionou quais de suas frações poderiam disputar as eleições de 2026. Mas o campo político em si não foi esvaziado. Aliás, sequer o próprio Bolsonaro perdeu completamente seu prestígio, na medida em que pôde definir pela candidatura à presidência de seu próprio filho Flávio.
É preciso uma estratégia de luta para fazer a extrema direita recuar
Para derrotar a extrema direita é necessário apostar nas lutas, mas também mostrar uma alternativa à conciliação de classes e à defesa das instituições podres desse sistema. Isso precisa incluir também lutas que enfrentam o próprio governo quando ele implementa ataques neoliberais. Por isso a luta dos povos indígenas contra a privatização dos rios foi tão importante. Isso deve ser seguido pela luta contra os cortes e ataques do arcabouço fiscal e pela redução da jornada com o fim da escala 6×1. Assim as mobilizações podem fortalecer uma alternativa socialista e abrir o caminho para que a extrema direita volte para os esgotos de onde não deveria ter saído.















