Feminismo socialista na linha de frente contra o militarismo

Protesto de mulheres africanas contra guerra

A disputa interimperialista impulsiona uma corrida armamentista, sustentada por investimentos públicos cada vez mais elevados em tecnologia bélica, bases militares e infraestrutura de guerra. Esses recursos decorrem da retirada sistemática de orçamentos sociais e da reorganização das prioridades econômicas do Estado em favor do complexo industrial-militar. 

As mulheres ocupam posições centrais no trabalho de cuidado, na economia informal e nos setores mais precarizados do mercado de trabalho e pagam um preço particularmente alto nesse cenário. As diversas violências de gênero encontram terreno fértil e são alimentadas por lideranças autoritárias que combinam militarismo, conservadorismo reacionário e ataques sistemáticos aos direitos conquistados.

Clara Zetkin, no início do século XX, já alertava que não se poderia conceber um movimento de massas em tempos de guerra sem a participação ativa das mulheres trabalhadoras, justamente porque elas suportam simultaneamente as cargas da exploração no trabalho e os impactos sociais das guerras. Essa perspectiva é mais atual que nunca!

Em 2024 foi registrado o maior número global de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. O efeito é direto sobre mulheres e meninas, ampliando desigualdades já existentes e violências. Na Ucrânia, a violência doméstica aumentou 36% desde o início da guerra.

Estupro é usado como arma. Foi relatado pela ONU aumento de 87% nos casos de violência sexual em zonas de conflito, em comparação a 2022. Além disso, a migração forçada tem elevado o tráfico humano, exploração sexual e trabalho análogo à escravidão. As mulheres e crianças representam aproximadamente 75% da população refugiada ou deslocada.

A violência se manifesta também na negação de direitos básicos e na redução das condições materiais de sobrevivência. A insegurança alimentar, agravada por cercos militares, destruição de infraestruturas e bloqueios econômicos, atinge ainda mais as mulheres responsáveis pelo sustento familiar. Escassez de alimentos, água potável e medicamentos, agrava tensões e riscos cotidianos.

Na Faixa de Gaza, organizações humanitárias relataram a destruição ou funcionamento parcial da maioria dos hospitais e maternidades. Estimam uma queda de cerca de 40% nos nascimentos registrados em determinados períodos, associada à impossibilidade de acesso a serviços obstétricos, à desnutrição materna e à exposição contínua a bombardeios. Mulheres grávidas enfrentaram partos sem assistência adequada, aumento de abortos espontâneos e risco elevado de mortalidade materna. 

Corrida armamentista e superexploração

Em 2024, as despesas militares mundiais alcançaram aproximadamente US$2,718 trilhões, registrando o maior aumento anual desde o fim da Guerra Fria e consolidando uma década consecutiva de crescimento. Mesmo em países que não estão diretamente envolvidos em combates, o aumento dos gastos militares pressiona orçamentos nacionais e legítima agendas de austeridade. 

Enquanto recursos são direcionados à produção de armas, sistemas públicos de cuidado enfrentam subfinanciamento. Saúde, educação, assistência social e políticas de enfrentamento à violência doméstica sofrem cortes, congelamentos ou estagnação. 

As mulheres compõem a maioria tanto entre as usuárias quanto entre as trabalhadoras desses serviços, enfrentando a redução de direitos, sobrecarga, salários rebaixados e instabilidade. Além de, em muitos casos, servirem como força de trabalho precarizada nas próprias cadeias produtivas da indústria bélica. 

A precarização do trabalho, combinada com a retração das redes de proteção social, são fatores que expõem essas mulheres a condições ainda mais severas de exploração e insegurança.

A sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado se aprofunda. As mulheres realizam cerca de 76% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo, segundo dados da OIT.  Quando creches, escolas, hospitais e equipamentos públicos são precarizados ou tornam-se inacessíveis, essa responsabilidade retorna ao âmbito doméstico. 

Isso resulta em maior dependência econômica, redução da autonomia e intensificação de situações de vulnerabilidade, incluindo a violência doméstica.

Uma escalada violenta

Combinada à escalada global do militarismo temos a adoção de uma agenda reacionária, que amplia nacionalismo xenófobo, ataque a direitos sociais e expansão de políticas autoritárias em vários países. 

Nos Estados Unidos, Trump intensificou desmontes de políticas de proteção às vítimas de violência de gênero, cortes em abrigos e ataques a pessoas trans. A atuação do ICE (combatida  pelo povo nas ruas em Minneapolis!) mostrou a criminalização sistemática da migração, com detenções em massa, separação de famílias e deportações aceleradas. 

Enquanto isso, os arquivos de Epstein escancaram a cumplicidade de setores do establishment com redes de exploração sexual de mulheres e meninas pobres, evidenciando a hipocrisia das elites.

Na China, segunda grande potência da disputa global, há um fortalecimento de restrições a organizações feministas independentes e repressão a ativistas de direitos trabalhistas e de gênero. Nos últimos anos, campanhas governamentais voltadas ao estímulo da natalidade vieram acompanhadas de discursos oficiais que reforçam papéis tradicionais das mulheres.

 Na América Latina o conservadorismo reacionário amplia suas bases. Javier Milei, na Argentina, combina ultraliberalismo econômico radical com ataques às políticas de gênero e desmontes das estruturas de proteção social. No Brasil, o bolsonarismo marcou uma escalada de discursos militaristas, negacionistas e de defesa dos valores “familiares”, contra os direitos das mulheres e pessoas LGBTQIA+.

Dentro da União Europeia, governos e setores da direita também avançam os ataques. Recentemente, na Letônia, a direita passou a defender a retirada da Convenção de Istambul (um dos principais instrumentos europeus de combate à violência contra mulheres) e questionar a necessidade de categorias legais e estatísticas sobre violência doméstica e agressões contra pessoas LGBTQIA+. Essa decisão foi barrada por milhares de mulheres nas ruas!

Resistência e luta

A resposta às ofensivas não virá das instituições do próprio sistema. Mudanças reais emergem da mobilização independente da classe trabalhadora e dos setores oprimidos, transformando indignação em organização e luta coletiva.

A resistência à violência de gênero e ao autoritarismo segue viva em diferentes partes do mundo. Na África do Sul, onde 15 mulheres são assassinadas por parceiros todos os dias, uma greve nacional denunciou o aumento de 33% nos casos de violência no último ano. Na França, após anos de mobilização feminista e o caso Gisèle Pelicot, foi aprovada uma legislação sobre  consentimento. 

Na Argentina, grandes protestos tomaram as ruas após o assassinato brutal de três jovens mulheres. No Irã, a juventude e as mulheres protagonizaram revoltas que desafiaram o regime com enorme coragem, evidenciando o potencial transformador das massas quando entram em cena. A luta das mulheres e dos trabalhadores no Irã é o que pode impor transformações positivas e não uma agressão imperialista promovida por Trump e Netanyahu.

Esses são exemplos que revelam força e disposição de luta. Mas também encaram limites nas últimas décadas. A ausência de organização enraizada na classe trabalhadora e de direção política clara acaba fragmentando movimentos, que desviam para saídas institucionais ou são submetidos à repressão. 

A indignação, por si só, não é suficiente para derrotar esses ataques. Por isso, é necessária uma resposta internacionalista da classe trabalhadora. Derrubar o sistema que produz e se alimenta do militarismo, da exploração e das opressões é uma tarefa concreta. É esse o chamado das mulheres da ASI!

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