Escola Internacional da ASI se reúne em um mundo de crises e guerras

De 25 a 30 de julho, mais de cem marxistas se reuniram em Kiel, na Alemanha, na costa do Báltico, para a Escola Internacional da Alternativa Socialista Internacional (ASI). Os participantes vieram do Brasil, Grã-Bretanha, Canadá, Alemanha, Nigéria, Suécia, Taiwan, Estados Unidos e outros países. Dezenas de outras pessoas participaram pelo Zoom, incluindo membros e simpatizantes de Quebec, Turquia, Sri Lanka, França e Chile.

A Escola Mundial da ASI de 2026 foi marcada por um nível muito alto de participação em todas as discussões. Tanto novos membros quanto marxistas veteranos estavam ansiosos para debater a situação mundial em rápida mudança, começando com uma Plenária que discutiu sobre as Perspectivas Mundiais intitulada A ofensiva reacionária de Trump aprofunda as crises capitalistas – batalhas de classe à vista. Em suas introduções, Anna Barnett e André Ferrari, membros da Comissão Política Internacional (CPI) da ASI, destacaram o número de eventos históricos que ocorreram desde a Escola do ano anterior.

Até agora, neste ano, testemunhamos o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo reacionário de Trump e sua desastrosa guerra contra o Irã, mas também a bem-sucedida greve geral que forçou o ICE a recuar de sua ocupação militarizada de Minnesota. Na Grã-Bretanha, o ano passado testemunhou a ascensão promissora e o colapso vergonhoso do Your Party, enquanto na Bolívia, lutas em massa de trabalhadores e camponeses se opuseram aos aumentos nos preços dos combustíveis e outros ataques. O ritmo vertiginoso dos acontecimentos não é casual, mas sim um sintoma das mudanças tectônicas subjacentes que ocorrem na sociedade, à medida que o mundo se adapta a uma nova era de conflito global interimperialista.

A Alternativa Socialista Internacional é única na esquerda revolucionária por nossa compreensão de que o eixo central em torno do qual giram os eventos globais neste período é a rivalidade interimperialista entre os Estados Unidos e a China – e que essas são duas potências imperialistas em declínio. Ambas superpotências rivais, assoladas pela crise, temem um conflito direto no curto prazo e buscam manter o status quo enquanto combatem a oposição interna. Mas, como tigres encurralados, isso também significa que tanto esses quanto outros regimes em declínio ao redor do mundo estão desesperados e propensos a ações precipitadas e extremas.

Isso já levou a uma nova era de guerra e preparação para a guerra, com o maior número de conflitos armados em andamento desde a Segunda Guerra Mundial. Esses conflitos, por sua vez, intensificam a corrida armamentista e o militarismo em escala global, com governos em todo o mundo promovendo a militarização em preparação para a guerra. A propaganda de guerra está soando o alarme sobre possíveis novas frentes na Europa, no Oriente Médio e no Pacífico Ocidental. Como parte integrante da militarização, a classe dominante está se deslocando ideologicamente para a direita, abraçando movimentos de extrema direita que clamam pelo retorno aos “valores tradicionais” e tentando reverter as conquistas dos povos oprimidos, que foram duramente conquistadas por meio da luta.

Mas a preparação para a guerra entre as potências imperialistas entra em contradição  com a oposição instintiva à guerra por parte da classe trabalhadora internacional. Assim, a classe dominante está voltando-se para o nacionalismo, que pode ser usado para vender a ideia da necessidade de militarização, bem como para rotular como “anti patrióticas” as greves e lutas contra a opressão.

No entanto, trabalhadores e jovens estão mais uma vez testando sua força, com movimentos de massas desafiando ou até mesmo derrubando governos na Europa Oriental, em todo o continente africano e na América Latina.

Per-Åke Westerlund, outro membro da CPI da ASI, deu uma resposta inspiradora à discussão. Ele enfatizou que a história tem provado repetidamente que a extrema direita não pode ser derrotada por meio de alianças com setores do establishment pró-capitalista. Essa estratégia sempre leva ao retorno da extrema direita ainda mais forte a longo prazo. A única vez em que a extrema direita foi derrotada foi por uma frente única de forças independentes da classe trabalhadora que lutavam por um programa que atendesse às necessidades da classe trabalhadora hoje e que assumisse as reivindicações por direitos democráticos e pela libertação de todos os povos oprimidos.

Apelo financeiro que superou a meta

Um dos destaques da escola foi o apelo financeiro – que superou a meta estabelecida – apresentado por Caroline Vincent, da seção da Inglaterra, País de Gales e Escócia, e por Rosemary Wonnell, dos EUA. Os militantes se comprometeram a fazer doações pessoalmente e pelo Zoom, alcançando o total de contribuições de 42.218,06 euros, com mais doações a caminho, já que a campanha continua nas seções nacionais. Os incríveis sacrifícios financeiros que os camaradas se dispuseram a fazer demonstram o nível de confiança política que depositam em nossa análise e em nosso programa, bem como em nosso objetivo de construir a internacional socialista revolucionária tão necessária nesta era perigosa e volátil da história mundial. Considere você também a possibilidade de fazer uma doação para apoiar o trabalho da ASI em todo o mundo.

Mais de uma dúzia de comissões

Ao longo de dois dias inteiros, os participantes se dividiram em grupos menores para discussões focadas em tópicos específicos. Essas discussões foram organizadas por tema, começando com as comissões sobre guerra e imperialismo. Essas comissões discutiram a teoria marxista do imperialismo e um programa contra a guerra e o militarismo, as guerras em curso e o genocídio no Oriente Médio, bem como a ameaça de conflito armado em torno de Taiwan e na região do Pacífico Ocidental.

As comissões sobre as “ondas rosa” na América Latina e as crises profundas na África aprofundaram a discussão sobre a situação em regiões na vanguarda da exploração neocolonial e da competição interimperialista. Os participantes compartilharam experiências e lições do Your Party, na Grã-Bretanha, e do Die Linke, na Alemanha, onde militantes da ASI têm atuado na luta por construir forças políticas independentes e combativas da classe trabalhadora.

As comissões sobre história e teoria incluíram o estudo da revolução desviada do Irã de 1979 e o papel da greve geral na luta pelo poder dos trabalhadores. Particularmente relevante foi a discussão sobre um programa marxista para combater a catástrofe climática, enquanto ondas de calor recordes assolavam o mundo, mesmo enquanto os camaradas realizavam essas discussões. As comissões sobre construção partidária discutiram diferentes aspectos da formação de uma organização política socialista revolucionária, desde o desenvolvimento de nossos jornais e publicações, passando pela gestão financeira, até o trabalho dos marxistas nos sindicatos.

Também realizamos duas comissões noturnas. A primeira delas foi uma reunião de camaradas mulheres e trans sobre a ameaça aos direitos das mulheres e das pessoas trans e como o movimento feminista deve responder a isso. A reunião incluiu uma discussão sobre a ofensiva global da extrema direita contra os direitos reprodutivos, os ataques aos direitos das pessoas trans, a ascensão da “machosfera”, bem como sobre a análise feminista socialista da ASI, que pode ajudar a construir um contrapeso a esses ataques. Realizamos também uma reunião de jovens sobre a construção do trabalho juvenil da ASI hoje, na qual jovens militantes trocaram experiências de trabalho entre estudantes e jovens trabalhadores em todo o mundo. Ambas as reuniões contaram com participação entusiástica e destacaram a importância de que as pessoas oprimidas e a juventude se desenvolvam como líderes dentro do movimento socialista.

Construindo as forças do marxismo revolucionário

A Escola foi encerrada com uma Plenária conduzida por Connor Rosoman, do Comitê Internacional, sobre que tipo de organização é necessária para levar adiante as tarefas históricas da classe trabalhadora internacional nesta era e como ela deve ser construída. Em primeiro lugar, tal organização deve ser construída com base na clareza política sobre as tendências principais do desenvolvimento do capitalismo global e da luta de classes internacional. A discussão regular das Perspectivas Mundiais por todos os membros da ASI é uma parte importante disso. O último Congresso Mundial da ASI também comprometeu a direção internacional a elaborar um novo “Programa da Internacional” por escrito, a fim de definir claramente as tarefas da liderança da classe trabalhadora revolucionária em nossa época. Esse trabalho apenas começou e será continuado.

Embora as lutas de massas da classe trabalhadora sejam mais fortes e frequentes agora do que no auge da era neoliberal, uma peça-chave que ainda falta é o rearmamento político da classe trabalhadora. Uma fraqueza fundamental dos heróicos movimentos de massas no último período tem sido a ausência de compreensão da necessidade de organização e direção política em torno de um programa revolucionário claro. Isso só pode ser superado pela experiência de luta e pela intervenção de revolucionários conscientes e determinados, que defendem a necessidade de a classe trabalhadora tomar o poder em seu próprio nome, em vez de entregá-lo a uma fração supostamente mais “progressista” da classe dominante.

Com as modestas forças da ASI, não podemos afirmar que somos a liderança política revolucionária da classe trabalhadora internacional hoje – longe disso. Mas acreditamos que tal organização é necessária e que nosso programa tem um papel crucial a desempenhar em sua formação. Além disso, acreditamos que a análise e os métodos da ASI serão fundamentais para o sucesso de uma revolução socialista internacional.

A ASI não se contenta em apenas ter ideias e análises corretas. Nossas seções nacionais devem testar e aplicar essa análise por meio da participação efetiva e da experiência nos movimentos da classe trabalhadora e nos movimentos contra a guerra e a opressão hoje.

Esse ponto ficou claro na própria escola, pois os participantes estavam lidando ativamente e coordenando respostas aos eventos que ocorreram durante a semana. Isso incluiu a intervenção em um protesto em Kiel convocado em solidariedade às vítimas de um ataque à marcha do Orgulho LGBTQ+ de Berlim, que matou uma mulher e feriu outras 29 pessoas. Nos intervalos entre as sessões da escola, participantes dos Estados Unidos estavam elaborando materiais e organizando intervenções nos maiores protestos contra a brutalidade policial racista desde a revolta por George Floyd, ocorridos em Madison, Wisconsin, após policiais terem assassinado Corey Ruiz, de 38 anos.

Voltando ao tema da Plenária sobre Construção realizada na Escola, os participantes relataram e compartilharam lições do trabalho em suas seções nacionais. Isso incluiu os esforços de camaradas da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia em liderar um protesto combativo na marcha do Orgulho LGBTQ+ desafiando o novo governo local do Reform UK em Kirklees, West Yorkshire, e a nova ênfase dada ao trabalho no Die Linke, na Alemanha, após um influxo de novos membros jovens durante a última eleição. Participantes dos Estados Unidos relataram seu trabalho no movimento contra a campanha reacionária de deportações e violência assassina por parte do ICE. Camaradas da Nigéria relataram seu trabalho contra a corrupção extrema e a austeridade, e compartilharam lições sobre a construção de uma internacional revolucionária em países neocoloniais, com destaque para o fato de que dois terços da delegação nigeriana para a Escola tiveram seus vistos negados pelo sistema racista de imigração da União Europeia.

A discussão revisou o trabalho bem-sucedido do ano passado, incluindo o lançamento de uma campanha anti-militarista com uma turnê de palestras e reuniões que contou com 14 encontros em todo o mundo. O lançamento da edição nº 3 da revista da ASI International Marxism, “Qual o Caminho a Seguir para a Esquerda?”, é mais um passo à frente que será aprofundado no próximo ano.

Elan Axelbank, do Comitê Internacional, respondeu à discussão sobre Construção, enfatizando a necessidade de identificar as principais tendências e extrair as lições fundamentais da experiência da luta de classes em todo o mundo, a fim de apresentar um programa internacional para a revolução socialista. Isso contrasta fortemente com muitos outros grupos revolucionários, sejam eles stalinistas ou autodenominados internacionalistas, que comprometem seu programa para se adaptar às “circunstâncias únicas” de cada país. A história é rica em lições positivas e negativas de revoluções fracassadas e bem-sucedidas. É tarefa dos marxistas revolucionários genuínos atuar como a memória histórica da classe trabalhadora.

Rumo à revolução socialista

À medida que o mundo cambaleia de uma crise para outra e a classe dominante se prepara para uma guerra interimperialista, fica clara a necessidade urgente de uma organização socialista revolucionária de massas. As tarefas que temos pela frente são enormes e o tempo é muito curto. Mas o que se exige é sentido de urgência, que não é necessariamente sinônimo de rapidez. A única internacional que vale a pena construir é aquela que seja forte o suficiente para resistir aos grandes desafios da história, incluindo guerras e revoluções. O objetivo de eventos como este é preparar nossos membros para desempenhar o papel de revolucionários capazes de pensar e agir como marxistas quando a hora chegar. A Escola da ASI de 2026 será vista retrospectivamente como um passo importante no caminho do desenvolvimento da próxima geração de socialistas revolucionários.

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