Nota sobre a posição da LSR nas eleições 2026 no Rio Grande do Norte

O cenário eleitoral brasileiro atual está construído, nacionalmente, sobre uma forte polarização eleitoral entre as candidaturas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A possibilidade da vitória da extrema direita é uma ameaça concreta nessa eleição e uma tarefa central é derrotá-la. Porém, mais uma vez, a candidatura petista foi formada priorizando atrair alianças à direita, o que já se provou ser uma tática que não afasta essa ameaça, pelo contrário.

 Pior ainda, ao contrário de outras eleições em que o discurso eleitoral acenava principalmente para políticas voltadas para trabalhadores, ainda que rebaixadas, desta vez o foco tem sido em garantir ao mercado um novo mandato com uma política econômica ainda mais restritiva, voltada para o corte de investimentos públicos e gastos sociais e indicando que virão ainda mais ataques aos gastos obrigatórios, como os pisos constitucionais da saúde e da educação, o BPC e as aposentadorias. 

No PSOL, por sua vez, os setores majoritários optaram por dar um cheque em branco para o PT e decidiram apoiar Lula já no primeiro turno, sem qualquer reivindicação de propostas voltadas para a maioria da população. Nesse contexto, para as eleições presidenciais indicamos nosso apoio à candidatura de Hertz Dias do PSTU, professor, ativista do movimento hip hop e militante socialista, para defender uma alternativa socialista e de luta no primeiro turno. Também indicamos nossa defesa da construção de um bloco de esquerda socialista, com setores de dentro e de fora do PSOL. Já no segundo turno, votaremos em Lula para barrar a extrema direita.

No Rio Grande do Norte, a disputa eleitoral pelo governo estadual e representações na Câmara, Senado e Assembleia Legislativa em 2026 acontece em um cenário de desgaste do governo Fátima Bezerra, perda de força do PSOL e avanço de candidaturas de direita.

Allysson, ex-prefeito de Mossoró, segunda maior cidade do RN, tenta construir uma imagem de administrador jovem, eficiente e distante das velhas oligarquias. Contudo, seu governo em Mossoró foi mais um de grande favorecimento do setor privado, expansão de terceirizações e utilização de Parcerias Público-Privadas (PPPs), precarizando serviços e as condições dos trabalhadores e trabalhadoras. Também atacou servidores públicos judicializando greves de professores e com uma contrarreforma administrativa. A tentativa de se pintar como alguém de fora da política tradicional e que veio de baixo vem sendo desmontada, e  Allyson se vê envolvido em denúncias de corrupção e sob investigação sobre desvio de verbas públicas da saúde para empresas terceirizadas, e em que foram encontrados milhares de reais guardados em um isopor em sua casa em um condomínio de luxo.

Álvaro Dias, por sua vez, representa um projeto ligado ao Bolsonarismo, mas com dificuldade de defender seu “legado”, especialmente o impacto negativo da obra de engorda da Praia de Ponta Negra. Como prefeito de Natal, suas marcas foram favorecer o setor privado, com destaque para as privatizações do Teatro Municipal Sandoval Wanderley, do Mercado da Redinha e as alterações no Plano Diretor, que atacam a função social da terra e a preservação ambiental em nome do lucro. Como candidato ao governo do Estado, chegou a defender a privatização da UERN.

Sua gestão também espalhou por Natal obras eleitoreiras, contando com a inauguração do Hospital Municipal de Natal em 2024 sem que esse estivesse pronto, como não está até agora! Também atacou servidores com uma contrarreforma da previdência, além de atacar professores, greves e replicar em Natal discursos e práticas bolsonaristas durante a pandemia.

Governos do PT e crise eleitoral

A força eleitoral da direita se deve em muito aos limites dos governos que, dizendo representar trabalhadores/as, apostam na conciliação de classes e acabam adotando uma política que prioriza os lucros das classes dominantes. Os governos de Fátima mostram os limites dessa política que procura administrar os interesses do capital enquanto faz concessões mínimas a trabalhadores e trabalhadoras.

Antes mesmo de assumir seu primeiro mandato como governadora, Fátima prometia manter “as portas escancaradas” para a FIERN e o empresariado. Isso se materializou em programas de benefícios fiscais para empresas, PPPs e transferência de áreas estratégicas do serviço público para a lógica empresarial privada, como o saneamento.

A relação com os trabalhadores e trabalhadoras vem sendo também marcada por conflitos, como a contrarreforma da Previdência estadual ainda em 2020, em meio à pandemia. No campo da Educação, embora tenha negociado e firmado acordos com categorias,  diferente de administrações de direita, sua gestão não hesitou em recorrer aos instrumentos judiciais para conter mobilizações.

O final do governo Fátima e a crise produzida pela própria aliança que sustentou sua reeleição em 2022, mostraram cabalmente como a política de alianças do petismo não traz grandes avanços na luta de trabalhadores e é um fator de instabilidade e desgaste político. A articulação com Walter Alves (MDB) naufragou quando ele disse que não assumiria o governo para Fátima se candidatar ao Senado, rompendo o acordo feito anteriormente. O vice-governador, membro de uma das oligarquias do RN, apoiador do golpe parlamentar contra Dilma e de inúmeros ataques aos trabalhadores, rompeu politicamente com Fátima e se aproximou de Allyson Bezerra. 

Assim como na costura do acordo com o MDB para as eleições de 2022, Lula participou diretamente do acordo que levou Fátima a desistir da candidatura para o Senado e permanecer no cargo até o final do mandato, construindo para fora uma imagem vazia de compromisso com os eleitores e eleitoras para tentar não se desmoralizar com seus erros políticos. A crise, de um lado, favoreceu Allysson e, de outro, levou ao lançamento da candidatura de Cadu Xavier, ex-secretário de Tributação/Fazenda de Fátima, como candidato ao governo estadual pelo PT. 

Apesar da direção estadual do PT ter se mobilizado para acusar Walter Alves de traição, é fundamental entender a crise como resultado da própria lógica de alianças eleitorais perpetrada pelo partido nas esferas nacional, estadual e municipal, como podemos ver nas várias candidaturas de direita apoiadas direta ou indiretamente pelo PT em todo o Brasil. A própria chapa para o Senado, composta por Samanda (PT) e Rafael Motta (PDT), um apoiador do golpe contra Dilma que votou a favor do Teto de Gastos de Temer, demonstra isso. Além disso, o PT mais uma vez recorreu a uma aliança oligárquica, formando chapa para governo do estado com Larissa Rosado (PSB), ex-deputada estadual e pertencente a uma das famílias políticas tradicionais de Mossoró, como vice.

Também é válido destacar que o nome escolhido pelo PT para disputar o governo do Estado, Cadu Xavier, é um burocrata partidário e foi um dos principais responsáveis por implementar as medidas de austeridade fiscal no Estado, reproduzindo no RN a mesma lógica econômica do governo Lula e do Novo Arcabouço Fiscal. Na posição de secretário de Tributação/Fazenda, ele foi uma das vozes a orientar o governo Fátima a negar o reajuste salarial de servidores e servidoras, inclusive com críticas públicas ao cumprimento da Lei do Piso Salarial do Magistério.

Apoio às candidaturas do PSOL e de Luciana Mandu (PSTU)

Nesse cenário, defendemos o apoio à candidatura ao governo do estado do PSOL, com Robério Paulino e Lenny Grilo como vice.

A candidatura de Robério e Lenny nasceu da mobilização de algumas correntes do partido, incluindo nós da LSR, indo contra outros setores que defendiam o apoio à candidatura de Cadu Xavier já no primeiro turno.

O PSOL no RN sofre as consequências de sua subordinação ao PT nos últimos anos. Junto às dificuldades para se colocar como uma alternativa de esquerda, a pressão pelo alinhamento ao campo democrático-popular tem gerado posições conflitantes sobre candidaturas e apoios. Por isso, vemos como positiva a disponibilização dos nomes de Robério e Lenny pelo PSOL. Por outro lado, é preciso avançar com a construção coletiva e democrática do programa considerando os acúmulos dos lutadores e lutadoras do partido. O PSOL só superará o seu estágio atual no Rio Grande do Norte com um programa radical que dialogue com as demandas concretas da classe trabalhadora. 

Defendemos candidaturas combativas e militantes, que cumpram, junto aos trabalhadores e trabalhadoras, o papel de denunciar os ataques sofridos e de conscientizar e chamar para a luta para além das eleições. É necessário que esses lutadores e lutadoras  se disponham a apresentar, também no Senado e na Câmara, a defesa dos interesses da nossa classe.

Derrotar a extrema direita é uma das tarefas do momento da classe trabalhadora e, apesar dos apelos para que isso seja reduzido a escolher um dos lados da polarização política e a dar um voto no dia das eleições, entendemos que essa tarefa é mais ampla, pois demanda derrotar o sistema que permite que ela cresça.  Por essa razão, compreendemos que é fundamental enfrentar as políticas que, ao atacarem a nossa classe, favorecem o crescimento do Bolsonarismo e afins, como o Novo Arcabouço Fiscal e as políticas de incentivo aos latifundiários do Agronegócio.

Para o Senado, entendemos que a candidatura de Sônia Godeiro se aproxima dessas ideias. Sônia é  uma militante com trajetória de atuação na luta sindical, pelo direito à saúde pública, universal e gratuita, na defesa do SUS e pelos direitos das mulheres.          

Apesar da chapa do PSOL para o Senado ser composta por Sônia Godeiro e Sandro Pimentel, não indicamos apoio a esse companheiro. Nos últimos anos, Sandro tem sido um dos principais articuladores da subordinação do PSOL ao PT no Estado, tendo participado da articulação com a direção nacional que levou a um golpe que barrou a candidatura de Camila Barbosa, pelo PSOL, à prefeitura de Natal em 2022 para favorecer a candidatura do PT. Em 2026, também buscou impedir o lançamento de um nome do PSOL para o governo do Estado para apoiar Cadu Xavier (PT).

Assim, para a segunda cadeira para o Senado, chamamos voto na candidatura de Luciana Mandu, do PSTU. Luciana é professora da rede municipal de ensino de Natal e, recentemente, esteve à frente da mobilização de uma importante greve dos professores do município. Os professores estavam há seis anos sem realizar greve em função da judicialização e criminalização, com desconto em folha por Álvaro Dias, além da perseguição em seus locais de trabalho e nenhuma conquista para a categoria.

Para deputado federal apoiamos a candidatura de Philipe do VAT (PSOL), uma liderança jovem que vem construindo a luta por uma pauta central para a classe trabalhadora que nós apoiamos e pela qual temos ido às ruas: o fim da escala 6×1, com redução da jornada de trabalho, sem redução de salário.

Para deputado estadual, defendemos voto crítico em Lourenço (PSOL). Vemos como positivo o fato dele ser uma liderança jovem, LGBTQIAPN+ e que traz como pauta central a crise ambiental, apontando também elementos que expressam esse colapso no RN e fatores locais que contribuem para ele. Contudo, entendemos que é importante avançar na discussão sobre o tema através da indicação de que a crise climática e a crise ambiental mais geral só podem ser superadas com o enfrentamento e superação do sistema capitalista. Em que pesem as propostas que tocam em temas relevantes, como a universalização do saneamento, o transporte público, e o impacto de empreendimentos como Data Centers, mineração e parques eólicos, não é possível avançar sem enfrentamento aos interesses do capital no Estado, estatizando o transporte e acabando com as PPPs do saneamento, por exemplo.

É preciso ir além do voto passivo! Um chamado à luta!

Para além das eleições, precisamos estar nas ruas combatendo a extrema direita e os ataques contra trabalhadores e os oprimidos pelo capitalismo em crise, mas também defendendo pautas centrais que fortaleçam a luta por uma sociedade livre da exploração e das opressões, uma sociedade socialista!

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