A extrema direita em ascensão na Saxônia-Anhalt – o único caminho para combater a AfD é pela luta de classes

Die Linke em ato contra o militarismo

O desastre previsto aconteceu, e foi pior do que se imaginava. O partido de extrema direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD) obteve uma vitória assustadora nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, conquistando quase 44% dos votos. Os partidos da coalizão governamental nacional receberam apenas 26% dos votos. A União Democrata-Cristã (CDU) do chanceler Friedrich Merz enfrenta uma crise existencial, enquanto os social-democratas (SPD) já se encontram no meio de uma. Resta saber se Merz conseguirá manter seu cargo após as próximas eleições em Berlim e na Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no final deste mês.

A AfD governará a Saxônia-Anhalt — se não imediatamente, então em um futuro próximo. Ela pode contar com a provável deserção de membros da CDU. Mesmo como governo minoritário, poderá contar com a tolerância do BSW. Mesmo que um governo liderado pela CDU viesse a se formar por meio de uma improvável coalizão com o SPD, os Verdes, o Partido da Esquerda (Die Linke) e o BSW de Sara Wagenknecht, a tomada do governo pela extrema direita seria meramente adiada nas circunstâncias atuais.

Na Saxônia-Anhalt, o Die Linke deixou-se arrastar para o atoleiro daqueles que cortam programas sociais, aumentam os gastos militares, pressionam pela guerra e servem aos interesses dos ricos. Ele deve se libertar disso e formular uma alternativa socialista, baseada na luta de classes, contra a extrema direita e os partidos pró-capitalistas.

Fascismo na Saxônia-Anhalt?

Muitos dos que, com razão, temem os perigos reais que a AfD representa para os trabalhadores e os oprimidos têm se perguntado: a Saxônia-Anhalt está diante do fascismo? Não, não diretamente. Há muitos fascistas na AfD, e o partido recorre a elementos da política fascista. Do ponto de vista do capital, no entanto, a situação política não exige nem o desmantelamento violento da democracia parlamentar, da esquerda e dos sindicatos, nem a fusão de gangues de bandidos fascistas com o aparato estatal.

Nem as estruturas da AfD nem a visão política de seus eleitores se prestam a tal rumo. O partido não conta com massas organizadas e armadas por trás, dependendo, em vez disso, de apoio eleitoral passivo. Em última análise, a extrema direita moderna pode tranquilamente buscar implementar sua agenda racista e contra os trabalhadores dentro da estrutura do sistema parlamentar.

Mas isso não é motivo para baixarmos a guarda! Ter a AfD no governo significa uma aceleração e intensificação da guinada rumo ao autoritarismo que já está sendo impulsionada por todos os partidos do establishment. Um governo da AfD intensificaria os ataques a imigrantes, pessoas LGTBQIA+, mulheres e antifascistas. Para isso, utilizará os instrumentos do Estado burguês, como a polícia, as agências de inteligência e o poder judiciário. E os bandidos nazistas se sentirão encorajados pela vitória eleitoral.

Não há motivo para acreditar que a extrema direita perderá automaticamente seu “brilho” uma vez no governo. As políticas dos partidos do establishment são claramente direcionadas contra os interesses da maioria da população e estão estrangulando todos os orçamentos públicos para financiar um aumento maciço dos gastos militares. Um governo estadual da AfD na Saxônia-Anhalt poderia alegar que tem as mãos atadas pelas rígidas restrições do orçamento federal e que não pode cumprir suas promessas de campanha.

É claro que, independentemente desse fato, a AfD não “cumpriria” suas promessas para a classe trabalhadora. Sua agenda econômica e social está mais à direita do que a da CDU. Ela intensificaria os cortes nos serviços sociais. De fato, muitos de seus eleitores não esperam absolutamente nenhuma melhoria social da AfD. Para eles, a decepção com os outros partidos é a questão central. A frustração e os preconceitos racistas, em alguns casos, se transformaram em uma atitude rancorosa, pois não há uma visão de lutar por melhorias por meio da luta coletiva. As pessoas buscam garantir seu próprio status pisando naqueles que estão abaixo delas.

A extrema direita não é um fantasma que simplesmente desaparecerá. A vitória eleitoral da AfD está empurrando todos os partidos do establishment ainda mais para a direita. O eco das ideias da AfD nos partidos tradicionais, por sua vez, apenas os fortalece ainda mais. A situação é grave, mas não vai melhorar se o Die Linke, ao apelar para conter a extrema direita, se resignar a apoiar os partidos tradicionais falidos. Essa abordagem equivale a um suicídio por medo da morte.

A esquerda precisa lutar

Com um resultado de 8,6%, o Die Linke perdeu mais de dois pontos percentuais na Saxônia-Anhalt, embora esteja em ascensão em nível nacional e tenha dezenas de milhares de novos filiados. O fator decisivo para seu fraco desempenho em nível estadual foi que o partido, liderado por sua principal candidata, Eva van Angern, não conseguiu oferecer uma alternativa ao establishment e, em vez disso, se apresentou como um parceiro júnior do odiado CDU. Ao fazer isso, o Die Linke cedeu o papel de força antiestablishment ao AfD, ao mesmo tempo em que não conseguiu mobilizar eleitores potenciais de esquerda, especialmente entre os jovens.

A estratégia de acomodação adotada pelas seções estaduais do Leste e por partes da direção do partido fracassou espetacularmente na Saxônia-Anhalt. Em nível federal, o Die Linke não é visto como uma força clara contra o rearmamento, o militarismo e a guerra na Ucrânia. Seus representantes no Bundesrat [equivalente ao Senado no Brasil] de Bremen e de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental permitiram que o programa de rearmamento do governo fosse aprovado. O partido não deixa suficientemente claro que a resistência aos cortes sociais, aos aumentos de preços e à destruição de empregos deve estar ligada à luta contra o rearmamento.

Outro fator foi a campanha da esquerda liberal para direcionar votos de segunda preferência aos Verdes. Na contagem dos votos de primeira preferência, o Die Linke teve um desempenho significativamente melhor, com 12%, e foi o único partido, além da AfD, a conquistar mandatos diretos. No 11º distrito de Magdeburgo, Mustafa Gröner obteve 29,4% dos votos de primeira preferência e 12,6% dos votos de segunda preferência, graças a uma campanha massiva que envolveu porta a porta e apoio de outras seções estaduais.

Isso mostra que o Die Linke também pode aproveitar seus pontos fortes no Leste. Entre os menores de 18 anos entrevistados na Saxônia-Anhalt, o partido emergiu como a força mais forte, com mais de 30%, à frente da AfD, enquanto todos os outros partidos ficaram muito atrás. Muitos jovens no Leste também estão prontos para lutar por seu futuro. O Die Linke deve provar a eles que é o veículo para fazer isso.

A guinada à direita só poderá ser detida se o Die Linke assumir a tarefa de ser uma força genuína de mudança socialista — e não se seguir os passos dos partidos burgueses, fazendo concessões e “tolerando” políticas antissociais de direita. Para isso, deve se engajar ativamente nas lutas contra os cortes sociais e a divisão e defender um programa claro. Ela deve criticar a postura hesitante das direções sindicais, que se mostram relutantes em organizar uma luta contra os ataques do governo Merz-Klingbeil à saúde, às aposentadorias e à proteção contra demissões. Deve destacar a conexão entre cortes sociais e o aumento dos gastos militares, rejeitar o envio de armas à Ucrânia e a retórica de guerra contra a Rússia — ao mesmo tempo em que condena claramente a invasão de Putin — e tomar uma posição contra todas as potências imperialistas. 

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