É preciso ir além do voto passivo: Por um programa socialista e uma estratégia de luta para derrotar a extrema-direita

Manifesto eleições 2026

Diante do cenário nacional e internacional, temos uma tarefa central: derrotar a extrema-direita e o sistema que a gerou e a fez crescer. Como parte dessa luta é vital que a extrema direita não saia vitoriosa nas eleições brasileiras. Um governo de Bolsonaro filho será ainda pior do que o catastrófico governo de Bolsonaro pai.

Podemos ver como Trump 2.0 tem sido muito mais agressivo e nefasto do que foi em seu primeiro mandato. Esse também é o caso dos outros governos da direita e extrema-direita na América Latina. É preciso cortar a linha de continuidade das vitórias eleitorais dos lacaios de Trump na América Latina, como  Bukele em El Salvador, Milei na Argentina, Kast no Chile, Fujimori no Peru e De la Espriella na Colômbia, além de  Rodrigo Paz na Bolívia. 

São governos que atacam direitos democráticos, fazem grandes cortes nos serviços sociais, retiram direitos sociais e trabalhistas e implementam uma agenda agressiva de privatizações à serviço do grande capital e do imperialismo. Tudo isso junto com uma agenda reacionária de ataques a imigrantes, pessoas LGBTQIA+, mulheres e povos indígenas.

A extrema-direita no Brasil não é uma aberração histórica. Além de ter raízes na sociedade profundamente desigual e violenta que marca nossa história, ela faz parte de um padrão internacional na época atual. O ascenso da extrema direita no mundo é um reflexo de um sistema capitalista em crise profunda. Há uma crescente competição por mercados e recursos, que se reflete em guerras e acirramento da luta por poder no mundo, ao redor de polos imperialistas em conflito: EUA e China. Todos os consensos do período anterior são desmontados, a globalização cada vez mais se converte em protecionismo e tarifaços.

Os representantes políticos do período anterior, que representavam os interesses dos capitalistas com uma política que tendia mais ao centro político, entraram em crise diante de uma crescente polarização social. Para manter suas riquezas, lucros e poder, as elites se voltaram para uma direita mais extrema, que mistura populismo com autoritarismo, com o intuito de atacar e dividir, fazendo com que todos os direitos conquistados no período anterior estejam em risco.

Essa extrema direita vem empurrando o debate político para a direita com uma pauta reacionária de ataques e retrocessos. Atacam o já limitado direito ao aborto, pautam o rebaixamento da maioridade penal, redução da proteção ambiental e ameaçam os povos indígenas com o marco temporal. A resposta do PT tem sido a de recuar dessa disputa. O tema do direito ao aborto , por exemplo, é constantemente abandonado em nome de alianças e votos, mas essa política  só fortalece a pauta de direita.

Para derrotar a extrema-direita precisamos ir além do voto passivo. Para começar, precisamos refletir sobre por que a extrema-direita continua sendo uma ameaça mesmo depois da derrota de Bolsonaro na eleição passada, do fracasso do golpe de 2023 e da prisão de Bolsonaro. Apesar do PT ter ganho a presidência em cinco das últimas seis eleições, a ameaça da extrema direita não foi afastada, na verdade ela cresceu. Por que?

A explicação não é muito diferente do que tem acontecido nos outros países da América Latina no período anterior. Em muitos países, vimos a vitória de partidos de esquerda e progressistas, muitas vezes após ondas de luta contra ataques de governos de direita. Mas ao assumir os governos, a busca por mudanças profundas e a radicalidade das lutas são substituídas pela conciliação com as elites e seus partidos, gerando uma grande decepção. 

Ao invés de atacar as estruturas de poder e desafiar os estreitos limites impostos pelo sistema, os governos progressistas têm se limitado às regras de um jogo de cartas marcadas. Em meio à frustração, a direita voltou a crescer e ganhar eleições.

É necessário um balanço crítico do governo Lula. Se não aprendermos com os erros, abriremos espaço para novas derrotas e a volta da direita. 

Os primeiros governos de Lula mantiveram toda a base das políticas  neoliberais estabelecidas pelos governos anteriores, limitando os investimentos públicos e mantendo as privatizações. A governabilidade era construída em cima de uma ilusória “conciliação de classes”: todo mundo supostamente poderia ganhar, ricos e pobres. 

Ainda que limitadas e contraditórias, foi possível implementar algumas medidas positivas enquanto houve algum  crescimento econômico, como no caso do bolsa família, expansão das universidades, etc. Mas, quando a crise chegou, principalmente durante o governo Dilma, engatou-se a marcha ré e aprofundou-se uma política de cortes e ataques a direitos. Isso levou à crise do governo com a derrubada de Dilma por um golpe parlamentar, abrindo o caminho para a vitória de Bolsonaro em 2018.

Ao voltar à presidência em 2023, Lula seguiu a mesma lógica de governar em aliança com a direita, mostrando fidelidade às regras do mercado. Quando muitos esperavam um “revogaço” dos pacotes de ataques de Temer e Bolsonaro, nada disso aconteceu. As contrarreformas trabalhista e da previdência permaneceram intactas, enquanto o teto de gastos de Temer foi substituído pelo “novo arcabouço fiscal”, seguindo a mesma lógica. 

Assim, as possibilidades de se obter melhorias são tremendamente reduzidas e não é possível afastar o mal-estar na população diante da alta nos preços dos alimentos, o crescimento do endividamento, a falta de recursos para a saúde e educação, os problemas na segurança pública, etc.

Se o governo adota posições progressivas em alguns pontos, como no caso da isenção de imposto de renda para quem recebe até 5 mil reais e na defesa do fim da escala 6×1, ele também acaba atacando os pobres e trabalhadores em outros, como na continuidade das privatizações, o arcabouço fiscal que leva a cortes e ataques à educação, ao BPC, abono salarial etc.

A direita é forte no Congresso, sem dúvida. Mas parte dessa força vem do fato de que eles se mantêm no poder independentemente de quem vencer as eleições. Parte deles está no próprio governo Lula. Isso também é consequência de um sistema eleitoral que antes era  marcado pelo abuso do poder econômico com grandes empresas financiando campanhas milionárias e agora passou a se basear no financiamento público, com um fundo eleitoral bilionário que favorece os partidos já grandes e substitui a militância política pelo cabo eleitoral pago. 

Esse domínio formal da direita no Congresso pode ser desafiado pela força das ruas e da luta dos trabalhadores e do povo! Vimos várias vezes como as mobilizações conseguiram forçar o Congresso a recuar, como no caso da PEC da bandidagem. A força das ruas é que forçou o Congresso a pautar temas importantes, como o fim da escala 6X1. Mas isso tem sido tratado como algo pontual. A regra geral do governo e das direções da esquerda hegemônica é buscar a conciliação e as alianças. 

As eleições e as instituições do regime político funcionam como um jogo de cartas marcadas a serviço dos ricos, por isso é necessário a mobilização popular por fora, para questionar e romper os limites do sistema.

Precisamos colocar as campanhas eleitorais e os mandatos a serviço das lutas e de um projeto alternativo da classe trabalhadora a esse sistema apodrecido. Para isso, é preciso construir candidaturas que se baseiam nas lutas por mudanças que os movimentos sociais e sindicatos travam todos os dias e que também defendem um programa socialista.

De forma geral, chamamos voto em candidaturas da esquerda do PSOL, notadamente aquelas que têm se posicionado contra a capitulação da direção majoritária do partido diante do governo Lula e da política de conciliação de classes adotada pelo PT. Chamamos o voto nesses candidatos mantendo nossa defesa de um programa socialista e da independência de classe. 

Para a presidência da república, defendemos o voto em Hertz Dias do PSTU, professor, ativista do movimento hip hop e militante socialista. Ao mesmo tempo, nossa prioridade é a defesa da construção de um grande bloco da esquerda socialista que permita atuação comum da  esquerda de fora do PSOL (PSTU, PCB, UP e outros) com os setores de esquerda socialista do próprio PSOL. 

Entendemos que é necessário levantar o debate na sociedade sobre o que seria uma alternativa socialista, com uma plataforma comum para candidatos da esquerda socialista e revolucionária de dentro e fora do PSOL. Essa iniciativa deve buscar aglutinar, para além dos partidos, os coletivos e movimentos sociais que entendem a importância de ir além do voto passivo e a necessidade imperativa de se construir uma alternativa ao projeto de conciliação de classes do PT, uma alternativa socialista.

Nos estados onde o PSOL abriu mão de candidatura própria a governador ou senador em prol de apoio a candidaturas do PT e seus aliados de centro-direita ou direita, nosso voto será para candidaturas da esquerda socialista classista que não fazem alianças com a burguesia. 

No segundo turno estaremos nas ruas defendendo o voto crítico em Lula, sem ilusões e com o objetivo único de derrotar eleitoralmente a extrema-direita, como fizemos nas eleições 2018 e 2022.

Após as eleições, entendemos que o papel do PSOL é o de se manter realmente independente dos governos, sem compor o bloco governista no Congresso ou assumir cargos em governos. O partido deve construir a luta dos trabalhadores de forma independente, contra qualquer ataque, seja de qualquer governo.

Isso não compromete de forma alguma a disposição de resistir contra ataques antidemocráticos da direita contra o governo ou medidas progressivas que venham a ser adotadas. Estaremos novamente na linha de frente da luta contra possíveis tentativas de golpe de Estado, mas o faremos como socialistas e mantendo a independência política em relação ao Lulismo. 

A nossa luta é por uma sociedade socialista baseada nas necessidades das pessoas e não no lucro. Só assim podemos derrotar a extrema-direita e todos aqueles que sustentam esse sistema, colocando um fim às guerras, às opressões, à pobreza e à destruição do meio ambiente.

Em defesa dos serviços públicos

  • Investimentos públicos massivos na saúde, educação, emprego, moradia e transporte para gerar empregos com direitos e salários dignos e melhorar a vida do povo trabalhador. 
  • Pela realização de concursos públicos para ampliar o quadro de servidores e reverter o avanço da terceirização! Quem trabalha em empresas que prestam serviços públicos deve ter direitos e empregos garantidos, sendo incorporados ao funcionalismo público. Garantir condições e salários dignos a todo o funcionalismo público, com a incorporação de todos os bônus e gratificações. Contra qualquer forma de perseguição de servidores que defendem os serviços públicos!
  • Saúde e educação são direitos, não mercadorias. Por isso a saúde e educação devem ser 100% públicas. 

Não às privatizações! 

  • Pelo fim das privatizações em todas as suas formas, sejam vendas diretas de empresas e bens públicos, PPPs, OSs, ou licitações onde se transfere dinheiro público para empresas privadas.
  • Reestatizar as empresas privatizadas. Controle democrático dos trabalhadores sobre os serviços e empresas públicas.

Salários e condições de trabalho dignos!

  • Em defesa de emprego e direitos. Revogar a contrarreforma trabalhista. Não às terceirizações e à “Pejotização”.
  • Pelo fim da escala 6X1 – por uma jornada de 30 horas sem redução de salários!
  • Defender o direito de greve e da organização sindical.

Meio ambiente

  • Desmatamento zero, não à exploração em terras indígenas e quilombolas e de populações tradicionais e demarcação de suas terras já!
  • Estatização das mineradoras e Petrobrás 100% estatal. Investir em energias alternativas e transporte de massas público e gratuito não baseado em combustíveis fósseis. Controle público estatal sobre as terras raras e minérios estratégicos.
  • Reforma agrária e estatização dos gigantes que controlam o agronegócio, sob controle e gestão dos trabalhadores.

Segurança pública

  • Pela desmilitarização das polícias. As polícias em todos os níveis devem estar sob controle democrático do povo trabalhador.
  • Pelo fim da chamada “guerra às drogas” e do genocídio da juventude negra e periférica.
  • Por mudança de modelo de encarceramento em massa e punitivismo para um foco em programas de emprego, moradia e tratamento de saúde para dependentes. Não à privatização dos presídios. 
  • Combater o crime organizado combatendo centralmente suas ramificações na Faria Lima, no mercado financeiro e nas altas cúpulas da classe dominante e elites políticas.

Combate às opressões

  • Destinação  do equivalente a 1% do PIB para combater a violência contra a mulher e população LGBTQIA+.
  • Pelo direito ao aborto legal, seguro e pelo SUS.
  • Contra o genocídio do povo negro: contra a guerra aos pobres mascarada como “guerra às drogas”, pela desmilitarização e controle social das polícias. 
  • Não podemos confiar a luta contra opressões às mãos das instituições de uma sociedade que nos oprime. Por isso as exigências de políticas públicas têm que ser combinadas com a luta de massas de movimentos sociais e sindicatos contra as opressões.

Mudança radical de rumo – por uma sociedade socialista!

  • Romper com as políticas de austericídio! Revogar as contrarreformas da previdência e trabalhista. Revogar o teto de gastos, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Desvinculação das Receitas da União.
  • Taxar os super-ricos e grandes fortunas! Fim das exonerações fiscais para grandes empresas. 
  • Desmontar o sistema da dívida pública à serviço dos super ricos – auditoria e suspensão do pagamento aos grandes especuladores.
  • Controle de câmbio e da remessa de lucros das empresas multinacionais. Estatização do setor financeiro e setores chave da economia sob controle e gestão democrática dos trabalhadores.
  • Combate ao imperialismo! Contra a intervenção imperialista nas eleições, tarifaço e venda de recursos naturais e infraestrutura para empresas transnacionais. 
  • Combater o poder das big techs com regulamentação, estatização de sua estrutura no país e construção de empresas estatais de tecnologia sob controle democrático dos trabalhadores. 
  • Contra o acordo Mercosul-UE e outros que submetem países da América Latina a uma relação neocolonial. 
  • Não às guerras e ao militarismo. Solidariedade com a luta do povo cubano, venezuelano, palestino, iraniano e outros que lutam contra o imperialismo. Nenhuma ilusão no imperialismo chinês e seus aliados. Por uma América Latina e um mundo Socialistas!
  • Pelo fim do capitalismo. Por um mundo sem guerra, exploração e opressão. Por uma sociedade socialista onde os recursos são usados em prol da população e do meio ambiente sob um planejamento democrático e não para o lucro de uma minoria. 

Reconstruir a esquerda

  • Resgatar o projeto original do PSOL em defesa de um partido com independência de classe, oposição de esquerda aos governos da ordem e com um programa socialista.
  • Construir já uma Frente da Esquerda Socialista com forças políticas, de dentro e fora do PSOL, e dos movimentos sociais combativos, que se mantenham nos marcos da independência de classe e do socialismo.
  • Candidaturas a serviço das lutas com controle democrático sobre as bancadas e recursos parlamentares. Representantes de trabalhadores devem ter salário de trabalhador qualificado.
  • Vote em candidaturas da esquerda do PSOL e da esquerda socialista! Construir uma aliança envolvendo partidos e organizações da esquerda socialista e movimentos sociais combativos e que levante um programa anticapitalista e socialista!

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