Apesar do momento de fragilidade, extrema direita ainda chegará ameaçadora às eleições de outubro! É necessária uma alternativa socialista para enfrentá-la!

Flávio Bolsonaro e Trump na Casa Branca

À medida que o calendário eleitoral se aproxima, o que se pode notar é que segue-se caminhando para uma disputa apertada na corrida presidencial deste ano. Isto ocorre apesar de uma conjuntura relativamente favorável para o Governo Lula e sua reeleição. Ou, seria melhor dizer, de uma série de notícias ruins para a oposição bolsonarista, neste momento, personificada por Flávio Bolsonaro. 

A chegada ao grande público das notícias do envolvimento de Flávio com o principal personagem do escândalo do Banco Master, Daniel Vorcaro, fizeram com que parte do eleitorado ensaie um movimento de afastamento de sua candidatura. Não apenas isso, a situação aumentou a temperatura da disputa interna pelos espólios de Jair Bolsonaro no próprio campo da direita e extrema direita. Algo que só teve mais impulso com as novas tarifas anunciadas por Donald Trump contra produtos brasileiros, logo após o candidato do PL ter feito questão de deixar bem clara a sua ligação com o presidente dos EUA. 

Foi neste contexto que vimos o vídeo de Michelle Bolsonaro que pode constituir uma cunha entre o eleitorado feminino evangélico e seu enteado. De igual maneira, as outras candidaturas de direita, especialmente Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), sobem o tom em suas diferenciações, cada um de sua forma. 

Contudo, neste momento, o que se demonstra é que as candidaturas de direita não saem imediatamente como beneficiadas pelo desânimo com Flávio Bolsonaro. Menos ainda pode-se concluir que estes eleitores estariam migrando à esquerda, ou à candidatura de reeleição de Lula. O que se observa é o crescimento do número de indecisos (5% em maio, 11% em julho, segundo levantamento da Quaest), ao mesmo tempo que aumenta a rejeição de Flávio entre os eleitores não totalmente alinhados com Lula ou o bolsonarismo. 

Isso demonstra que, mais do que uma boa campanha eleitoral, é necessária uma batalha política pela consciência e pela maioria para um enfrentamento consequente da extrema direita. Para além da disputa institucional, a esquerda precisa apresentar um programa de transformação social e resgatar os métodos tradicionais de luta da classe trabalhadora.

A extrema direita não vai sumir até outubro (e nem depois)

A conjuntura relativamente desfavorável à candidatura de Flávio guarda uma armadilha para o campo de esquerda, ou mesmo para os progressistas em geral: a ideia de que a eleição tornou-se mais fácil neste momento. 

A verdade é que até a primeira rodada de tarifas de D. Trump, o governo federal tinha dificuldades de apresentar um programa e, sequer, um discurso capaz de mobilizar apoio para si. Pelo contrário, houve momentos em que o governo encontrava-se totalmente a mercê das circunstâncias como foi o caso das denúncias (falsas) de “taxação ao Pix”, ou da crise que se instaurou no INSS (tanto o escândalo dos descontos ilegais nos benefícios, quanto a situação insustentável das filas de perícia médica). 

A virada para uma narrativa de defesa da soberania nacional foi o primeiro passo para encontrar alguma oportunidade de sair da defensiva. Sem sombra de dúvidas quem mais ajudou a campanha de Lula até aqui foram os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na primeira rodada de tarifas, Eduardo Bolsonaro, ex-deputado residente nos EUA para não acertar suas contas com o judiciário brasileiro, assumiu diretamente o “mérito” de ter convencido o governo estadunidense à sua aplicação. Essa medida levantou o horror da própria elite econômica brasileira e fez com que a extrema direita precisasse recalcular sua rota. 

É, contudo, fato que o que inicia o atual momento turbulento para Flávio Bolsonaro foi a divulgação pelo Intercept de áudio em que o senador presidenciável solicita uma quantia abismal de dinheiro a Daniel Vorcaro para, supostamente, produzir o filme Dark Horse (a fantasia cinematográfica sobre a vida de seu pai, que não poderia estar mais distante da realidade). É muito provável que muito mais coisas dessa relação mal explicada entre ambos ainda serão reveladas. A grande preocupação dos aliados de Flávio é que isto ocorra após a sua candidatura já estar efetivada pelo PL (o que deve se dar até o fim deste mês de julho), quando se tornaria irreversível. 

Para conter o dano à sua imagem e tentar mudar a pauta a seu favor, Flávio passou a recorrer às suas ligações internacionais com a extrema direita. Dessa forma, visitou diversas vezes os EUA no último período. O tiro saiu pela culatra. 

Por um lado, Flávio conseguiu vincular à sua campanha a designação das organizações criminosas como o PCC e CV como terroristas. Embora isto seja uma afronta à soberania nacional, é visto como positivo por sua campanha, já que a extrema direita como um todo deve apelar para discurso de segurança pública de traços semelhantes ao aplicado por Bukele em El Salvador. Por outro, a proximidade (em grande medida unilateral de sua parte) com Trump, faz com que sua imagem também esteja vinculada à nova rodada de assédio tarifário contra o país. 

Como dito acima, este contexto acirrou a disputa interna no campo da direita e extrema direita. Sem dúvidas, as disputas passam uma imagem de maior fragilidade do campo. No entanto, indo além da superfície, pode-se perceber que o embate entre suas próprias figuras foi uma característica constante do bolsonarismo desde seu surgimento, apenas arrefecida pelo fato de o próprio Jair Bolsonaro ter alcançado um peso de massas incontestável entre os demais nomes do movimento. Assim, de certa forma, apesar das fissuras, Flávio e Michelle Bolsonaro conseguiram fazer com que toda a pauta política do país girasse em torno de sua disputa, como se fossem os concorrentes reais à presidência. 

Michelle certamente sai da briga melhor do que entrou. Contudo, sua movimentação está muito mais ligada às disputas por vagas no Congresso Nacional e à construção de posições para 2030, do que a um desafio sério à candidatura de Flávio.

A aparente fragilidade conjuntural da extrema direita não modifica o fato de que ela será um traço constante no cenário político durante ainda um longo período. Há elementos estruturais vinculados à crise do modelo neoliberal de acumulação do capitalismo internacional que abre espaço para que suas propostas autoritárias pareçam interessantes a uma burguesia sedenta por aumentar os níveis de exploração da classe trabalhadora. Também é atraente para a elite econômica, a capacidade de dividir a classe trabalhadora e minar sua organização que esta extrema direita possui a partir de seus discursos que mobilizam o ressentimento contra setores oprimidos, utilizando-os como bodes expiatórios dos efeitos mais visíveis da crise capitalista 

Não à toa, Flávio Bolsonaro tem recorrido ao contexto internacional para garantir a manutenção de seus apoiadores. Dessa forma, faz constantes referências à “Onda Azul” que tem tomado a América Latina. E não está de todo errado, na medida em que se demonstra a cada dia a disposição de Trump de atuar nas eleições brasileiras de forma a favorecer-lhe, como já fez em outras ocasiões no continente. Isto para não falar nas intervenções pura e simplesmente como o ocorrido na Venezuela e atualmente ensaiado em Cuba. 

A esquerda precisa apresentar a sua alternativa

Como se não bastasse a ameaça suficientemente forte por si mesma da extrema direita, ela se beneficia na medida em que as forças que se colocam contra ela não consigam se apresentar realmente como alternativa para as vidas das massas. Foram os casos de Boric, no Chile, e Fernández, na Argentina, sucedidos por Kast e Milei. Apesar da retórica mais inflamada, também se pode dizer isso de Petro na Colômbia, ou mesmo do sucessivo desastre governamental do Peru desde a vitória de Pedro Castillo, que terminou derrubado em um golpe do qual sua vice Boluarte teve participação. 

No Brasil, se o candidato de extrema direita passa por um período negativo, isso não tem resultado diretamente em uma capitalização pelo campo do governo. As últimas pesquisas apontam sim uma tendência de melhora de Lula, tanto no cenário eleitoral, como na avaliação de seu governo. Mesmo assim, isto ainda se dá apenas na margem de erro das pesquisas. De igual maneira, não necessariamente este cenário se manterá estável até outubro.

Há uma sensação popular de melhora da economia garantida pelos efeitos do programa de renegociação de dívidas Desenrola, que vem aliviando prestações e, como contrapartida, aumentando a renda das famílias. Este é um resultado temporário, mas que pode chegar até as eleições. Com isso, o alívio provocado pela diminuição dos descontos salariais relacionados à isenção do Imposto de Renda parece começar a gerar algum efeito na popularidade do governo, embora isto só venha a ser sentido efetivamente nas declarações do imposto a serem feitas em 2027.

No entanto, os prognósticos gerais para a economia apontam para uma piora do quadro atual. O choque do petróleo ocasionado pela guerra no Estreito de Ormuz fez com que a previsão de inflação suba para 5,15%, acima da “sacrossanta” meta estipulada pelo Banco Central (pelo mercado). Isso indica uma manutenção da política de juros altos, que evidentemente tem ligação com o endividamento das famílias, ainda que aqui entre fundamentalmente a ganância das operadoras de crédito. De igual maneira, este índice inflacionário tenderá a fazer a burguesia intensificar sua pressão por uma política ainda mais severa de austeridade fiscal por parte do governo. Algo que, inclusive, a faz buscar uma candidatura de direita “puro sangue”, sem precisar fazer acordos com o PT. Isto se completa por um cenário em que a previsão oficial para o PIB é de um crescimento de 2,3% (1,99% para o mercado em seu Boletim FOCUS), o que significa uma desaceleração econômica em relação a 2025.

O governo do PT não teve pudor em se apresentar como o governo do Arcabouço Fiscal. Durante mais da primeira metade do governo o objetivo declarado do ministro da Fazenda, e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad era o de alcançar o “déficit zero”. A tese de que isto aconteceria por meio do aumento de receitas não se sustentou, tendo sido necessários os ataques ao BPC, a contenção de despesas com os reajustes do funcionalismo público, e a redução de verbas para garantia de serviços e investimentos, entre outras medidas. O próprio Fernando Haddad declarou em entrevista que o ministro dos Transportes de Lula, Renan Filho, fez mais privatizações de infraestrutura do que Tarcísio de Freitas, sob o governo Bolsonaro. Não fosse a heróica resistência indigena, os rios Tapajós, Tocantins e Madeira poderiam já se encontrar sob regime de concessão. E, não à toa, o governo do Arcabouço Fiscal chegou atrasado à luta pelo fim da Escala 6×1, enquanto segue tratando a aposentadoria especial de agentes de saúde comunitária como uma “pauta bomba”.

Apesar do discurso, e do clima relativamente favorável neste momento, o programa da candidatura de Lula não será diferente. Isto se demonstra pelas buscas de articulação política que tem feito para viabilizar a sua candidatura. Lula procurou abertamente aproximar partidos de direita, especialmente o MDB e o PSD para seu campo. Por isto, adiou o anúncio de seu vice, deixando o espaço aberto a estas siglas. Gilberto Kassab chegou a ser especulado na imprensa como possível vice presidenciável de Lula. Hoje, ele ocupa o posto de vice de Ronaldo Caiado, um defensor da anistia aos golpistas de 2023. 

Não se trata apenas de tática eleitoral. Por mais que seja indispensável vencer a extrema direita nas urnas, a tática conciliatória do petismo impede a construção de uma alternativa política real à extrema direita. É verdade que a candidatura de Lula ocupa melhores posições para o cumprimento da fundamental tarefa de derrotar eleitoralmente a extrema direita neste ano. No entanto, esta batalha também deve ser enfrentada tendo em vista a tarefa estratégica de construir uma alternativa programática que supere os limites dos governos do PT como os exemplos apontados acima. Isto é ainda mais urgente quando se leva em conta que esta deve ser a última eleição da qual o próprio Lula (com 80 anos!) participará enquanto candidato, o que forçará uma reorganização para a qual não existe substituto natural. 

A construção de uma candidatura capaz de apresentar um programa socialista e calcado na independência de classe é, portanto, uma necessidade estratégica da esquerda. Uma candidatura, portanto, que se coloque inequivocamente em favor da defesa de direitos e do avanço de medidas necessárias para a transformação radical da sociedade brasileira, iniciando pela ruptura com toda a política de terrorismo fiscal empunhada pela burguesia como uma constante ameaça aos setores populares do país.

O PSOL seria a força política com melhor capacidade para ocupar este papel. No entanto, desde as eleições de 2022 o conjunto de sua direção vem seguindo um curso de capitulação ao petismo. Neste momento, aliás, parte de sua direção, com destaque para figuras como Guilherme Boulos e Érika Hilton, apontam diretamente para a saída do partido em direção ao PT. Mesmo correntes que seguem na defesa do partido, como foi o debate em torno da constituição de uma federação com o PT, se abstiveram de apresentar uma candidatura alternativa nessas eleições de 2026. 

Já PSTU, PCB e UP, em que pese os méritos de seguirem apresentando alternativas de esquerda e independentes em relação ao governo federal, seguem cometendo o equívoco de não se proporem a organizar uma saída de esquerda unitária para as lutas e para as eleições. Tudo aponta para uma eleição presidencial decidida em dois turnos. O governismo tentará fazer um discurso da necessidade de vitória no primeiro turno como forma de pressionar o voto em Lula e impedir o crescimento de qualquer alternativa. Este discurso, aliás, foi tentado também em 2022. Dizia-se que um segundo turno levaria necessariamente a um golpe no processo eleitoral. A razão se mostrou errada naquele momento, da mesma forma como está hoje. Assim, se um voto defensivo em Lula contra a extrema direita for necessário em um segundo turno, isto não elimina a possibilidade de uma campanha socialista no primeiro.

Este caminho, embora minoritário neste momento, é necessário não apenas para a derrota eleitoral do reacionarismo, mas para preparar o terreno para que a esquerda passe à disputa mais ampla pela maioria social. De maneira que a campanha eleitoral possa definitivamente se vincular às lutas populares, alimentando-se delas e servindo-lhe como apoio. Somente este caminho pode iniciar a virada de chave necessária não apenas para vencer as difíceis eleições contra a extrema direita, mas também para fazê-la recuar e desaparecer do cenário político do qual não deveriam fazer parte. Mas para tanto, é necessário a retomada da defesa de uma alternativa real para o capitalismo decadente que torna sufocante a vida. É necessária a defesa de uma alternativa socialista!

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