A Venezuela na mira de Trump e do imperialismo

Responder aos ataques e ameaças imperialistas com mobilização dos trabalhadores, solidariedade internacional e luta por uma autêntica alternativa socialista na Venezuela e em toda América Latina
O segundo mandato de Donald Trump reacendeu alguns dos elementos mais agressivos e truculentos do sempre presente imperialismo estadunidense em relação à América Latina. Sem papas na língua, o secretário da guerra dos EUA, Peter Hegseth, anunciou em entrevista para a Fox News referindo-se à região: “com o presidente Trump, vamos recuperar nosso quintal”.
Hegseth criticou os governos de Obama e Biden por deixarem espaço para que potências rivais, como a China, avançassem sobre a região ameaçando a hegemonia dos EUA. No passado recente, a ingerência dos EUA sobre o que sua classe dominante sempre considerou ser sua “zona de influência” latino-americana foi travestida de uma retórica mais discreta e dissimulada. Obama chegou a anunciar cinicamente o fim da ‘Doutrina Monroe’ que, desde o século XIX, pregava “América para os americanos” para rechaçar a influência de outras potências na região. Joe Biden, por sua vez, chegou a dizer que a América Latina não era o quintal (backyard) dos EUA, mas seu jardim de frente, como se isso fosse muito melhor.
A subordinação econômica e política ao imperialismo, com um protagonismo dos EUA especialmente a partir do século XX, é parte estrutural do desenvolvimento capitalista periférico e dependente latino-americano. O combate a essa subordinação, combinado com a luta pela emancipação social e política de trabalhadores e povos oprimidos da região, sempre marcou a história da América Latina, com seus processos revolucionários inconclusos, regimes políticos instáveis e reações contrarrevolucionárias bancadas pelo imperialismo e elites locais.
Além da subordinação estrutural, a nova ofensiva do imperialismo estadunidense sob Trump na América Latina tem se manifestado na guerra tarifária, no endurecimento das sanções econômicas a vários países, na pressão política sobre os governos e no estímulo e apoio aberto ao que há de pior na extrema direita na região. Mas, essa ofensiva adquiriu um caráter qualitativamente mais grave quando Trump mobilizou navios de guerra para o sul do Caribe, na costa venezuelana, e começou a promover ações militares contra embarcações na região sob a alegação de combate ao narcotráfico. Trump fez isso junto com ameaças verbais explícitas de intervenção militar direta na Venezuela.
Até o momento, foram realizados 16 ataques mortais a embarcações no Caribe, nas proximidades da Venezuela, e também na costa colombiana no Pacífico, matando até agora pelo menos 64 pessoas. Há dois sobreviventes (um colombiano e um equatoriano) e possivelmente um terceiro num ataque mais recente. Os ataques aconteceram sem ordem judicial, sem qualquer base legal, e sem nenhuma comprovação das alegações de que as pessoas assassinadas serviam aos cartéis das drogas, apesar de toda a propaganda cínica de Trump dizendo que esses ataques, ao impedir o ingresso de drogas nos EUA, teriam salvado milhares de vidas.
A escalada das ameaças e ações dos EUA na América Latina vem principalmente desde agosto, quando Trump assinou uma ordem executiva (decreto) secreta autorizando operações militares diretas das forças armadas estadunidenses em território latino-americano sob o pretexto do combate ao que denominam “narco-terrorismo”.
Desde então, os EUA enviaram às proximidades da costa venezuelana no Caribe dez navios de guerra, incluindo três destroieres, um navio de assalto anfíbio, um cruzador de mísseis e um submarino movido a energia nuclear, além de cerca de dez mil soldados. Mais recentemente, Trump ordenou o envio ao Caribe do maior e mais moderno porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, que deve deslocar-se do Mar Mediterrâneo, nas proximidades da conflitiva região do Oriente Médio, até o Caribe, deixando evidente a importância dada por Trump às ações militares na América Latina.
No início de outubro, logo antes da reunião que Trump e Hegseth fizeram com toda a cúpula das forças armadas dos EUA no Pentágono, o presidente estadunidense fez declarações levantando a possibilidade de uma intervenção militar por terra na Venezuela, supostamente para combater os cartéis de drogas. Posteriormente, Trump revelou abertamente que autorizou a CIA a conduzir operações secretas dentro do território venezuelano.
Pouco tempo depois, Trump respondeu às críticas que recebeu de Gustavo Petro acusando o presidente da Colômbia de ser traficante de drogas e repetiu para a Colômbia a ameaça de intervenção direta que fez à Venezuela. No caso venezuelano, o presidente Nicolás Maduro é formalmente considerado pelos EUA um chefe de cartel de drogas e, em agosto, a recompensa por qualquer informação que possa conduzir à sua captura foi elevada para 50 milhões de dólares.
Em meio ao embate com Gustavo Petro, Trump também ameaçou impor novas tarifas às exportações colombianas aos EUA. A confirmação do aumento das tarifas para a Colômbia não se deu até agora, mas representa uma ameaça importante. A Colômbia é um dos poucos países da América do Sul que ainda tem nos EUA seu principal parceiro comercial, com 27% de suas exportações direcionadas a esse país. O anúncio de aumento de tarifas no primeiro semestre por parte de Trump já havia provocado uma crise na relação entre os dois países, com Petro buscando alternativas de mercado para as exportações colombianas e promovendo a adesão do país à Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) promovida pela China.
O falso pretexto da “guerra às drogas”
A política de guerra ao “narcoterrorismo” promovida por Trump é parte importante de sua propaganda doméstica nos EUA e ao mesmo tempo um pretexto para pressionar, ameaçar e até mesmo intervir sobre outros países. Não há nenhuma grande novidade nessa postura. Depois de ter sido lançada por Nixon no início dos anos 1970, a chamada “guerra às drogas” nos EUA adquiriu um caráter geopolítico mais decisivo a partir de Reagan, na década de 1980, tendo se intensificado nos anos 1990 tanto por governos republicanos como democratas.
Em particular na América Latina, a “guerra às drogas” passou a ocupar o lugar da “ameaça comunista” que antes servia para promover e justificar intervenções, golpes e ditaduras militares na região. A “guerra ao terror”, principalmente depois dos ataques às torres gêmeas em 2001, também foi instrumentalizada para fins imperialistas, em particular no Oriente Médio e Ásia Central. A combinação entre narcotráfico e terrorismo na política de Trump para a América Latina, sem deixar de manter um elemento de retórica “anticomunista”, cumpre esse mesmo papel nos dias de hoje.
Os efeitos sociais e de saúde pública do consumo de drogas nos EUA, em particular diante do crescimento do uso de opioides como o fentanil, são reais e não devem ser subestimados. Da mesma forma, o narcotráfico conduzido por grandes carteis da droga em muitos países latino-americanos representa um pesadelo de violência, dor e sofrimento para milhões de pessoas na região.
Mas, décadas de “guerra às drogas” promovidas pelo imperialismo estadunidense e seus lacaios na América Latina foram absolutamente incapazes de resolver o problema, tendo só agravado o cenário de violência, repressão, encarceramento em massa, racismo, violação de direitos humanos, corrupção e atentados à soberania nacional dos países da região.
Com o estimulo de Trump, o combate ao chamado “narco-terrorismo” tornou-se bandeira de toda a extrema direita latino-americana para defender e promover autoritarismo, repressão e violência em seus países. O exemplo de Bukele em El Salvador e daqueles que tentam segui-lo, como Noboa no Equador, servem de referência para a propaganda da extrema direita em vários países em favor de mão dura na repressão e autoritarismo.
O recente massacre de mais de 120 pessoas (pretos e pobres) num só dia nos complexos do Alemão e Penha, grandes favelas do Rio de Janeiro, Brasil, por parte das forças policiais sob o comando do governador Claudio Castro, é resultado direto dessa lógica assassina e ineficaz da “guerra às drogas”. O tema da criminalidade e violência urbana é manipulado pela extrema direita brasileira para tentar se recuperar politicamente depois dos reveses que sofreu com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e os efeitos negativos das tarifas impostas ao Brasil por Trump. O senador Flavio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, chegou a defender que os EUA lançassem bombas na costa do Rio de Janeiro da mesma forma que está fazendo no sul do Caribe.
Na Colômbia, a extrema direita tenta utilizar os mesmos expedientes para construir uma alternativa eleitoral viável ao candidato “progressista” que for apoiado por Gustavo Petro nas eleições de 2026. A história da Colômbia está marcada pelo papel do narcotráfico e a corrupção e repressão vinculadas a ele, que são elementos estruturais de um capitalismo dependente, periférico e incapaz de absorver as mais mínimas reformas sociais.
O chamado ‘Plano Colômbia’, implementado pelos EUA a partir dos anos 2000 em acordo com governos colombianos lacaios do imperialismo, é um grande exemplo da ineficácia da “guerra às drogas”. A ênfase na repressão militarizada extrema, na erradicação forçada do cultivo de coca atingindo pequenos camponeses e provocando danos ao meio ambiente e à saúde devido, por exemplo, à utilização do glifosato (substância cancerígena), nem de longe resolveram o problema.
Em um discurso na ONU logo após sua posse, Gustavo Petro disse que a “guerra às drogas” havia fracassado e acabou por provocar um verdadeiro “genocídio que custou a vida de um milhão de latino-americanos”. Mesmo sem ter de fato conseguido promover uma transformação estrutural e uma alternativa efetiva em seu país, essa caracterização de Petro reflete a realidade.
No que se refere à Venezuela, fica evidente que os objetivos de Trump são abertamente políticos e visam a derrocada de Nicolás Maduro e do atual regime político venezuelano. Ao contrário da Colômbia, a Venezuela não joga um papel relevante no tráfico de drogas para os EUA. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 da ONU estima que apenas 5% da cocaína produzida na Colômbia tenta sair desse país pela Venezuela, a imensa maioria sai pelo Pacífico.
A Venezuela como alvo do imperialismo dos EUA
Os sinais de que o imperialismo estadunidense escolheu a Venezuela como um alvo prioritário nesse momento são evidentes, ainda que as oscilações da postura de Trump, nessa e em outras questões, gerem confusão e desinformação.
No início de seu segundo mandato esse ano, Trump estabeleceu negociações com o regime venezuelano através do enviado especial Richard Grennel, que chegou a reunir-se com Maduro no Palácio Miraflores e, com uma postura taticamente mais pragmática, declarou: “diplomacy is back“.
Como resultado, a Venezuela passou a receber os aviões trazendo deportados vindos do EUA e o regime venezuelano libertou seis cidadãos estadunidenses que estavam presos na Venezuela sob a acusação de terrorismo. Também foram feitas negociações sobre a continuidade ou não das licenças para empresas petrolíferas estadunidenses, como a Chevron, operarem na Venezuela. Essas empresas tentaram pressionar as autoridades dos EUA no sentido de uma postura mais pragmática diante do regime venezuelano.
Depois disso, no entanto, passou a predominar a postura mais dura representada por Marco Rubio, secretário de Estado, culminando com as ações e ameaças mais recentes. Se alguma diplomacia havia retornado era a diplomacia das canhoneiras (gunboat diplomacy). A prioridade de Rubio sempre foi a mudança de regime na Venezuela por dentro ou fora das instituições, através de extrema pressão externa, provocando divisões no aparato estatal venezuelano (incluindo nas forças armadas) e favorecendo a oposição interna de ultra direita.
Essa linha é próxima da política golpista que Trump tentou implementar em 2019, em seu primeiro mandato. Na ocasião, os EUA passaram a reconhecer o então presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, o direitista Juan Guaidó, como presidente autoproclamado do país. Ao mesmo tempo confiscaram todos os ativos venezuelanos nos EUA, impuseram duras sanções e promoveram um cerco político, econômico e diplomático à Venezuela.
Naquele momento, Trump chegou a levantar a possibilidade de uma incursão militar sobre território venezuelano em apoio a um golpe de Estado, com a ajuda de governos de extrema direita nos países vizinhos, como o Brasil de Bolsonaro e a Colômbia de Ivan Duque. O plano, no entanto, fracassou.
Apesar do desgaste e das fragilidades do regime de Maduro, o governo conseguiu manter o controle das forças armadas (através de concessões e privilégios mas também intensa repressão sobre potenciais dissidentes), da burocracia estatal e o apoio (sempre instável) de setores da burguesia, em especial aqueles que se constituíram e fortaleceram em torno do regime (a chamada ‘boliburguesia’). Outro fator central é que o povo pobre e a classe trabalhadora que constituiu uma base social histórica do ‘chavismo’, mesmo estando descontentes com Maduro e insatisfeitos com a crise social e econômica, continuavam rejeitando a extrema direita como alternativa.
Em seguida, com Biden na presidência dos EUA, uma postura mais pragmática começou a ser ensaiada diante do fracasso da política golpista, do agravamento da situação dos refugiados venezuelanos e também do novo cenário criado com a guerra na Ucrânia e suas repercussões sobre o mercado petrolífero. Em torno dos ‘Acordos de Barbados’, parte das sanções foram suspensas e o imperialismo dos EUA teve expectativas de que poderia promover a mudança de governo sem uma ruptura institucional, através da oposição de ultra direita nas eleições. Mas essa expectativa logo caiu por terra. O anúncio de uma nova vitória de Maduro nas eleições de julho de 2024 não foi reconhecido pelos EUA.
Com o retorno de Trump à presidência, aqueles que defendem uma linha mais pragmática foram perdendo espaço para a política mais agressiva e intervencionista. Mas, mesmo entre os representantes da ala mais dura do imperialismo há oscilações e debate sobre até onde ir, incluindo a questão de um ataque ou intervenção militar direta na Venezuela.
Até onde vão os ataques à Venezuela?
Os ataques a embarcações na costa venezuelana tendem a continuar no próximo período. Eles servem para a propaganda interna nos EUA e para pressionar Maduro, fomentar a ideia de que seu regime não se sustenta e assim favorecer dissidências e a oposição de extrema direita. Servem também como demonstração de força por parte dos EUA no contexto latino-americano mas também diante dos adversários na disputa interimperialista com a China e seus aliados.
Apesar das ameaças e da retórica agressiva, uma invasão por terra não é o único caminho possível ou mesmo provável para o imperialismo estadunidense nesse momento.
A última vez que os EUA utilizou tropas para invadir um país latino-americano foi no Panamá em dezembro de 1989, numa operação promovida por George Bush (pai), com o objetivo de derrubar do governo seu ex-aliado e ex-colaborador da CIA, Manuel Noriega. A justificativa para a invasão foi a ligação de Noriega com o tráfico de drogas, mas é evidente que o controle do Canal do Panamá estava no centro das preocupações. Aos EUA interessava que o processo de transição que devolveria ao Panamá o controle formal sobre o Canal acontecesse sem oferecer riscos em relação ao seu controle e influência de fato.
A invasão das tropas estadunidenses no Panamá não teve o respaldo da ONU ou mesmo da OEA e se deu a partir das bases militares que os EUA mantinham no país. Houve bombardeios de instalações militares e políticas, aeroportos e outros edifícios não militares, seguidos de ataques por terra. Estima-se que cerca de 3 mil pessoas morreram nesses ataques e nas incursões de tropas estadunidenses em bairros populares.
Poucas horas após a invasão, o candidato que teria sido vitorioso nas eleições fraudadas por Noriega no mesmo ano, Guilhermo Endara, foi empossado como novo presidente em uma base militar estadunidense. Noriega acabou por entregar-se algumas semanas depois, em janeiro de 1990. Houve então uma normalização da situação política panamenha, mas sob a tutela dos EUA.
As semelhanças entre o caso do Panamá de 1989/90 e a Venezuela dos dias de hoje existem e se referem mais ao modus operandi do imperialismo estadunidense nessas situações (acusações de ligação com o tráfico de drogas, denúncia de fraudes eleitorais, atuação da CIA, etc.). Mas não vão muito além disso. A Venezuela atual e o Panamá de Noriega representam cenários distintos.
Em primeiro lugar, a forte presença militar, política, econômica etc. dos EUA no Panamá tornava muito mais fácil alcançar seus objetivos de forma rápida e eficiente. Na Venezuela, uma intervenção militar direta seria mais difícil e de resultado incerto apesar da avassaladora superioridade militar dos EUA e das fragilidades do regime venezuelano. As lições do Afeganistão e Iraque mostram o quão complexas são essas invasões e como podem transformar-se em um pântano de difícil saída para a potência agressora.
Para além dos elementos propriamente militares, existem os fatores sociais e políticos que teriam enorme peso no caso de uma invasão estadunidense. Por mais que Maduro esteja desgastado e tenha que apelar à repressão como forma de manter-se, ele ainda tem uma reserva de apoio e também existe entre amplos setores sociais que sãocríticos a Maduro um enorme rechaço à ideia de uma interferência direta do imperialismo estadunidense.
Uma invasão estadunidense sobre a Venezuela não seria uma operação de poucos dias ou semanas, como foi no Panamá. Mesmo se o plano for uma incursão rápida para capturar Maduro e alguns membros do governo, não seria tão fácil fazer isso e se desvincular das consequências que uma intervenção geraria.
Isso provocaria provavelmente uma resistência interna e uma comoção em toda a América do Sul e com repercussões ainda mais amplas. Uma situação de guerra civil e resistência armada contra uma ocupação estrangeira teria impacto direto em países vizinhos, como a Colômbia. Isso tensionaria os governos da região e polarizaria ainda mais o cenário político. Sem falar nas consequências humanitárias desse cenário, com uma nova onda de refugiados da crise e da guerra, por exemplo.
Além disso, não há hoje base de apoio na opinião pública dos EUA para mais uma invasão de tropas estadunidenses, resultado dos fracassos e altos custos das operações no Oriente Médio e Ásia Central. É importante destacar que a ênfase da propaganda de Trump foi em torno de seu papel de pacificador e contra as guerras em curso (na verdade visando manter um foco na preparação do confronto com a China).
Ao mesmo tempo em que o desembarque de tropas estadunidenses em território venezuelano não parece ser o cenário mais provável, isso não elimina – todo o contrário – ataques indiretos ou ações por ar, sem colocar as botas diretamente no terreno. É bom lembrar que o próprio Trump promoveu recentemente ações desse tipo nos bombardeios sobre o Irã na chamada guerra de 12 dias.
O lançamento de mísseis e bombas através de drones sobre o território venezuelano é uma possibilidade concreta a depender da escalada dos conflitos. Seu objetivo não seria preparar uma invasão por terra necessariamente, mas desestabilizar o regime, reforçar a sensação de que não há futuro para Maduro e assim estimular as dissidências e abrir caminho para um golpe e um novo governo encabeçado pela ultra direita.
A patética premiação com o Nobel da paz para a líder de extrema direita, golpista e lacaia do imperialismo estadunidense, Maria Corina Machado, é utilizada como uma forma de dar respeitabilidade a potenciais alternativas de poder na Venezuela, apesar das divisões na direita venezuelana e seu caráter completamente degenerado.
Políticas de Maduro não servem à resistência ao imperialismo
Diante dos ataques e ameaças dos EUA, Nicolás Maduro se coloca publicamente como um herói da resistência contra o imperialismo. Tenta usar os elementos simbólicos que historicamente foram construídos pelo Chavismo, embora eles tenham hoje pouca base na realidade.
Simbolicamente, o ministro do interior Diosdado Cabello, homem forte do governo, apareceu publicamente na TV com um livro sobre o pensamento militar de Ho Chi Minh, passando a ideia de que estão se preparando efetivamente para a resistência. Apesar disso, a marca do governo Maduro é o retrocesso das conquistas do processo revolucionário desencadeado principalmente pela insurreição popular que derrotou a tentativa de golpe contra Hugo Chávez em 2002.
Maduro não enfrentou as sanções e ataques do imperialismo e a profunda crise econômica e social aprofundando o processo revolucionário numa direção anticapitalista e socialista, superando os limites do próprio período em que Chávez esteve no poder. Foi na direção contrária, promoveu retrocessos, fez concessões ao capital estrangeiro, buscou forjar uma aliança com o grande capital nacional, garantiu privilégios da alta burocracia civil e militar, sacrificou o povo e a classe trabalhadora com cortes, baixíssimos salários e ausência de reajustes, privatizações e reprimiu qualquer forma de resistência e luta popular que escapasse ao seu controle.
Diante de Trump especificamente, ao lado de uma retórica de resistência, Maduro na prática tenta convencer o imperialismo de que seu governo pode garantir o que Trump deseja – petróleo, minérios, terras raras e abertura para o grande capital estrangeiro lucrar em terras venezuelanas.
Segundo a imprensa internacional, Maduro teria oferecido abrir todos os projetos de petróleo e ouro existentes e futuros para empresas estadunidenses e dar contratos preferenciais a elas. Além disso, se comprometia a reverter o fluxo de exportações de petróleo venezuelano da China para os Estados Unidos e reduzir os contratos de energia e mineração de seu país com empresas chinesas, iranianas e russas.
Sobre essas intenções do regime venezuelano, Trump declarou que “Maduro tinha oferecido tudo porque não quer se meter com os EUA”. Nesse sentido, Maduro disputa com Maria Corina Machado e a oposição de ultra direita sobre quem daria mais concessões ao capital estadunidense.
Já está sendo assim nas concessões à Chevron e outras empresas estadunidenses na Venezuela. A Sunergon Oil acaba de entrar para operar na Faixa Petrolífera do Orinoco, uma das maiores de todo o mundo. A Venezuela tem as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo – 18% de todas as reservas globais conhecidas. Tem também as oitavas maiores reservas provadas de gás natural do mundo. Além disso é rica em minérios, terras raras, lítio, níquel, etc.
O recente recrudescimento do conflito sobre a região de Essequibo – reivindicada historicamente pela Venezuela e que hoje faz parte da Guiana – não foi resolvido e ainda há tensões no ar em relação a essa disputa de uma região que também é extremamente rica em petróleo e minerais estratégicos.
Essa riqueza, associada a cálculos estratégicos geopolíticos e geoeconômicos no contexto da disputa com a China é parte fundamental da motivação do imperialismo estadunidense em suas movimentações em relação à Venezuela.
Diante das ameaças de Trump, o governo passou a mobilizar as chamadas milícias que, segundo alega, podem reunir cerca de 4,5 milhões de voluntários. O treinamento militar de voluntários, no entanto, ainda está muito distante desses números. Boa parte dos esforços de Maduro no último período não foram para preparar uma resistência de fato, mas sim aprofundar a repressão interna visando conter a crítica, dissidência ou oposição, inclusive a oposição de esquerda à sua política pró capital.
Maduro tende a aprofundar as medidas de repressão e o fechamento do regime político. O novo decreto que declara o país em “estado de comoção externa” equivale a um estado de exceção e confere mais poderes a Maduro, que poderá adotar medidas políticas, econômicas e militares, restringir direitos civis etc. em nome da defesa nacional e sem consultar a Assembleia Nacional.
Mobilização de massas, independência política e uma alternativa anti-imperialista socialista
Não é com concessões ao capital estrangeiro e repressão sobre o movimento dos trabalhadores que a resistência contra os ataques e ameaças do imperialismo estadunidense poderá ser vitoriosa. O regime de Nicolás Maduro é incapaz de levar essa resistência até o fim.
Somente a classe trabalhadora de forma independente pode fazê-lo, usando seus métodos de luta e levantando um programa de transformação socialista da sociedade capaz de inspirar as massas trabalhadoras e oprimidas não só da Venezuela, mas no conjunto da América Latina e entre a classe trabalhadora nos EUA.
Nesse processo, a classe trabalhadora venezuelana poderá resgatar as melhores e mais combativas tradições revolucionárias, aprender dos erros e limites do passado e, dessa forma, construir uma alternativa socialista e revolucionária ao que representa o regime de Maduro e sua base na burocracia e setores da burguesia venezuelana. É o povo venezuelano que deve acertar contas com Maduro e a ultra direita, sem interferência imperialista de nenhum lado.
É preciso levantar a bandeira da organização de comitês de luta da classe trabalhadora e do povo pobre e oprimido que sejam independentes do governo capazes de organizar a resistência ao imperialismo e ataques do governo, capazes também de preparar a autodefesa armada diante de uma invasão imperialista.
Diante do ataque externo, é preciso estatizar as empresas estrangeiras, em particular as de capital estadunidense, e os setores chave da economia do país e passá-los ao controle e gestão dos trabalhadores. É necessário acabar com a política privatista sobre o petróleo e os recursos minerais venezuelanos. Junto com isso, é preciso parar de pagar a dívida externa e voltar os recursos para os interesses da maioria do povo com salário, emprego, moradia, saúde e educação. É preciso defender também o controle dos trabalhadores sobre todo o aparato de defesa existente no país.
Nesse processo é fundamental a mobilização e solidariedade no conjunto dos países latino-americanos e também no interior dos Estados Unidos. O repúdio à intervenção dos EUA na Venezuela deve ser uma bandeira levantada pelo movimento dos trabalhadores em todo o mundo.
É necessário rejeitar qualquer ilusão em relação ao bloco de países em torno da China e Rússia como suposta alternativa imperialista mais moderada e contraponto aos EUA.
Não se deve trocar um patrão por outro, mas sim acreditar no enorme potencial de resistência e transformação que pode gerar a unidade latino-americana sobre bases políticas socialistas e revolucionárias – algo impensável em aliança com qualquer dos campos imperialistas.
A unidade de ação contra a agressão imperialista deve se dar sem abrirmos mão da independência de classe e defesa de uma alternativa socialista. O próximo período na América Latina será marcado pela resistência e mobilização contra novos e velhos governos de ultra direita e na luta contra as agressões imperialistas. Precisamos estar preparados para esses embates decisivos construindo uma alternativa socialista, anti-imperialista e internacionalista da classe trabalhadora.















