Argentina: Milei sai vitorioso em eleição com menor participação desde 1983

Javier Milei
Foto: Oliver Kornblihtt/Mídia Ninja

Construir a resistência dos trabalhadores e uma alternativa socialista

O presidente de extrema direita da Argentina, Javier Milei, conseguiu garantir uma vitória inesperada para seu partido, La Libertad Avanza, nas eleições de meio de mandato no domingo, 26 de outubro, com base na polarização e na ajuda de Trump. “Ele teve muita ajuda nossa. Eu lhe dei um apoio muito forte”, comentou Trump.

As eleições foram uma derrota para as táticas de pacificação e moderação dos peronistas de “centro-esquerda”, que não conseguiram mobilizar seus eleitores, apesar de sua recente vitória contra Milei nas eleições provinciais em Buenos Aires, em 7 de setembro. As eleições deste mês tiveram a menor participação eleitoral desde o fim da ditadura, em 1983.

Milei tentará usar o resultado para renovar os ataques aos trabalhadores e aos pobres, mas os problemas econômicos subjacentes estão se acumulando, apesar de um novo e enorme resgate financeiro diretamente do Tesouro dos EUA, que ajudou a adiar temporariamente uma nova crise monetária. Esses ataques serão recebidos com resistência, como vimos nos dois primeiros anos da presidência de Milei, mas o movimento precisa ser levado a um novo nível para realmente parar seu rolo compressor. 

Milei assumiu o cargo no final de 2023 e, em seu primeiro ano, conseguiu implementar uma série de ataques — cortando gastos públicos, aposentadorias, subsídios para transporte, aquecimento e eletricidade, além de desregulamentar o aluguel, atacar os direitos trabalhistas e democráticos e privatizar empresas estatais como a metalúrgica IMPSA. 

Seu primeiro ano no cargo também foi marcado pela resistência popular, mas a burocracia sindical liderada pelos peronistas refreou a luta, chegando a declarar uma “trégua” após uma greve geral bem-sucedida. A luta continuou este ano e uma nova greve geral foi convocada em abril. Mas, novamente, ela não foi seguida por um plano de luta contínua e intensificada para derrubar Milei, mas sim usada como uma válvula de escape para liberar a pressão. Os resultados das eleições mostram o fracasso das tentativas de desviar a luta para canais eleitorais “seguros”.

Milei manteve um nível elevado de apoio nas pesquisas no ano passado e no início deste ano. Um fator importante foi que seu plano para conter a inflação parecia bem-sucedido, com a inflação anual caindo de mais de 200% no ano passado para 32% em setembro. Isso se baseou em uma austeridade extrema, contendo os gastos públicos e o consumo privado e, ao mesmo tempo, gerenciando uma queda gradual da taxa de câmbio oficial do dólar.

Após dois anos de queda do PIB, a economia começou a se recuperar no final do ano passado e, no início, os números pareciam impressionantes, em comparação com o fundo do poço de 2024. Também houve uma enorme campanha de propaganda internacional da imprensa burguesa e dos mercados, a favor das políticas de Milei e dos ataques aos trabalhadores, com alguns até afirmando que a Argentina cresceria mais rápido do que a China.

Um ano de problemas

Mas 2025 também foi um ano de problemas para Milei. Em seu primeiro ano, ele conseguiu aprovar muitas de suas políticas, mesmo com apenas uma pequena minoria dos assentos no Congresso, com a ajuda de parte da “oposição” e dos governadores provinciais. Mas este ano, ele perdeu a maioria das votações no Congresso. A recuperação também começou a perder força, com o PIB caindo novamente no segundo trimestre e provavelmente caindo novamente no terceiro, o que significa que a Argentina está de volta à recessão. Embora ainda muito inferior à dos últimos anos, a inflação mensal aumentou para 2,7% em outubro, ante de nível mais baixo de 1,5% em maio.

Milei também começou a perder popularidade após vários escândalos de corrupção. Em fevereiro, ele promoveu uma criptomoeda que se revelou uma fraude. Em agosto, foram feitas acusações contra sua irmã, Karina Milei, que ocupa um cargo importante no governo, de receber propina em troca de contratos de medicamentos para pessoas com deficiência. Em outubro, José Luis Espert, principal candidato de Milei na província de Buenos Aires, desistiu da eleição após acusações de receber dinheiro de traficantes de drogas.

Durante o ano, Milei lutou para impedir que a moeda argentina, o peso, despencasse, após uma desvalorização inicial de 800% para aproximar a taxa oficial da taxa de mercado. Se o peso perdesse valor muito rapidamente, isso levaria a um novo aumento da inflação, em uma economia altamente dolarizada. Uma das promessas de Milei nas eleições era dolarizar a economia. O plano era fazer uma desvalorização gradual, mas ela tem sido mais lenta do que a inflação. Isso significa que o peso tem se valorizado relativamente, levando a déficits comerciais à medida que os produtos argentinos ficam mais caros, mas também levando as pessoas que podem pagar a acumular dólares em vez de gastá-los. O déficit comercial e em conta corrente significa que a única maneira de obter dólares para a economia tem sido por meio de empréstimos. Essas contradições e outros problemas na economia ameaçam levar a mais fuga de capitais e uma queda do peso.

Portanto, em vez de uma “história de sucesso” para a Argentina e Milei, o que temos visto é o governo tendo que depender de novos empréstimos de emergência para ter algumas reservas para defender o valor do peso. No início deste ano, o FMI concordou com um novo empréstimo de US$ 20 bilhões e o Banco Mundial com US$ 10 bilhões adicionais. 

Mas após sua derrota nas eleições provinciais em Buenos Aires em setembro, quando o partido de Milei ficou quase 14% atrás dos peronistas, o dólar começou a cair novamente e o governo estava ficando sem reservas. Foi então que Trump interveio para salvar seu amigo de direita. 

Trump dá sustentação a Milei

Em 6 de outubro, ao mesmo tempo em que Milei realizava um show de rock ( sendo ele mesmo a estrela) para lançar seu novo livro, “A Construção de um Milagre”, seu ministro da Economia, Luis Caputo, estava em Washington implorando por um “milagre” muito material. 

O Tesouro dos EUA comprou pesos diretamente no mercado e, em 20 de outubro, foi assinado um acordo para um pacote de empréstimos na forma de um swap cambial de US$ 20 bilhões, que pode ser ampliado para US$ 40 bilhões. Trump disse explicitamente que a condição era a vitória de Milei nas eleições, “ou estamos fora”.

Quais são os interesses dos EUA na Argentina? Trump levou o capitalismo de compadrio a um novo nível e Milei tem sido um de seus mais fortes apoiadores e aliados políticos. A América do Sul também é um importante palco para a competição com a China por influência. “Estamos comprometidos com muitos países da América do Sul. Nosso foco está muito voltado para a América do Sul”, disse Trump ao comentar as eleições.

Em 2020, a Argentina organizou um swap cambial de US$ 18 bilhões com a China, dos quais US$ 5 bilhões foram ativados pela Argentina em 2024 e renovados em 2025, apesar de Milei ter chamado a China de “Estado assassino” durante sua campanha presidencial. Portanto, a ideia é substituir a ajuda da China por dólares estadunidenses. 

Há também uma disputa sobre as relações comerciais, o que também mostra que as políticas de Trump são contraditórias e que ele está pronto para trair qualquer um que o apoie. Trump diz que planeja quadruplicar a cota da Argentina para importações de carne bovina com tarifas baixas, para tentar reduzir os preços da carne e ajudar seu comparsa. Isso gerou reclamações dos agricultores estadunidenses. A Argentina também tem sido uma fonte alternativa de soja para a China, que costumava comprar muito dos EUA, novamente irritando os agricultores dos EUA.

A Argentina também possui importantes recursos naturais. A formação Vaca Muerta é a segunda maior reserva mundial de gás de xisto e a quarta maior de petróleo de xisto. A Argentina também possui 20% das reservas mundiais conhecidas de lítio, que é fundamental para veículos elétricos e armazenamento de baterias.

Como de costume com Trump, os interesses estratégicos também estão ligados a interesses mais pessoais. Paul Krugman relatou como os gestores de fundos de hedge, amigos do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, estavam ficando nervosos com a possibilidade de perder o dinheiro que investiram na Argentina. Portanto, o empréstimo para “ajudar” a Argentina também tem a vantagem de garantir que haja dólares suficientes para financiar sua fuga de capitais!

No fim das contas, tudo o que Milei conseguiu foi ganhar algum tempo. Nenhum dos problemas econômicos fundamentais foi resolvido e a dívida externa é uma bomba-relógio. A Argentina encerrou o segundo trimestre com a maior dívida externa de sua história, US$ 305 bilhões, dos quais US$ 55 bilhões são devidos ao FMI. 

Os mercados, o FMI e Trump esperarão que Milei intensifique os ataques com privatizações, cortes e desmantelamento dos direitos trabalhistas, o que ele fará com prazer. Ele ainda não tem maioria no Congresso, mas agora tem mais de um terço das cadeiras, o que lhe dá o poder de impedir que o Congresso derrube seus vetos.

Mas haverá resistência dos trabalhadores e da juventude, como vimos ao longo de sua presidência. Nesse sentido, um resultado positivo das eleições foram os quase 900 mil votos para a FIT-U, a “Frente de Esquerda dos Trabalhadores – Unidade”, que conquistou três mandatos na Câmara dos Deputados e 9,1% na cidade de Buenos Aires, tornando-se a terceira maior força política na capital e na província. No entanto, a FIT-U ainda tem dificuldade em ser uma força eficaz além de uma aliança eleitoral, com impacto real nas lutas. O desafio para os socialistas é construir um movimento que possa libertar a luta do domínio sufocante da burocracia sindical peronista, armado com um programa socialista para superar a crise do capitalismo argentino, como um passo na construção de uma poderosa alternativa socialista latino-americana. 

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