Atos de domingo mostram o potencial para continuar e ampliar a luta contra a direita e por direitos

Os atos da esquerda neste domingo (21/09) juntaram centenas de milhares nas ruas, no maior dia de protestos desde o tsunami da educação em 2019. Os atos foram convocados com alguns dias de antecedência como resposta à PEC da Bandidagem e a votação da urgência do PL da anistia, mas mostram que existe um potencial de retomada das lutas de forma mais ampla. Demandas como o fim da Escala 6×1 e a isenção do imposto de renda até 5 mil reais tiveram forte presença nos atos. Agora é necessário dar continuidade às mobilizações, e não enterrar a disposição de luta em negociatas.
Os sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda precisam convocar desde já um novo dia de mobilização no futuro imediato. Nesse domingo, 28 de setembro, devemos fortalecer o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto.
A força dos atos levou a PEC da Bandidagem a ser enterrada no Senado. Agora é o momento de ir pra cima para fazer a extrema direita recuar ainda mais e conquistar direitos. A prisão e agora condenação de Bolsonaro deixou a direita acuada. A intervenção imperialista de Trump para ajudar seus amigos da extrema direita e as big techs, com tarifaço e sanções contra representantes do governo e do judiciário, pegou mal, desmascarando o falso discurso “patriota” dos entreguistas.
A PEC da Bandidagem também mostra que essa direita que se credenciou sobre uma suposta agenda anticorrupção, na verdade segue o lema “bandido bom é bandido meu” e quer voltar para os tempos em que o congresso barrava a investigação de deputados corruptos e criminosos, e fazem isso justamente quando fica cada vez mais evidente a infiltração do crime organizado nos negócios e na política.
Porém, aqui esbarramos nos limites da estratégia de Lula e do PT de conciliação de classes, de construir sua “governabilidade” com acordos com a direita, sacrificando pautas progressistas para não atrapalhar os acordos como, por exemplo, no tema do direito ao aborto.
A relação com o congresso tem azedado no último período, especialmente quando o STF começou a travar a implementação das emendas parlamentares, que são um instrumento fundamental para deputados garantirem sua permanência através de projetos voltados para suas bases eleitorais, além de serem mais propícios à corrupção por falta de transparência.
Diante de várias derrotas em votações no congresso, com partidos de direita que compunham o governo votando em peso contra propostas do governo, e a perda de popularidade nas pesquisas, os petistas foram para cima lançando a campanha “congresso inimigo do povo”. Isso veio junto com a reação de Lula contra as tarifas de Trump enfatizando a soberania nacional, contrastando com muitos outros governos que se humilham diante de Trump, e também adotando um discurso contra o genocídio em Gaza em meio à crise diplomática com Israel e seu governo da morte encabeçado por Netanyahu.
O governo investiu pesado em propaganda nas redes e na TV defendendo a isenção de IR até 5 mil reais, fim da Escala 6×1 e taxação dos ricos. Muitos saudaram esse suposto “giro à esquerda de Lula”.
Mas, como em vários outros momentos, os acenos à esquerda são cheios de contradições e não significam uma mudança de curso. A estratégia de Lula e do PT ainda segue sendo construir alianças com a direita para garantir a vitória eleitoral em 2026, incluindo com União Brasil e PP que no momento estão desembarcando do governo. Para isso ser possível, é também necessário passar temas chaves de apelo popular, como a isenção do imposto de renda até 5 mil reais. Por isso as negociatas continuam. A votação de 12 deputados do PT a favor da PEC da Bandidagem, ou dos 8 a favor do voto secreto, não devem ser vistas como traição pessoal, mas como parte dessas negociatas. A tesoureira do PT, Gleide Andrade, ao mesmo tempo que fez postagens contra a PEC da Bandidagem, defendeu os 12, colocando que “temos que ser justos com a história e com as pessoas. Os doze que votaram, votaram porque seguiram uma orientação”.
Lula também deixou em aberto a possibilidade de apoiar um “PL da dosimetria”, uma redução de pena para os condenados pelos atos golpistas. Esse projeto tem como relator Paulinho da Força, que conta com a ajuda de Michel Temer e Aécio Neves, com o intuito de “apaziguar o país”!
As contradições estão em todos os lugares. Lula condena Israel diplomaticamente, mas o país continua importando armas israelenses e fornecendo petróleo. Fala em “soberania” e “reciprocidade” contra as tarifas de Trump, mas somente depois de 6 meses ou um ano, e até lá a linha é negociar, incluindo acesso privilegiado às terras raras do Brasil.
Há também uma forte contradição entre o discurso de que o governo é refém do congresso de direita e faz o que pode. Vários dos ataques implementados surgiram de propostas do núcleo duro petista do governo, como o novo arcabouço fiscal que impõe cortes sociais, que levou às propostas de cortes no BPC, abono salarial e limitar o aumento do salário mínimo. O governo também prepara uma nova contrarreforma administrativa que deve atacar os direitos do funcionalismo público.
Lula continua defendendo a exploração do petróleo na foz do Amazonas e sancionou o PL da Devastação, vetando somente partes do projeto. As privatizações continuam com base nas PPPs, implementadas no primeiro governo Lula em 2004. As privatizações na educação de Tarcísio em São Paulo são bancadas pelo BNDES, dirigido pelo petista Aloizio Mercadante. O metrô de Recife e Porto Alegre, ambos de empresas federais, estão sendo privatizados. Recentemente, o governo incluiu a privatização das hidrovias de três rios amazônicos.
O discurso duro de antes contra os juros altíssimos agora está mais quieto, já que quem manda no Banco Central agora são indicados por Lula.
Obviamente, tudo isso seria pior ainda com um governo puro sangue da direita. Sonham com uma repetição da “Ponte para o futuro”, o pacote de ataques do governo golpista de Temer. Eles querem privatizar mais, cortar mais no orçamento e fazer uma nova contrarreforma da previdência. Um novo governo de direita tende também a atacar mais os direitos democráticos, como vemos ao redor do mundo, devido à crise do sistema e o nível de ataques que querem impor.
A forma de resistir a isso não é ceder em partes, e sim uma mudança de rumo total. Essa estratégia de conciliação de classes, que não ataca as estruturas podres desse sistema, não tem barrado o crescimento da extrema direita e do golpismo. Na verdade, ajudou a abrir espaço para um discurso falso “antissistêmico” da direita.
Unir as lutas e construir uma alternativa socialista
Agora é o momento de unir as lutas. As mobilizações de domingo mostram que não há uma “correlação de forças” negativa e fixa, ela pode ser mudada rapidamente com mobilizações. Passamos por derrotas importantes em 2016 e 2018, mas não foram definitivas. Também não podemos encarar as vitórias até agora como frutos de duas pessoas – Lula e Alexandre de Moraes – e sim fruto de uma vontade de mudança latente na sociedade, que diante da falta de referência de luta tem tido dificuldade de se expressar.
Temos que enfrentar a relação contraditória do petismo com as lutas, que usam a mobilização social como instrumento de pressão a serviço das negociatas no congresso não como um instrumento para potencializar uma mudança estrutural da sociedade.
A unidade dos sindicatos e movimentos nas lutas é fundamental, mas isso não pode ser usado para dar ao petismo um poder de veto para impor um ritmo das lutas, ou limitação das pautas para que caibam na estratégia institucional do PT.
As lutas não são como água da torneira que você abre e fecha quando quiser. Quando um movimento cresce, a massa começa a sentir sua força e ele tende a incorporar mais pautas. Tudo se torna possível. Mas se você tentar impor um ritmo espaçado, ofuscando um caminho vitorioso, o movimento esfria, como vimos várias vezes, abrindo espaço para a recuperação da direita.
Infelizmente, o recado de Guilherme Boulos e Érika Hilton no ato em São Paulo foi o de manter a mobilização agora para garantir a vitória eleitoral de Lula e ajudar a eleger deputados para ajudar Lula a governar.
Como muitos na esquerda, eles seguem a linha de que só Lula pode barrar a extrema direita e que por isso o governo Lula tem que dar certo. Se reduzimos a luta a isso, não levantamos a luta pelo direito ao aborto, contra a exploração do petróleo na Amazônia, contra o arcabouço fiscal, que segundo Lula, atrapalhariam o governo.
Os mesmos também defendem que Lula deve encabeçar o movimento, e com certeza Lula teria uma capacidade de mobilizar multidões, mas ele já deixou bastante evidente que não fará isso. Ele não convocou os atos esse domingo, muito menos participou, e orientou seus ministros a não participar para não acirrar ânimos com o Congresso.
É perigoso também achar que uma luta forte agora se traduzirá automaticamente em votos na próxima eleição, especialmente se ela não leva a vitórias. Essa foi uma lição dura do movimento contra Temer em 2017. As direções petistas tentaram segurar os protestos para não derrubar Temer, na expectativa de sangrar o governo para garantir uma vitória eleitoral em 2018. O resultado nós vimos, a eleição de Bolsonaro e tudo que se sucedeu.
Os sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda precisam convocar desde já um novo dia de mobilização no futuro imediato. São muitas lutas em curso pelo país afora, mas que acontecem de forma isolada e teriam um potencial maior se fossem parte de um movimento nacional. Não podemos deixar ninguém para trás.
Desde a greve da construção civil em Belém, a luta pela legalização do aborto, contra a violência policial nas periferias, a luta dos povos indígenas contra a devastação ambiental, devem ser unificadas com a luta contra a escala 6×1, pela taxação dos ricos, contra as privatizações e o arcabouço fiscal, contra a anistia aos golpistas e a PEC da Bandidagem.
Para derrotar a direita e extrema direita é preciso uma pauta de investimentos sociais e de direitos sociais que vai dos limites desse sistema, passa por revogar o arcabouço fiscal, taxar os ricos e grandes empresas, acabar com o sistema da dívida pública de pilhagem de dinheiro público e enfrentar o poder dominante das grandes empresas e seus representantes. Para isso é necessário apostar nas lutas e na construção de uma alternativa socialista, independente do governo.















