Combatendo a extrema-direita na era da “machosfera”
Por um feminismo socialista contra os ataques reacionários!

Em meio à crise econômica mundial, o capitalismo revela ainda mais sua face violenta. Uma das principais ferramentas de ascensão ao poder da direita e da extrema direita é a agenda reacionária contra as mulheres e pessoas LGBTQIA+. A exaltação de “homens fortes” e a defesa de uma “família tradicional” funcionam como justificativas para ataques e retirada de direitos.
No acirramento de exploração da classe trabalhadora, a opressão de gênero, ferramenta fundamental para a manutenção desse sistema falido, retoma antigos contornos e toma o espaço digital como nova ferramenta de difusão. A chamada “machosfera” avança e passa a fazer parte do discurso dominante.
São grupos que compartilham a ideia de que os homens possuem direitos naturais sobre as mulheres e que seriam eles as verdadeiras vítimas de discriminação de gênero na sociedade. Essa inversão da realidade serve como justificativa para práticas misóginas e para o fortalecimento das políticas conservadoras.
É um processo necessário para os que buscam manter esse sistema falido. Por isso nossa resposta precisa ir além de simplesmente condenar as ideias reacionárias e aqueles que as defendem. Precisamos construir uma luta feminista socialista de massas contra os ataques aos direitos das mulheres e em defesa das pessoas LGBTQIA+!
Autoritarismo e guerra contra as mulheres
Militarismo, autoritarismo e opressão de gênero andam de mãos dadas. As mulheres são grande parte das vítimas fatais em conflitos armados, além de sofrerem em massa com violência sexual e falta de assistência médica. Mas, mesmo fora das zonas de guerra imediatas, os regimes autoritários que manifestam a onda militarista e o poder dos homens, afetam diretamente as vidas das mulheres.
A reafirmação do controle da família nuclear funciona como fonte de disciplina social e trabalho não pago das mulheres. A exploração da força de trabalho migrante, o racismo e a perseguição às pessoas trans se somam a esse pacote reacionário. A propaganda de “homens alfas” e mentalidade guerreira serve aos interesses da classe dominante de dividir os trabalhadores, naturalizar papéis de gênero e justificar que as mulheres carreguem o fardo duplo: emprego precário e trabalho doméstico gratuito.
A direita usa a opressão e exploração de grupos específicos para dividir e atacar. A caça às bruxas contra pessoas trans serve para enfraquecer os direitos de todas as mulheres. Da mesma forma, os patrões exploram imigrantes e espalham racismo para esconder que eles mesmos destroem salários e condições de trabalho.
Misoginia rentável e política na era digital
A misoginia se torna cada vez mais um produto lucrativo. Plataformas digitais e redes sociais monetizam vídeos e conteúdos que disseminam discursos de ódio e de exploração das mulheres e meninas, gerando renda para criadores e empresas de tecnologia. Esse fenômeno assume caráter global, moldando-se a diferentes realidades, enquanto reforça valores autoritários e moralistas que restringem liberdades e atacam direitos.
São vários os exemplos de como esse ódio rentável às mulheres se atrela à ascensão das políticas reacionárias pelo mundo. Os Estados Unidos, com seus empresários, big techs e o atual governo Trump, figuram hoje como principais expoentes dessa ofensiva.
Do outro lado da disputa imperialista global, Xi Jiping reafirma agressivamente a defesa dos papeis tradicionais de gênero na China. A estratégia do Estado apela para propaganda estatal e censura de conteúdos considerados “não masculinos” como o K-pop, misturando valores culturais tradicionais sobre “masculinidade forte” com a retórica redpill no combate à um suposto “afeminamento” da população jovem.
Na América Latina, a religião e a defesa da “família” justificam ataques contra direitos sexuais e reprodutivos. No Brasil, o bolsonarismo escancarou o ódio da extrema direita às mulheres. Ataques reacionários utilizando a pauta da família e da religião se tornaram propaganda do discurso misógino de Bolsonaro e aliados.
Atualmente são vários os canais no YouTube com conteúdo misógino explícito, ao mesmo tempo em que aumentam os casos de feminicídio e violência contra mulheres. Multiplicam-se os ataques em lugares públicos a plena luz do dia, como no caso recente contra Juliana Soares que recebeu 61 socos dentro de um elevador em um condomínio residencial.
Só a luta socialista pode barrar a reação
Esse avanço de setores reacionários não é eterno nem imutável. Em vários países, vemos milhões de jovens, mulheres, LGBTQIA+ e trabalhadores enfrentando governos e saindo às ruas pelos seus direitos. Esses movimentos mostram a força de uma classe trabalhadora diversa, que se levanta contra opressão e exploração.
As lutas acontecem, mas as ideias antifeministas também seguem crescendo e isso mostra que apesar de termos lutas impressionantes elas não expressam ainda uma alternativa política, por isso há um limite do quanto conseguem avançar. A extrema direita cresce também porque a esquerda reformista se recusa a ligar as demandas imediatas à necessidade de derrotar o capitalismo.
A emancipação das mulheres e de todos os oprimidos só pode vir da luta coletiva da classe trabalhadora contra o capital. Isso não significa esperar a revolução para agir, cada vitória importa. Mas não podemos confiar em saídas institucionais, elas se mostram historicamente insuficientes e, ainda pior, capazes de causar fraturas que dividem a classe trabalhadora a partir da confiança de uma mudança que não vem e não virá.
Uma transformação real e duradoura só pode acontecer se houver clareza sobre as raízes das opressões e ação direta para que as mulheres joguem um papel pleno em sua própria libertação e na libertação da classe trabalhadora. A ofensiva da “machosfera” e do autoritarismo só poderá ser derrotada através de organização consciente, com unidade internacionalista e ação revolucionária coletiva!
Direitos reprodutivos e aborto
O dia 28 de setembro marca o dia de luta das mulheres pelos Direitos Reprodutivos e pelo aborto. Nesse cenário mundial é fundamental voltarmos nosso olhar para o fato de que um alvo primordial dessa ofensiva global às mulheres é o direito ao aborto. Ele toca diretamente na autonomia das mulheres, no controle sobre a reprodução e na divisão sexual do trabalho, alguns dos principais pilares de sustentação da exploração capitalista.
Nos EUA multiplicaram-se proibições estaduais, perseguição a provedores, restrições à telemedicina e batalhas judiciais contra medicamentos. Na Argentina, Milei e sua base tentam desmontar a lei recém-conquistada, impondo barreiras administrativas e cortes de recursos. Objeção de consciência, cortes orçamentários, criminalização indireta e discursos moralistas compõem o mesmo manual de ataque, seja nos EUA, Europa, América Latina ou Ásia.
No Brasil o aborto legal que já é restrito enfrenta falhas sistemáticas para sua garantia. São obstáculos no atendimento às vítimas de estupro, procedimentos previstos na lei, e integração das redes de saúde. Constantemente lidamos com ataques legislativos, fechamento de serviços, assédio judicial a equipes médicas e falta de protocolos claros em muitos locais. Em 2023, foram mais de 14 mil meninas-mães no país, a maioria sem acesso à interrupção legal.
O governo Bolsonaro promoveu um desmonte federal nas políticas públicas voltadas à saúde das mulheres. No seu absurdo papel de ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, promoveu perseguições diretas à garantia do direito ao aborto, chegando ao limite de expor e atacar deliberadamente uma criança de 10 anos para impedir a realização de um aborto fruto de estupro.
O atual governo Lula segue se esquivando do tema, enquanto o arcabouço fiscal e a falta de recomposição plena do orçamento da saúde deixam clara a posição deste governo sobre não comprar a briga pelas vidas das mulheres, optando por acordos conciliatórios com os setores reacionários.















