Greve histórica em Minneapolis expulsa polícia de imigração de Trump

Manifestação contra ICE em Minneapolis

Temos acompanhado aqui do Brasil os diversos abusos cometidos pela polícia de imigração dos EUA, o ICE (Imigration and Customs Enforcement), durante o mandato de Donald Trump. Milhares de prisões e deportações arbitrárias pelo país, separando famílias, atingindo idosos e crianças, ações truculentas, perseguições nas ruas, igrejas, locais de trabalho e até mesmo em escolas. Houve casos de imigrantes em processo de legalização sendo presos dentro ou na proximidade de departamentos de imigração nos dias de suas audiências! Os agentes muitas vezes andam mascarados e em carros sem identificação, apostando no medo e intimidação.

As ações do ICE vem sendo legitimadas pelas instituições estadunidenses que ou se omitem ou o apoiam abertamente, como no caso da Suprema Corte que autorizou os agentes do ICE a abordarem pessoas nas ruas baseadas em estereótipos, na língua que falam ou na sua aparência, escancarando o caráter racista e arbitrário da política.

Trump tem triplicado o orçamento do ICE, usando como arma para deportação de imigrantes em massa, mas também para criar terror em cidades lideradas pelos democratas. O ICE conta com um orçamento de 75 bilhões de dólares, dentro dos 170 bilhões destinados ao Departamento de Segurança Nacional (DHS). Se o ICE fosse um exército nacional seria o décimo sexto maior orçamento militar do mundo!

A política anti-imigração de Donald Trump deve ser entendida como um ataque geral à classe trabalhadora, uma tentativa de destruir a capacidade de reação e luta do povo, pavimentando o caminho para a aplicação de sua agenda política reacionária, uma necessidade do regime em um cenário de crescimento dos conflitos inter-imperialistas entre as potências capitalistas.

Estado de terror enfrenta resistência

Mas esse estado de terror promovido pelo governo estadunidense tem encontrado resistência da população e foi na cidade de Minneapolis onde vimos a primeira grande derrota desta política. A operação do ICE na cidade começou em dezembro, tornando-se a maior operação até agora, com mais agentes do ICE atuando do que há policiais na cidade. Porém, graças a mobilização da classe trabalhadora nos bairros e locais de trabalho e da greve geral de 23 de janeiro que colocou mais de 50 mil pessoas nas ruas, mesmo em um frio de 25 graus negativos, foi possível fazer Trump recuar. O odiado chefe da operação, Greg Bovino, foi removido e o novo chefe declarou que a operação seria desmobilizada. Há lições importantes a serem tiradas desse processo, uma luta que ainda não acabou e precisa avançar, para retirar o ICE definitivamente de Minneapolis e de todas as demais cidades dos EUA.

Minneapolis não é estranha a protestos massivos e não assistiu paralisada aos abusos cometidos pela polícia imigratória de Trump: foi lá que George Floyd foi assassinado, dando origem aos protestos do “Black Lives Matter” em 2020. Nos meses que antecederam o assassinato de Renee Good por agentes do ICE e a greve de 23 de janeiro, dezenas de milhares de pessoas já estavam se organizando nos bairros e comunidades para impedir as perseguições aos imigrantes, muitas vezes fisicamente, avisavam seus vizinhos a presença de agentes por meio de apitos, realizavam atos e manifestações nas ruas e chegaram a cobrar dos sindicatos locais que tomassem ações decisivas contra essa política de imigração.

Essa organização para realizar ações coletivas foi um processo de aprendizagem importante, um saldo político da luta, em especial por ser uma pauta de enfrentamento direto com o governo e não corporativa, mas baseada na solidariedade entre trabalhadores: se atacam um dos nossos, atacam a todos!

Greve como arma política

Porém essas ações atingiram um limite frente ao aumento da truculência do ICE e precisavam avançar. A Alternativa Socialista, organização irmã da LSR nos EUA, desde o começo se somou a essas mobilizações nos bairros e locais de trabalho, chamou e organizou reuniões para fazer o enfrentamento e apontou para a necessidade de que essa luta precisava avançar para a construção de greves e se nacionalizar, para atingir os capitalistas onde eles mais sentem: nos seus lucros!

A trágica morte de Renee Good, alvejada com tiros por um agente do ICE dentro de seu carro, foi um catalisador importante para a greve geral de 23 de janeiro, em um cenário de descontentamento e resistência crescentes em Minneapolis, e, um dia depois da greve, Alex Pretti foi brutalmente assassinado por um agente do ICE enquanto tentava defender uma manifestante caída sendo agredida por agentes. Essas mortes levantam o alerta do quanto pode escalar esse tipo de política de Donald Trump, colocando a necessidade urgente de derrotá-la  por completo e não só na cidade de Minneapolis.

Construir a greve geral do 1º de Maio

A greve geral em Minneapolis foi a primeira em uma cidade em 80 anos e foi fundamental para mostrar o potencial de greves para avançar na luta. Junto com o dia nacional de lutas de 30 de janeiro, que contou com mais de 300 ações pelo país, puxadas em especial pelos estudantes, deu força para a iniciativa de uma greve geral nacional, chamada pela May Day Strong, para 1º de Maio. Isso seria um passo histórico, já que nunca houve uma greve geral nacional nos EUA. 

Diversas lideranças sindicais têm participado da coalizão, mas ela ainda precisa crescer mais, o movimento sindical como um todo deve se movimentar, pois só uma grande greve que coloque em cheque o lucro dos grandes capitalistas por todo o país poderá derrotar a política de Trump.

A construção dessa greve tem vários desafios pela frente. Em primeiro lugar é preciso que as maiores organizações do movimento sindical dos EUA entrem de cabeça na construção da luta, se desvencilhando da liderança do Partido Democrata que já demonstrou só estar na luta contra o ICE na retórica. A linha dos Democratas é barrar os “abusos” do ICE, mas estão comprometidos com a deportação de imigrantes: o governo de Joe Biden foi responsável por mais deportações do que os governos Trump.

Em segundo lugar, é preciso organizar os trabalhadores não sindicalizados que hoje são 90% da massa de trabalhadores do país. Muitos locais de trabalho não sindicalizados participaram ativamente da paralisação no dia 23 de janeiro, e devem continuar se organizando, inclusive usando esse momento de levante para o aumento da sindicalização. 

Desafiar as leis antissindicais

Por último, é necessário enfrentar as leis antissindicais dos EUA, que intimidam os trabalhadores e sindicatos. Muitos contratos de trabalho hoje possuem cláusulas que impedem a sindicalização e punem a participação dos trabalhadores em movimentos grevistas. Uma tática que tem sido usada até então para burlar essa legislação são os “sick-outs” coletivos, ou seja, os trabalhadores se organizam para coletivamente tirarem um dia de licença médica juntos por motivo de doença, impedindo o estabelecimento de funcionar. Mas isso não será suficiente daqui para frente: será necessário enfrentar essa legislação. O que a história do movimento operário nos ensina é que as greves foram ilegais até esse direito ser conquistado, desafiando a lei. Com um movimento forte é possível derrotar a política de Trump e as leis antissindicais ao mesmo tempo! Boa parte dos direitos dos trabalhadores hoje foram conquistados em condições semelhantes.

A próxima manifestação nacional “No Kings Day” em 28 de março será um momento importante para que os sindicatos, estudantes e ativistas demonstrem a força do movimento, para ganhar a confiança dos que ainda estão indecisos ou com medo, como parte da construção de um 1º de Maio vitorioso que possa derrotar Trump e sua política anti-imigração.

A Alternativa Socialista tem participado ativamente desses processos e tem jogado o melhor de suas forças em organizar os trabalhadores nos bairros, locais de trabalho e nos sindicatos onde atua, levantando um programa radical, que parte da solidariedade entre os trabalhadores e da derrota do ICE mas que compreende que esta é uma luta contra um sistema, contra o capitalismo dos EUA que hoje tem na figura de Trump sua direção.

Lutar por uma alternativa socialista

É preciso defender a legalização e direito de cidadania imediata a todos os imigrantes, a expulsão do ICE de todas as cidades e o completo desfinanciamento do DHS, colocando seus 170 bilhões de dólares a serviço de programas sociais que atendam às necessidades dos trabalhadores. A luta contra a política anti-imigração de Trump é uma luta dos trabalhadores contra um sistema que usa a divisão dos trabalhadores entre imigrantes e nativos para explorar a todos, e deve ser combatida com a construção de uma nova sociedade, uma sociedade socialista.

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