11 dias de guerra contra o Irã – Trump desencadeou um pesadelo

Fumaça preta após bombardeio no Irã

Vidas, energia, meio ambiente e economia mundial sob ataque

A guerra do imperialismo estadunidense no Oriente Médio continuou a se intensificar em sua segunda semana. No décimo primeiro dia da guerra (10 de março), o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, declarou que “hoje será o dia mais intenso de ataques” até agora. Imagens de nuvens em forma de cogumelo e infernos violentos no centro de Teerã, Beirute e outros lugares inundaram as transmissões. O número confirmado de mortos chega a milhares.

Não contentes em explodir escolas e hospitais, os aviões de guerra dos EUA e de Israel começaram a atacar a infraestrutura energética do Irã. Uma catástrofe humana e ecológica está se desenrolando após refinarias de petróleo e depósitos de armazenamento terem sido incendiados. Caiu uma chuva escura em Teerã e os residentes foram alertados para permanecerem em casa para evitar chuvas ácidas e fumaças mortais. A água que flui pelos sistemas de irrigação foi contaminada, bombeando toxinas para a vida selvagem nos arredores. A Organização Mundial da Saúde confirmou em 9 de março que “os danos às instalações petrolíferas no Irã correm o risco de contaminar alimentos, água e ar – riscos que podem ter graves impactos na saúde, especialmente em crianças, idosos e pessoas com condições médicas pré-existentes”.

Em outra escalada aterrorizante para a população da região, o abastecimento de água também está sob ataque. No Irã, que sofre com uma grave crise hídrica há vários anos, os EUA atacaram uma importante usina de dessalinização de água na ilha de Qeshm, que abastece 30 cidades e vilarejos. Em resposta, drones iranianos atingiram uma usina semelhante no Bahrein.

A população do Golfo Pérsico é altamente dependente da dessalinização, um método usado para fornecer a maior parte da água potável em uma das regiões mais secas do planeta. No Kuwait, por exemplo, 90% da água potável vem de usinas que agora podem ser destruídas.

Teerã continua revidando

O principal belicista de Washington desencadeou uma onda de sofrimento humano. Seu secretário de Guerra, Pete Hegseth, a criatura adornada com tatuagens de nacionalistas brancos que agora tem as Forças Armadas dos EUA à sua disposição, se deleita com esse fato. Ele se gabou para os repórteres de que os EUA e Israel fariam chover “morte e destruição do céu o dia inteiro” assim que as defesas aéreas do Irã estivessem suficientemente enfraquecidas. “Isso nunca foi para ser uma luta justa, e não é uma luta justa. Estamos dando golpes enquanto eles estão no chão, que é exatamente como deve ser”, ele zombou, “os únicos que precisam se preocupar agora são os iranianos que acham que vão sobreviver”.

O regime iraniano está realmente “no chão”, mas certamente ainda não está fora de combate. A nomeação do reacionário Motjaba Khamenei como sucessor de seu pai no cargo de “Líder Supremo” é uma demonstração de desafio diante das exigências de Trump por uma rendição incondicional. Embora os EUA tenham dado grande destaque ao fato de que os ataques com mísseis e drones iranianos diminuíram, não há dúvida de que eles continuam.

O impacto dos ataques retaliatórios de Teerã é censurado de forma muito eficaz na mídia ocidental, mas é claro que eles têm sido altamente impactantes. Sete soldados estadunidenses foram mortos em dois ataques (no Kuwait e na Arábia Saudita) e dois soldados israelenses foram mortos por combatentes do Hezbollah no Líbano. Em Israel, mais de 2 mil pessoas foram hospitalizadas por ataques iranianos desde o início da guerra, com 13 mortes confirmadas de civis. Bases dos EUA e aliadas foram atingidas em seis países e bilhões de dólares em sistemas de radar e defesa antimísseis dos EUA foram destruídos. 23 pessoas foram confirmadas como mortas nos países do Golfo, a maioria delas militares e pessoal de segurança. Como diz Hegseth, não é uma luta justa, nem equilibrada, mas o Irã mostrou capacidade de cobrar um preço significativo pela agressão de Trump.

Quanto mais a guerra continuar, mais perigoso se tornará o padrão de escalada. Trump passou a última semana tentando iniciar uma guerra terrestre contra o regime iraniano por meio de milícias curdas e baluchis. Relatórios também indicam que planos para o envio de tropas estadunidenses e israelenses, inicialmente com o objetivo de matar os líderes remanescentes do regime e apreender estoques de urânio, estão sendo considerados ativamente.

A classe trabalhadora na região e internacionalmente não pode se dar ao luxo de ficar parada e esperar que Trump desista. Os trabalhadores devem se organizar, mobilizar, bloquear, protestar e grever para parar a máquina de guerra e expulsar todos os belicistas.

Uma guerra na economia mundial?

Na segunda semana da guerra, o impacto na economia mundial também se agravou. Em 9 de março, os preços do petróleo subiram ao ritmo mais rápido desde o início da pandemia da Covid e os mercados de ações despencaram. Citado no jornal britânico The Guardian, Chris Beauchamp, analista-chefe de mercado da IG, explicou: “Os mercados de ações finalmente acordaram para as implicações da guerra no Irã, com o petróleo atingindo três dígitos pela primeira vez em quatro anos. Depois de permanecerem notavelmente complacentes na semana passada, parece que a fuga começou para valer…”.

O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã e as mensagens consistentes de Washington e Teerã de que o conflito seria prolongado aumentaram os riscos de uma intensa crise energética e assustaram os mercados. Após ataques a instalações petrolíferas, o Bahrein se juntou ao Catar e declarou “força maior” (incapacidade de cumprir obrigações contratuais devido a eventos incontroláveis) nas exportações de energia. De acordo com vários relatórios, a produção de petróleo na região pode estar a poucos dias de uma paralisação total. O G7 organizou uma cúpula urgente para discutir a liberação de reservas emergenciais de petróleo para reforçar o abastecimento e acalmar os mercados, mas, segundo relatos, não conseguiu chegar a um acordo sobre medidas imediatas.

As quedas do mercado em 9 de março foram mais pronunciadas no sudeste asiático, que é fortemente dependente dos combustíveis fósseis que passam pelo estreito controlado pelo Irã. Na Coreia do Sul, as negociações na bolsa de valor tiveram que ser suspensas duas vezes com as ações em queda livre.

Além do abastecimento de energia, os perigos mais amplos que a guerra representa para a economia mundial estão sendo colocados em destaque. Novas pressões inflacionárias estão se acumulando, e os cortes previstos nas taxas de juros no Reino Unido e na Europa agora provavelmente serão adiados ou mesmo revertidos. Nos próprios Estados Unidos, a guerra está alimentando um crescimento mais rápido dos preços de gasolina do que o previsto, com um aumento de 16% em menos de uma semana.

Até mesmo a IA, principal motor do precário setor financeiro mundial, está sob ataque na região. Os sistemas de pagamento e bancários online entraram em colapso nos Emirados Árabes Unidos no último fim de semana, depois que os data centers da Amazon foram atingidos por drones iranianos. Além disso, a IA é, obviamente, uma indústria notoriamente consumidora de energia. A crise de combustível na região, juntamente com novos riscos de segurança, coloca em sério risco muitos planos ambiciosos de expansão do setor na região, com investimentos maciços associados.

Trump vai se acovardar?

Como é típico de Trump, são os mercados de ações, e não o terrível custo humano desta guerra, que o fazem refletir. De fato, em 10 de março, os preços do petróleo caíram e os mercados subiram em resposta à especulação de que a administração da Casa Branca faria um “TACO” (Trump Always Chickens Out, ou Trump sempre se acovarda) e estaria considerando uma retirada. Isso aconteceu após a vaga declaração de Trump, na noite anterior, de que a guerra “acabaria muito em breve”. “Já vencemos de muitas maneiras, mas não vencemos o suficiente”, declarou ele.

Trump, é claro, estará preocupado com a turbulência econômica e seu impacto em suas avaliações nas pesquisas eleitorais na corrida para as eleições de meio de mandato nos EUA em novembro. Ao mesmo tempo, uma retirada precipitada agora seria uma humilhação clara.

Nenhum dos objetivos de guerra declarados por Trump e Netanyahu foi alcançado. O regime em Teerã ainda está no controle, com Khamenei Jr. no comando. A infraestrutura de mísseis do Irã não foi destruída. Seus “representantes” permanecem ativos e envolvidos nos combates, com exceção dos houthis no Iêmen, cuja entrada na guerra é amplamente considerada apenas uma questão de tempo.

Se Trump for forçado a recuar no curto prazo, isso irá ressaltar as limitações do imperialismo dos EUA e a gravidade de seu erro de cálculo ao incendiar a região. Além disso, uma retirada dos EUA agora não iria simplesmente interromper a reação em cadeia prejudicial que foi desencadeada.

O governo de extrema direita de Netanyahu não quer acabar com a guerra. Ao contrário dos EUA, atacar o Irã tem forte apoio da opinião pública israelense. Agora, o Estado israelense quer destruir o máximo possível no Irã e fala em uma longa guerra no Líbano, onde, na última semana, mais de meio milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas.

Por enquanto, uma retirada rápida de Trump não parece ser o cenário mais provável. De fato, minutos após as palavras “tranquilizadoras” de Trump, novas rodadas de ataques dos EUA/Israel estavam ocorrendo no Irã, Líbano e Iraque. E Trump ameaçou atacar o Irã “20 vezes mais forte” se o Estreito de Ormuz permanecer fechado.

Uma guerra regional que está envolvendo o mundo inteiro

Toda a região está envolvida neste conflito, e os combates começaram a se espalhar para além dela. Mais de cem iranianos morreram afogados quando um submarino estadunidense atacou um navio no Oceano Índico, e o Azerbaijão afirmou ter se tornado o primeiro país do Cáucaso a ser alvo de ataques.

Assim como os países do Golfo, o poder militar coletivo do Ocidente está sendo mobilizado para apoiar a guerra de Trump. Apesar das reclamações evasivas e das críticas moderadas de Macron e Starmer aos seus ataques, as forças britânicas e francesas estão operando na guerra e enviando novos navios de guerra e porta-aviões para se juntar à luta. A Turquia, o segundo maior exército da OTAN, também está envolvida na derrubada de drones e mísseis. Trump recrutou especialistas em antidrones do regime ucraniano. As forças italianas, canadenses e australianas também indicaram disposição para se envolver. Os EUA também estão transferindo armas e equipamentos da Ásia para o Oriente Médio, provocando críticas na Coreia do Sul e no Japão.

Essas mobilizações são frequentemente acompanhadas por uma narrativa nauseante de que esses países estão apenas envolvidos em ações militares “defensivas”, em oposição às operações ofensivas realizadas por Trump e Netanyahu. Não há nada de defensivo no papel do imperialismo ocidental nessa região.

Em parte, o envolvimento cada vez maior de outras potências alinhadas à OTAN expõe as limitações do imperialismo dos EUA, apesar das afirmações de Trump (em referência à Grã-Bretanha) de que “não precisamos de pessoas que se juntem às guerras depois que já vencemos!”. Na verdade, Trump claramente precisa de apoio militar para derrubar drones e mísseis iranianos, usar bases aéreas aliadas, etc. Isso explica a reação virulenta com que ele reagiu à recusa do governo espanhol em cooperar e à hesitação inicial de Kier Starmer em permitir o uso de pistas britânicas para decolagem.

A mobilização militar do Ocidente contrasta com a resposta humilhante (ou falta de resposta) do imperialismo chinês, que é o principal alvo da agressão imperialista global de Trump. Apesar do ataque implacável dos EUA aos seus aliados e esferas de influência, o regime de Xi ainda planeja estender o tapete vermelho para Trump em Pequim, no dia 31 de março! Para Pequim, em meio a uma crise histórica, preservar sua precária distensão comercial com o imperialismo dos EUA ofusca todas as outras questões.

A Rússia, por outro lado, está supostamente fornecendo assistência crucial ao Irã na forma de inteligência que auxilia no ataque a bases estadunidenses no Golfo. Além disso, apesar de sua aliança com Teerã, Putin está realmente emergindo como vencedor desta guerra em vários aspectos. Em primeiro lugar, as exportações de petróleo russo se tornaram uma mercadoria muito mais atraente e cara da noite para o dia, com o abrandamento das sanções dos EUA sobre sua venda. Além disso, é quase certo que a atenção e os suprimentos ocidentais serão redirecionados da Ucrânia – a guerra de Putin – para o Oriente Médio.

A única solução – a luta internacional da classe trabalhadora pela paz, liberdade e socialismo

O novo aiatolá do Irã, Mojtaba Khamenei, sinaliza tanto o controle contínuo dos leais ao regime sobre a ditadura islâmica quanto o fracasso abjeto da estratégia de decapitação de Trump e Netanyahu. O novo líder supremo nunca fez um único discurso público, mas teria sido fundamental para a repressão brutal de uma revolta popular em 2009 e emergiu como o candidato favorito entre os “linha-dura” da “Guarda Revolucionária Islâmica”.

Sua sucessão também ressalta que as bombas estadunidenses e israelenses não fizeram nada para ajudar a luta do povo iraniano pela liberdade do regime sanguinário. Uma potencial guerra terrestre, na qual o regime buscaria reunir o povo iraniano em defesa da integridade territorial contra os “separatistas”, poderia na verdade fortalecer sua posição no curto prazo.

A incerteza sobre o resultado da guerra e o medo da indignação pública sobre qualquer colaboração direta com Israel têm impedido até agora os países do Golfo de responder militarmente aos ataques do Irã. Se Trump recuar, eles se tornarão alvos ainda mais óbvios, minando ainda mais sua imagem de estabilidade e prosperidade.

A classe trabalhadora internacional, especialmente na própria região, deve entrar em cena para impedir a guerra. Isso pode proporcionar à classe trabalhadora iraniana o espaço para reconstruir o movimento revolucionário, desta vez liderado por organizações da classe trabalhadora armadas com um programa por uma alternativa socialista. Nesse processo, esse movimento deve ter como alvo todos os regimes capitalistas da região e lutar por um futuro socialista comum de paz livre da ocupação e opressão.

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