De Seul a Istambul: Cresce a luta de massas contra a ascensão da direita

A edição nº 1 da Marxismo Internacional aborda o tema da ascensão da direita nos anos 2020, um fenômeno crucial para compreendermos a atual conjuntura mundial, marcada pela reeleição de Donald Trump e seu impacto explosivo.
Esta é a primeira edição da revista política relançada pela Alternativa Socialista Internacional – ASI, substituindo a Socialist World, publicada entre 2019 e 2024. Marxismo Internacional é uma nova publicação marxista, que chega em um momento decisivo. Em suas páginas, mergulhará em temas políticos, sociais, econômicos e históricos essenciais, sob uma perspectiva socialista revolucionária. Duas edições serão publicadas em 2025, e três em 2026.
Milhões de trabalhadores e jovens ao redor do mundo buscam hoje formas de resistir e reconhecem que os partidos capitalistas não oferecem respostas reais. As ideias marxistas, quando defendidas com coragem e conectadas às lutas poderosas da classe trabalhadora, podem apontar um verdadeiro caminho a seguir. Nesse sentido, além da análise vital que esta revista oferece, ela deve servir essencialmente como um guia para a ação, delineando uma estratégia de como o movimento dos trabalhadores pode combater a direita.
A abordagem errática e agressiva de Trump tanto na política interna quanto externa virou os acontecimentos mundiais de cabeça para baixo em poucos meses. Embora a ascensão de Trump 2.0 seja sua expressão mais dramática, o crescimento da extrema-direita não está de forma alguma restrito aos Estados Unidos. Com poucas exceções, a direita tem ganhado terreno em um país após o outro. A classe dominante, tateando no escuro por uma saída para seu sistema em crise, tem se voltado para partidos e ideologias nacionalistas de direita. Regimes autoritários têm apertado cada vez mais as rédeas de seu controle, e muitos países — incluindo democracias burguesas “estáveis” — têm visto cada vez mais repressão aos direitos democráticos, como o direito de protestar.
Da Itália à Argentina, passando pela Áustria, partidos de direita obtiveram vitórias eleitorais e, em muitos casos, viram aumentar o apoio às suas políticas entre trabalhadores e a classe média. Partidos de extrema-direita como o Alternative für Deutschland na Alemanha, antes considerados marginais, estão sendo tolerados ou até abraçados por setores da classe dominante. Partidos “de centro” também se deslocaram para a direita, embora com sucesso mais limitado, já que os eleitores desses partidos preferem o original à cópia.
Donald Trump — um nacionalista, sexista, racista, transfóbico, um bilionário defensor da guerra — personifica essa guinada reacionária da burguesia. Mas, embora ela tenha sido acelerada por Trump 2.0, essa virada reacionária não se resume a um político ou partido. Está enraizada na transição para uma nova era, caracterizada por conflitos interimperialistas — especialmente entre o imperialismo dos EUA e o da China —, um afastamento da globalização neoliberal e a reafirmação do Estado-nação. Saindo de duas décadas extremamente turbulentas — com a crise econômica de 2008/2009 e a pandemia como marcos decisivos — a classe dominante busca uma nova base estável para gerar lucros e manter seu domínio.
No entanto, identificar as raízes profundas dessa ascensão da direita não significa dizer que sua vitória seja inevitável. Embora a direita esteja em vantagem em muitos países atualmente, o cenário também é marcado por polarização política, repulsa contra os partidos do establishment e profunda desconfiança da classe trabalhadora nas instituições tradicionais do capitalismo. A eleição de Trump consolidou a transição para uma nova era, mas a classe dominante está longe de ter um mandato estável. Ao avançarem com sua agenda de divisão, austeridade, militarização e guerra, também criam as condições para batalhas de classe explosivas.
Onda crescente de protestos
Enquanto finalizamos esta edição, ocorrem processos importantes que apontam para uma resistência internacional crescente à ascensão da direita por parte de setores da juventude e da classe trabalhadora. Isso inclui protestos de massas e movimentos contra regimes autoritários de direita.
Na Turquia, uma enorme luta surgiu contra o presidente Recep Tayyip Erdoğan, cujo regime autoritário de direita governa o país há mais de 20 anos. Foi desencadeada pela prisão, em 19 de março, do candidato presidencial do principal partido de oposição, o prefeito de Istambul Ekram Imamoglu, com acusações forjadas. Desde então, protestos em massa continuam levando milhões às ruas. Com a popularidade de Erdoğan em declínio, diante da piora econômica e do avanço do regime para uma ditadura aberta, grande parte da população — especialmente os jovens — têm desafiado as prisões em massa, na esperança de derrotar Erdoğan de uma vez por todas.
Na Sérvia, um movimento estudantil explodiu por toda a sociedade, culminando na maior manifestação da história do país, em Belgrado, em 15 de março, contra o regime corrupto e cada vez mais autoritário de Aleksandar Vučić. Já na Coreia do Sul, em dezembro passado, um movimento de massas — com papel fundamental do movimento sindical — impediu um golpe tentado pelo presidente de direita Yoon Suk Yeol, que foi destituído pela Corte Constitucional.
Nos EUA, o chamado à ação “Hands Off” (Tirem as Mãos) em 5 de abril levou milhões às ruas contra o regime autoritário de direita mais proeminente do mundo, o de Donald Trump. Foi o maior dia de protestos no país — em mais de 1,2 mil cidades — desde o auge do movimento Black Lives Matter em 2020.
Enquanto Trump ataca imigrantes, pessoas trans, funcionários públicos e estudantes que se opõem à guerra genocida de Israel em Gaza, ele também lançou uma guerra tarifária contra aliados e adversários no mundo todo. No momento em que escrevemos este editorial, ele foi forçado a recuar parcialmente diante da ameaça de uma crise econômica global. Suas ameaças de desmantelar programas sociais, usar agentes federais para prender residentes legais e deportá-los, além de levar a economia à beira do colapso, estão semeando as bases para lutas explosivas nas próximas semanas e meses.
Protestos de massas da Turquia aos EUA são extremamente importantes e encorajadores. No entanto, é necessário reconhecer que esses movimentos emergentes têm fraquezas significativas. Em alguns casos, estão ligados a partidos pró-capitalistas como o CHP na Turquia ou o Partido Democrata nos EUA. Além dos protestos de 5 de abril, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez têm feito comícios no meio-oeste e sudoeste dos EUA com a turnê “Lutando contra a Oligarquia”, que reuniu mais de 30 mil pessoas em cidades como Denver e Los Angeles. Apesar de levantarem demandas contra a “classe dos bilionários”, permanecem dentro do campo dos Democratas e, no fim das contas, não desafiam o capitalismo. É esse sistema que alimenta o autoritarismo de direita, o militarismo e a ideologia reacionária nesta nova era.
Sanders e AOC são exemplos da resistência à direita autoritária pela esquerda – e de suas limitações. Em vez de organizar a luta aqui e agora, focam em esperar pelas próximas eleições e permanecem atrelados ao establishment liberal e sua versão de autoritarismo liberal. Também falham em se opor com clareza ao imperialismo dos EUA, inclusive em seu confronto militar com o imperialismo chinês.
Nesta edição, discutimos o crescimento dramático do partido Die Linke (A Esquerda) na Alemanha e o potencial para que Jeremy Corbyn e outros lancem um novo partido no Reino Unido. Esses são contrapesos importantes à extrema-direita. No entanto, também apresentam limitações, sobretudo no que se refere à necessidade de construir corajosamente um movimento de massas centrado na classe trabalhadora — nas ruas, nos locais de trabalho e nas urnas — contra a direita e contra o sistema capitalista.
Outro processo relevante é a busca de setores do establishment, ameaçados pela ascensão da extrema-direita e da direita populista, por uma rota “legal” para conter esse avanço. Marine Le Pen, líder do Reunião Nacional (RN), que lidera as pesquisas na França, foi recentemente impedida de concorrer devido a acusações de “peculato” no Parlamento Europeu. No Brasil, promotores buscam prender Jair Bolsonaro, que tentou liderar um golpe em 2022. Na Romênia, o candidato de extrema-direita Călin Georgescu foi proibido de concorrer por suposta interferência russa. Essas ações legais, porém, não eliminam as raízes da extrema-direita e podem até fortalecê-la, como mostra o retorno de Trump após dois processos de impeachment, uma tentativa de golpe em 6 de janeiro de 2021 e uma infinidade de julgamentos e condenações nos tribunais.
O papel do marxismo hoje
A total perversidade do sistema capitalista está exposta em cada canto do planeta. Guerras devastadoras, pobreza e opressão se espalham enquanto os bilionários enriquecem. A única força capaz de combater isso é um movimento de massas internacional, baseado no poder da classe trabalhadora, contra o imperialismo, a austeridade, o militarismo e os ataques a mulheres, pessoas LGBTQIA+, imigrantes e todos os oprimidos. Embora muitos estejam procurando formas de resistir, a esquerda internacional está fraca, e o movimento dos trabalhadores apenas começou a se reerguer após um longo período de recuo. A análise socialista revolucionária e um polo marxista combativo com um programa claro dentro dos movimentos contra a direita são absolutamente vitais. É isso que a Alternativa Socialista Internacional busca construir. Se você concorda, faça hoje mesmo sua assinatura de Marxismo Internacional e junte-se à ASI!















