Reform UK – a ascensão do trumpismo britânico

Uma leitura superficial poderia sugerir que a Grã-Bretanha está contrariando a tendência política global com a vitória do Labour (trabalhistas) nas eleições gerais do ano passado. Na realidade, o trumpismo local da Grã-Bretanha está encontrando terreno fértil para crescer.
O Reform UK ascende ao topo
O Labour chegou ao poder no ano passado com uma vitória esmagadora na Câmara dos Comuns, conquistando 411 do total de 650 assentos.
Isso representou, acima de tudo, uma rejeição completa dos quase 15 anos do Partido Conservador (Tories) no poder na Grã-Bretanha. Foi uma rejeição ao partido desprezado pela austeridade, que se dilacerou em disputas internas, enfrentou uma série de escândalos sob o comando de Boris Johnson, provocou um colapso econômico quase instantâneo durante o curto mandato de Liz Truss e muito mais.
Mas isso não se traduziu em uma manifestação maciça de apoio ao Labour. De fato, a eleição foi marcada por uma participação historicamente baixa e, embora a votação dos trabalhistas tenha aumentado ligeiramente (de 32,1% para 33,7% dos votos), os independentes e os partidos menores no Parlamento sofreram as maiores mudanças. Isso incluiu votos recordes para o Partido Verde, bem como a campanha vibrante e a vitória do ex-líder trabalhista de esquerda Jeremy Corbyn, juntamente com os “independentes de Gaza” contra a guerra. Esses eventos destacaram que havia uma profunda falta de entusiasmo pela plataforma neo-blairista de Keir Starmer, mesmo antes de entrar em Downing Street (a residência do primeiro-ministro do Reino Unido).
Mas o verdadeiro vencedor das eleições, em muitos aspectos, foi o Reform UK de Nigel Farage. Em sua primeira participação nas eleições gerais o partido obteve 14,3% dos votos, apenas 4% atrás dos conservadores. Embora o partido tenha apenas quatro mandatos no Parlamento (eram cinco, antes da saída de Rupert Lowe do partido), isso se deve apenas ao sistema eleitoral, que resultou no que The Economist descreveu como a eleição geral “menos representativa de todos os tempos” da Grã-Bretanha. Os quatro mandatos não revelam o enorme aumento no apoio ao Reform, que ocorreu – e que continua. Afinal de contas, as eleições são apenas um retrato do estado de espírito em um determinado momento. O Reform está se tornando rapidamente o principal partido de oposição da Grã-Bretanha e agora é o mais popular nas pesquisas.
Desde as eleições, o Labour tem sido assolado por problemas quase desde o primeiro dia. O apoio ao governo de Starmer está em queda livre enquanto ele tenta conduzir o navio em crise do capitalismo britânico, que ele assumiu dos conservadores. Essa crise atinge em cheio o núcleo do capitalismo britânico. Juntamente com os problemas globais do sistema, ela também está enraizada no declínio econômico de longa data da Grã-Bretanha, com crescimento anêmico sustentado em grande parte por um setor financeiro parasitário. Enquanto isso, o crescimento da produtividade não se concretizou, a infraestrutura se atrofiou e os padrões de vida caíram – e os trabalhistas não têm respostas.
Poucas semanas depois de entrar em Downing Street, começou-se a falar sobre um “buraco negro financeiro” deixado pelo governo conservador que estava saindo. Para tapá-lo, alegaram os trabalhistas, seria necessário tomar “decisões difíceis” (um eufemismo para ataques aos padrões de vida dos trabalhadores a fim de manter a máquina capitalista funcionando). Essas decisões incluíram cortes no financiamento do aquecimento para o inverno (um benefício previdenciário anteriormente universal para aposentados) e a manutenção do limite máximo de benefícios para dois filhos, que manteve 250 mil crianças presas na pobreza – ambos os casos se mostraram profundamente impopulares. Agora, o partido está planejando cortar mais 5 bilhões de libras (37,5 bilhões de reais) da conta da previdência social, o que será feito principalmente por meio de ataques excepcionalmente crueis às pessoas com deficiência. Os aumentos planejados pelo Labour nos gastos militares, a pedido do imperialismo dos EUA, sem dúvida significarão mais ataques contra os trabalhadores no futuro.
Em qualquer outra circunstância essa seria uma situação ideal para a oposição oficial. Mas o partido conservador – o partido burguês mais antigo do mundo – está em sua crise existencial mais profunda de que se tem memória, tendo sido completamente desacreditado na última década. Incapazes de tirar proveito da profunda impopularidade do governo trabalhista, os conservadores em dificuldades abriram um vácuo de oposição, no qual o Reform entrou. Pesquisas de opinião recentes mostram que Nigel Farage é o político mais popular (ou, pelo menos, o menos impopular) da Grã-Bretanha, e já se começou a especular se ele poderia ser o próximo primeiro-ministro.
O capitalismo cambaleando para a direita
Por trás dessa crescente competição entre os maiores partidos políticos do Reino Unido, há uma convergência entre muitos dos principais pontos políticos. Para todos os partidos capitalistas, o principal bode expiatório da crise de seu sistema é a imigração, especialmente a atual crise dos refugiados.
Embora os conservadores tenham feito disso um elemento central de seu próprio programa em seus últimos anos de governo (assim como outras questões de “guerras culturais”, como ataques aos direitos transgêneros), isso não foi suficiente para salvá-los da ruína eleitoral. No entanto, a ideia de que “a imigração é o problema” ganhou uma certa tração, pois foi incansavelmente promovida por todos os partidos do establishment e pela mídia durante anos, e é um dos principais impulsionadores da ascensão meteórica do Reform.
Em resposta, os trabalhistas giraram ainda mais para a direita, tentando se fortalecer ao parecerem “duros” em relação aos refugiados, em uma tentativa de afastar seus adversários de direita. Eles se convenceram de que, ao serem uma versão mais branda do Reform, as pessoas não irão querer votar na versão real. Na prática, em toda a Europa, essa tática apenas alimenta ainda mais a direita, que defende mais claramente essas políticas, agora ainda mais legitimadas e entrincheiradas na discussão política.
Diante disso, não é de surpreender que a retórica constante de todos os principais partidos tenha tido um impacto na consciência, com atitudes em relação à imigração e aos direitos das pessoas trans ficando menos positivas nos últimos anos, de acordo com as pesquisas. O establishment tem usado a “crise dos pequenos barcos” de refugiados que cruzam o Canal da Mancha para encobrir problemas como o declínio dos serviços, a falta de moradia (que no Reino Unido está entre as taxas mais altas da Europa) e o colapso social geral da sociedade.
Mas isso significa que há uma ampla mudança em toda a sociedade em direção às ideias de direita? Longe disso. Faz apenas dois anos que uma enorme onda de greves abalou a Grã-Bretanha, desencadeada pela redução dos salários do setor público pelos conservadores, pela inflação e pelo rápido aumento do custo de vida, além da situação precária dos serviços públicos em geral. A campanha “Enough Is Enough” (“Já chega”), lançada por alguns dirigentes sindicais proeminentes, apresentou políticas básicas a favor dos trabalhadores, como aumentos salariais acima da inflação, corte nas contas de energia, nacionalização dos serviços públicos e taxação dos ricos. Mais de 700 mil pessoas se inscreveram quase da noite para o dia. Mas a campanha foi rapidamente encerrada pelos líderes sindicais, determinados a impedir que o movimento fosse “longe demais”, inclusive em direção à luta política. A onda de greves resultou em algumas ofertas de melhores salários para diferentes grupos de trabalhadores, mas, como um todo, não chegou a ser uma vitória decisiva. No entanto, ela demonstrou o enorme potencial que existia, e ainda existe, para uma alternativa de esquerda combativa que proponha políticas a favor dos trabalhadores.
Ao mesmo tempo, os tumultos de extrema direita que ocorreram em toda a Grã-Bretanha no verão passado, bem como as grandes manifestações de apoio a Tommy Robinson (ex-líder da ‘Liga de Defesa Inglesa’ de extrema direita), destacam a força e a confiança crescentes das forças fascistas e de extrema direita. Embora menos consolidado do que os movimentos mais desenvolvidos em alguns países, o endurecimento do núcleo da extrema direita representa uma ameaça imediata aos imigrantes, às pessoas LGBTQIA+ e aos ativistas da classe trabalhadora.
O ato de equilibrismo de Farage
Ao longo dos anos, Nigel Farage criou cuidadosamente uma imagem de “homem do povo”, que bebe cerveja e fala francamente. Sua campanha populista o levou a participar dos protestos dos agricultores em frente ao parlamento contra os impostos do Labour sobre heranças, a falar sobre os preços da energia e as pressões sobre o sistema de saúde e a pedir a reindustrialização da Grã-Bretanha. É evidente que um olhar mais atento revela sua verdadeira face. Ele é um defensor de longa data da privatização do sistema nacional de saúde (NHS) e, recentemente, votou contra até mesmo as medidas limitadas do novo projeto de lei dos direitos trabalhistas do Labour, que proibiria os contratos “exploradores de zero horas” e removeria algumas (embora não todas) das restrições draconianas dos Tories ao direito de greve. Isso revela sua real fidelidade à classe capitalista, assim como o aumento de doações de grandes empresas para o Reform.
O populismo de direita de Farage é parte de seu esforço de longa data para substituir os conservadores como a principal força de direita na política britânica. Seu ponto de partida é basicamente a mesma postura política da direita conservadora “trumpificada”, mas sem as restrições da imagem maculada do próprio partido conservador, que se tornou sinônimo de corrupção, incompetência, e que é visto como o “partido detestável” responsável por ataques crueis às condições de vida dos trabalhadores. Para Farage, isso significa um ato de equilíbrio cuidadoso. A retórica demagógica é um ingrediente fundamental de seu apoio, mas igualmente crucial é o apelo ao establishment, à mídia e aos apoiadores corporativos necessários para que um partido seja visto como um gestor “confiável” do capitalismo britânico.
Além disso, a extrema direita, de modo geral, ainda é impopular entre os trabalhadores e a classe média na Grã-Bretanha. Farage sabe muito bem disso e tem se esforçado para evitar uma imagem de extrema direita para o seu próprio partido, principalmente distanciando o Reform UK de figuras como Tommy Robinson. Isso ocorreu apesar de Elon Musk ter feito uma intervenção extraordinária no X, argumentando que Tommy Robinson deveria ter permissão para participar e possivelmente liderar o Reform. É claro que, na prática, Robinson e Farage trabalham em conjunto. A ascensão do Reform serve para impulsionar as forças de extrema-direita e fascistas mais radicais no terreno.
Esse ato de equilibrismo já se mostrou difícil para o Reform, com um de seus cinco deputados, Rupert Lowe, agora suspenso do partido – oficialmente com base em assédio moral no local de trabalho, mas no contexto de uma crescente disputa política entre a ala direita e aquela ainda mais à direita do Reform. Lowe já havia sido apontado por Elon Musk como um possível substituto de Farage. Farage também foi forçado a reagir contra seus colegas estadunidenses, defendendo as capacidades militares do Reino Unido após os comentários de JD Vance sobre ser “um país qualquer, que não luta uma guerra há 30 ou 40 anos”. O regime dos EUA está longe de ser popular na Grã-Bretanha, e a associação do Reform com o caos do trumpismo pode ser um obstáculo – mas é improvável que impeça o crescimento do Reform e sua predominância.
A corrida para substituir o Labour
Com o futuro do governo trabalhista parecendo sombrio e o Partido Conservador passando por um declínio histórico e potencialmente terminal, surge a pergunta: “Quem é a oposição a esse governo?”.
Embora os conservadores ainda sejam a Oposição Oficial de Sua Majestade – o maior partido de oposição no parlamento -, o Reform está consistentemente aparecendo nas pesquisas à frente deles, e, até mesmo, à frente do próprio Labour. No entanto, existe um espaço enorme para uma alternativa de esquerda que interrompa a ascensão do Reform.
As vitórias eleitorais dos independentes de esquerda e contra a guerra nas eleições do ano passado foram construídas com base em uma enorme repulsa à agenda de Starmer. Desses ganhos da esquerda, a campanha para reeleger Jeremy Corbyn foi a mais significativa. Como ex-líder do Labour, cujo programa reformista de esquerda atraiu centenas de milhares de jovens e pessoas da classe trabalhadora, sua posição contra o Labour (embora relutante de sua parte), após ser expulso do partido, mobilizou centenas de ativistas que estavam preparados para enfrentar a máquina de Starmer. As lições das eleições de 2024 são claras: o sistema bipartidário está se desfazendo na Grã-Bretanha, assim como em todo o mundo; e é mais possível do que nunca se posicionar contra o Labour e vencer.Um partido de esquerda enraizado na luta da classe trabalhadora é urgentemente necessário para impedir a ascensão da direita. Embora a campanha Enough Is Enough, de curta duração, tenha demonstrado a popularidade de uma plataforma pró-trabalhadores, a experiência de seu encerramento prematuro também mostra que qualquer nova formação precisa ser controlada democraticamente e prestar contas aos membros da base. Também mostra a importância de lutar por uma nova abordagem em nossos sindicatos – rompendo com a abordagem de se aconchegar a Keir Starmer e à direita trabalhista – e, em vez disso, construir uma verdadeira oposição de combate. Um novo partido de esquerda, construído a partir da luta e com um programa socialista para tirar a riqueza das mãos dos super-ricos, financiar um aumento de salário para todos os trabalhadores, serviços públicos totalmente financiados e assumir uma posição clara contra o militarismo, seria a única força capaz de enfrentar a ascendente direita britânica.















