Lições da história dos EUA: A onda reacionária após a primeira guerra mundial

O mundo está um caos. O conflito interimperialista entre os Estados Unidos e a China está se intensificando a passos largos. Paralelamente a isso, estamos vendo a ascensão das forças de direita e extrema direita, com Trump na vanguarda. O período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial teve uma dinâmica semelhante à atual.
Cerca de 20 milhões de pessoas morreram no massacre imperialista da Primeira Guerra Mundial. Mais de US$ 6 trilhões (em dólares americanos atuais) em propriedades foram destruídos. O capitalismo dos EUA estava posicionado para se tornar uma grande potência econômica. A indústria dos EUA começou a inundar os mercados europeus, o que alimentou o crescimento especulativo nos mercados dos EUA. Trotsky observou que o centro da economia mundial estava se deslocando do Reino Unido para os Estados Unidos após a guerra.
Enquanto isso, a classe trabalhadora russa, sob a direção dos bolcheviques, liquidou o capitalismo russo em 1917 e criou a União Soviética. Os bolcheviques criaram a Internacional Comunista (Comintern) para defender a revolução socialista em todo o mundo sob o slogan “Trabalhadores e Oprimidos – Uni-vos!”. A classe dominante estava em desordem, sem saber como reagir contra esse crescente ânimo revolucionário da classe trabalhadora e dos pobres.
Esse processo caótico de declínio da antiga hegemonia, a ascensão de uma nova hegemonia e a ameaça do socialismo pintaram um quadro de instabilidade em vez de força. Havia um medo genuíno dentro da classe dominante estadunidense da ameaça da ascensão do socialismo em várias partes do mundo, inclusive em seu próprio país. Esse medo se manifestou nos Estados Unidos por meio de uma ofensiva reacionária da classe dominante – incluindo ataques brutais ao movimento sindical e à esquerda, intenso racismo contra os negros e violência terrorista contra as comunidades negras, bem como ataques à enorme população de imigrantes, principalmente do Leste e do Sul da Europa. Mas por que isso aconteceu?
Quando se discute a onda revolucionária do pós-guerra desencadeada pela Revolução Russa, a atenção geralmente se concentra na Alemanha, na Europa Central e na Itália. Mas a revolução teve efeitos de curto e longo prazo em lugares distantes do mundo, incluindo os EUA. A maioria do Partido Socialista da América (SPA), que oficialmente tinha 110 mil membros, apoiou os bolcheviques. Esse apoio se concentrou entre os membros imigrantes do SPA. A direção do SPA então expulsou 60 mil membros para se livrar da ala revolucionária, o que levou à formação não de um, mas de dois partidos comunistas em 1919! Essas duas organizações acabaram se fundindo no Partido Comunista da América. O movimento comunista no início pode ter tido 70 mil apoiadores. Mostrando o quanto estava enraizado nas comunidades de imigrantes, ele tinha vários jornais diários em diferentes idiomas, mas nenhum em inglês.
Esse desenvolvimento da esquerda coincidiu com outras importantes batalhas de classe, incluindo a Greve Geral de Seattle em 1919 e, especialmente, a histórica greve do aço iniciada em setembro de 1919, liderada pela Federação Americana do Trabalho. Sindicalistas radicais, incluindo John Fitzpatrick e William Z. Foster, mais tarde líder do PC, desempenharam papéis importantes. Os patrões estavam totalmente determinados a acabar com essa onda de radicalismo sindical e conseguiram isolar e esmagar tanto a greve quanto a iniciativa de organização mais ampla no setor siderúrgico. O movimento sindical não se recuperou dessa derrota até a década de 1930.
Ao mesmo tempo, uma onda de repressão, iniciada durante a guerra contra a esquerda, os trabalhadores e as atividades contra a guerra, começou a cobrar seu preço. Dois organizadores sindicais, Thomas Mooney e Warren Billings, foram falsamente incriminados pelo bombardeio de um evento a favor da guerra e ameaçados de enforcamento, o que levou a uma ampla campanha de solidariedade internacional. Muitos líderes de esquerda, incluindo o mais proeminente Eugene Debs, foram presos por sua posição contra a guerra. Debs concorreu à presidência pelo SPA em 1920, da prisão. O importante socialista irlandês James Larkin, que estava nos EUA nessa época, foi preso na prisão de Sing Sing, no norte do estado de Nova York, por vários anos por “anarquia criminosa”. A partir de novembro de 1919, um conjunto coordenado de batidas lançadas pelo Procurador Geral A. Mitchell Palmer levou à prisão de seis mil radicais nascidos no exterior, incluindo comunistas e anarquistas, especialmente esquerdistas judeus da Europa Oriental e italianos. Mais de 500 foram deportados.
Uma onda crescente de terror racista
Milhões de soldados negros que retornaram da Primeira Guerra Mundial foram radicalizados pela realidade de serem tratados como cidadãos de segunda classe, apesar de lutarem intensamente em nome do imperialismo dos EUA. Esse fato foi multiplicado pela experiência dos soldados negros ao marcharem pela França na ausência de Jim/Jane Crow (o sistema de segregação racial rigorosa baseado na ideologia supremacista branca aberta no Sul). Essa experiência aumentou a confiança desses veteranos negros que voltavam para casa e os deixou menos dispostos a se conformar com Jim Crow. Muitos desses veteranos negros e suas famílias deixaram o Sul dos EUA, o coração de Jim/Jane Crow, rumo ao Norte industrial em busca de emprego. W.E.B. Du Bois falou sobre esse processo dizendo: “Voltamos da escravidão do uniforme que a loucura do mundo exigiu que vestíssemos para a liberdade do traje civil. Voltamos a olhar os Estados Unidos de frente e chamar as coisas pelo nome… Voltamos. Retornamos do combate. Retornamos lutando”.
Havia uma séria ameaça de que os trabalhadores negros se juntassem ao processo dinâmico de agitação e radicalização sindical e, assim, corroessem as divisões raciais estabelecidas pela classe dominante dos EUA. O presidente Wildrow Wilson observou que “o negro americano que retornasse do exterior seria nosso maior meio de transmitir o bolchevismo para a América”. O então chefe do Departamento do Trabalho declarou que “o retorno do soldado negro à vida civil é uma das questões mais delicadas e difíceis enfrentadas pela nação, tanto no norte quanto no sul”.
A classe capitalista dos EUA reagiu levando ideias nacionalistas e racistas para a sociedade em geral, a fim de dividir os trabalhadores. O resultado disso foi o desenvolvimento da organização terrorista de direita Ku-Klux-Klan (KKK).
A KKK original foi formada pelos remanescentes dos confederados pró-escravidão, apoiados pela aristocracia dos fazendeiros que se recusavam a aceitar a derrota após o esmagamento da escravidão. Seu objetivo era acabar com a Reconstrução e com a ideia de uma democracia burguesa multirracial. Inicialmente, o governo dos EUA teve uma resposta agressiva e lutou contra a KKK. Isso foi feito principalmente para garantir seu controle sobre o Sul dos EUA, não para acabar com o racismo. Mas a burguesia do Norte acabou capitulando, abandonando a Reconstrução radical na década de 1870 e preparando o terreno para Jim Crow e a subjugação da população negra.
A KKK iniciou um processo de crescimento rápido na década de 1920. A “segunda Klan”, agora com o apoio de uma seção da classe dominante, tornou-se um movimento de massa com cerca de cinco milhões de membros em 1924. Woodrow Wilson organizou uma exibição de um documentário pró-KKK, “Birth of a Nation”, na Casa Branca e elogiou o filme. A KKK fez uma marcha de massas em Washington em 1925 e tinha muitos apoiadores no Congresso, além de outros políticos em todo o país.
A KKK não estava mais apenas no sul dos EUA e tinha bastiões em cidades do norte. Basicamente, ela controlava o estado de Indiana e partes significativas da Califórnia e se estendia até o Canadá. O surgimento da KKK forneceu a base para que a classe capitalista dos EUA impusesse ideias reacionárias divisivas à classe trabalhadora e à classe média nativas em um momento crucial da luta de classes. Além do veneno racista, a Klan se concentrava em manter uma nação protestante branca e reprimir a população imigrante, em sua maioria católica e judia. Ela era virulentamente antissindical e anticomunista. De muitas maneiras, a segunda Klan era a forma clássica do fascismo estadunidense.
Essa guinada à direita na classe dominante e sua influência na sociedade em geral provocaram a explosão do “Verão Vermelho” em 1919. Essa foi uma série de tumultos raciais em 26 cidades do país contra os negros. Multidões de brancos invadiram as comunidades negras. As famílias negras foram expulsas de suas casas, espancadas e/ou mortas com pouca ou nenhuma resposta dos governos local e federal.
O tumulto racial mais brutal ocorreu no Arkansas. Quinhentos soldados do Exército marcharam até a cidade de Elaine para reprimir uma suposta “insurreição” de meeiros negros após a morte de um policial branco. Cerca de 140 a 200 negros, muitos deles meeiros, foram mortos indiscriminadamente. A classe dominante dos EUA não apenas ignorou a violência contra as comunidades negras, mas a incentivou.
Em resposta, muitos veteranos negros organizaram a autodefesa armada de suas comunidades. Cidades como Chicago viram intensas batalhas de rua entre veteranos negros e turbas brancas.
Isso aumentou a confiança dos trabalhadores negros, e muitos logo começaram a formar suas próprias organizações. Com o surgimento do movimento nacionalista negro de Marcus Garvey, a Universal Negro Improvement Association(‘Associação Universal de Melhoria para Negros’ – UNIA), milhões de negros se organizaram em manifestações de massa. No entanto, a UNIA estava presa à política nacionalista negra de “retorno à África” de Garvey e era intensamente anticomunista.
O terror do Verão Vermelho e as ondas gigantescas de luta revolucionária, especialmente a Revolução Russa, criaram uma atração significativa pelo marxismo entre uma camada de trabalhadores negros. Em 1918, uma revista chamada The Crusader foi lançada pelo imigrante afro-caribenho e socialista Cyril Briggs, cuja revista mudou de uma política nacionalista pró-negros para uma que pedia uma luta revolucionária multirracial da classe trabalhadora. No auge do Verão Vermelho, Briggs defendeu a autodefesa armada dos bairros da classe trabalhadora negra e a unidade multirracial contra a classe dominante para pôr fim aos distúrbios reacionários contra os negros.
Os apoiadores do The Crusader, incluindo Cyril Briggs, e outros socialistas negros formaram a organização secreta da African Blood Brotherhood (‘Irmandade de Sangue Africana’ – ABB). A ABB estava sediada no Harlem, na cidade de Nova York, um bairro histórico da classe trabalhadora negra. Eles se organizaram dentro da UNIA para argumentar contra o nacionalismo de Garvey e pediram solidariedade aos bolcheviques. O Partido Comunista iniciou uma estreita colaboração com a ABB, o que levou à sua fusão vários anos depois. Isso foi fundamental para estabelecer a base para os gigantescos avanços do Partido Comunista na década de 1930 na organização da classe trabalhadora negra. Isso incluiu a campanha de massas em defesa dos Scottsboro Boys, a organização dos desempregados, a criação de sindicatos de inquilinos e a força motriz por trás da formação do Congress of Industrial Organizations (‘Congresso de Organizações Industriais’ – CIO), que lutou explicitamente contra a segregação sindical de Jim Crow.
Conclusão
Depois de seu auge em 1925, a segunda Klan começou a minguar. Em 1924, eles se mobilizaram para a convenção nacional do Partido Democrata para impedir a nomeação de Al Smith, que teria sido o primeiro candidato católico de um grande partido à presidência. Smith fracassou, mas foi apoiado por Franklin Delano Roosevelt, que se tornou presidente em 1932. Os escândalos e a crescente resistência contribuíram para o declínio da Klan. Mas ela também serviu ao seu propósito para a classe dominante, ajudando a esmagar o movimento sindical e a esquerda e a semear o terror. Os capitalistas não queriam que eles tomassem o poder como os camisas pretas de Mussolini.
Por outro lado, embora a classe dominante tivesse vencido a batalha, não havia vencido a guerra. Na década de 1930, quando o capitalismo enfrentava o colapso literal durante a Grande Depressão, novos sindicatos industriais militantes formaram o Congress of Industrial Organizations. A espinha dorsal do CIO eram os imigrantes de segunda geração e os trabalhadores negros, alvos da Klan. A classe trabalhadora estadunidense havia criado um movimento com potencial revolucionário, com ondas de greves em massa nas quais os socialistas desempenharam papéis fundamentais. O surgimento da CIO também lançou as bases para o movimento pelos direitos civis após a Segunda Guerra Mundial.
A guinada à direita da classe dominante atual tem certas semelhanças com o período entre guerras. Começando com a pandemia, saímos de uma era da história capitalista – a da globalização neoliberal – e entramos em uma era nova e bastante distinta. Essa mudança foi provocada pela incapacidade do paradigma econômico anterior de mercados “livres” de lidar com o aumento da forte rivalidade interimperialista entre os EUA e a China. Houve também uma rejeição em massa da ideologia neoliberal após a recessão de 2008. Rebeliões contra a desigualdade, a corrupção e a opressão nacional e de gênero eclodiram em todo o mundo. Isso culminou em uma onda global de agitação em 2019 e 2020, de Hong Kong à América Latina e ao movimento Black Lives Matter (‘Vidas Negras Importam).
A classe dominante precisava mudar de rumo. Eles se voltaram para o militarismo e o nacionalismo. Eles buscam disciplinar e dividir a classe trabalhadora enquanto lançam uma ofensiva maciça contra seus rivais imperialistas. Nos EUA, já estamos vendo o aumento do terror, a perseguição a estudantes radicais, especialmente de outros países, ataques cruéis a pessoas trans e o envio de imigrantes para as masmorras de tortura de El Salvador. Esse processo destaca a fraqueza da classe capitalista, não sua força. A ofensiva autoritária de Trump já está levando a excessos e ao início da resistência. Essa luta não acabou; ela está apenas começando. Mas, como em todos os períodos, a questão é se a classe trabalhadora multirracial e multigênero pode se organizar e mobilizar sua força a tempo e se armar com uma alternativa viável (socialista). É vital que os socialistas sejam lutadores dinâmicos contra a direita e suas ideias.















