Irã: Movimento de protesto cresce

Ato em solidariedade com os protestos no Irã

Crise se agrava com as novas ameaças de guerra de Trump e Netanyahu

O mais recente movimento de protesto no Irã, que começou em 28 de dezembro, se espalhou por todas as 31 províncias do país. Desencadeado pela inflação de 70% nos preços dos alimentos, agora são feitas reivindicações diretamente dirigidas à ditadura capitalista islâmica. 

Na quinta-feira, 8 de janeiro, segundo relatos o maior dia de protestos até agora, a internet foi desligada em todo o país. O regime está severamente abalado, após a guerra de 12 dias com Israel no verão passado e os bombardeios massivos dos EUA, além da perda ou enfraquecimento de vários de seus aliados mais importantes na região. 

Embora os protestos no início desta semana não tenham sido tão fortes quanto em 2022, “… o regime parece mais abalado do que se poderia pensar. A polícia de choque e canhões de água foram mobilizados nas ruas secundárias do centro de Teerã. Combatentes à paisana dispersam as pessoas antes que elas possam se reunir nos cruzamentos. Escolas e universidades foram fechadas sob o pretexto da poluição do ar, uma tática para impedir ações de massas” (The Economist). As escolas foram fechadas após apenas três dias de protestos.

Os preços dos produtos importados subiram de forma particularmente acentuada. Há dez anos, um dólar americano custava 30 mil riais iranianos; hoje, o preço é superior a um milhão de riais. “A população do Irã está crescendo, enquanto seu produto interno bruto (PIB) está diminuindo constantemente. Em 2010, com uma população de quase 75 milhões, o PIB era de US$ 600 bilhões. Hoje, com pouco mais de 90 milhões de habitantes, o PIB encolheu para US$ 355 bilhões.” (Dagens Nyheter, jornal sueco)

Os primeiros a protestar foram os vendedores de produtos eletrônicos importados em Teerã, seguidos pelos lojistas do Grande Bazar. Os protestos se espalharam rapidamente. A inflação dos alimentos é, como mencionado, de 70%, e ainda mais alta para os alimentos importados. O salário mínimo oficial é de cerca de 2 dólares por dia. Ao mesmo tempo, a elite governante do país vive uma vida de luxo.

Juventude, inflação, meio ambiente e guerra

A crise econômica desencadeou os protestos, que rapidamente se tornaram políticos e direcionados contra o regime. Faz apenas 3,5 anos desde o movimento massivo após o assassinato de Jina (Mahsa) Amini, que foi presa por não seguir o código de vestimenta do regime para mulheres. “Mulher, vida, liberdade” tornou-se um movimento iniciado por jovens, que se espalhou para os locais de trabalho e também passou a incluir a luta de nacionalidades oprimidas, como os curdos e os baluchis. O movimento carecia em grande parte de estruturas democráticas, direção e uma estratégia clara para a luta contra o regime, o que significou que foi esmagado pela repressão. Mais de 500 pessoas foram mortas e 20 mil presas. No entanto, a profunda raiva contra o regime permanece entre os jovens, e o regime foi forçado a fazer concessões em relação ao código de vestimenta. Os estudantes rapidamente se juntaram aos últimos protestos.

A insatisfação também está crescendo devido às crises climáticas e ambientais, especialmente a escassez de água. Recentemente, em novembro, o presidente, o suposto reformista Masoud Pezeshkian, afirmou que grande parte da metrópole de Teerã pode ter que ser evacuada devido à escassez de água.

Ao mesmo tempo, a propaganda do regime sobre seu próprio poder na região foi minada. Seus aliados sucumbiram, como o regime de Assad na Síria, ou foram amplamente esmagados, como o Hezbollah e o Hamas. Os esforços do Irã para patrocinar essas organizações foram destruídos. Israel, com o apoio dos Estados Unidos, foi superior na guerra de 12 dias neste verão. Agora, outro aliado do Irã, Maduro, na Venezuela, foi deposto militarmente pelos Estados Unidos. Em nenhum caso o regime de Teerã recebeu apoio real de seus aliados em Moscou ou Pequim. O militarismo não trouxe segurança.

Há uma preocupação real de que a guerra seja retomada, uma questão prioritária na agenda de Netanyahu em Israel. Trump também fez novas ameaças na semana passada. Em junho, Israel e os EUA não conseguiram encontrar apoiadores dentro do Irã. Os trabalhadores e os pobres que se opõem ao regime não viam as potências que lançaram os bombardeios como uma alternativa e queriam acabar com a guerra. Mas após o sequestro na Venezuela e com o desespero crescente, alguns setores da sociedade podem acreditar que os EUA possam ajudar.

Mais de 100 cidades

A nova onda de protestos cresceu apesar do risco de repressão. Em várias cidades, vídeos estão sendo compartilhados na internet mostrando multidões de pessoas, incluindo várias grandes manifestações de mulheres, gritando “Morte ao ditador”, ou seja, ao líder supremo aiatolá Khamenei. Relatos chegaram de mais de 120 cidades em todas as partes do país, incluindo a cidade sagrada de Qom. Delegacias de polícia e prefeituras foram invadidas em várias cidades. 

O regime está claramente preocupado. O presidente Pezeshkian foi rápido em apontar que há uma diferença entre manifestantes e “desordeiros”. Os primeiros têm o direito de protestar, sugeriu ele, enquanto os segundos devem ser atacados como o regime costuma fazer – com canhões de água, munição real e prisões. Até agora, cerca de 40 pessoas foram mortas e mais de 2 mil manifestantes presos [esse artigo foi publicado originalmente no dia 9 de janeiro, o número de mortos agora ultrapassa 500, segundo relatos].

O regime também tentou fazer concessões. Todos os cidadãos receberão um novo subsídio equivalente a cerca de 8 dólares por mês, uma quantia que não é suficiente para famílias que estão passando fome. O chefe do banco central também foi substituído.

Lições dos movimentos de massas

O Irã testemunhou vários movimentos de massas importantes nos últimos 25 anos – os protestos estudantis em 1999, a resistência à fraude eleitoral com milhões nas ruas em 2009, contra o aumento dos preços dos combustíveis em 2019 e, mais recentemente, Mulher, Vida, Liberdade em 2022-23. Várias greves importantes, mais recentemente entre professores, foram organizadas apesar do fato de os sindicatos independentes serem ilegais. O regime islâmico sobreviveu por meio de uma repressão severa quando os movimentos se esgotaram ou conquistaram concessões temporárias.

Esses movimentos careceram de uma direção democraticamente organizada, e a raiva e as manifestações, que careceram de coordenação, não foram suficientes. A oposição não tem uma alternativa socialista revolucionária que possa mostrar um caminho a seguir, ou uma estratégia em que a luta da classe trabalhadora seja a espinha dorsal para coordenar os protestos de todos os oprimidos.

A falta de uma alternativa revolucionária e o aumento do desespero também significam que existe o risco de que até mesmo Reza Pahlavi, o herdeiro do xá (rei) que foi derrubado em 1979, possa ganhar terreno, apesar de ter vivido no exílio por quase 50 anos e não representar nenhuma alternativa democrática ou melhorias para os pobres.

Ameaça de guerra

As ameaças de Netanyahu e Trump devem ser levadas a sério. A arrogância de ambos pode desencadear uma nova guerra. A declaração de Trump de que o exército dos EUA está “carregado e pronto” é uma ameaça inequívoca e, obviamente, não tem nada a ver com a proteção dos manifestantes, como afirma Trump. Tal como na Venezuela, trata-se de recursos naturais e poder no mundo. Uma nova guerra no Médio Oriente seria à custa da população da região e correria o risco de se alastrar se o Irã respondesse com mísseis contra Israel e os países do Golfo.

A alternativa para o regime em Teerã é um acordo humilhante nos termos de Trump, com a esperança de suspender as sanções que estão contribuindo significativamente para a crise econômica. Isso fazia parte das promessas do presidente Pezeshkian quando assumiu o cargo há um ano e meio. Também seria do interesse de Trump que o regime continuasse a manter os trabalhadores e manifestantes sob controle. O imperialismo não quer movimentos de massas nas ruas que não possa controlar.

O novo movimento de protesto no Irã não é nenhuma surpresa. Ele expõe mais uma vez a ditadura brutal que governa o país. Agora, as lições dos movimentos anteriores e da luta internacional dos trabalhadores devem chegar àqueles que estão lutando. Greves organizadas democraticamente em todo o país, levando a uma greve geral por tempo indeterminado de toda a classe trabalhadora, são passos importantes para derrubar o regime.

  • Todo apoio à luta dos trabalhadores e jovens no Irã. Lutar contra a ditadura e o capitalismo, por uma transformação socialista da sociedade.
  • Não à guerra contra o Irã. Parem as ameaças de Netanyahu e Trump.

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