Grã Bretanha: novo partido desafia o Labour e a direita

O anúncio de um novo partido de esquerda na Grã Bretanha por Jeremy Corbyn e Zarah Sultana em julho teve uma resposta impressionante, com centenas de milhares registrando o seu interesse em participar. Até esse momento, já são mais de 800 mil inscritos.
A vitória do Labour (partido trabalhista) em 2024, que colocou um fim a 15 anos de governos dos Tories (partido conservador) trouxe um alívio e esperança de que haveria mudanças e um fim à política de ataques ao povo trabalhador. Ao invés disso, o primeiro-ministro Kier Starmer só aprofundou os ataques, abrindo espaço para o rápido crescimento do partido de extrema direita Reform UK de Nigel Farage.
Aprender as lições do passado
Porém, o efeito eletrizante do lançamento no novo partido (ainda sob o nome provisório ‘Your Party’, ‘Seu partido’) mostra o potencial de combate à extrema direita com uma alternativa socialista e de luta. Esse é o desafio colocado para o novo partido e a Socialist Alternative (seção da Alternativa Socialista Internacional – ASI) está empenhada em fazer que seja um sucesso. Mas é necessário que se aprenda as lições do passado, para não cair na armadilha de focar somente nas eleições e de adaptar o programa ao que é ‘possível’ no marco desse sistema podre.
A necessidade e o espaço para uma alternativa ao Labour não é de agora. O Labour nasceu no início do século passado como um partido baseado na luta da classe trabalhadora, com forte participação dos sindicatos, porém sem uma estratégia de ruptura com o sistema capitalista. Isso levou a uma adaptação ao sistema e suas instituições, mas sempre houve uma ala mais à esquerda, defendendo uma alternativa socialista, como os antecessores da ASI no país (a tendência Militant).
Após a queda do stalinismo, o processo de tornar o Labour um partido integralmente da ordem se aprofundou, especialmente sob a liderança de Tony Blair, eleito primeiro-ministro em 1997, que moldou o partido na imagem dos Democratas dos EUA. Na guerra do Iraque em 2003, Blair era o principal aliado de Bush e do imperialismo estadunidense. Na política doméstica, isso significava não só manter o desmonte do setor público e ataques aos direitos trabalhistas dos odiados Tories, mas também aprofundá-los.
A decepção acumulada com os governos do Labour, agravada pela política de salvar os bancos e ao mesmo tempo atacar os pobres na crise de 2008, levou à volta ao poder ao Tories em 2010, que permaneceram no poder até a última eleição.
Desde os anos 1990, a Socialist Alternative e seus antecessores têm defendido a necessidade de um novo partido de trabalhadores e de luta. Na falta de uma alternativa viável, a vontade por uma alternativa conseguiu ter uma expressão temporária dentro do Labour em 2015. Foi quando Jeremy Corbyn, um dos poucos parlamentares remanescentes de esquerda do Labour, candidatou-se ao posto de líder do partido. Seu programa mais radical teve um enorme apoio e ele foi eleito com base no influxo de mais de 100 mil pessoas, que entraram no partido só para votar nele.
O erro de Corbyn
Sob a direção de Corbyn e com um manifesto eleitoral radical, o Labour teve na eleição de 2017 o maior crescimento dos votos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mesmo não tendo vencido as eleições. Porém, um erro fatal por parte de Corbyn foi não ter travado uma luta contra a ala de direita que controlava o aparato partidário, que fez tudo para sabotá-lo.
Nas eleições seguintes, em 2019, o Labour perdeu votos e grande parte de seus parlamentares. Porém a derrota foi agravada pelo caráter do sistema eleitoral, baseado no voto distrital. Quem tem mais votos em um distrito elege um parlamentar, sem precisar de maioria, o que pode ter efeitos bastante dramáticos. Na verdade, o Labour sob Corbyn teve mais votos em 2019 (considerada como sendo uma ‘grande derrota’), do que na eleição de 2024, quando, agora sob Keir Starmer, o partido obteve uma grande maioria, baseado no colapso dos votos dos Tories!
A ala direita usou o resultado de 2019 para atacar Corbyn, que renunciou como líder do partido. Mas a burocracia partidária não estava contente com isso. Em 2020, ele foi expulso do partido sob falsas alegações de ‘antissemitismo’.
Mas a vontade e necessidade de uma alternativa de esquerda ainda estava presente. Em 2022-23 houve a maior onda de greves desde os anos 1980 em resposta à crise do custo de vida. No fim de 2022, alguns líderes sindicais e parlamentares da esquerda do Labour lançaram a campanha ‘Enough is Enough’ (Chega!) com cinco demandas: aumento real do salário, redução da conta de luz, fim da pobreza alimentar, moradia decente para todos e aumento dos impostos para os ricos. Em pouco tempo, 700 mil pessoas assinaram a petição. Porém, havia um receio entre os líderes reformistas em levar a iniciativa adiante, por medo de perder controle e por ainda não defender uma ruptura definitiva com o Labour.
A Socialist Alternative defendia que havia base mais que suficiente para lançar um novo partido, o que seria essencial para barrar o avanço da extrema direita, especialmente prevendo o efeito de um novo governo do Labour, que prometia mais ataques.
Nas eleições 2024, Jeremy Corbyn, conseguiu se eleger em seu distrito (onde é parlamentar desde 1983) como independente, junto com quatro outros independentes de esquerda, vários deles ativistas contra a guerra genocida em Gaza.
Diante da crise do decadente capitalismo britânico, o governo de Kier Starmer tem sido marcado por uma série de ataques ao povo trabalhador. Manteve cortes impopulares dos Tories, como o auxílio às famílias com crianças limitado a 2 crianças por família (deixando 250 mil crianças na pobreza) e lançando novos ataques, como cortes no auxílio para aquecimento para idosos no inverno e auxílio para pessoas com deficiência.
Labour ataca imigrantes, pessoas trans e ativistas pró-Palestina
O governo também atacou imigrantes, tentando imitar a política do Reform UK, e pessoas trans (saudando uma decisão da suprema corte que retira proteção contra discriminação de gênero para mulheres trans), além de continuar apoiando a guerra genocida de Israel.
O governo chegou ao ponto de declarar que o grupo de ativistas Palestine Action seja considerado um grupo terrorista, igual ao Estado Islâmico ou grupos nazistas violentos, por ter pichado aviões de guerra. Centenas de pessoas tem sido presas por segurar cartazes em apoio ao grupo.
O efeito de tudo isso tem sido um colapso no apoio do Labour e crescimento no apoio do Reform UK, que agora lideram as pesquisas, algo confirmado nas eleições municipais em maio.
Enquanto isso, o processo de formar uma nova alternativa tem sido lento, conduzido principalmente em negociações fechadas. Porém, dois elementos foram importantes para acelerar esse processo.
Um deles foi a conferência em Huddersfield, em 10 de maio, organizada pela PACE (Aliança Popular pela Mudança e Igualdade). Essa foi uma iniciativa da Socialist Alternative e outros ativistas locais para lutar contra os cortes, custo de vida e outros ataques. A conferência, que contou com a presença de Corbyn, foi um grande sucesso e se tornou um forte apelo por um novo partido.
Um segundo elemento foi a saída da parlamentar Zarah Sultana do Labour. Ela tinha sido uma de sete parlamentares suspensos em julho de 2024 da bancada do Labour por votar a favor de uma proposta que restabelecia o auxílio às famílias sem o limite para duas crianças. Em julho deste ano ela anunciou sua saída do Labour e o apoio ao lançamento do novo partido.
O próximo passo agora é lançar de vez o partido. A Socialist Alternative defende que isso deve ser feito logo, utilizando o impulso atual.
No dia 18 de outubro será organizado um ato em Huddersfield, com a presença de Zarah Sultana, convocado pelo PACE, e que será uma importante mobilização no norte da Inglaterra, juntando ativistas contra cortes, sindicalistas, pessoas com deficiência, LGBTQIA+ trans e contra o genocídio em Gaza.
Um partido de luta, democrático e socialista
A Socialist Alternative defende que o novo partido deve ser baseado nas lutas, nas ruas e nos locais de trabalho, não se limitando às eleições. É necessário também lutar para que os sindicatos se desfiliem do Labour e se filiem ao novo partido. Também que seja um partido de massas, baseado em uma filiação ativa da classe trabalhadora, engajado com estruturas democráticas de base em nível local, regional e nacional e que defenda um programa socialista para romper com as amarras desse sistema.
O novo partido já está tendo enorme repercussão, com algumas pesquisas colocando-o no mesmo nível de apoio que o Labour, mesmo antes de existir formalmente!
Como a Socialist Alternative coloca “Um novo partido de esquerda, liderado por Jeremy Corbyn e Zarah Sultana, irá transformar o cenário político na Grã-Bretanha. Ele recolocará as ideias socialistas na pauta de milhões de pessoas, com o potencial de construir um movimento poderoso para resistir e contra-atacar”.















