Bolsonaro, Trump e tarifas: enfrentar o imperialismo com uma alternativa dos trabalhadores! 

Trump anunciando tarifas

O cerco se fecha em torno de Bolsonaro. Diante da iminente prisão do ex-presidente golpista, um componente central de sua tentativa de defesa foi a carta de Trump que denuncia uma suposta “caça às bruxas” contra Bolsonaro e anuncia tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros exportados aos EUA. 

A defesa explícita de Bolsonaro por parte de Trump reflete o papel do imperialismo estadunidense no estímulo às forças de extrema direita na América Latina e no mundo. Mas as tarifas e as pressões do imperialismo também devem ser entendidas em um contexto mais amplo.

Disputa entre impérios

Os EUA estão num confronto aberto com a China pela hegemonia política e econômica do mundo. O antigo império ainda é o país mais rico do mundo e líder no desenvolvimento de novas tecnologias, em especial no setor de informática, as chamadas “big techs”. Mas está rapidamente perdendo este posto, com o rival pouco a pouco o superando. Trump pretende aproveitar do momento em que seu país ainda está no topo, pois parece perder a longa batalha de atrito. As tarifas têm sido usadas como instrumentos de pressão para obrigar as demais economias do mundo a acordos comerciais favoráveis. 

No caso do Brasil isso tem um endereço claro, inclusive expresso na própria carta de Trump: as big techs. A principal importação de produtos norte-americanos ao Brasil hoje vem na forma de contratos com plataformas digitais e licenças de software, das quais o maior contratador é o próprio Estado brasileiro, que gastou cerca de 10 bilhões de reais de junho de 2024 a junho de 2025 com esses serviços.

O caráter político e oportunista do governo norte-americano fica ainda mais evidente com a publicação do relatório do Departamento de Estado no dia 12/08 afirmando que houve uma deterioração dos direitos humanos em países europeus e no Brasil nos últimos anos, países na mira das tarifas, mas reduzindo drasticamente as críticas a El Salvador e Israel, aliados e cúmplices dos EUA.

Resposta tímida

A resposta do governo Lula ao tarifaço foi não se submeter às ameaças e pressões de Trump no que diz respeito ao julgamento de Bolsonaro, porém no campo econômico foram mais tímidas. Alckmin tem sido o principal interlocutor do governo nesse processo nas negociações com os EUA, deixando claro em entrevistas que não é a favor retaliar mas busca negociar. 

De modo geral, a linha tem sido tentar negociar e salvar o lucro das empresas afetadas, com declarações recentes de Lula afirmando esperar “acontecer alguma coisa na cabeça de Trump” e ele perceber que precisa “negociar, não só com o Brasil, mas com China, Índia, Venezuela”. A própria aplicação da lei de reciprocidade deve durar de 6 meses a 1 ano para entrar em efeito. 

O plano apresentado pelo governo prevê adiamento do pagamento e isenção de impostos, além de abrir os recursos do Fundo de Garantia às exportações para ser usado em empréstimos subsidiados para empresas afetadas, o que deve liberar em torno de 30 bilhões de reais. As empresas devem em contrapartida garantir empregos, porém o projeto prevê exceções. 

Além disso, o governo estuda comprar produtos perecíveis que seriam vendidos aos EUA. Essas medidas são importantes para pequenas empresas e pequenos produtores, mas não há caminho para a soberania nacional apoiada na burguesia nacional e no agronegócio, também contemplados nas medidas, que são muito dependentes de exportações de produtos primários.

Há movimentações do governo federal em buscar apoio nos BRICS e especialmente na China no processo de enfrentamento ao tarifaço de Trump, o que pode ajudar a escoar a produção, porém não são uma solução de soberania pois trocam um senhor por outro. A China hoje é o principal fator no processo de desindustrialização brasileira e não será aliada no desenvolvimento do país de forma independente, pelo contrário, devem favorecer um desenvolvimento subalterno, focado em exportação de produtos primários e importação de produtos industrializados.

Esse momento de ataque à soberania nacional brasileira, que mescla desde pressão econômica a interferência política direta quando tenta impedir o julgamento de um ex-presidente acusado de golpe de estado, põe em evidência os limites do Estado capitalista, em particular em um país da periferia ou semi-periferia do sistema, em defender sua própria independência frente ao imperialismo.

Não se defende a soberania nacional frente à intervenção imperialista com slogans, bandeiras e bonés, mas sim com mobilização da classe trabalhadora e tocando no coração do problema – o papel do grande capital estrangeiro imperialista e de seus associados entre os capitalistas brasileiros. 

Em uma situação de ataque externo, uma resposta deve passar necessariamente por políticas de controle da remessa de lucros, controle do câmbio e estatização das empresas estadunidenses no Brasil. Envolve também um projeto de reforma agrária com foco em atender as necessidades do mercado interno, reduzindo o custo de vida geral da população e tornando-o menos dependente do mercado externo, assim como a busca por independência em setores estratégicos como as plataformas digitais e softwares, satélites de comunicação e outros, possível através do desenvolvimento de empresas públicas nacionais, sob controle dos trabalhadores. Isso colocaria o país em rota de colisão não só com EUA, mas também com China e deixaria insatisfeita a própria burguesia nacional.

Enfrentar o imperialismo e o entreguismo

Se a crise se aprofunda, as opções vão diminuindo, em especial quando as saídas são salvaguardar o lucro das grandes empresas e encontrar um jeito de negociar com os impérios na tentativa de manter algum semblante de soberania. O momento exige medidas duras de enfrentamento não somente com o capital estrangeiro e os interesses imperialistas, mas também com a burguesia entreguista nacional, que não faz mais do que lutar para ter um lugar ao sol ao lado dos estrangeiros na exploração dos trabalhadores brasileiros.

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