Dia Internacional das Mulheres 2026 – O capitalismo entrega guerra, abuso e miséria: precisamos de uma resistência feminista socialista

Mulheres protestam contra a guerra no Irã

Parece que a sociedade está retrocedendo. A escalada das guerras parece se expandir pelo o mundo a cada dia que passa. Uma escola para meninas em Minab, no Irã, foi um dos primeiros alvos da nova e mortal guerra de Trump e Netanyahu no Oriente Médio, onde estima-se que 165 pessoas – a maioria delas meninas jovens – foram mortas. A escalada brutal no Irã é um elemento da ofensiva reacionária que ocorre globalmente, com o autoritário Donald Trump no comando.

Em todo o mundo, os patrões e seus servos políticos sacrificam vidas e o nosso futuro no altar dos lucros e do belicismo. De forma repugnante, tentam vender essas mentiras alegando que agem para proteger as mulheres e crianças “da nação” contra quaisquer “inimigos” internos ou externos que escolheram como bodes expiatórios. Enquanto a direita e as classes dominantes globalmente impulsionam o retorno aos chamados papéis tradicionais de gênero e propagam discursos racistas sobre a proteção das mulheres de “homens estrangeiros”, Epstein e seu círculo de elites se super-ricos, cujos membros estendem-se ao âmago do establishment capitalista, foram expostos por seu papel em uma extensa e desprezível rede de tráfico sexual. Sua hipocrisia podre foi desmascarada.

O futuro prometido às mulheres nas últimas décadas, de constante “progresso” capitalista e crescente igualdade, está sendo revelado como a mentira que sempre foi. Mas este futuro distópico não está sendo aceito sem luta. Guerras, deportações e ataques aos direitos das mulheres, de pessoas LGBTQIA+ e direitos democráticos estão sendo respondidos com a luta da classe trabalhadora.

Este não é o primeiro Dia Internacional da Mulher que ocorre sob a sombra da guerra. O 8 de março tem suas raízes na luta contra a guerra imperialista, na qual mulheres trabalhadoras se levantaram contra a Primeira Guerra Mundial. As lutas monumentais que nos precederam devem ser uma fonte de força na qual nos apoiar, pois agora, mais do que nunca, é necessário construir uma luta feminista socialista para derrubar este sistema que representa uma ameaça existencial a todos trabalhadores, trabalhadoras e pessoas oprimidas.

A ascensão do militarismo e da guerra

O segundo mandato de Trump dinamitou as relações mundiais e turbinou a guinada reacionária do capitalismo, com consequências catastróficas para trabalhadores, pobres e oprimidos. Em todos os continentes, governos estão aumentando os gastos militares e, em país após país, isso ocorre às custas do investimento em saúde, moradia, educação, serviços sociais e outras necessidades básicas. Isso também é verdade em escala global, já que a eliminação da USAID por Trump é estimada como responsável por centenas de milhares de mortes. São as mulheres as mais atingidas por esses cortes.

Este ano continuou a  tendência de ampliação de guerras e conflitos com resultados devastadores. Apesar das aparentes intenções de Trump de repetir sua manobra na Venezuela, a guerra no Irã escalou rápida e dramaticamente, espalhando-se pelo Oriente Médio e matando mais de mil pessoas. Trump e Netanyahu estão tentando remodelar o Oriente Médio ao seu gosto, mas este é um jogo muito perigoso que já está saindo do controle. O farsesco “Conselho de Paz” de Trump em Gaza não é fonte de paz ou de estabilidade na região, mas sim um prenúncio de mais morte e opressão.

A ofensiva na América Latina continua enquanto Cuba enfrenta a fome, enquanto os “falcões” no gabinete de Trump se deleitam com a perspectiva de seu colapso. A guerra na Ucrânia continua, aparentemente desaparecendo em segundo plano, apesar das centenas de milhares de baixas que continuam a se acumular. No Sudão e no Congo, guerras devastadoras com impactos particularmente terríveis sobre as mulheres continuam, apesar de serem mencionadas de passagem na mídia capitalista.

O conflito interimperialista é a ordem do dia, e a opressão das mulheres se intensifica em tempos de guerra, inclusive por meio da violência sexual. De acordo com o relatório de 2025 do Secretário-Geral da ONU sobre Mulheres, Paz e Segurança, a violência sexual relacionada a conflitos aumentou 87% em dois anos, e as baixas civis entre mulheres e crianças quadruplicaram em comparação com o período de dois anos anterior. A luta contra a guerra é uma luta feminista socialista, e a exigência de acabar com todas as guerras imperialistas deve ser feita em alto e bom som em todas as manifestações do Dia Internacional das Mulheres deste ano.

A ofensiva antifeminista

As classes dominantes batem os tambores de guerra e suas ofensivas não se limitam aos campos de batalha. Elas também se voltam para o avanço da ideologia reacionária e realizam ataques aos direitos e ao padrão de vida das mulheres e pessoas LGBTQIA+. As conquistas dos movimentos das últimas décadas estão sob ataque com a reafirmação dos papéis “tradicionais” de gênero, da família nuclear e de ideias abertamente machistas e racistas. Isso se soma à erosão dos padrões de vida e tentativas de empurrar as mulheres de volta para o lar ou para o trabalho precário e mal remunerado. Quase meio milhão de mulheres deixaram a força de trabalho nos EUA em 2025, o que dificilmente pode ser considerado um testemunho do progresso capitalista no país mais rico da história do mundo.

Essas ideias de direita, embora impulsionadas pela classe capitalista de cima pra baixo, estão tendo impactos muito reais nas pessoas da classe trabalhadora e em suas atitudes. Há uma crescente divisão política de gênero e um aumento perigoso de ideias antifeministas, particularmente entre jovens homens. Uma pesquisa em 29 países descobriu que homens da Geração Z tinham duas vezes mais probabilidade do que os “baby boomers” de acreditar que as esposas devem obedecer aos maridos. Na China, o regime do PCC continua a impulsionar ideias antifeministas enquanto a queda nas taxas de natalidade representa uma crise existencial. Mulheres da classe trabalhadora e pessoas LGBTQIA+ estão enfrentando uma onda de ataques contra nossos corpos. Ideias machistas que antes eram marginalizadas em cantos obscuros da internet agora estão sendo normalizadas, proferidas por chefes de governo ao redor do mundo.

Epstein e um sistema doente

A divulgação dos arquivos de Epstein foi uma exposição chocante da depravação total do sistema capitalista. Em um momento em que a legitimidade das instituições capitalistas está extremamente baixa aos olhos da classe trabalhadora, isso só adiciona lenha à fogueira. Embora o establishment político, e especialmente Trump, tenham feito grandes esforços para tentar empurrar isso para debaixo do tapete, o impacto será duradouro. Muitas das figuras implicadas nos arquivos de Epstein construíram suas carreiras políticas com todo tipo de proclamações repugnantes sobre proteger mulheres e meninas de homens imigrantes e pessoas trans. Sua hipocrisia flagrante expõe a falência total de suas táticas de “dividir para reinar”.

Apesar da profundidade e amplitude desta rede de abuso e tráfico, houve impunidade quase total para aqueles que estiveram envolvidos ou acobertaram os crimes, e nenhuma justiça real para as mais de mil mulheres e meninas que foram vitimizadas por Epstein e aqueles ao seu redor. Epstein era um indivíduo deplorável, mas o que esta situação mostrou claramente é que este comportamento vil é fomentado sob o capitalismo.

Quase 1 em cada 3 mulheres em todo o mundo já sofreu violência sexual ou física por ao longo da vida. A violência e o abuso sexual não estão isolados nas elites dominantes. O capitalismo gera abuso e violência machista. A necessidade de uma luta feminista socialista organizada contra a violência e o abuso em todas as suas formas, e contra o sistema que os cria, nunca foi tão urgente.

Resistência da classe trabalhadora

O ano passado não foi dominado apenas pela reação, mas também testemunho avanços na resistência da classe trabalhadora, com as mulheres desempenhando papéis centrais em muitas dessas lutas. Os EUA viram os maiores protestos da história contra o abusador-chefe Donald Trump. Desde o Dia Internacional das Mulheres em 2025, uma série de revoltas da “Geração Z” contra a corrupção, a desigualdade e o autoritarismo também abalaram e, em alguns casos, derrubaram governos em todo o mundo neocolonial. Dezenas de milhares de estudantes na Alemanha organizaram greves escolares contra a introdução do serviço militar obrigatório pelo governo. Mulheres jovens estiveram na linha de frente desses movimentos.

Nas semanas anteriores ao bombardeio do Irã, ocorreram protestos extremamente corajosos contra o regime, com estudantes saindo às ruas apesar dos níveis chocantes de repressão que já haviam sido realizados no início do ano. Apesar das alegações cínicas de Trump de que a guerra visa ajudar o povo iraniano, foi a campanha de bombardeios que sufocou essa luta. É claro que esses protestos ocorrem sob a sombra não tão distante do heroico movimento “Mulher, Vida, Liberdade” que abalou o regime em 2022. Existem muitas lições que podem ser tiradas hoje desse movimento multiétnico e de diversos gêneros que assumiu demandas feministas, bem como enfrentou a ditadura reacionária e fundamentalista como um todo.

A Revolução Russa começou no Dia Internacional das Mulheres, com a reivindicação pela paz em primeiro plano. No Irã, em 1979, o 8 de março marcou o início de vários dias de protestos contra o sequestro da revolução pelos mulás. O slogan iraniano ‘Mulher, Vida, Liberdade’ e o movimento que continua a carregar sua chama não devem permitir que sejam sequestrados novamente, seja pelo filho do Xá ou por um imperialista e belicista como Trump. Manifestar-se no Dia Internacional das Mulheres é mostrar solidariedade e apoio a todos que lutam por justiça, seja localmente como no mundo.

Internacionalmente, a classe trabalhadora entrou recentemente na luta com cara própria de forma mais decisiva com a redescoberta da greve política. Em oposição ao genocídio em Gaza e ao sequestro da flotilha de ajuda que transportava ativistas antiguerra, incluindo Greta Thunberg, a classe trabalhadora italiana fez uma greve geral histórica. Nas Cidades Gêmeas (Minneapolis e Saint Paul), nos Estados Unidos, o terror de Trump contra imigrantes e os assassinatos de Renee Good e Alex Pretti por agentes do ICE desencadearam uma greve geral na cidade, a ação de greve política mais significativa em décadas. Essas ações apontam o caminho para o tipo de luta necessária para repelir a direita e sua ofensiva contra as mulheres e a classe trabalhadora como um todo.

O movimento feminista de que precisamos

O mundo hoje clama por uma luta de massas contra a ofensiva opressora e reacionária da direita. Os últimos cinco anos testemunharam uma contrarrevolução contra o #MeToo, uma avalanche de ataques aos direitos trans e, em muitos países, o enfraquecimento ou, em alguns casos, a revogação total do direito ao aborto. Apesar desse sério desgaste das vitórias conquistadas no passado, ainda existe uma enorme raiva e potencial de radicalização, embora essa raiva não se reflita em uma luta feminista organizada nas ruas na maioria dos países hoje. Não podemos permitir que nosso movimento seja relegado à clandestinidade ou esmagado.

Uma questão fundamental é: que tipo de movimento feminista é necessário? Ele precisa ser construído de baixo para cima, nas ruas, nos corredores das escolas e nos refeitórios de trabalho. Não pode depender dos partidos ou instituições capitalistas para agir, nem esperar que alguém nos salve; as mulheres precisam se organizar e lutar com os métodos da classe trabalhadora, como assembleias de massas, protestos, desobediência civil, paralisações e greves. Em um mundo de guerra acelerada e nacionalismo, o movimento deve ser anti-imperialista e internacionalista. O sistema capitalista é construído sobre a opressão das mulheres e tem a violência patriarcal e a dominação em seu DNA. Este sistema não pode ser ajustado ou reformado, ele precisa ser fundamentalmente mudado. Portanto, um movimento feminista que possa enfrentar a raiz real da opressão de gênero deve ser socialista e revolucionário.

A história mostrou que a direita e seu belicismo podem ser combatidos, mas precisamos nos organizar. A Alternativa Socialista Internacional estará nas ruas no Dia Internacional das Mulheres em países ao redor do mundo. Junte-se a nós!

Nós defendemos:

  • Combater a ofensiva antifeminista da direita com a luta de massas nas ruas. Fazer do 8 de março um dia de protestos de massas contra a guerra, a extrema direita e a violência e o abuso machistas!
  • Ação internacional dos trabalhadores para desmantelar a máquina de guerra imperialista! Pelo fim imediato da guerra no Irã, da ocupação na Palestina e de todas as guerras imperialistas ao redor do mundo.
  • Dinheiro para serviços públicos, não para a guerra e deportações racistas! O acesso a comida, água limpa, empregos dignos, habitação de alta qualidade, educação gratuita, saúde e creche deve ser garantido a todos, não importa onde você nasceu.
  • Justiça para as sobreviventes de Epstein e todas as vítimas de abuso. Investigar e condenar todos os implicados nos arquivos de Epstein, e construir uma luta de massas nas escolas, locais de trabalho e comunidades contra toda violência e abuso machistas!
  • Lutar por aborto livre, seguro e gratuito e outros cuidados reprodutivos! Todas que escolherem devem ter o direito de ter filhos e a capacidade de criá-los sem a ameaça da pobreza ou da violência.
  • Parem os ataques aos direitos trans! Pelo direito à autoidentificação, proteção contra a discriminação e atendimento gratuito de afirmação de gênero.
  • Por um movimento sindical militante e democrático para lutar contra a crise do custo de vida e por condições de trabalho seguras.
  • Defender os direitos dos imigrantes e refugiados! Lutar pelo fim das políticas capitalistas que levam à devastação econômica, desastre climático, violência e guerra, que expulsam a classe trabalhadora e as pessoas pobres de seus países de origem.
  • Construir novos partidos de massas de esquerda para repelir a extrema direita! Precisamos de uma alternativa política aos partidos capitalistas que servem aos interesses dos patrões, não da classe trabalhadora.
  • Por uma economia planificada e controlada democraticamente, organizada no interesse dos trabalhadores e do planeta, não das elites bilionárias. Lutar por um mundo socialista que possa estabelecer as bases para a eliminação da opressão e da exploração para sempre!

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