Trump, Venezuela e a ofensiva do imperialismo dos EUA

O ano de 2026 começou com o imperialismo estadunidense na ofensiva.
O rolo compressor reacionário de Donald Trump dominou 2025, abalando profundamente as relações internacionais. Mas a agressão imperialista descarada e sem pudor contra a Venezuela, que inaugurou suas ações em 2026, levou as coisas a um novo nível.
Tendo se apresentado de forma grotesca como um pacificador, Trump bombardeou seu sétimo país em menos de um ano quando aviões de guerra dos EUA sobrevoaram Caracas (os outros seis foram: Irã, Iraque, Nigéria, Somália, Síria e Iêmen). Em menos de um quarto de seu segundo mandato, ele já está quase ganhando o título de presidente dos EUA que mais bombardeou países na história.
Esses eventos destruíram de uma vez por todas o mito de uma ordem internacional “baseada em regras”. Como disse Stephen Miller, acólito de Trump, à CNN: “Você pode falar o quanto quiser sobre sutilezas internacionais e tudo mais… Mas vivemos em um mundo, um mundo real… que é governado pela força, que é governado pelo poder… Essas são as leis de ferro do mundo”.
Ainda mais perplexos ficarão aqueles que ainda engoliam a mentira de que o imperialismo dos EUA e seus aliados defendem “a liberdade, a democracia e o direito internacional” no cenário mundial contra um grupo de autocratas não ocidentais. De fato, nas horas e dias após Trump invadir a Venezuela, sequestrar seu presidente e se declarar responsável pelo país e pelo controle de sua economia, os mesmos governos e meios de comunicação ocidentais que denunciaram veementemente a invasão de Putin sobre a Ucrânia estavam fazendo todo tipo de contorcionismo para justificarem sua posição. Enquanto alguns murmuraram críticas tímidas, a maioria, como Keir Starmer no Reino Unido, recusou-se a fazer qualquer crítica à “operação militar especial” de Trump.
A guerra de Trump contra a Venezuela também abre um novo capítulo para a América Latina. Para a classe trabalhadora e os oprimidos em todo o continente, está ficando claro que o velho inimigo – o imperialismo dos EUA – está de volta à ofensiva. Isso precisa ser enfrentado com uma nova onda de organização e luta anti-imperialista, internacionalista e socialista.
Campanha de ameaças e violência culmina em invasão
O ataque de 3 de janeiro não foi exatamente uma surpresa. Foi o desfecho de uma campanha de intimidação, ameaças e violência que começou para valer em agosto passado, quando Trump assinou uma ordem autorizando operações militares em território latino-americano, sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”.
Em seguida houve o envio de praticamente um quinto das forças da marinha dos EUA para o sul do Caribe e o início dos ataques a embarcações na costa da Venezuela e da Colômbia. No total, estima-se que tenham ocorrido 35 ataques a barcos, resultando em pelo menos 115 mortes. Esses ataques incluíram pelo menos um infame ataque de ‘double tap’, no qual, após explodir uma embarcação, as forças militares dos EUA realizaram deliberadamente um ataque subsequente para matar os sobreviventes – um crime de guerra evidente.
Então, em dezembro, o governo dos EUA fechou o espaço aéreo venezuelano e Trump ordenou um bloqueio “total e completo” de todos os navios-tanque sancionados entrando ou saindo da Venezuela, que continua a ser aplicado com vários navios apreendidos.
No final do ano, Trump anunciou que os EUA haviam realizado seu primeiro ataque aéreo em território venezuelano, usando drones para atingir supostas instalações de armazenamento de drogas. Já nessa época, segundo relatos em 25 de dezembro, Trump deu a ordem para a invasão e o sequestro de Maduro. Embora o ataque tenha sido adiado por alguns dias, supostamente devido ao mau tempo, Trump aproveitou o tempo livre para realizar bombardeios na Nigéria.
O que tornou tão fácil para os EUA capturar Maduro?
Mas, embora o momento e a natureza do ataque de Trump não tenham propriamente surpreendido tanto, a facilidade com que foi realizado certamente chamou a atenção.
Quando, exatamente 36 anos antes, o imperialismo dos EUA realizou uma operação semelhante no Panamá para remover o presidente (e agente da CIA) Manuel Noriega do poder, 27.000 soldados dos EUA foram enviados, parte deles a partir de bases de dentro do país. Eles tiveram que lutar nas ruas da capital, deixando mais de 3.000 mortos, incluindo 23 soldados estadunidenses. Noriega escapou da captura por algumas semanas antes de se render.
Em 2026, toda a operação levou menos de cinco horas. As forças estadunidenses não sofreram baixas e não perderam nenhum equipamento. Apenas um helicóptero foi danificado quando as forças especiais invadiram a residência de Maduro. 150 aeronaves dos EUA sobrevoaram o país, sem reação do que supostamente seriam os melhores sistemas de defesa aérea da América Latina, fornecidos pela Rússia e guiados por sistemas de radar chineses, que foram bloqueados com sucesso pela guerra cibernética dos EUA nos estágios iniciais do ataque. O governo venezuelano afirma que mais de 100 pessoas foram mortas pelas forças estadunidenses, incluindo 32 cubanos membros da equipe de segurança pessoal de Maduro.
Trump inflou o peito e se gabou da força e eficiência da operação. De fato, demonstrar o poder e a superioridade da tecnologia militar estadunidense – a fim de ameaçar outros com tratamento semelhante – era um dos objetivos da operação. Isso expôs a lacuna ainda grande em tecnologia militar entre os EUA e seu principal rival global, a China. Não há como contestar que essa foi uma operação eficaz, sem dúvida facilitada por operações de longo prazo da CIA em solo venezuelano além de ter sido cuidadosamente preparada – as forças armadas dos EUA chegaram a realizar exercícios em uma réplica exata da residência de Maduro, construída propositalmente em Kentucky!
Mas o poderio militar por si só não explica a facilidade com que Trump arrancou do país um presidente em exercício. Fatores políticos também estão em jogo.
Especulações têm sido feitas, de forma até compreensível, sobre a possibilidade de que pessoas de dentro do governo tenham colaborado com o ataque, incluindo a possível implicação da vice-presidenta Delcy Rodríguez (agora empossada como sucessora de Maduro). O fato de o regime venezuelano ter demonstrado disposição para fazer enormes concessões a Washington no decorrer de longas negociações só serve para reforçar essas suspeitas. O mesmo ocorre com o fato de Trump ter imediatamente apoiado a continuidade do regime através de Delcy Rodríguez após a invasão, desprezando sem cerimônia a extrema direita pró-EUA liderada por Maria Corina Machado. Para explicar o que ocorreu está fora de questão que algum tipo de colaboração de algum setor do regime de fato aconteceu.
Mas para uma análise socialista dos eventos, isso não é decisivo. Independentemente de terem ou não colaborado diretamente com Trump, Delcy Rodriguez, o próprio Maduro e todo o regime são politicamente responsáveis por sua derrota. A solidariedade com o povo venezuelano e a total oposição à agressão de Trump não devem, e não podem, impedir que os socialistas destaquem a falência política do governo. Suas políticas pró-capitalistas e a traição à revolução venezuelana são o principal motivo da fragilidade do regime. Eles não estão dispostos e não são capazes de confrontar o imperialismo.
Mesmo antes do início da campanha de intimidação de Trump, a política de Maduro era de recuo em todas as frentes. Seu governo se ofereceu para garantir os interesses dos EUA em relação ao petróleo, minerais, terras raras etc. Ofereceu-se para reduzir o comércio e os laços com a China, a Rússia e o Irã em troca de ganhar favores de Washington. Eles não fizeram nenhuma preparação séria para a resistência ao imperialismo ou para a mobilização da população.
O que o regime de Trump vê em Delcy Rodriguez? Como membro dos altos escalões do governo desde 2020, ela tem estado na vanguarda da implementação de uma política de submissão ao imperialismo. Responsável pelo setor de petróleo desde 2024, ela trabalhou diretamente com a gigante petrolífera estadunidense Chevron, que continuou as operações na Venezuela, licenciada pelo governo dos EUA, apesar das sanções.
E, até agora, Rodríguez parece estar fazendo o que é preciso para Trump e o imperialismo dos EUA. Quase imediatamente após sua posse, o governo venezuelano teria concordado em entregar o controle de todas as vendas de petróleo aos EUA “indefinidamente”. Poucos dias depois, o governo anunciou que havia realizado uma operação militar conjunta com os EUA para apreender um navio petroleiro que deixava o país “sem autorização”! Em 14 de janeiro, Trump informou sobre um longo telefonema com Rodríguez, uma “pessoa fantástica”, que tratou sobre petróleo, minerais, comércio e segurança.
Mais sangue por petróleo
Oficialmente, o imperialismo dos EUA apresentou uma justificativa legal detalhada (e totalmente falsa) para o sequestro de Maduro, vinculada a uma acusação legal contra ele por narcoterrorismo. O argumento oficial foi de que a operação se resumia ao cumprimento de uma decisão legal contra Maduro e não uma ação de guerra.
Mesmo assim, Trump nunca conseguiu apenas se ater ao roteiro pré definido. Ele deixou claro que isso não tinha nada a ver com drogas e que tinha muito a ver com petróleo. Surgiu então outra teoria para justificar sua agressão imperialista: os EUA seriam os proprietários legítimos do petróleo da Venezuela, que teria sido “roubado” de Washington por meio das nacionalizações na década de 1980.
O petróleo da Venezuela tem grande importância estratégica para o imperialismo dos EUA em sua luta para manter a supremacia global. O país detém as maiores reservas de petróleo conhecidas do planeta, o que, se for colocado sob o poder direto dos EUA, significará que Washington controlará quase metade das reservas do planeta. As principais reservas de petróleo da Venezuela também são de um tipo específico de petróleo bruto espesso que as refinarias dos EUA precisam para a produção de combustível de aviação e outros produtos para os quais os suprimentos domésticos de petróleo são menos adequados.
O outro objetivo econômico fundamental de converter a Venezuela em uma nova colônia energética é aumentar enormemente a produção de petróleo. Apesar de suas enormes reservas, a produção de petróleo no país é muito baixa, devido às sanções e à falta de investimento no setor por parte do regime sem recursos. Trump está pressionando os gigantes do petróleo dos EUA, alguns dos quais continuam relutantes, a entrar no país e “drill baby drill” (perfurar, perfurar, perfurar!). Ele espera que, ao aumentar os suprimentos dessa forma, uma redução nos preços do petróleo também impulsione a economia estadunidense e mundial em dificuldades.
Uma humilhação do imperialismo chinês
Porém, para Trump e para o imperialismo dos EUA, não se trata primordialmente da economia, mas sim da geopolítica. O fio condutor presente em toda agressão imperialista e o colonialismo de Trump não se resume a conquistar poder, mercados e recursos para os EUA, mas negá-los ao seu principal rival no cenário global, o imperialismo chinês. Esse foi um ataque à Venezuela, mas tendo Pequim claramente em mente.
A Venezuela tem sido o ativo mais importante do bloco chinês na América Latina nos últimos anos. Pequim foi o destino de mais de 80% das exportações de petróleo de Caracas e concedeu ao regime venezuelano empréstimos no valor de US$100 bilhões. O petróleo venezuelano também desempenhou um papel crucial para garantir a sobrevivência do regime cubano, outro aliado regional da China.
Além de ser um golpe contra seus interesses, o sequestro de Maduro por Trump também humilhou profundamente Pequim e minou sua autoridade na região e no mundo. A China assinou uma “parceria estratégica abrangente e duradoura” com Caracas em 2024 e, poucas horas antes de sua captura, Maduro se reuniu com o principal enviado de Xi Jinping para a América Latina, Qiu Xiaoqi. Mas quando a coisa apertou, tudo o que Pequim pôde fazer foi emitir palavras de condenação. Todo seu aparato militar, assim como o da Rússia, pareciam ser de pouca utilidade, com relatos indicando que as defesas aéreas nem sequer estavam conectadas a sistemas de radar.
A situação foi a mesma quando o regime de Bashar Al-Assad caiu na Síria e novamente quando o Irã foi bombardeado em junho do ano passado. Embora Trump represente o declínio do imperialismo dos EUA, está claro que Washington mantém uma supremacia militar geral e uma capacidade de agir impunemente na maioria das arenas. A perspectiva de que a China possa intervir militarmente hoje em defesa de um aliado na América Latina, no Oriente Médio ou em qualquer outro lugar parece estar praticamente descartada.
Isso se deve, acima de tudo, ao estado de crise do capitalismo chinês. Mesmo na frente diplomática, a resposta do regime chinês tem sido surpreendentemente branda, para evitar antagonizar Trump, em comparação com o passado. Até agora, não houve nenhum indício de que a visita de Estado de Trump à China prevista para abril corra o risco de ser cancelada em protesto contra seus repetidos atos de guerra contra aliados de alto nível de Pequim.
A Doutrina ‘Donroe’
A “doutrina Monroe”, que se originou no século XIX, tinha como alvo as potências imperialistas europeias, enviando a mensagem: fiquem fora das Américas. A doutrina ‘Donroe’ inclui a mesma mensagem, desta vez direcionada diretamente a Pequim. Empurrar a China para fora do continente tem sido uma das principais prioridades de Trump desde que assumiu o cargo. Ele começou seu segundo mandato com uma campanha de intimidação dirigida ao Panamá por causa da influência chinesa em torno do canal. Sua guerra comercial com o México tinha como objetivo afastar a China. O mesmo acontece agora com as ameaças contra a Groenlândia.
A lógica por trás dos ataques à Venezuela foi parcialmente apresentada na publicação em dezembro do novo documento de Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Ele declarou que uma prioridade estratégica para o regime era “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana [ou seja, dos EUA] no Hemisfério Ocidental”. Isso foi declarado de forma ainda mais contundente após o sequestro de Maduro, quando o Departamento de Estado dos EUA publicou nas redes sociais uma imagem de Trump com aparência sinistra, juntamente com o texto “este é o NOSSO hemisfério”.
Sob o comando de Trump, o imperialismo dos EUA está retornando a uma postura de brutalidade e agressão nua e crua na América Latina. De fato, em alguns aspectos, sua retórica vai mais longe do que qualquer outra administração anterior. Nenhum outro presidente dos EUA alegou ser literalmente dono dos recursos naturais de um país latino-americano, e Pete Hegseth é a primeira autoridade do governo dos EUA a dizer em voz alta o que normalmente sussurram privadamente ao se referir à região como “nosso quintal”.
Aonde vai a Venezuela?
Cheio de arrogância após sua “grande vitória”, Trump foi rápido em intensificar sua campanha de intimidação na região. Em uma enxurrada de ameaças, ele e seus acólitos citaram Cuba, Colômbia, México e Groenlândia como possíveis próximos alvos. Todas essas ameaças devem ser levadas a sério.
No entanto, primeiro é preciso dizer que, apesar da arrogância e das esperanças de Trump, seu trabalho na Venezuela está longe de terminar. Para realizar seus sonhos de uma nova era de domínio dos EUA no país, ele precisa de estabilidade e de um governo complacente que permita que as empresas petrolíferas saqueiem a Venezuela em paz. E, embora Delcy Rodríguez esteja colaborando com ele por enquanto, consolidar a situação será muito difícil.
Trump não quer colocar “botas no terreno” e, devido à opinião pública dos EUA, em última análise, não teria permissão para fazer isso de forma significativa por longo prazo. Mas, sem isso, será muito difícil garantir às empresas petrolíferas as garantias de segurança que elas estão exigindo em troca de investimentos. Embora não se tente realizar uma invasão terrestre em grande escala, Trump já sugeriu a possibilidade de envio de tropas para defender as instalações de petróleo, o que seria, de fato, uma ocupação parcial.
A estabilidade política também se mostrará ilusória. Se o governo de Rodríguez se consolidar como um regime fantoche de Trump, ele enfrentará oposição, inclusive, potencialmente, de dentro do aparato chavista. Setores do Estado ou das forças armadas podem muito bem achar que converter-se em traidores declarados a serviço do imperialismo estadunidense é uma pílula amarga demais para engolir. Os conflitos sobre quais facções pró-capitalistas corruptas ganham ou perdem podem assumir uma cobertura ideológica: nacionalismo e anti-imperialismo versus ‘compradorismo’ escancarado.
Além disso, a extrema direita pró-EUA, que tem um apoio significativo no país, também não está nada satisfeita com a designação da vice-presidente de Maduro como a opção preferida de Trump para governar o país.
O principal motivo pelo qual Trump não baseou seus planos em Maria Corina Machado é que a extrema direita não tem apoio nas forças armadas. Pelo mesmo motivo, qualquer plano para realizar novas eleições (até agora nenhuma porposta foi feita nessa direção) e executar uma “transição ordenada” para um governo de direita, eleito estará repleto de perigos. O vasto território da Venezuela, que os governos sempre lutaram para controlar totalmente, poderia muito bem cair no caos, criando novos atoleiros e até mesmo a possibilidade de uma guerra civil.
O mais importante para os socialistas é que o retorno à dominação direta dos EUA, mais cedo ou mais tarde, semeará as sementes da oposição de massas vinda de baixo. As pequenas, mas corajosas forças de esquerda da Venezuela, que sofreram repressão significativa sob o governo de Maduro, devem salvaguardar sua independência política de todos os campos pró-capitalistas e se preparar para a luta de massas.
Cuba, Colômbia, México… para onde Trump irá em seguida?
A possibilidade de Trump levar adiante suas ameaças de atacar outros países da região é muito real. No caso da Colômbia ou do México, isso não tomaria a forma de ataques a governos – no caso da Colômbia, Trump esperará que seu fantoche, Abelardo de la Espriella, substitua Gustavo Petro como presidente após as eleições de maio. Trump poderia, no entanto, realizar ataques aéreos em qualquer um dos países com o objetivo de atacar os cartéis de narcotráfico, o que não deixaria de ser uma violação flagrante da soberania nacional.
O regime cubano certamente está na mira de Trump e Rubio. O regime do partido comunista está passando por um dos momentos mais desafiadores de sua história, com escassez e apagões que, segundo informações, superam até mesmo as enormes dificuldades do chamado “período especial” na década de 1990, após o colapso da URSS.
Os EUA já estão conduzindo uma guerra econômica contra Cuba há décadas. Isso agora está sendo dramaticamente intensificado. O petróleo venezuelano – fornecido parcialmente em troca de assistência médica e de segurança fornecida a Caracas – tem sido uma tábua de salvação para a economia cubana em dificuldades, que pode entrar em colapso total se as remessas forem cortadas por um longo período. Nos últimos meses, o México entrou em cena para substituir suprimentos venezuelanos à ilha. Mas, nos últimos dias, Trump ameaçou bloquear todo o petróleo, não apenas o venezuelano, de chegar a Cuba.
Se esse estrangulamento econômico do país será combinado com uma agressão militar é uma questão em aberto. O regime de Havana tentou enfrentar sua profunda crise não com políticas socialistas, mas seguindo na mesma direção do regime de Maduro. Sob o comando do presidente Díaz-Canel, o regime cubano promove o caminho das “reformas de mercado” e tem tentado repetidamente negociar com Washington.
Para o imperialismo dos EUA, administrar o “dia seguinte” em um cenário de mudança de regime em Cuba seria ainda mais desafiador do que na Venezuela. O reconhecimento do regime do partido comunista ou mesmo de um setor dele seria politicamente intolerável para a direita dos EUA. Por outro lado, apesar da fragilidade do atual governo cubano, o retorno da elite capitalista exilada ao poder na ilha seria impossível sem uma guerra prolongada e sangrenta.
Groenlândia – o 51º estado?
A ameaça que realmente tem deixado os comentaristas ocidentais nervosos não está hoje na América Latina, mas no Ártico. Não foi Cuba, mas a Groenlândia que apareceu, envolta na bandeira dos EUA, nos feeds do twitter (X) do MAGA nas horas após o sequestro de Maduro. Nos dias que se seguiram, Trump redobrou drasticamente seu compromisso de tornar a Groenlândia parte dos EUA, com funcionários do governo deixando claro que essa era a política oficial do governo e que uma invasão militar (do território de um membro da OTAN!) era “sempre uma opção”. Na mente de Trump, o fato de ser uma colônia da Dinamarca é apenas uma questão menor.
Assim como no caso da Venezuela, Trump deixou claro que se trata de recursos naturais e geopolítica – mais uma vez, é sobre manter a China (e a Rússia) fora do hemisfério. Mas, nesse caso, também se trata de outra coisa. O discurso de posse de Trump prometeu não apenas aumentar o domínio dos EUA, mas também expandir seu território.
A verdade é que, concretamente, Trump pode obter tudo o que deseja da Groenlândia – contratos de mineração, controle de recursos, controle militar etc. – sem assumir formalmente o território, forçando a Dinamarca a obedecer. Os EUA já têm uma base militar operacional na ilha e tiveram até 17 bases militares no local, equipadas com armas nucleares, no auge da Guerra Fria.
Mas, apesar de isso ter sido deixado bem claro pelo capitalismo dinamarquês, seu ministro das Relações Exteriores saiu das negociações com JD Vance e Marco Rubio em 14 de janeiro dizendo que Trump continua empenhado em “conquistar” a ilha. O que Trump fará para promover essa agenda ainda não está claro, mas já sabemos quão pouco ele leva em consideração o poder e a autoridade de seus colegas membros da OTAN (que, para ele, são seus vassalos). Como disse Stephen Miller, “ninguém lutará contra o exército dos EUA pela Groenlândia”.
O ponto de partida dos socialistas é que a Groenlândia não deve ser colônia de ninguém, mas um estado socialista independente, com propriedade e controle sobre sua economia e recursos, como parte de uma federação socialista internacional.
Os projetos de todas as principais potências imperialistas no Ártico não poderiam ser mais reacionários. Elas estão manobrando para tirar proveito das “possibilidades” oferecidas pela catástrofe climática em aceleração. O derretimento do gelo do Ártico é parte de um quadro que causará a devastação total afetando centenas de milhões de pessoas, mas, aos olhos da classe dominante, abre novas vias navegáveis e terras para novas explorações minerais, novos lucros e novos empreendimentos militares.
A arrogância e as limitações de Trump
Subestimar a determinação de Trump de agir de acordo com suas ameaças seria um erro grave. Ele está embriagado pelo “sucesso”, cada vez mais seduzido pela perspectiva de usar as forças armadas dos EUA para obter “vitórias” rápidas e fáceis. Ele também pode achar, como muitos governos capitalistas fizeram antes dele, que entrar em um conflito no cenário mundial será uma distração útil diante das crescentes dificuldades domésticas. O fato de esse reacionário ensandecido estar no comando da potência militar mais poderosa de todos os tempos é profundamente perigoso para a humanidade e para o planeta.
Entretanto, também seria um erro superestimar Trump. Na verdade, sua arrogância inevitavelmente levará a erros de cálculo em todas as esferas, e os erros de cálculo militares são os mais caros de todos. A agressão cada vez mais desenfreada de Trump, combinada com a incapacidade do imperialismo dos EUA de enviar tropas terrestres significativas, é uma receita para novas crises e atoleiros.
Embora as forças armadas dos EUA desfrutem de supremacia global, elas também estão sujeitas a limitações importantes. Há apenas cinco anos, foram forçados a concluir uma retirada humilhante do Afeganistão, que coroou o fracasso total de sua campanha sustentada de guerra e ocupação em toda a região, iniciada em 2001. Seus limites também estão sendo expostos hoje na guerra na Ucrânia, onde bilhões de dólares e grandes quantidades de seu melhor equipamento militar foram incapazes de derrotar a Rússia.
Além disso, há o impedimento da consciência de massas nos próprios EUA, após a experiência desastrosa da “guerra contra o terror”, que se opõe firmemente ao envolvimento em guerras no exterior. Mesmo após os ataques limitados de Trump à Venezuela, as pesquisas de opinião nos EUA mostraram uma maioria contra os ataques e, em uma pesquisa geral, 65% acreditam que os EUA só devem entrar em guerra “quando os Estados Unidos enfrentarem uma ameaça direta e iminente”. Essa é, de fato, a principal realidade que resulta na incapacidade de Trump de colocar “botas no terreno” em todo o mundo.
Em face de novas aventuras militares, isso pode se refletir em novos e poderosos movimentos de massas contra a guerra e agudizar a luta de classes. No momento em que este artigo é escrito, a guerra de Trump contra os imigrantes está aumentando, levando a uma nova retomada da luta, com Minnesota pronta para uma greve geral de fato potencialmente histórica em 23 de janeiro.
Pela luta revolucionária contra o imperialismo
A cruzada de Trump no hemisfério ocidental é real e representa uma certa virada na situação. No entanto, ela é fundamentalmente uma continuação de décadas de política imperialista dos EUA na América Latina. O último século e meio está repleto de exemplos de agressão dos EUA para manter o domínio, dirigida contra potências rivais, mas também, de forma decisiva, contra as lutas revolucionárias dos trabalhadores e dos pobres. Desde as invasões diretas no Panamá e em Granada até a imposição brutal de ditaduras aliadas em todo o continente, o imperialismo estadunidense deixou um rastro de sangue. Isso tem sido, e continuará sendo, uma força motriz por trás da luta revolucionária na região.
Hoje, um debate deve ocorrer na classe trabalhadora e nos movimentos populares da América Latina sobre qual estratégia é necessária para derrotar o imperialismo. A oposição à opressão “ianque” há muito tempo é uma marca registrada da esquerda no continente, mas a resposta aos ataques à Venezuela ofereceu muitos exemplos de como o “anti-imperialismo” da esquerda política hegemônica é vazio.
No Brasil, o governo de Lula está buscando a reconciliação com Trump após os conflitos gerados pelas intervenções do governo dos EUA em apoio ao ex-presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, agora preso. Após o sequestro de Maduro, a declaração moderada de Lula foi apenas simbólica, sem maiores consequências, apelando para discussões na ONU sem sequer nomear o agressor. Além das palavras de crítica, nenhum dos governos progressistas do continente tomou qualquer medida significativa em resposta aos ataques, nem mesmo de natureza diplomática.
Esse fato, juntamente com a colaboração cada vez mais descarada dos remanescentes do oficialismo ‘chavista’ com os ditames de Trump, mostra claramente a necessidade de se fazer um balanço dos fracassos das sucessivas ondas de movimentos reformistas de esquerda observados no continente desde a virada do século.
Não se pode confiar em governos ou instituições internacionais para combater o imperialismo hoje. Deve-se iniciar uma nova fase de luta de massas, liderada pela classe trabalhadora e pelos movimentos sociais. Isso deve ser combinado com uma nova reorganização da esquerda latino-americana, com base no aprendizado das lições dos fracassos do passado e na elaboração de conclusões novas e revolucionárias.
Legado e lições do chavismo
A Venezuela representou um caso emblemático da onda de mudanças à esquerda que sacudiu a América Latina durante os anos 2000 e se tornou uma de suas expressões mais avançadas. A experiência venezuelana e a figura de Hugo Chávez desempenharam, naquele momento, um papel importante na inspiração de novas gerações de socialistas em nível internacional.
O “chavismo” surgiu, na verdade, como a expressão política de um poderoso movimento revolucionário na Venezuela. A luta das massas contra sucessivos governos de direita levou um grupo nacionalista, em sua maioria de origem militar, em torno de Chávez ao poder em 1998. Sob a pressão das massas, ele se moveu de forma particularmente acentuada para a esquerda após uma tentativa de golpe apoiada pelos EUA em 2002.
Os programas sociais, financiados pela renda do setor petroleiro nacionalizado, levaram a mudanças transformadoras na vida das pessoas da classe trabalhadora. A pobreza extrema foi reduzida em mais de 80%, a educação pública gratuita aboliu o analfabetismo e foi introduzida a assistência médica pública gratuita. O próprio Chávez, que foi reeleito várias vezes antes de sua morte em 2013, começou a usar uma retórica socialista radical, chegando a elogiar o revolucionário russo Leon Trotsky.
Entretanto, o chavismo acabou fracassando devido às limitações do reformismo. Além do petróleo e dos serviços públicos, os principais setores da economia não foram retirados das mãos privadas. O capitalismo permaneceu fundamentalmente em vigor, com as altas receitas do petróleo proporcionando espaço para políticas redistributivas históricas. Quedas drásticas nos preços do petróleo, combinadas com o impacto das sanções dos EUA e da Europa, colocaram o país em crise na década de 2010.
A resposta do governo foi se voltar para a direita, um processo que se acelerou durante o governo de Maduro. Os cortes e as privatizações se tornaram a política dominante e a esquerda e o movimento dos trabalhadores sofreram repressão significativa. Os remanescentes do chavismo, agora totalmente divorciados de qualquer noção de luta revolucionária, consolidaram-se em uma administração capitalista autoritária. Em vez do internacionalismo da classe trabalhadora, o chavismo buscou a diplomacia nacionalista, orientando-se para vários regimes autoritários de direita em conflito com o imperialismo dos EUA e aprofundando sua aliança com o imperialismo chinês em particular.
Esse regime não pode esperar que as massas se mobilizem em sua defesa da mesma forma que aconteceu quando helicópteros desceram sobre Caracas em 2002 para destituir e sequestrar Chávez e milhões se mobilizaram para conquistar na luta seu retorno ao poder. A resistência ao imperialismo estadunidense hoje deve ser independente do governo venezuelano.
Em última análise, os movimentos revolucionários que permanecem isolados, como em Cuba, ou que não expropriam a classe dominante, como no caso da Venezuela, sucumbirão à pressão do imperialismo e podem cair ou degenerar. Para conquistar uma mudança decisiva e duradoura, uma revolução centrada na classe trabalhadora deve se espalhar internacionalmente e representar um desafio ao domínio do capital dentro das próprias potências imperialistas. Como disse Trotsky, a revolução deve se tornar permanente.
A América Latina não é o quintal de ninguém! Oposição a todo imperialismo
Uma nova onda de luta anti-imperialista também deve se opor a todo imperialismo. Setores da esquerda e do movimento dos trabalhadores na América Latina que nutrem ilusões na China como uma alternativa “progressista” ao imperialismo dos EUA devem ter ficado muito decepcionados e desorientados com a resposta patética de Pequim ao ataque de Trump. No entanto, essas ilusões permanecem e devem ser dissipadas.
O imperialismo chinês pode ser o “garoto mais novo do pedaço”, mas a experiência tem mostrado que ele não é um chefe melhor do que o Tio Sam. Sua “ajuda” econômica é o imperialismo clássico, com o objetivo de saquear recursos e explorar a força de trabalho. Seus “investimentos” matam o clima e destroem os ecossistemas e as comunidades indígenas. É preciso que se diga claramente: a América Latina não é o quintal de ninguém! Fora imperialistas!
Um futuro de dignidade e desenvolvimento para a América Latina só pode vir com base na transformação socialista, baseada na propriedade pública democrática dos recursos e dos principais setores da economia. O programa das novas lutas contra o imperialismo deve conter a perspectiva de uma federação socialista livre e voluntária do continente.















