Fomentando a reação – a ascensão da ‘machosfera’

Andrew Tate
Foto: James Tamim, Wikimedia Commons

Este artigo foi publicado originalmente na primeira edição da Marxismo Internacional em maio 2025 (leia mais aqui).

“Seu corpo, minhas regras”. “Volte para a cozinha”. Essas frases curtas e ameaçadoras explodiram na internet após a reeleição de Donald Trump para a presidência dos EUA. O influenciador misógino Andrew Tate respondeu à notícia com as palavras “Graças a Deus”. Um coro de autoproclamados influenciadores “heterodoxos”, que se voltaram para Trump, estavam notavelmente unidos em sua alegria na noite da eleição. Este foi um momento de celebração universal nos vários espaços da internet coletivamente apelidados de “machosfera”.

Um estudo de 2021 descobriu que um dos maiores indicadores de apoio a Trump (mesmo quando fatores como idade, sexo e raça foram levados em consideração) foi a crença na “masculinidade hegemônica”. Em outras palavras, o sexismo de Trump não é uma espécie de calcanhar de Aquiles, nem é, em nenhum sentido, uma parte secundária da ideologia reacionária que ele promove e da qual se beneficia. A reafirmação de normas de gênero retrógradas é uma parte essencial do apelo do trumpismo a uma ampla camada de pessoas que foram radicalizadas com sucesso em direção à direita no período recente.

Essa radicalização à direita em torno de questões de gênero não se limita aos EUA, nem aconteceu da noite para o dia. É importante ressaltar que também não é uma tendência universal nem irreversível. O que ocorreu no período recente é um processo muito profundo de polarização. Isso é verdade para a política em um sentido geral, mas é especialmente intenso nessas questões. Os fracassos da esquerda e do movimento de trabalhadores criaram o espaço para que essas ideias reacionárias crescessem. 

Surpreendentemente, alguns dos comentaristas e podcasters mais proeminentes da “machosfera” que passaram a abraçar o trumpismo já haviam anteriormente endossado Bernie Sanders. Joe Rogan é um exemplo significativo disso. Seu podcast é líder de audiência e tem 81% de audiência masculina. “Sneako” é outro youtuber conhecido que deixou de apoiar Sanders para promover uma reação pró-Trump total. Ele foi às ruas nos dias anteriores à eleição dizendo que Kamala Harris era um exemplo de por que “as mulheres não deveriam votar”. De fato, na época da eleição presidencial de 2024, a grande maioria das vozes online dos EUA apelando especificamente para os jovens apoiava Trump com entusiasmo.

Muitos dos jovens atualmente atraídos por essa política profundamente retrógrada ainda podem ser reconquistados para as ideias socialistas – especialmente por meio de experiências de luta de classes. Mas isso não diminui os perigos extremos que a direita em ascensão representa para mulheres, pessoas trans e queer, comunidades migrantes, negros e pessoas de cor – bem como para a classe trabalhadora como um todo. Muitos dos ganhos que os movimentos de mulheres, LGBTQIA+ e trabalhadores conquistaram no passado estão sendo ativamente atacados e desmantelados. Enquanto isso, uma tendência de longo prazo de os jovens terem visões mais progressistas e de esquerda – especialmente em questões como feminismo e direitos LGBTQIA+ – em muitos lugares foi revertida para metade da população. 

Reação antifeminista

Um estudo de 2024 da empresa de pesquisas IPSOS, que incluiu dados da Austrália, Brasil, França, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e Turquia, mostrou algumas diferenças dramáticas nas perspectivas entre homens e mulheres jovens, relacionadas a questões de gênero. Entre as jovens de 18 a 29 anos nos países que o estudo cobriu, 52% das mulheres se definiram como feministas, em comparação com apenas 34% dos homens. Enquanto isso, 60% dos homens jovens concordaram com a afirmação “fomos tão longe na promoção da igualdade das mulheres que estamos discriminando os homens”.

Isso contrasta dramaticamente com os resultados de pesquisas semelhantes com jovens há apenas uma década. Uma pesquisa de 2015 com jovens estadunidenses viu 74% das mulheres jovens e 51% dos homens jovens descreverem o feminismo como “necessário” no mundo desenvolvido. Entre os homens jovens, parece que a tendência anterior de visões cada vez mais progressistas sobre gênero foi virada de cabeça para baixo. Enquanto isso, as subculturas online que compõem a “machosfera” saíram cada vez mais de bolsões isolados na internet e infectaram o discurso dominante.

Então, como isso foi alcançado? Ainda mais importante, como isso pode ser revertido? A década de 2010 foi uma década em que a luta feminista explodiu em todo o mundo. Isso refletiu o efeito radicalizante da crise financeira de 2008 e seus impactos especialmente sobre os mais oprimidos. O descompasso entre as expectativas de igualdade vendidas às mulheres, que em todo o mundo constituem hoje uma parcela maior do que nunca antes da força de trabalho, e o impacto das políticas de austeridade, juntamente com a realidade contínua e a normalização da violência de gênero, prepararam o terreno para movimentos massivos. 

É marcante que a resposta inicial à vitória de Trump em 2016 tenha sido a presença nas ruas de milhões de mulheres em todo o país. As marchas das mulheres que acompanharam sua primeira posse foram as maiores manifestações da história dos Estados Unidos até aquele momento – superadas apenas pelo enorme movimento Black Lives Matter que explodiu após o assassinato de George Floyd pela polícia. Ao mesmo tempo, a década de 2010 foi uma década em que a visibilidade das pessoas trans também explodiu, com milhões de pessoas (especialmente jovens) sentindo maior confiança para se assumirem como trans, não-binárias e queer

Mas, ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, as sementes da atual reação da direita já estavam sendo plantadas. Ideias que começaram ganhando força em cantos obscuros como Reddit, Discord e outros fóruns de mídia social chegaram ao mainstream. 

Saindo dos cantos escuros da Internet

A influência dessas ideias têm crescido constantemente já faz algum tempo, mas momentos políticos específicos agiram para ajudar a acelerar sua ascensão. A Covid deu um impulso particular a esses fenômenos online – junto com todas as teorias da conspiração de direita. O isolamento que as pessoas experimentaram durante esse período, o fracasso dos governos em todo o mundo em controlar a pandemia, o grande número de pessoas (especialmente os mais jovens) que perderam seus empregos, tudo contribuiu para uma aceleração do crescimento dos movimentos online reacionários. 

A aquisição do Twitter por Elon Musk, que ele renomeou como X, também foi um momento de “antes e depois” quando se tratou de expandir massivamente o alcance online dessas ideias. Sua anistia geral para contas anteriormente banidas por discurso de ódio permitiu que figuras como Andrew Tate, Jordan Peterson, Kanye West e teóricos da conspiração posteriores como Alex Jones não apenas voltassem à plataforma, mas também tivessem seu conteúdo promovido agressivamente pelos algoritmos recém-reescritos. 

Mesmo assim, as mudanças nas políticas de moderação dos gigantes da mídia social não são uma explicação suficiente para o crescimento desse fenômeno. É a crise contínua do sistema capitalista, sua incapacidade de manter, muito menos melhorar os padrões de vida para a grande maioria, e o fracasso da esquerda e do movimento de trabalhadores em oferecer uma alternativa clara a essa situação, que criou um terreno fértil para a direita. A capitulação de Sanders e do chamado Squad (Esquadrão) de Democratas de esquerda, que lealmente se alinharam ao governo Biden, é, portanto, outro importante evento do tipo “antes e depois”. As traições e desintegrações de toda uma geração de novas formações políticas de esquerda que surgiram na década de 2010 na Europa também são significativas.

A “machosfera” agora saiu das “subculturas” da internet onde começou. Mas isso não significa que essas subculturas deixaram de existir ou de ser significativas. Em vez disso, ideias que antes eram reservadas para os cantos mais sombrios da internet agora estão sendo gritadas em voz alta e orgulhosa nos espaços que a maioria das pessoas comuns ocupa. 

Incels, PUAs (artistas de sedução), MRAs (ativistas dos direitos dos homens) e MGTOW (homens seguindo seu próprio caminho) são exemplos de subculturas específicas identificadas com o termo “machosfera”. Hoje, essa palavra é comumente usada de forma mais geral – referindo-se à proliferação geral de fóruns e influenciadores online sexistas e misóginos. O que unifica todas essas subculturas e define todas as facetas da “machosfera” é a crença no direito masculino aos corpos das mulheres e a percepção de que são os homens, não as mulheres, que são oprimidos e vitimizados com base no gênero em nossa sociedade.

No ponto mais extremo, subculturas específicas inspiraram a violência terrorista. Já se passou mais de uma década desde que o incel Elliot Rodger assassinou seis pessoas e feriu outras 14 em um ataque com faca e tiros na Califórnia. Ele havia postado um “manifesto incel” online um dia antes do ataque. Rodger continua a ser valorizado nos fóruns incel. Na verdade, suas iniciais são frequentemente destacadas em letras maiusculas na palavra “hERo” (heroi) em espaços de bate-papo online – uma referência repugnante a seus crimes. 

Além desse tipo de terrorismo, a misoginia que está sendo agressivamente promovida por um coro de vozes online – e ecoada e reforçada por políticos de extrema direita – tem enormes implicações no dia a dia. Acima de tudo, seu impacto é a normalização e, às vezes, o incentivo explícito à violência “cotidiana” contra mulheres, pessoas trans e queer. Roosh V, o chamado influenciador “artista de sedução”, pediu explicitamente a legalização do estupro, por exemplo. Em um caso horrível relatado na Grã-Bretanha este ano, um homem chamado Kyle Clifford matou sua ex-companheira, junto com sua irmã e mãe, usando como arma uma besta. Foi revelado após sua condenação que pouco antes de cometer esses atos horríveis, Clifford acessou um dos podcasts de Andrew Tate. 

As pessoas trans são um alvo particular desse ódio – algo que foi espelhado em uma das ordens executivas do primeiro dia de Trump, que afirmava que legalmente existem “apenas dois gêneros”. Figuras na extremidade mais “respeitável” da “machosfera”, como o psicólogo pop Jordan Peterson, enfatizam uma visão grosseira e biologicamente essencialista de gênero – que é degradante para pessoas trans e não-binárias, bem como para mulheres.   

Andrew Tate é indiscutivelmente o mais famoso “manfluencer”. Ele, junto com seu irmão, desembarcou em solo estadunidense em fevereiro, claramente confiante de que encontraria um refúgio seguro nos EUA de Trump. Trump negou ter intercedido em seu favor e eles, posteriormente, retornaram à Romênia, aparentemente voluntariamente. 

O modelo de esquema de pirâmide de Tate para construir influência online ajudou a torná-lo um multimilionário. Seu alcance online é excepcionalmente grande. Um estudo recente baseado no Reino Unido mostrou que 79% dos meninos com idades entre 16 e 17 anos assistiram a pelo menos um dos vídeos de Tate, com 52% deles dizendo que o viam de forma positiva. Estudos baseados em alunos de escolas mostraram como muitos jovens estão ecoando a retórica misógina dos influenciadores de masculinidade. Isso incluiu um aumento no número de estudantes do sexo masculino falando sobre “os homens serem melhores que as mulheres” ou fazendo comentários depreciativos sugerindo que as mulheres “pertencem à cozinha” e objetificando sexualmente a aparência de meninas e mulheres.

Tate e influenciadores “imitadores” semelhantes, como Myron Gaines, falam sobre as ansiedades e inseguranças sentidas pelos jovens no precário mundo capitalista em que vivemos. Eles afirmam ter as soluções. Eles promovem um ideal físico hipermasculino e rejeitam a realidade dos problemas de saúde mental e, em vez disso, incentivam os jovens a suprimirem e ignorarem suas emoções. 

Parte da virada reacionária do capitalismo

Essas concepções do que faz “um homem virar homem” se encaixam no impulso em direção ao militarismo que estamos vendo acontecer nesta era de disputa interimperialista. Tate e sua turma incentivam os jovens a tratarem as mulheres com desprezo e desdém. Além disso, eles sugerem que fazer essas coisas oferecerá a seus seguidores um caminho para o enriquecimento pessoal, respeito, segurança e até felicidade. 

Há uma forte conexão entre a misoginia e LGBTQIA+fobia promovidas na “machosfera” e o racismo e a supremacia branca da extrema direita. No entanto, figuras como Tate não atraem exclusivamente os homens brancos. Em 2022, aparentemente como uma manobra para ajudar suas perspectivas de negócios em Dubai, bem como na tentativa de ganhar novos seguidores, ele se converteu publicamente ao Islã (uma fé que aparentemente abandonou cerca de um ano depois). Fez isso apesar do aumento contínuo da islamofobia pela direita. No entanto, por mais hipócrita que possa ter sido, acrobacias como essas têm um impacto. Uma minoria de homens não-brancos nos EUA e nos países europeus está se tornando cada vez mais aberta à direita – um fenômeno que ocorreu na eleição presidencial dos EUA. Isso mostra o perigo de a extrema direita ser capaz de expandir ainda mais seu apoio na ausência de uma forte resistência do movimento de trabalhadores.

Nas discussões gerais, um fator comumente citado na ascensão da “machosfera” é o sentimento entre muitos homens jovens de que o feminismo descarta sua dor ou que o empoderamento feminino vem em seu detrimento. O fato de que as mulheres jovens agora tendem a superar os homens jovens na escola, e que em alguns países – incluindo os EUA – as mulheres também ganham mais do que os homens antes de terem filhos, também é mencionado com frequência nas discussões sobre esse assunto na imprensa capitalista. Enquanto isso, após a vitória de Trump, muitos comentaristas liberais aconselharam que é necessário que os democratas abandonem a política “woke” para recuperarem o terreno perdido. 

A visão do identitarismo liberal coloca grande ênfase na experiência subjetiva vivida. Mas, ao mesmo tempo, geralmente se recusa a reconhecer que as experiências subjetivas de jovens trabalhadores ou de classe média podem ser entendidas como importantes. Estas só valem quando vistas através das lentes do “privilégio”. Em uma sociedade capitalista onde milhões de jovens (de todos os gêneros) lutam para sobreviver, com problemas de saúde mental e com o isolamento e a alienação que o trabalho na economia moderna muitas vezes acarreta, essa abordagem é compreensivelmente perturbadora para muitos. 

Isso mostra o beco sem saída que o feminismo liberal representa para a luta das mulheres. É claro que não é culpa do feminismo que os meninos estejam se saindo pior na escola. Não é por causa do feminismo que é difícil encontrar um trabalho seguro e bem remunerado. As maiores dificuldades dos homens jovens na escola se devem em parte aos papeis restritivos de gênero que o capitalismo impõe aos meninos, combinados com recursos escassos na educação pública. Isso tende a significar que aqueles que são socializados para se adaptar mais facilmente se saem melhor. O fato de as meninas se saírem melhor na escola, apesar de enfrentarem uma opressão de gênero devastadora, também mina a ideia (popularizada na “machosfera”) de que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens. 

A ideologia tóxica da “machosfera” é sobre fazer retroceder o progresso das mulheres. É capaz de crescer agora porque serve aos interesses da nova era capitalista reacionária, que se apoia na família patriarcal como um pilar para a sociedade de classes.

Uma resposta feminista socialista à “machosfera”

É por isso que a resposta da esquerda à ascensão da “machosfera” precisa ir além de simplesmente condenar essas ideias reacionárias e aqueles que as defendem. Precisamos construir uma luta feminista socialista de massas contra os ataques aos direitos das mulheres e em defesa das pessoas LGBTQIA+. E precisamos construir uma luta unificada contra a extrema direita que vincule isso à luta por uma sociedade em que as necessidades básicas de todas as pessoas possam ser atendidas. As forças reacionárias estão atualmente se sentindo confiantes. Mas sabemos que quando o movimento da classe trabalhadora é capaz de colocar as pessoas nas ruas para revidar, ele pode começar a mudar essa dinâmica. 

O movimento da classe trabalhadora tem um papel crucial a desempenhar aqui. As questões de opressão não são de forma alguma secundárias em relação à luta por salários decentes, condições de trabalho ou outras demandas econômicas. O movimento prospera ou fracassa com base em sua capacidade de unir a classe trabalhadora em sua diversidade. Não é possível simplesmente girar os ponteiros do relógio para trás. Venderam para as mulheres do mundo todo a promessa de igualdade. As conquistas que a luta operária e feminista alcançaram não serão abandonadas sem luta. 

A ascensão da horrível misoginia promovida na “machosfera” traz à mente as palavras da grande líder socialista Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie”. O capitalismo em seu estado de crise e decadência está se apoiando cada vez mais fortemente na reação para se defender. Isso sublinha a urgência de reconstruir forças socialistas capazes de dirigirem a luta e de apontarem para uma sociedade organizada a partir dos interesses da maioria das pessoas. Dessa forma, seria possível lançar as bases para acabar com a opressão para sempre.

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