Marcha Global pelo Clima: “Nossas florestas não são mercadorias”

“Nossas florestas não são mercadorias” foi uma das palavras de ordem na grande “Marcha Global pelo Clima”, que reuniu 70 mil participantes em Belém no sábado, 15 de novembro. A manifestação contou com uma grande participação dos povos indígenas da região amazônica, que lutam contra o desmatamento, a mineração que envenena a água com mercúrio, a extração de combustíveis fósseis, a privatização dos rios e os grandes projetos que ameaçam suas vidas, seus territórios e o clima.
A marcha foi organizada pela “Cúpula dos Povos”, que ocorreu de 12 a 16 de novembro, paralelamente à Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP30, e reuniu 25 mil participantes de mais de mil organizações de 65 países.
Pela primeira vez desde 2021, a COP está sendo realizada em um país onde os protestos são permitidos, e há fortes críticas de que as negociações estão sendo conduzidas sem o envolvimento dos povos indígenas.
“A COP é uma negociação, e o que eles estão negociando são nossos territórios. Não se pode falar de clima sem nos consultar”, disse Auricélia Arapiun, líder indígena dos Tapajós, em um protesto no dia 12 de novembro, quando manifestantes entraram na Zona Azul da COP30. No dia 14 de novembro, a entrada da COP foi temporariamente bloqueada pelo povo Munduruku.
Os protestos foram contra vários projetos do governo Lula que ameaçam a região amazônica. O governo emitiu recentemente um decreto ameaçando privatizar o acesso a três rios amazônicos, Tapajós, Madeira e Tocantins, para uso como hidrovias para transporte de mercadorias. Além disso, novas ferrovias, como o Ferrogrão, estão sendo construídas na floresta tropical para escoar soja para exportação. O governo também tem pressionado o IBAMA a conceder licença ambiental para testes de perfuração de petróleo no mar, na foz do rio Amazonas, onde espera encontrar novos grandes depósitos de petróleo. A licença foi concedida recentemente. Todos esses projetos mostram como são contraditórios os discursos sobre proteção ambiental na COP oficial.
Como diz a carta final da Cúpula dos povos: “São cada vez mais recorrentes os crimes ambientais e os eventos climáticos extremos que ocasionam mortes e destruição. Isto demonstra o fracasso das inúmeras conferências e reuniões mundiais que prometeram resolver esses problemas, mas nunca enfrentaram as suas causas estruturais”.
De acordo com a coalizão Kick Big Polluters Out, 1,6 mil lobistas do setor de combustíveis fósseis se inscreveram para participar da COP30, o maior número até o momento. E eles estão sendo ouvidos.
Enquanto o presidente brasileiro Lula fala sobre a necessidade de desenvolver um “mapa de caminho” para eliminar gradualmente o uso de combustíveis fósseis, novos campos de petróleo estão sendo procurados para perfuração. A Noruega, que se orgulha de ser uma grande financiadora de projetos ambientais, está expandindo a produção de petróleo no Ártico.
“A humanidade falhou na meta de 1,5 grau”, afirmou recentemente o secretário-geral da ONU, António Guterres. “Mesmo que os países cumpram suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (CNDs) para reduzir as emissões de gases de efeito estufa – e isso é um grande ‘se’ –, o mundo aquecerá de 2,3°C a 2,5°C até o final do século”, escreve o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O fato é que as emissões de gases de efeito estufa continuam aumentando.
O tom dos governos e das instituições também mudou. Embora a maioria dos governos não tenha abraçado abertamente a negação climática de Trump e ainda defenda da boca para fora a necessidade de combater as mudanças climáticas, a ênfase está mais na adaptação às mudanças climáticas do que na sua prevenção. Um exemplo claro disso é o bilionário Bill Gates, que escreveu um ensaio argumentando que é muito caro impedir as mudanças climáticas e que, em vez disso, devemos investir em programas baratos, como a vacinação de crianças. Como se o problema fosse a falta de recursos, em um momento em que trilhões estão sendo gastos em armas e centros de dados, que contribuem para a destruição ambiental.
Ao mesmo tempo, os governos estão tentando encontrar “soluções” falsas que agradem ao “mercado”. Lula agora está tentando obter apoio para o lançamento de um fundo de investimento para salvar as florestas tropicais, o “Fundo Florestas Tropicais para Sempre” (TFFF em inglês), uma proposta que veio originalmente do Banco Mundial. A proposta é que governos e investidores privados invistam US$ 125 bilhões em um fundo com um retorno estimado de 7%, com 4% indo para os investidores e o restante para pagar US$ 4 por hectare de floresta protegida. Os povos indígenas deram a resposta certa em seus protestos: “parem de tratar nossas florestas como mercadorias”.
Uma declaração de mais de 170 organizações ambientais e movimentos sociais intitulada “NÃO ao TFFF, SIM aos direitos florestais” afirmou corretamente: “O TFFF vê de forma incorreta e enganosa o desmatamento como uma falha de mercado que pode ser resolvida colocando um preço nos serviços ecossistêmicos das florestas tropicais para atrair investimentos privados. O colapso ecológico causado pelo capitalismo não pode ser resolvido com mais capitalismo”.
Embora os protestos climáticos estejam em um nível menos intenso do que em seu pico em 2019, as manifestações em Belém indicam a possibilidade de reacender essa luta e conectá-la a outras questões urgentes. Essa articulação é crucial na abordagem da causa fundamental de todos esses problemas: o sistema capitalista.
A Cúpula dos Povos adotou uma carta final que traz contribuições importantes nesse sentido. Ela afirma que “o modo de produção capitalista é a principal causa da crise climática crescente” e destaca a necessidade de “combater falsas soluções de mercado. O ar, as florestas, a água, a terra, os minerais e as fontes de energia não podem continuar sendo propriedade privada ou ser apropriados, pois são bens comuns dos povos”. A declaração também destaca a luta contra todas as formas de opressão, pelos direitos sindicais e contra o imperialismo e a guerra.
A carta também aponta para os limites das cúpulas governamentais, que agem a favor do mercado capitalista: “São cada vez mais recorrentes os crimes ambientais e os eventos climáticos extremos que ocasionam mortes e destruição. Isto demonstra o fracasso das inúmeras conferências e reuniões mundiais que prometeram resolver esses problemas, mas nunca enfrentaram as suas causas estruturais.”
Precisamos de um movimento ambiental independente dos governos que tentam nos vender a ilusão do “capitalismo verde”. Para isso, é necessário lutar por uma alternativa socialista, na qual as grandes corporações, os bancos e as grandes fortunas sejam tomadas pelos trabalhadores de todo o mundo e que sejam utilizadas, através de um planejamento democrático, para satisfazer as reais necessidades sociais e restaurar o meio ambiente, e não para gerar lucros para uma pequena elite.















