“Lula ou Barbárie?”

Um debate sobre a reorganização da esquerda
Guilherme Boulos publicou “Pra onde vai a esquerda?”, um livro curto e de fácil linguagem que propõe dialogar com uma pergunta que assombra, há mais de século, aqueles descontentes com a injustiça e a desigualdade: “que fazer?”.
Não há dúvidas que muitas pessoas têm consciência dos limites do capitalismo. É um sistema que explora e sacrifica a vida de milhões para beneficiar uma pequena minoria. Uma ilustração exemplar disso foi a pandemia de coronavírus: esse fenômeno dramático que resultou na morte de mais de 700 mil pessoas no Brasil, em sua maioria pessoas pobres e trabalhadoras, fez com que no mesmo período, bilionários da saúde ficassem mais ricos.
Uma enorme crise sanitária e um presidente anunciando que a economia não podia parar custaram alto para os mais pobres. Mas isso não só não afetou como foi lucrativo para os mais ricos, aumentando ainda mais a concentração de riqueza no país. Isso é um escândalo! A esquerda socialista respondeu, porém de forma fragmentada e aquém do necessário. A reorganização da esquerda ainda engatinha diante dos desafios pela frente. Essa é só uma demonstração desse angustiante e longo intervalo da história em que “o velho está para morrer e o novo não pode nascer”.
Iniciativas como essa do livro são ainda mais imprescindíveis nesse contexto em que a reorganização da esquerda caminha em passos lentos. É fundamental que diferentes setores da esquerda organizem as ideias e as apresentem. Em nossa compreensão, parte do obstáculo que temos hoje para superar está relacionado a uma perda de espaços para discussão sobre programa como norte para organizar a saída dos problemas que enfrentamos.
A questão do programa
E o que seria esse programa? O programa diz respeito à qual estratégia, quais métodos e quais são as demandas centrais necessárias para a classe trabalhadora, povo pobre e juventude avançarem para uma alternativa anticapitalista e socialista.
Se passarmos pelos perfis de figuras públicas e de organizações de esquerda nas redes sociais, vamos ver muitas pessoas falando sobre os problemas que vivemos, mas o tema da estratégia e dos métodos são apresentados de forma genérica e difusa – muita gente assiste, mas há uma diferença qualitativa em ter espaços de debate, conclusões e propostas de ação.
O PSOL, por exemplo, já foi um espaço privilegiado para debates importantes sobre os rumos da esquerda, quais as nossas tarefas e táticas para o período. O partido nasceu da crítica à tática política de conciliação com as classes dominantes que imperou no PT em seu primeiro governo, em 2003, com um programa que não rompeu com o modelo neoliberal dos anos anteriores.
A ruptura com o PT foi justamente em meio ao ataque aos aposentados, com uma contrarreforma da previdência apresentada em 2003, em que “os radicais” foram expulsos ao votarem contra. A construção do PSOL envolveu diferentes setores visando uma oposição consequente e de esquerda ao PT, e buscava se consolidar como um partido de horizonte socialista e de base militante, com um crescimento orgânico vinculado a um programa, debatido e votado democraticamente por sua base.
Curiosamente, esse mesmo partido atualmente passa por um processo de debate sobre atualização do programa, mas que, apesar de hoje ter mais filiados, têm uma menor participação e em boa parte se dá em espaços virtuais. O partido cresceu numericamente, mas com muitas filiações despolitizadas que também passaram a interferir na construção do partido, no controle das instâncias, na diminuição dos espaços de debate e da democracia interna e, consequentemente, nos rumos mais recentes.
O mal menor vai de mal a pior
Uma pergunta que sintetiza, de certa forma, nossas tarefas para o próximo período é “como derrotar a extrema direita”. Essa discussão perpassa todo o livro de Boulos, colocando no centro as eleições em 2026 e a tarefa de reeleger Lula, ideia expressa por exemplo nesse trecho: “É evidente que o governo tem muitos limites, até mesmo pelo cerco que enfrenta desde o primeiro dia. Mas Lula é a única liderança capaz de impedir que o Brasil afunde na barbárie. É uma espécie de barreira de contenção”. Essa posição, é compartilhada, com algumas nuances, por um setor majoritário no PSOL.
Um problema dessa posição é que ou considera que o programa de Lula possui um caráter anticapitalista e socialista (que encontra-se impedido de realizar por estar cercado), ou considera que esse programa deve ser construído por etapas, primeiro tirar Bolsonaro na eleição – e Lula é a pessoa para isso -, depois tentar avançar com nossas pautas. Além disso, seja por um motivo ou por outro, limita o programa ao terreno das eleições.
Essa linha política já vem sendo adotada na prática por Boulos, que conduz seu mandato com um apoio incondicional ao governo, chegando a defender internamente que o PSOL apoiasse a política de austeridade comandada pelo Novo Arcabouço Fiscal. Esse é um retrocesso na linha adotada por Guilherme e outros setores majoritários no PSOL. Se em um primeiro momento defendiam um apoio com ressalvas e apontavam essa política de frente ampla como um “mal menor” necessário, hoje há mais agitação e nenhuma ou quase nenhuma crítica.
Além disso, mesmo identificando aspectos importantes da conjuntura na correlação de forças desfavorável para a esquerda, como a ascensão da extrema direita, a ofensiva do mercado financeiro e o poder das big techs, em seu livro parece que o PT – e os quase dezessete anos somados em que estiveram à frente do Governo Federal – não tem qualquer responsabilidade sobre esse cenário. Há um revisionismo do passado: esses mesmos setores que estavam conosco organizando manifestações e resistência contra ataques dos governos anteriores de Lula e Dilma, defendem esse período e agem como se o avanço da direita nada tivesse relação com a política de conciliação e outras estratégias organizadoras de derrotas do petismo.
Boulos repete no livro a tese governista de que o problema da esquerda na conquista da classe trabalhadora está especialmente na comunicação, com destaque para o uso das redes sociais. A importância da comunicação, da agitação e propaganda, não é nenhuma novidade para o campo socialista. Contudo, o mais fundamental é discutir “o quê comunicar?” Defender teto de gastos e ataques a programas como o BPC não tem a ver com comunicação, mas com programa político que a esquerda pretende. Um dos resultados disso é reforçar a ideia de que não há alternativa à austeridade que afeta a vida da maioria – é Lula e seu projeto limitado, ou a barbárie. E é justamente essa falta de perspectiva que leva a extrema direita a assumir pra si a imagem de anti-sistema apontada por Boulos.
Para nós, um programa capaz de derrotar a extrema direita precisa se basear e incorporar as demandas da classe trabalhadora, vinculando a uma alternativa anticapitalista e socialista. Qualquer saída para os problemas que enfrentamos, inclusive a ascensão da extrema direita, precisa refletir esses problemas reais que as pessoas enfrentam hoje, e apontar métodos como a construção de lutas e mobilizações de massa, a organização nos locais de trabalho, de estudo e moradia e as greves de trabalhadores. Concentrar o debate em eleger Lula em 2026 não tem servido para avançar nesse programa, mas sim desarmar ainda mais os setores da classe trabalhadora para enfrentar mais ataques que virão.Sabemos que o Governo Lula nem agora, nem em 2026 será porta-voz desse programa. A ausência de uma alternativa ao lulismo pela esquerda abriu e abrirá espaço para a extrema direita.
O motor da história
Uma outra questão importante é que esse programa precisa ser elaborado diante de uma compreensão e análise do capitalismo e suas crises, assim como do movimento da classe e a correlação de forças para apresentar uma alternativa. Nessa direção, a história não é um processo linear em que estávamos progredindo enquanto humanidade e a extrema-direita interditou esse processo, tampouco a correlação de forças é uma realidade estática à qual devemos assistir passivamente esperando que mude para buscarmos avanços mais significativos para a maioria.
A história se movimenta a partir das crises do capitalismo e a luta de classes, e uma marca do nosso período é uma disputa interimperialista de potências em crise – Estados Unidos e China. O capitalismo agoniza e isso se manifesta em múltiplas crises. Não é Lula, mas a classe trabalhadora, no Brasil e no mundo, a única força capaz de conter o rolo compressor reacionário e sanguinário do capital. É nisso que a esquerda socialista deve se orientar ao propor saídas.















