Balanço das eleições municipais do RJ

Essas eleições municipais foram marcados por contradições e polarizações. O Rio de Janeiro ilustrou isso, com dois candidatos opostos no segundo turno, por um lado Crivella, representante dos fundamentalista religiosas, conservadores e por outro Marcelo Freixo. A campanha do Freixo trouxe a tona uma segunda primavera carioca, mobilizando milhares de novos lutadores e lutadoras, levando para rua antigos militantes, entre eles independentes e militantes partidários do PSOL e PCB.

Uma característica importante desse eleição foi o enorme índice de votos nulos e brancos, Crivella teve menos votos que a soma dos nulos e brancos, no segundo turno, fenômeno que se repetiu em diversas capitais brasileiras. Isso reflete um enorme descaso e desilusão com as instituições políticas, mas não que o povo se tornou apolítico. O que mais vemos nas ruas é o povo falar sobre política, sobre a situação da conjuntura atual. Precisamos de uma análise equilibrada, se por um lado não existe hoje uma disposição generalizada para os trabalhadores e trabalhadoras saírem as ruas, por outro explosões de luta podem ocorrer, diante a grande insatisfação popular, e contagiar outras pessoas, aumentando as suas proporções.

Outra marco significativo desse processo eleitoral no Brasil foi a derrocada do PT, que perdeu mais da metade das prefeituras. Esse processo abala todo o cenário político brasileiro, permitindo certa recuperação da direita tradicional, mas também aumentando a desilusão geral com o sistema político. O PSDB foi o partido que mais se destacou nessas eleições municipais. Além da vitória contundente em São Paulo, o partido venceu em mais 792 municípios.

Nesse contexto, a esquerda representada pelo PSOL conseguiu dar passos importantes, mostrando ser uma alternativa viável ao PT, principalmente em Belém, Sorocaba e no Rio de Janeiro. Estas eleições municipais ocorreram num contexto desfavorável para o PSOL, por causa da reforma eleitoral aprovada por Eduardo Cunha, que criou a cláusula de barreira, diminuindo o tempo de TV do partido. Além disso, essa reforma eleitoral dificultou nossa presença nos debates na TV, como ficou evidente na ausência do candidato Marcelo Freixo no debate da Band, no 1º turno.

Marcelo Freixo foi o grande destaque nacional do PSOL e foi para o 2º turno, mesmo tendo apenas 11 segundos de tempo de TV. Fizemos uma campanha linda com os militantes nas ruas e comitês de campanha espalhados pela cidade. O foco na campanha de rua foi uma estratégia que atraiu muitos simpatizantes ao PSOL. Essa vitória histórica é fruto do avanço das lutas dos movimentos sociais e sindicatos do Rio de Janeiro. As lutas e a mobilização dos trabalhadores derrotaram nas ruas e nas urnas o PMDB de Eduardo Paes e seu candidato agressor de mulheres, Pedro Paulo.

Mas não podemos nos limitar a analisar somente a nossa estratégia acertada. Ao observar a direita carioca notaremos que ela estava dividida e lançou três candidatos (Pedro Paulo do PMDB; Osório do PSDB e Índio da Costa do PSD), o que fez com que se dividissem os votos da centro-direita permitindo a ida de Crivella e Freixo para o segundo turno.

Se no 1º turno nossa estratégia de ganhar as ruas para difundir nossas propostas foi um grande acerto, o mesmo não pode ser dito sobre o 2º turno. Com maior tempo de horário eleitoral, Freixo não priorizou apresentar o programa de propostas de mudança para a cidade. Para nós, o PSOL deveria se apresentar nas eleições como um partido de esquerda socialista e usar o tempo de TV do 2º turno da campanha eleitoral para apresentar as propostas elaboradas pelos trabalhadores em seus sindicatos e movimentos sociais de forma muito mais explicativa e profunda.

Acreditamos que o programa de governo “Se a cidade fosse nossa” foi insuficiente de propostas mais concretas. As propostas para a educação, por exemplo, estavam muito aquém do que historicamente o SEPE defende. O tempo de apresentação das propostas na campanha de Marcelo Freixo no 2º, foi priorizados os ataques ao adversário político Marcelo Crivella, o que avaliamos ter sido um erro.

Os ataques contínuos ao candidato adversário e à sua religião renderam direito de resposta contra o PSOL e aversão de pessoas religiosas que se sentiram diretamente atacadas na campanha eleitoral do Freixo.

Por que pontos fundamentais, como as denúncias contra as PECs que retiram os direitos dos trabalhadores, a favor das quais o partido de Crivella votou, não foram mais explorados nos debates?

No plano interno ao PSOL, tivemos o monopólio do grupo político ligado ao gabinete de Marcelo Freixo. Não podemos nos esquecer do que ocorreu com o vereador Renato Cinco, que não teve o mesmo direito a fala que os vereadores eleitos próximos a este grupo político, no grande ato do segundo turno, excluindo-se as correntes e independentes que constroem o PSOL Rio. Nem tampouco nos esqueceremos da ausência do candidato a prefeito em compromissos na Zona Oeste durante toda a campanha, que se não fosse pela Luciana Boiteux seriam cancelados, o que gerou sentimento de frustação nos militantes e simpatizantes moradores dessa área da cidade. Diante deste cenário, é extremamente necessário discutimos a democracia partidária. As instâncias não funcionaram durante a campanha, não houve reuniões da executiva municipal e estadual para ajudar na formulação da política para a campanha. Como foi tirada a estratégia de campanha do segundo turno? Como foram tirados os direitos a fala em plenárias de campanha? Como foram tirados os lugares prioritários da campanha? As instâncias partidárias foram esvaziadas para dar todo poder à coordenação de campanha.

Acreditamos, ainda assim, que o balanço da campanha de Freixo é positivo. Os erros citados são passíveis de ocorrer durante uma campanha, mas precisamos falar sobre eles para que não ocorram novamente, isso faz parte do processo de erros e acertos. Porém, temos uma crítica central à campanha no 2º turno: Freixo escreveu uma carta ao povo carioca afirmando que cumpriria os contratos empresariais firmados anteriormente, além de falar da importância do empreendedorismo dos pequenos empresários num programa de TV, para tentar acalmar os mercados, o que foi um erro grave. Freixo fez, com essa sinalização, uma alusão à carta ao povo brasileiro, de Lula, antes de ser eleito em 2002. Apesar de os conteúdos das cartas terem dimensões muito diferentes, já que a carta de Lula representou uma traição de classe, enquanto a de Freixo sinalizou acordos com o mercado, ainda assim a carta de Freixo foi um erro enorme. Avaliamos que as pessoas que votaram no Freixo queriam mudanças reais, acreditando que o candidato poderia ser uma saída eleitoral de esquerda contra mais do mesmo, como ocorreu na eleição do Syriza na Grécia. Ou seja, a população vota em um candidato mais à esquerda como alternativa para a solução dos seus problemas. Mas quando Freixo sinaliza acordo com os mercados, perde o apoio de uma parte mais crítica da população, que não enxerga mais na eleição do candidato, que mostrou se render ao poder dos empresários, uma possibilidade real de mudanças profundas.

A LSR acredita que esse período eleitoral foi um espaço muito importante para discutir os nossos ideais socialistas com uma grande parcela da população que não tem acesso a essas ideias no dia-dia. Historicamente, a classe trabalhadora só conquista vitórias (como os direitos trabalhistas), lutando e fazendo greves. Por isso, independentemente do resultado destas eleições, as ruas deverão ser o principal palco de disputa na cidade. As mobilizações ajudarão a aprovar propostas que beneficirão os trabalhadores e a impedir qualquer retirada de direitos. O caminho para a vitória da classe trabalhadora será a luta, pois só a luta muda a vida.

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