Nuvens de tempestade se acumulam sobre a economia mundial

A cada semana que passa, fica mais claro que a economia mundial entrou em uma fase de grande instabilidade, que pode levar, em um futuro próximo, a uma crise financeira ou mesmo a uma grave recessão. Os fatores que hoje estão empurrando a economia mundial para a beira de um precipício são impulsionados, em primeiro lugar, pelos acontecimentos nos EUA. Mas os mesmos problemas profundos estão presentes em outras economias importantes. Esses problemas fundamentais não são novos, mas o que chama a atenção é tanto a sua quantidade quanto o fato de que todos estão se agravando ao mesmo tempo.
Entre eles está a pressão inflacionária, que se agravou devido à guerra dos EUA com o Irã e seu efeito sobre os preços do petróleo. A inflação, por sua vez, é um fator chave que eleva as taxas de juros nos mercados de títulos. O aumento das taxas de juros elevará os custos de financiamento para empresas e consumidores, bem como os pagamentos de juros para governos que agora carregam dívidas historicamente altas. O aumento das taxas de juros também pode ser o gatilho para o estouro da enorme bolha especulativa em torno da inteligência artificial, que depende fortemente de investimentos financiados por dívidas. O estouro da bolha da IA seria, por si só, um ponto de inflexão decisivo no caminho para uma crise econômica global.
Mas essas não são as únicas crises iminentes. Os desastres climáticos que já afetaram várias regiões neste último verão podem ter seus efeitos devastadores superados pela atual fase do “super” El Niño nos sistemas climáticos globais, que deve ser o mais severo já registrado.
Guerra, dívida, inflação, desastres climáticos, uma enorme bolha especulativa, tudo isso no contexto de uma nova era de protecionismo, desglobalização e conflito interimperialista (principalmente entre EUA e China) — esse cenário assemelha-se a uma fileira de dominós balançando. Se um deles cair, poderá derrubar os demais, com consequências devastadoras.
Cada um desses problemas é produto de um sistema capitalista decadente e assolado por crises. Certamente não são o resultado de processos “naturais” em andamento. Vejamos os diferentes fatores, como eles evoluíram e como se interligam.
A guerra contra o Irã
Quando a guerra dos EUA contra o Irã começou no final de fevereiro, ela levou ao fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, que antes era usado para transportar 20% do fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito.
O preço do barril de petróleo bruto subiu acentuadamente, mas as previsões de que poderia chegar a US$ 150 ou US$ 200 por barril — o que levaria a economia mundial à recessão de forma mais ou menos imediata — não se concretizaram. A principal razão foi que países-chave – incluindo os EUA, mas especialmente a China – recorreram às suas enormes reservas. A China efetivamente parou de comprar petróleo por um período inteiro. Essas medidas foram motivadas por interesses próprios e certamente não por altruísmo dos países envolvidos, mas ajudaram a impedir que a redução da oferta elevasse ainda mais o preço do petróleo.
No entanto, isso tem um limite definido. A reserva estratégica de petróleo dos EUA está agora no nível mais baixo dos últimos 40 anos, a China retomou as importações de petróleo, e a suposição amplamente divulgada (e extremamente ingênua) de muitos comentaristas de que as coisas estariam “de volta ao normal” até setembro está indo por água abaixo. Se as reservas restantes se esgotarem ou mesmo chegarem perto disso, o petróleo atingirá rapidamente US$ 150 por barril ou mais, e a economia mundial será novamente empurrada para a recessão.
Além disso, longe de oferecer esperança de uma trégua rápida, ambos os lados intensificaram as ações militares nas últimas semanas. Embora os combates não tenham atingido o nível das fases iniciais da guerra, eles incluíram ataques a petroleiros, o que interrompeu a retomada parcial do tráfego pelo estreito.
Ainda mais preocupante para a economia mundial, o conflito entre os houthis do Iêmen e a Arábia Saudita explodiu mais uma vez. As forças houthis, que avançam rapidamente e que, em agosto, prometeram fechar o Estreito de Bab el-Mandeb às exportações sauditas, tomaram novos territórios e ilhas estratégicas na entrada do Estreito.
Este é outro importante ponto de estrangulamento para o petróleo que transita do Golfo, por onde passam outros 9% dos embarques globais de petróleo. Seu fechamento impediria que os carregamentos de petróleo contornassem o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz por meio de um oleoduto até o Mar Vermelho e, em seguida, para destinos na Ásia. Essa rota tem sido uma tábua de salvação para o setor energético saudita, que vem sofrendo forte impacto. Para piorar ainda mais a situação, esse oleoduto foi colocado fora de operação esta semana, supostamente por ataques com drones a partir do território iraquiano. O preço do petróleo bruto está, como era de se esperar, subindo rapidamente e, em certo momento, chegou a US$ 110 por barril.
Mercados de títulos e dívida
Nas últimas semanas, os analistas financeiros têm dedicado muito tempo a discutir a situação dos mercados de títulos. É nesse mercado que os governos financiam sua dívida por meio da venda de títulos, pelos quais pagam juros aos investidores. Os mercados de títulos são fundamentais para o funcionamento geral do sistema financeiro capitalista.
Houve um rápido aumento nos rendimentos (o valor pago quando os títulos são vendidos, equivale aos juros) dos títulos emitidos pelo governo nos EUA (Treasuries), mas também em outros importantes países capitalistas, incluindo Japão, Alemanha, Reino Unido e França. Na semana passada, a taxa de rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA com vencimento em 30 anos atingiu seu nível mais alto desde 2007, enquanto as taxas de rendimento dos títulos com vencimento em 10 anos na Alemanha e no Reino Unido também se aproximavam das máximas dos últimos 20 anos. Há vinte anos, é claro, estávamos às vésperas da crise financeira de 2008-2009 e da recessão global, que tiveram consequências devastadoras para dezenas de milhões de pessoas nos países capitalistas avançados, bem como em grande parte do mundo neocolonial.
O aumento da taxa de retorno exigida pelos investidores reflete a pressão inflacionária, especialmente o aumento repentino nos custos de energia, bem como uma perda de confiança nos EUA e em outras grandes potências ocidentais. Historicamente, os títulos do Tesouro dos EUA, que financiam a dívida do país, são vistos como um investimento extremamente seguro, mas isso pode estar mudando. Isso está relacionado ao crescimento maciço da dívida pública. A promessa de Trump de distribuir US$ 5 mil a cada cidadão estadunidense caso os republicanos vençam as eleições legislativas de meio de mandato em novembro — o que acrescentaria mais um trilhão de dólares à dívida dos EUA — certamente não está ajudando a acalmar os investidores.
O aumento dos rendimentos elevará as taxas de juros e tornará os empréstimos mais caros para governos, empresas e pessoas comuns. Enquanto o mercado define as taxas de juros de longo prazo, bancos centrais como o Federal Reserve (o Fed) dos EUA definem as taxas de juros de curto prazo. Agora, eles também estarão sob pressão para aumentar as taxas. O Banco Central Europeu, por exemplo, já começou a fazer isso, embora Trump vá fazer de tudo para pressionar o Fed a não seguir o mesmo caminho [o Fed elevou a taxa de juros em 0,25% no dia 16 de setembro, após a escrita desse artigo].
Scott Bessent, secretário do Tesouro de Trump, por sua vez, orquestrou várias tentativas de intervenção para sustentar o mercado de títulos dos EUA. Isso incluiu injetar bilhões nos mercados para sustentar o iene japonês. Isso se deveu ao temor de que o Japão, que é o maior detentor estatal de títulos do Tesouro dos EUA, tivesse que vendê-los para proteger o valor de sua moeda, que está sob pressão. Despejar ainda mais títulos do Tesouro no mercado contribuiria para a pressão de alta sobre os rendimentos e as taxas de juros. Todas as intervenções de Bessent fracassaram.
A crescente crise da dívida
A dívida astronômica dos EUA — que acaba de ultrapassar US$ 40 trilhões e representa 125% do PIB — não tem precedentes no país, exceto durante a Segunda Guerra Mundial. Aquela dívida de guerra foi, na época, amplamente quitada durante o boom econômico do pós-guerra. Ao contrário do que afirmam os “falcões do déficit” burgueses, que culpam os gastos com previdência social e benefícios sociais, essa montanha de dívidas foi acumulada em sua grande maioria durante os resgates aos bancos após a crise de 2008 e os novos resgates e estímulos maciços durante a crise da Covid. Ela também foi agravada pelos dois cortes de impostos de Trump para os ricos, em 2017 e 2025.
Mas o problema da dívida é realmente global e reflete a decadência contínua do capitalismo. Como apontamos recentemente, “Vinte anos atrás, a dívida mundial total era de US$ 32 trilhões, mas, após a recessão de 2008 e a pandemia, ela agora está em torno de US$ 350 trilhões”. Isso inclui a dívida corporativa e do consumidor, bem como a dívida pública.
Taxas de juros mais altas, combinadas com uma dívida pública maior, significam pagamentos de juros mais elevados para os governos, reduzindo os recursos disponíveis para todas as outras áreas. Estima-se que o pagamento de juros dos EUA seja de US$ 1 trilhão somente neste ano.
É claro que Trump, a União Europeia e o Japão não vão cortar os gastos militares, que não param de crescer. Trump quer US$ 1,5 trilhão para as forças armadas estadunidenses em 2027. Centenas de bilhões também foram destinados à campanha interna de terror do ICE contra a população imigrante. Enquanto isso, houve enormes cortes no programa de assistência alimentar do governo dos EUA (SNAP), bem como no Medicaid, dois programas sociais vitais para milhões de estadunidenses. A austeridade também está na agenda da Europa e do Japão.
Enquanto a inflação e as taxas de juros estavam baixas, o acúmulo de dívida podia ser apresentado como, em grande parte, um problema irrelevante. Esse era o argumento de economistas liberais como Paul Krugman e dos defensores da Teoria Monetária Moderna. Mas, desde o fim da era da globalização neoliberal e, particularmente, desde o início desta década, entramos em uma fase de inflação e taxas de juros mais altas, tornando a dívida maciça um problema fiscal muito mais sério.
Em um cenário extremo, pode se desenvolver um “círculo vicioso econômico” que se autoalimenta, caracterizado por pagamentos de juros mais altos e diminuição da confiança entre os investidores, o que, por sua vez, leva a taxas ainda mais altas, resultando em pagamentos de juros ainda maiores.
A Bolha da IA
Isso nos leva ao que pode ser considerado a maior peça de dominó de todas: a enorme bolha especulativa que se formou em torno da inteligência artificial e das grandes empresas de tecnologia estadunidenses.
A escala dessa bolha foi estimada por alguns analistas como sendo quatro vezes maior do que a da bolha das hipotecas subprime no mercado imobiliário dos EUA, cuja implosão desencadeou a recessão global de 2008-2009. As ações relacionadas à IA — particularmente as “Sete Magníficas”: Amazon, Apple, Google, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla — são responsáveis pela maior parte dos ganhos do mercado de ações e por pelo menos 1/3 do crescimento do PIB nos EUA neste ano.
Nenhuma pessoa sensata nega que as avaliações das ações de tecnologia sejam, no mínimo, absurdas. Só a Nvidia está avaliada em US$ 5 trilhões, aproximadamente o equivalente ao PIB da Alemanha. Como disse William Dalrymple, comparando a Nvidia à Companhia Britânica das Índias Orientais no auge do Império Britânico: “Apenas os EUA e a China têm um produto interno bruto maior do que a capitalização de mercado dessa única empresa.” (NYT, 28/08/26) As ofertas públicas iniciais da SpaceX, de Musk, e possivelmente de outras empresas, estão apenas jogando mais lenha na fogueira.
O que é mais surpreendente é a construção em grande escala de centros de dados pelas gigantes da tecnologia. O Goldman Sachs estimou recentemente que um trilhão de dólares está sendo investido somente neste ano, sendo US$ 581 bilhões nos EUA e US$ 439 bilhões no restante do mundo. No ritmo atual, até 2030, sete trilhões poderiam ser gastos globalmente em centros de dados (Financial Times, 27/08/26). Mais uma vez, embora se possa afirmar com toda a certeza que a economia dos EUA se tornou “uma grande aposta na IA”, a escala da construção de centros de dados em outros países mostra como esse setor e a bolha especulativa que se desenvolveu em torno dele também se tornaram cruciais para a economia mundial como um todo.
Por que tivemos essa série de bolhas especulativas, incluindo a bolha das pontocom na virada do século, a bolha imobiliária na década de 2000 e, agora, a bolha da IA? É claro que bolhas especulativas ou “manias” não são novidade na história do capitalismo. A razão subjacente ao que está acontecendo hoje é a acumulação maciça ou “superacumulação” de capital durante a era da globalização neoliberal, que é incapaz de encontrar uma saída lucrativa em outros setores. Isso resultou em especulação em escala épica — alimentada pelo gigantesco cassino dos mercados financeiros — em ativos como o imobiliário ou novas tecnologias, que ainda não geraram lucros significativos para seus criadores ou usuários.
A próxima fase foi alcançada no desenvolvimento da bolha, à medida que os próprios bancos e as grandes empresas de tecnologia (apesar de seu enorme capital) agora tentam distribuir o risco desses investimentos maciços. Isso envolve várias abordagens criativas.
Em vez do mercado de derivativos, como na década de 2000, desta vez são os fundos de private equity e o setor não regulamentado do “sistema bancário paralelo” que estão no centro do risco. No entanto, os bancos “convencionais” e o dinheiro das pessoas comuns, inclusive em fundos de pensão, também estão fortemente comprometidos.
Os contratos de locação de centros de dados estão sendo transformados em títulos e vendidos em “blocos” para distribuir o risco. O Nikkei Asia noticiou em 21 de julho que “as dívidas de cinco gigantes da tecnologia dos EUA disparam para US$ 1,65 trilhão devido ao financiamento opaco da IA”. [Kohei Yamada, 21 de julho de 2026] Isso não aparece em seus balanços patrimoniais devido ao uso de métodos como contratos de locação de longo prazo e, portanto, deve ser somado aos US$ 1,35 trilhão de dívida que sim constam nos balanços.
Isso agora também é um fator na onda de vendas no mercado de títulos dos EUA, pois o mercado em rápida expansão de dívidas relacionadas à IA (com uma taxa de retorno mais alta) exerce uma enorme atração gravitacional sobre os investidores, afastando-os dos títulos do Tesouro. Nisso, vemos como todas as partes do setor financeiro estão agora conectadas à bolha da IA.
O que acontecerá a seguir?
Esses “métodos criativos” lembram muito os métodos utilizados pelos bancos no centro da bolha do subprime, há vinte anos. Esta citação de um artigo sobre a “farra da dívida da IA” publicado no *The New York Times* também traz muitas semelhanças:
“No ano passado, analistas do Barclays, o banco britânico, coletaram uma série de citações sem fonte de uma conferência sobre centros de dados de IA da qual participaram, que variavam de ‘aproveite o passeio em um foguete sem cintos de segurança’ a ‘a melhor maneira de descrever o mercado é: loucura’.” (“É assim que a farra da dívida da IA afunda a economia”, 26/08/26)
O que fará essa bolha estourar? Ruchir Sharma fez recentemente esta observação no Financial Times:
“Se voltarmos 300 anos no tempo, todas as grandes bolhas terminaram somente quando os custos de financiamento aumentaram significativamente para as empresas em seu cerne, incluindo as sucessivas falências das ferrovias no século XIX. No século passado, a era do sistema bancário central moderno, todas as grandes bolhas estouraram depois que os bancos centrais elevaram drasticamente suas taxas de juros de curto prazo.” (Ruchir Sharma, “Por que a farra da dívida nos EUA está começando a importar”, Financial Times, 7/9/26).
Portanto, o aumento acentuado nos custos de financiamento, prenunciado pelo salto nos rendimentos dos mercados de títulos, se continuar, pode de fato ser o que levará ao estouro da bolha. E embora as grandes empresas de tecnologia dos EUA estejam muito à frente dos concorrentes chineses no que diz respeito aos modelos de IA mais avançados, até o momento há muito poucas evidências de lucros significativos decorrentes da integração da tecnologia de IA à economia real. Isso também pode minar a bolha em um determinado estágio.
Isso sem falar no potencial da IA de destruir setores inteiros de emprego, o que também provocaria o colapso do mercado, dado o papel fundamental dos gastos do consumidor nos EUA e em outras economias. Nos últimos dias, outros perigos relacionados à IA ganharam destaque na mídia, depois que um funcionário da Anthropic se demitiu e afirmou publicamente que a IA teria a capacidade de destruir a humanidade até o final da década.
Não há dúvida de que, como parte de sua própria campanha de autopromoção implacável, as grandes empresas de tecnologia exageraram deliberadamente tanto os benefícios quanto os perigos potenciais dessa tecnologia. No entanto, o que também está claro é que a busca frenética para “vencer a corrida da IA” entre as grandes empresas de tecnologia e, mais crucialmente, a competição com o imperialismo chinês, criou uma situação em que essas empresas não compreendem muitos aspectos da tecnologia que criaram. Não precisamos acreditar que a IA possa destruir a humanidade em questão de meses para perceber que, sob o capitalismo, ela será usada para aprimorar o armamento, contribuir para a destruição climática e representar uma ameaça a setores inteiros do mercado de trabalho.
Um incidente grave, como o recente ataque cibernético à empresa Hugging Face por “agentes” de IA agindo sem o conhecimento da empresa proprietária (OpenAI), mas com consequências ainda piores, também poderia ser o gatilho que minaria fatalmente a credibilidade do setor. Enquanto isso, Trump afirma, de forma inacreditável, que qualquer tentativa de desacelerar o desenvolvimento da IA é uma conspiração traidora e que a única regulamentação necessária é um “PRESIDENTE FORTE E INTELIGENTE (com alto QI!)”.
A China é uma exceção?
De certa forma, a situação da economia chinesa parece diferente do que foi descrito aqui. O mercado de títulos chinês, por exemplo, parece exatamente o oposto do dos EUA, já que a “Japanificação” e a deflação estão desacelerando o crescimento econômico, com os rendimentos dos títulos chineses caindo, pela primeira vez na história, abaixo dos do Japão. Apesar de o setor chinês de IA — que opera em grande parte com base em tecnologia de “código aberto” (que os EUA alegam ter sido roubada de suas empresas) — ter uma participação muito maior impulsionada pelo Estado, a China está passando por sua própria bolha de IA, com características diferentes (superprodução maciça e desperdício) que refletem a estrutura distinta entre o capitalismo estadunidense e chinês.
A economia chinesa tem passado por uma fase deflacionária, em contraste com as outras principais economias. Isso é resultado do estouro de uma enorme bolha no mercado imobiliário do país no início desta década, seguido pela crise das finanças dos governos locais — fortemente baseadas na construção de moradias, que desempenhavam um papel fundamental na impulsão do investimento geral. A ditadura chinesa está criando novas bolhas financeiras em suas tentativas de reativar o crescimento, canalizando recursos enormes para as “novas forças produtivas”, energia limpa e IA — setores que agora apresentam todas as mesmas características básicas do mercado imobiliário antes de seu colapso.
Essa tendência deflacionária de longo prazo — comparável, mas pior do que a vivida pelo Japão nos últimos 30 anos —, assim como as bolhas especulativas nos EUA, é resultado do excesso de acumulação, mas aqui assumindo principalmente a forma de superprodução maciça. A China também carrega um índice de endividamento total em relação ao PIB — superior a 300% — pior do que qualquer outra grande economia. Os resultados da superprodução e da deflação no mercado interno têm sido o desemprego em massa, à medida que a demanda despencou, e uma rodada após a outra de cortes salariais para aqueles que têm a sorte de ainda ter um emprego. A resposta do regime do PCC tem sido promover uma campanha massiva de exportação para evitar uma recessão completa da economia. Isso – juntamente com a interminável guerra de tarifas de Trump contra o mundo – contribuiu para o protecionismo internacional, mas não resolveu os problemas subjacentes do capitalismo chinês.
Portanto, embora as características divergentes do capitalismo chinês signifiquem que sua própria crise histórica não se reflita da mesma forma, em termos gerais, os graves problemas da economia chinesa são uma forma específica e análoga das mesmas contradições subjacentes do capitalismo contemporâneo e uma antecipação da crise mundial iminente.
A crise climática e a economia mundial
Entramos agora no que talvez seja o El Niño mais severo desde o século XIX. O El Niño é um fenômeno cíclico que decorre de mudanças nos padrões dos ventos e de um aumento nas temperaturas da água superficial no Oceano Pacífico. Além do aquecimento recorde, o El Niño pode causar chuvas intensas, inundações e deslizamentos de terra em algumas regiões, enquanto outras enfrentam secas intensas.
As secas, da Europa à África e à Austrália, já têm marcado o ano de 2026, juntamente com incêndios florestais em grande escala no Hemisfério Norte. As condições de seca também forçaram uma restrição ainda maior do tráfego pelo Canal do Panamá. Secas severas e simultâneas em várias regiões importantes de produção de grãos podem levar a problemas muito mais graves relacionados ao abastecimento global de alimentos.
Essa situação é agravada pelos efeitos da guerra e dos bloqueios. O bloqueio do Estreito de Ormuz levou a um aumento repentino nos preços de fertilizantes, combustível e óleo de cozinha. Também houve um colapso quase total na exportação de grãos dos portos do Mar Negro devido à guerra de quatro anos na Ucrânia.
O Programa Mundial de Alimentos alerta agora que, até o final de 2027, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda (definida como uma falta repentina e grave de alimentos que coloca a vida ou o sustento de uma pessoa em perigo imediato), concentradas em um conjunto de países que inclui vários assolados pela guerra, poderá chegar a 274 milhões.
Em uma economia global que funcionasse adequadamente, a seca em algumas regiões poderia ser mitigada pela distribuição de excedentes alimentares e reservas provenientes de regiões com boas colheitas. Mas o capitalismo é incapaz de coordenação e planejamento internacionais sustentáveis, muito menos no mundo atual, cada vez mais desglobalizado. Em 2021, durante o auge da pandemia, enquanto havia uma corrida pela produção de vacinas, em vez de cooperação internacional, assistimos ao espetáculo do “nacionalismo vacinal”.
Guerra comercial e um mundo sem cooperação
O mundo atual, caracterizado por crescentes conflitos interimperialistas, protecionismo e desglobalização, sem falar na ascensão de regimes autoritários e reacionários, apresenta muitas semelhanças com a década de 1930.
Os EUA, embora ainda sejam a potência imperialista mais poderosa, não desempenham mais o papel de hegemonia ou de “regulador” do sistema capitalista mundial, como fizeram desde a Segunda Guerra Mundial até a década de 2010. Esse papel regulador incluía o FMI e a Organização Mundial do Comércio. Em vez disso, Trump lançou uma guerra comercial permanente contra amigos e inimigos, enquanto os EUA abandonam alianças e tratados.
Ninguém deve idealizar ou sentir nostalgia pela ordem mundial liderada pelos EUA do período pós-guerra ou pela globalização neoliberal, que significou a subjugação brutal da maior parte da humanidade aos interesses do capital estadunidense. Mas a nova era do capitalismo tem consequências reais para a gestão de crises. Em 2008-2009, Barack Obama conseguiu solicitar ajuda de outras potências capitalistas, incluindo a China, para conter as repercussões do colapso dos mercados financeiros. A China, como apontamos na época, foi o motor que tirou a economia mundial do buraco. No entanto, na próxima crise financeira global, é mais provável que tenhamos uma versão do “nacionalismo das vacinas” de 2021 do que da “cooperação” ao estilo de 2008.
Como afirmou o historiador econômico Charles Kindleberger em relação à Grande Depressão: “O sistema econômico mundial era instável, a menos que alguém o estabilizasse, como a Grã-Bretanha havia feito no século XIX e até 1913. Em 1929, os britânicos não puderam e os Estados Unidos não quiseram. Quando todos os países se voltaram para proteger seus interesses privados nacionais, o interesse público mundial foi por água abaixo e, com ele, os interesses privados de todos.” (The World in Depression, 1929-1939, p. 9)
Enquanto isso, Trump intensifica uma guerra comercial com o Canadá. Esse é apenas o episódio mais recente de sua campanha para usar tarifas como um porrete para forçar outros países a se submeterem à sua versão dos interesses dos EUA. No entanto, como o mundo inteiro pode ver que o imperialismo estadunidense está em declínio irreversível em meio ao desastre com o Irã, esse porrete está se mostrando menos eficaz do que após o “Dia da Libertação”, em abril de 2025. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, aparentemente decidiu desafiar o déspota enlouquecido ao sul e continuar a escalar o conflito.
Mas, embora muita coisa tenha mudado no mundo, tornando-o um lugar ainda mais perigoso, o que não mudou é que a classe dominante tentará fazer com que a classe trabalhadora pague pela crise de seu sistema. Após 2008, os bancos estadunidenses receberam socorro financeiro na casa de centenas de bilhões, enquanto milhões de pessoas comuns perderam seus empregos e suas casas. Na crise da dívida grega que se seguiu, as massas gregas foram empobrecidas para garantir que os pagamentos aos bancos alemães e franceses continuassem fluindo.
Quando a bolha da IA estourar e o governo – seja Trump ou seu sucessor – tomar medidas para socorrer as grandes empresas de tecnologia, a fúria na sociedade será sem precedentes. As grandes empresas de tecnologia, seus centros de dados e seu lixo de IA já são desprezados. A questão é como impedir tal resgate e colocar as grandes empresas de tecnologia e o setor financeiro sob o controle da sociedade. A única alternativa a esse sistema assolado por crises e suas ameaças existenciais é uma economia socialista internacional planejada, sob gestão democrática da classe trabalhadora.
















