Escola Mundial da ASI 2025 reúne marxistas em momento crucial

Crise capitalista, onda reacionária e potencial revolucionário

De 26 a 30 de julho, mais de 120 marxistas se reuniram na cidade de Kiel, no norte da Alemanha, para a Escola Mundial da Alternativa Socialista Internacional. Os participantes (incluindo dezenas que participaram online) vieram de 16 países e regiões diferentes: Alemanha, Áustria, Brasil, Canadá, Chile, China, Escócia, Estados Unidos, Inglaterra, Hong Kong, Nigéria, Noruega, País de Gales, Quebec, Suécia, Taiwan, Turquia e África do Sul.

A escola foi composta por veteranos lutadores marxistas e membros mais jovens em seu primeiro evento internacional, incluindo importantes delegações de jovens da Alemanha e da Suécia. A Escola Mundial, que é um aspecto vital da tradição internacionalista da ASI, tem como objetivo aprimorar a compreensão política, a coesão e a formação dos membros da ASI em todo o mundo. Tudo isso para preparar nossas forças para as lutas que virão e para lutar para cumprir as tarefas cruciais e necessárias dos socialistas revolucionários nesta época tumultuada.

A escola de 2025 foi notavelmente marcada por um alto nível de discussão política e uma maior profundidade de análise do que no passado recente. Um foco minucioso na consolidação de nossa compreensão das perspectivas, teoria e prática marxistas é mais importante do que nunca em meio à turbulência de eventos mundiais que desorientou e naufragou muitos outros na esquerda internacional. Uma constante revisitação de nossos princípios orientadores e sua aplicação à situação atual é fundamental hoje. As leituras preparatórias recomendadas, distribuídas aos participantes antes da escola, abrangeram desde material contemporâneo da ASI e de nossas seções até clássicos de Trotsky, Lenin, Ted Grant e outros.

A ASI e suas antecessoras sempre notaram que um partido revolucionário é, antes de tudo, uma perspectiva e um programa, e que, em última análise, nossa perspectiva começa não na escala nacional ou local, mas a partir do quadro global, buscando compreender as forças motrizes da mudança e da crise que estão em jogo no sistema capitalista internacional. A escola começou com uma discussão sobrePerspectivas Mundiais intitulada “Trump 2.0 e a luta de classes em meio à virada reacionária do capitalismo global”, com o título apontando para algumas características do novo período. Esta discussão, introduzida por Danny B. e Anna B. e com o fechamento de Per-Åke W., todos membros da Comissão Política Internacional (CPI) da ASI, durou um dia e meio e ainda não foi suficiente para tratar de todas as múltiplas características que marcam a era.

Como Anna observou em sua fala de introdução: “O capitalismo se tornou um entrave para o desenvolvimento da sociedade em todos os sentidos”. Isso foi comprovado ao longo da sessão com contribuições focadas na desastrosa virada militarista das classes dominantes que levou o mundo a uma nova época de “pré-guerra”, muito parecida com a que precedeu a Primeira Guerra Mundial. Diferentes características ilustraram isso: desde o genocídio em Gaza até o massacre em andamento na Ucrânia, a guerra no Congo e os recentes confrontos entre Índia e Paquistão, bem como a escalada massiva nos gastos militares globais pela classe dominante.

Como a camarada Katja, da Suécia, relatou, isso faz parte de um giro geral para a direita entre os partidos capitalistas tradicionais, bem como da ascensão de novas forças de extrema-direita e populistas de direita. Outros explicaram como isso está enraizado na falência do sistema capitalista, que também se expressa na natureza anêmica e em crise da economia mundial. Essa crise decorre tanto das contradições de longo prazo do capitalismo – em particular as contradições nacionais que vêm à tona em guerras comerciais e no nacionalismo econômico que causam estragos – quanto de fatores mais recentes, como o profundo mal-estar econômico da China.

Outros camaradas notaram que, embora a reação possa ter impulso neste momento, muitas lutas e movimentos surgiram buscando resistir à ofensiva reacionária. Os primeiros seis meses de Trump no poder já viram o maior dia de protesto na história dos EUA, e os protestos em massa têm sido partes cruciais da história recente da Nigéria e do Quênia. Isso foi ecoado em novos fenômenos no plano político, por exemplo, com o crescimento do Die Linke na Alemanha.

O evento mais importante e inspirador que ocorreu durante a escola foi o lançamento explosivo do novo partido de esquerda liderado por Jeremy Corbyn e Zarah Sultana na Grã-Bretanha, que ao longo de alguns dias cresceu para 700 mil apoiadores registrados – o maior partido, por esta métrica, em toda a Europa. A nova era sangrenta em que entramos representa não apenas novos desafios para essas lutas, mas também o potencial para que elas avancem para um nível superior.

Desenvolvendo um programa marxista

A segunda sessão plenária foi intitulada “O que é um programa marxista e por que a ASI precisa de um”. Ela decorre de uma decisão no Congresso Mundial da ASI em novembro passado de que uma das principais tarefas de nossa internacional no próximo período é a elaboração de um programa internacional, que será o primeiro documento desse tipo produzido pela ASI desde sua fundação (como o Comitê por uma Internacional de Trabalhadores) na década de 1970. Um programa marxista estabelece uma visão das crises do capitalismo e do estado do movimento de trabalhadores e descreve a estratégia, os métodos e as demandas centrais necessárias para provocar a mudança socialista revolucionária. A discussão sobre este tema na Escola Mundial foi apenas o ponto de partida em um processo que levará ao próximo Congresso Mundial da ASI.

Foi introduzida por Tom C. e André F., da Comissão Política Internacional da ASI. André começou delineando o papel essencial de um programa e seu lugar nas internacionais revolucionárias desde a época de Karl Marx. Ele observou que falhas nessa frente levaram muitos revolucionários a se perderem em águas complexas. Isso ocorre porque o programa não é apenas uma lista de demandas caídas do céu, mas também um método e uma estratégia que une os quadros de um partido e guia sua intervenção no movimento. Tom enfatizou a importância do programa na fundação de nossa tradição, pois serviu para definir a existência necessária do/a CIT/ASI como uma tendência internacional organizada e separada das concepções errôneas de outras tendências na esquerda internacional.

Os/as camaradas fizeram pontos importantes sobre essa questão, desde nossa orientação para o movimento sindical até temas específicos sobre demandas democráticas, feminismo socialista, libertação nacional e a atitude dos marxistas em relação a novas ondas de reformismo e áreas específicas de foco agudo, como o Oriente Médio.

Apelo financeiro de sucesso!

No domingo à noite, um apelo financeiro dado por Mike F. (Inglaterra, País de Gales e Escócia)), Hannah S. (EUA) e Daniel A. (Nigéria) foi um sucesso estrondoso que refletiu a inspiração e o entusiasmo dos membros da ASI. Os três falaram sobre o papel crítico da solidariedade internacional no trabalho de todas as nossas seções, tanto do ponto de vista político quanto prático. Daniel, em particular, relacionou de forma muito poderosa sua importância na campanha contra sua perseguição e prisão pelo estado nigeriano (que ainda está em andamento). A ambiciosa meta para este apelo financeiro –25 mil euros (160 mil reais) – foi superada pelo incrível sacrifício dos membros da ASI, arrecadando mais de 32 mil euros (205 mil reais), com mais ainda chegando no momento em que este texto foi escrito! Os membros e apoiadores da ASI que ainda não puderam contribuir ainda podem fazê-lo aqui.

Dezenas de comissões

Na segunda e na terça-feira, os/as participantes se dividiram em várias comissões menores com o objetivo de uma conversa mais aprofundada sobre temas de perspectivas, teoria, história e construção. Na sessão de segunda-feira, na comissão “África: Crise da democracia burguesa e luta contra o imperialismo”, Dagga T. da seção nigeriana e CPI da ASI, apresentou a história do papel do imperialismo na África desde os movimentos de independência da década de 1960. Esta comissão ocorreu ao lado de outras sobre o caráter do estado e da economia da China, a guerra na Ucrânia, ataques a pessoas trans internacionalmente e o ressurgimento de partidos reformistas de esquerda de massas.

Uma comissão especial na noite de segunda-feira foi dedicada ao Oriente Médio. Nenhuma outra área no mundo teve tanto efeito sobre os eventos recentemente. Os últimos anos viram um reequilíbrio fundamental de poder e relações na região. O ataque genocida em Gaza por Israel também se tornou um ponto de tensão em todo o mundo, interagindo com a batalha imperialista global pela supremacia e lançando as sementes para desenvolvimentos revolucionários em nações vizinhas. Leon P., da Socialist Alternative nos EUA, expôs a longa história que preparou o terreno para os desenvolvimentos atuais e o papel do imperialismo, do nacionalismo e do stalinismo para se chegar ao impasse de hoje. Muitos/as camaradas entraram em diferentes aspectos da discussão, incluindo sobre diferentes elementos de confusão e debate dentro da esquerda, incluindo as pressões em torno do nacionalismo palestino. Em sua resposta, Per-Åke W. do CPI da ASI enfatizou a escala do horror, uma refutação da ideia de um ou dois estados capitalistas como solução, e a necessidade de uma mudança socialista revolucionária em toda a região como parte de um programa marxista para a situação.

Em uma das comissões de terça-feira – intitulada “Qual é o legado do/a CIT/ASI?” – os/as camaradas discutiram as origens e os traços únicos de nossa tradição, bem como um balanço dos muitos debates internos que ocorreram nela ao longo das décadas. Ao mesmo tempo, os/as camaradas estavam participando de discussões igualmente esclarecedoras sobre feminismo socialista, o “Imperialismo” de Lenin hoje, racismo e migração, uma compreensão marxista da crise econômica e bonapartismo, fascismo e autoritarismo.

Das palavras à ação: construindo a ASI

Além de história, teoria e eventos contemporâneos, a construção de um partido revolucionário foi um elemento indispensável da escola, traduzindo palavras em ação. Foram realizadas comissões que cobriram os tópicos de finanças revolucionárias, publicações, recrutamento, educação política e consolidação, trabalho sindical e práticas internas de proteção.

Na quarta-feira, a primeira das duas plenárias finais proporcionou espaço para uma troca mais geral sobre as tarefas e prioridades para a construção da ASI e de nossas seções. Em uma introdução que revisou o progresso dos objetivos definidos no Congresso Mundial de 2024, Elan. A dos EUA fez um balanço positivo: isso incluiu a estreia da revista “Marxismo Internacional”, reuniões regulares da direção internacional, o papel e o funcionamento de diferentes comitês e assim por diante.

Sua introdução e a discussão subsequente também observaram uma série de avanços na evolução das seções da ASI. Por exemplo, os/as camaradas suecos falaram sobre o impressionante aumento no número de jovens membros na seção. Progresso semelhante foi relatado na Alemanha, onde os/as camaradas também estão desempenhando um papel em meio ao crescimento explosivo do Die Linke. Da mesma forma, o trabalho pioneiro dos membros da Socialist Alternative na Inglaterra, País de Gales e Escócia nos passos que levaram ao lançamento do novo partido de esquerda, inspirou camaradas durante todo o evento. Camaradas da Nigéria falaram sobre importantes progressos feitos lá, apesar dos ataques do estado, incluindo o estabelecimento de uma célula na Universidade Estadual de Lagos.

Finalmente, uma plenária curta foi realizada para encerrar a escola: “Militarismo imperialista e a necessidade de um movimento socialista antiguerra global”. Os/as quatro camaradas que falaram explicaram a conexão inextricável entre capitalismo, imperialismo e guerra, conectando isso às nossas discussões anteriores sobre perspectivas. Foi exposto que, por causa dessa conexão íntima, a única coisa que pode realmente barrar a atual onda militarista global e acabar com as guerras para sempre é conectar a luta contra elas a uma luta contra o capitalismo. Com a ascensão do nacionalismo reacionário, agora mais do que nunca essa luta precisa ser internacional. Infelizmente, os líderes do movimento de trabalhadores muitas vezes ou se afastaram da luta ou até mesmo capitularam a essa marcha em direção a um conflito massivo. A necessidade de uma alternativa socialista genuína à guerra e ao imperialismo é urgente. Assim, em linha com as decisões do Congresso Mundial, foi decidido que a ASI intensificaria suas campanhas comuns em diferentes países para aumentar a visibilidade disso no próximo período.

As coisas se movem rapidamente hoje em dia, então devemos nos mover ainda mais rápido. O objetivo de eventos como este é preparar nossos membros para desempenhar o papel de revolucionários capazes de pensamento e ação independentes, conforme o momento exige. Um fluxo constante de discussão, revisão e iniciativas ousadas é a única combinação que pode garantir o sucesso futuro das forças do marxismo contra os capitalistas cada vez mais cruéis e reacionários. Ao longo desse caminho, a Escola Mundial da ASI de 2025 será um importante trampolim para uma geração inteira de revolucionários.

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