RN: a conciliação petista, o avanço da direita e o apagamento do PSOL

A disputa pelo governo do Rio Grande do Norte em 2026 acontece em um cenário de desgaste do governo Fátima Bezerra e avanço de candidaturas de direita, com as pesquisas apontando um leve favoritismo de Allyson Bezerra (União Brasil).

Os governos de Fátima mostraram os limites de uma política de conciliação de classes que busca administrar os interesses do capital. Antes mesmo de assumir seu primeiro mandato como governadora, Fátima prometia manter “as portas escancaradas” para a FIERN (Federação das Indústrias do Estado do RN) e o empresariado. Isso se materializou em programas prioritariamente voltados para benefícios fiscais para empresas. Além disso, com a política de parcerias público-privadas cresceu a transferência de áreas estratégicas do serviço público para a lógica empresarial privada, como o saneamento.

A relação com os trabalhadores e trabalhadoras vem sendo também marcada por conflitos, como a contrarreforma da Previdência estadual ainda em 2020, em meio à pandemia. No campo da Educação, embora tenha negociado e firmado acordos com categorias, diferente das administrações de direita, sua gestão não hesitou em recorrer aos instrumentos judiciais para conter mobilizações.

O final do governo Fátima e a crise produzida pela própria aliança que sustentou sua reeleição em 2022 mostraram como a política de alianças do petismo não traz grandes avanços na luta de trabalhadores e é um fator de instabilidade e desgaste político.

Crise política e avanço da direita

A articulação com Walter Alves (MDB) naufragou quando ele disse que não assumiria o governo para Fátima se candidatar ao senado. Este vice-governador, membro de uma das oligarquias do RN, apoiador do golpe contra Dilma e de inúmeros ataques aos trabalhadores, rompeu politicamente com Fátima e se aproximou de Allyson Bezerra. Isso levou Fátima a permanecer no cargo até o final do mandato. 

A crise, de um lado, favoreceu Alysson e, de outro, levou ao lançamento da candidatura de Cadu Xavier, ex-secretário de Tributação/Fazenda de Fátima, como candidato ao governo estadual pelo PT. Desconhecido do eleitorado potiguar, Cadu precisou associar exaustivamente sua imagem à de Lula para superar esse limite, adotando inclusive o nome de “Cadu de Lula” na campanha.

Nesse cenário a direita encontrou espaço para crescer. Alysson era prefeito de Mossoró, segunda maior cidade do estado, e tenta construir uma imagem de administrador jovem, eficiente e distante das velhas oligarquias. Mas seu governo foi mais um que  favoreceu o setor privado, expandiu as terceirizações e PPPs, precarizando serviços e as condições dos trabalhadores, além de atacar servidores públicos judicializando greves de professores e com uma contrarreforma administrativa.

Álvaro Dias (PL), por sua vez, representa um projeto ligado ao bolsonarismo, mas com dificuldade de defender seu “legado”, especialmente o impacto negativo da obra de “engorda” (tentativa de alargamento) da Praia de Ponta Negra. Como prefeito de Natal, sua marca foi o favorecimento do setor privado, com destaque para as alterações no Plano Diretor, as quais atacam a função social da terra e a preservação ambiental em nome do lucro.

Também aprovou uma contrarreforma da previdência, além de atacar professores, greves e ter replicado em Natal discursos bolsonaristas durante a pandemia. Já como candidato ao governo do estado chegou a defender a privatização da UERN.

O dilema do PSOL entre a independência e o lulismo

O PSOL no RN sofre as consequências de sua subordinação ao PT nos últimos anos. Sem conseguir se colocar como uma alternativa à esquerda do petismo, além da dificuldade de eleger deputados e vereadores nas últimas eleições, a pressão pelo alinhamento ao campo petista tem gerado posições conflitantes sobre candidaturas e apoios do partido.

A candidatura atual de Robério Paulino nasceu da mobilização de algumas correntes, incluindo a LSR, indo contra outros setores que defendiam o apoio à candidatura de Cadu Xavier do PT já no primeiro turno.

O lançamento de uma candidatura própria do PSOL é um fator  evidentemente positivo, mas está longe de conseguir enfrentar o quadro de apagamento do partido no estado, resultado também de sua tendência à  diluição no petismo. A própria candidatura de Robério tem tido dificuldade de se diferenciar do PT e busca reforçar a posição de apoio a Lula na eleição presidencial.

O desgaste político e ideológico provocado pelo alinhamento do PSOL ao PT e a condução do partido no RN, com baixa democracia interna, o colocam como coadjuvante nas eleições. É fundamental que o PSOL volte a lançar candidaturas militantes, conectada com as lutas de rua e com um programa avançado, que se contraponha à direita, mas também aos ataques aos trabalhadores promovidos pelos governos petistas.

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