Eleições Pernambuco: duas cabeças, o mesmo chicote neoliberal

Protesto contra privatização do metrô de Recife
Foto: Breno Esaki/Metrópoles

Em Pernambuco, João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) têm protagonizado a disputa pelo governo do estado. Esse embate tem levado alguns dos grandes meios de comunicação a caracterizá-lo como “uma das disputas mais interessantes” do país, com cada um buscando antagonizar o adversário como herdeiro das forças políticas responsáveis pelo atraso econômico, político e social no estado. 

Contudo, apesar do teatro político, ambos os lados são apenas duas cabeças que alimentam a mesma hidra da oligarquia local. São duas variantes do mesmo projeto privatizador que coloca na conta do trabalhador o ônus das políticas de austeridade. 

O agora ex-prefeito de Recife João Campos construiu sua marca na administração municipal cedendo espaços públicos à iniciativa privada. Alguns dos principais parques públicos foram alvos de concessões a um consórcio de empresas pelos próximos 30 anos, como também áreas e imóveis históricos do bairro de Santo Antônio. 

A candidata à reeleição Raquel Lyra é responsável pela privatização dos serviços de distribuição de água e saneamento geridos pela então empresa estadual Compesa. Outra iniciativa similar foi o acordo com o governo federal para a estadualização do sistema de trens urbanos como primeiro passo para a sua privatização. 

Duas abordagens que almejam o mesmo fim 

Essas políticas tendem a levar à precarização e encarecimento dos serviços prejudicando principalmente a classe trabalhadora. A situação do metrô do Recife é ilustrativa. Como denuncia o sindicato dos metroviários (Sindmetro-PE), trata-se de uma estratégia consciente de abandono e sucateamento sob a justificativa de que o poder público é incapaz de gerir esse equipamento, justificando a privatização.

A administração João Campos passou a responsabilidade da construção, manutenção e gestão de creches escolares para grupos empresariais. Ao mesmo tempo, construiu-se convênios com instituições privadas e sem fins lucrativos que passaram a receber recursos pelas vagas ofertadas para as crianças. 

“Revezamento de herdeiros”

O candidato do PSOL ao governo do estado Ivan Moraes qualificou como “revezamento de herdeiros” as semelhanças entre Lyra e Campos. De fato, ambos têm mais similitudes do que diferenças em suas trajetórias políticas e interesses que representam. Ambos já fizeram parte do mesmo PSB, tendo o pai de Raquel Lyra, João Lyra Neto, sido eleito vice-governador em chapa com Eduardo Campos, pai de João Campos. 

Em função de disputas por protagonismo e quebra de acordos dentro do PSB, Raquel procurou outros caminhos, sendo eleita governadora pelo PSDB e migrando posteriormente para o PSD. Essa escolha se deveu à comodidade em estar em um partido que também faz parte da composição ministerial do governo Lula, assim como o partido de João.

O que se pode observar nessas trajetórias é que o verniz partidário é secundário, servindo como ocasional estratégia de diferenciação em disputas eleitorais. Mesmo após ter declarado apoio a Aécio Neves contra Dilma em 2014 e apoiado o golpe contra ela em 2016, João Campos agora procura se atrelar a Lula, apresentando-se como seu candidato ao governo do estado.

Raquel Lyra assumiu uma posição de evitar nacionalizar a polarização da eleição presidencial como forma de se equilibrar entre o eleitorado que, ao mesmo tempo que vota nela, votarão ou em Lula ou em Bolsonaro. Isso tem feito com que João a acuse de ser de extrema direita, mas omite que há políticos desse espectro político lhe apoiando.

É reconhecendo que essas diferenciações e acusações mútuas são apenas um jogo de aparências, que os trabalhadores e trabalhadoras de Pernambuco devem jogar energia na construção de um campo de esquerda independente, que se arme politicamente contra os ataques que virão de qualquer lado desses representantes da capital. 

Essa construção passa necessariamente pela organização das categorias já afetadas por ambas administrações, como metroviários, professores, urbanitários e ampliando para outros setores. Nesse período eleitoral, passa também pelo apoio e engajamento na eleição de candidaturas comprometidas com a classe, como a de Ivan Moraes (50) para o governo do estado.

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