PSOL no Brasil – mais de duas décadas ricas em lições para a esquerda internacional

A formação do Partido Socialismo Liberdade (PSOL) em 2004 representou um grande acerto político por parte das forças de esquerda que tomaram essa iniciativa. Apesar das dificuldades e contradições do processo, ela refletiu uma necessidade real da classe trabalhadora diante do giro à direita do Partido dos Trabalhadores (PT) nos anos anteriores e o salto qualitativo em sua adaptação ao regime político burguês, quando Lula assumiu a presidência da república pela primeira vez em 2003.
A construção de uma alternativa de esquerda socialista coerente e com influência de massas, capaz de superar os limites históricos do PT, continua sendo uma tarefa estratégica ainda não cumprida no Brasil. Na luta por sua realização, a experiência do PSOL, apesar de seus profundos retrocessos atuais, é de grande valor, e suas lições devem servir às novas gerações da classe trabalhadora e dos oprimidos no Brasil e internacionalmente.
Acerto e contradições na formação do PSOL
Em 2002, Lula venceu as eleições presidenciais depois de três tentativas frustradas em 1989, 1994 e 1998. Se comparada à campanha de 1989, quando se deu a primeira eleição direta para presidente depois do fim da ditadura e o PT ainda mantinha um forte viés de esquerda em meio a um ascenso do movimento de massas, a campanha de 2002 representou o ápice de um processo de direitização e moderação política desse partido.
O PT e Lula não venceram as eleições em 2002 porque moderaram sua política e perfil, porque adotaram um candidato empresário a vice-presidente, do Partido Liberal, ou porque fizeram alianças com a centro-direita. Tal vitória foi consequência da profunda crise das políticas neoliberais do então presidente Fernando Henrique Cardoso e do fato de que Lula e o PT ainda eram vistos, devido ao seu passado combativo e radical, como uma alternativa capaz de promover transformações profundas no país.
Lula e o PT, no entanto, desperdiçaram a disposição de luta e o desejo massivo por mudanças reais na economia e no sistema político. Optaram por tentar tranquilizar a classe dominante dando demonstrações de que seu governo era de continuidade e não de rupturas. Além de indicar ministros e um presidente do Banco Central oriundos da direita neoliberal, Lula manteve a base da política econômica do governo anterior, promoveu cortes e contrarreformas como no caso da previdência social, a despeito de algumas políticas sociais específicas.
A resposta foi, de um lado, uma importante greve dos trabalhadores do setor público federal e, de outro, a insatisfação de parte da base petista e a recusa de um pequeno grupo de parlamentares do PT (uma senadora e três deputados federais) em votar a favor dessas políticas. A greve contra a reforma da previdência e a expulsão dos parlamentares chamados de “radicais” do PT foi o impulso inicial para a formação da “Esquerda Socialista e Democrática – Movimento por um novo partido” que promoveu o Congresso de fundação do PSOL em junho de 2004 e sua legalização definitiva em 2005, após uma ampla campanha de coleta de meio milhão de assinaturas de apoio por todo o país. Um programa relativamente radical defendendo a independência de classe e o socialismo como objetivo estratégico foi adotado pelo novo partido.
A base ativa do PSOL se formou a partir da ruptura de milhares de militantes do PT insatisfeitos com os rumos do governo e do partido, de militantes de outras forças de esquerda atraídos pela proposta de unidade da esquerda socialista sobre bases mais combativas, mas também a partir de setores da juventude e dos trabalhadores que, em meio à luta, tiravam conclusões políticas de esquerda. Esse processo foi organizado a partir de acordos políticos entre algumas correntes políticas organizadas (entre elas a então seção brasileira do antigo CIT/CWI, hoje ASI) e sob forte influência dos mandatos parlamentares que impulsionaram o novo partido.
Ainda que refletisse uma necessidade real da classe trabalhadora em meio a lutas concretas contra ataques do governo do PT, o peso parlamentar sobre o novo partido foi, desde o início, um fator de risco e pressão sobre a nova formação. Os enormes esforços da base militante do novo partido em construir um processo democrático e pela base na tomada de decisões e na definição da política do partido, sempre esbarrou no peso desproporcional dos mandatos parlamentares e de suas figuras públicas.
Apesar das boas intenções em palavras e tentativas inspiradoras, não houve efetivamente controle da base do partido sobre seus parlamentares. Na prática, o partido funcionava essencialmente a partir de acordos políticos feitos na cúpula pelas correntes organizadas e os mandatos parlamentares, com pouco ou nenhum poder efetivo da base. O enorme peso da estrutura dos mandatos parlamentares (dinheiro e recursos) sempre gerou distorções graves que depois se acentuaram qualitativamente subvertendo completamente a concepção de um partido democrático e pela base presente na origem do PSOL.
Além disso, a centralidade das disputas eleitorais e a luta por mandatos parlamentares foi consolidando o PSOL como um partido essencialmente de atuação nas instituições do regime, combativo na luta por aprovar medidas progressistas no parlamento, apelando para decisões judiciais em favor das causas justas, etc. A luta direta dos trabalhadores e setores oprimidos foi cada vez mais sendo vista como um instrumento a serviço da disputa institucional e não o contrário, como deveria ser.
Oposição de esquerda aos governos do PT
Apesar disso, o PSOL em sua fase inicial adotou, de forma geral, políticas relativamente corretas, apoiando e impulsionando as lutas dos trabalhadores e oprimidos, adotando uma postura de oposição de esquerda aos governos do PT e ao mesmo tempo combatendo as forças de direita no país. Essa foi a base de seu crescimento. O partido não ia até às últimas consequências, é verdade, mas mostrava que ainda era possível a construção de uma alternativa de esquerda diante das traições do PT e funcionava como um espaço dinâmico de unidade de ação, debate político e recomposição da esquerda socialista.
A formação do PSOL também se deu em meio a um processo de reorganização do movimento sindical e popular com novas iniciativas de coordenação das lutas e formação de novas centrais sindicais combativas que buscavam superar a passividade e postura pró-governo por parte da maior central sindical do país, a CUT, dirigida pelo PT.
Um grande congresso sindical e popular (Conclat) foi organizado em 2010, com apoio do PSOL e outros setores, visando a unidade de todas essas iniciativas em uma poderosa nova central sindical e popular combativa e unitária, com independência de classe e em oposição aos governos do PT. No entanto, o sectarismo das disputas internas pelo controle da nova central a ser formada acabou levando a novas divisões, com sérias consequências para o movimento no período posterior.
O espaço existente para uma alternativa de esquerda ao PT ficou evidente nas eleições de 2006, por exemplo, quando a candidata do PSOL à presidência, a então senadora Heloísa Helena, assumindo uma nítida oposição de esquerda tanto ao PT de Lula como ao PSDB de Geraldo Alckmin, chegou a obter 6,85% dos votos, ficando em terceiro lugar. O PSOL, desde então, apresentou candidaturas em oposição ao PT e à direita em todas as eleições até 2022, quando equivocadamente decidiu não apresentar candidatura própria, repetindo o erro em 2026.
Quando o Brasil viveu uma explosão social de grandes proporções em junho de 2013, com mobilizações de milhões nas ruas contra o aumento das tarifas de transporte, em defesa dos serviços públicos e por direitos sociais, confrontando tanto o governo do PT como também governos da direita tradicional em nível estadual e municipal, o PSOL, apesar de seus limites, cresceu principalmente entre a juventude.
Apesar disso, a ausência de uma estratégia e programa socialistas revolucionários consequentes para esse momento de intensa mobilização de massas abriu caminho para o refluxo do movimento e uma mudança na correlação de forças.
Ascensão da extrema direita e mudanças no PSOL
O ponto de inflexão na situação do país se deu com o golpe institucional de 2016, que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT), permitiu o retorno da direita ao poder através do vice-presidente Michel Temer em aliança com a direita tradicional e, logo em seguida, abriu caminho para a ascensão da extrema direita encabeçada por Jair Bolsonaro.
O PSOL corretamente se colocou contra o golpe institucional sem que isso significasse apoio político a Dilma Rousseff. Esse acerto político, no entanto, logo foi desviado para uma política de cada vez mais colaboração e atrelamento em relação ao PT, descaracterizando o perfil original do PSOL que nasceu para ser uma alternativa ao PT e seus erros e traições. Essa reaproximação com o PT assumiu contornos trágicos quando esse partido voltou ao poder em 2023, momento a partir do qual o PSOL passou a ter uma postura de colaboração com o governo e não mais de independência e oposição de esquerda.
O argumento principal para a reaproximação com o PT como política prioritária do PSOL foi a ameaça da extrema direita, principalmente a partir da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Naquele momento, com Bolsonaro em ascensão e Lula na prisão (o PT lançou Fernando Haddad como candidato presidencial), o PSOL ainda apresentou Guilherme Boulos como candidato à presidência, mas com pouca diferenciação de fato em relação ao PT.
Em março de 2018, o PSOL e sua militância viveram um dos momentos mais trágicos da sua história com o assassinato de Marielle Franco, mulher negra, militante socialista e vereadora na cidade do Rio de Janeiro, a qual enfrentava as chamadas “milícias” e o crime organizado em seu estado. Várias figuras públicas e lideranças do PSOL também sofreram e ainda sofrem ataques e ameaças, em especial mulheres negras e trans. O enfrentamento da extrema direita em ascensão tornou-se de fato uma prioridade, mas as políticas do partido diante disso nem sempre foram as mais corretas.
A ascensão da extrema direita no Brasil está diretamente relacionada à frustração diante do que foram os governos do PT. Para muitos, incluindo ex-eleitores de Lula, a expectativa de mudança radical se transferiu do PT para a extrema direita bolsonarista. O PT passou a ser o partido da ordem, do sistema político, enquanto o bolsonarismo adotava demagogicamente uma aparência antissistêmica, tornando-se atraente aos setores populares ao mesmo tempo em que defendia os interesses das frações mais reacionárias da burguesia e canalizava os preconceitos e ressentimentos das classes médias em crise e sem perspectivas.
Ao abrir mão gradativamente de seu perfil radical, independente e baseado nas lutas do povo para tornar-se um apêndice um tanto mais estridente do PT, o PSOL colaborava indiretamente com uma política que permitia à extrema direita ocupar o espaço da contestação e a defesa de mudanças radicais. Junto com isso promovia sua pauta misógina, racista e violenta diante dos movimentos sociais e a esquerda.
Combater a extrema direita com independência, luta e um programa socialista
Rebaixar o programa, recuar no projeto de transformações, aliar-se a inimigos históricos não é o caminho para derrotar a extrema direita. É preciso apostar na mobilização real da classe trabalhadora, da juventude, mulheres, negras e negros, povos indígenas etc. como prioridade. Nesse campo é possível construir-se unidade de ação com setores do PT dispostos a lutar, fazendo com que esses setores afastem-se da orientação quietista e passiva de suas direções.
Mas, para que isso aconteça, é preciso que se mantenha independência frente aos governos do PT, porque boa parte das lutas se dá também contra as políticas deste governo. Junto com isso é decisivo também que se levante uma alternativa política global para a crise do sistema, a crise que fez renascer a extrema direita e diante da qual o PT agiu como mero atenuador das maiores contradições da ordem atual. É preciso portanto levantar um programa socialista.
O PSOL após 2022 – capitulação à lógica do mal menor
A partir das eleições de 2022, o PSOL assumiu definitivamente a lógica política do “mal menor” e aprofundou sua subordinação ao PT. Pela primeira vez desde sua fundação, o partido deixou de apresentar um candidato presidencial. Uma minoria interna em torno do deputado Glauber Braga resistiu a essa política mas foi derrotada. Lula passou a ser visto pela direção do PSOL como o único anteparo possível diante do “fascismo” em um contexto em que, para eles, as ideias radicais do PSOL do passado supostamente não encontrariam espaço e justificação.
Aos poucos, para a direção do PSOL, a unidade com o PT foi se transformando em aceitação passiva da política de frente “amplíssima”, incluindo setores da direita brasileira, defendida por Lula e o PT. Num primeiro momento, em 2022, o PSOL ainda criticou a indicação do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin como vice de Lula. Alckmin é um político da direita neoliberal tradicional que, entre outras barbaridades, tem as mãos sujas com o sangue de trabalhadores durante a repressão policial em 2012 na reintegração de posse do Pinheirinho, a maior ocupação de terra urbana da América Latina.
Em 2026, sem questionamentos internos significativos, o PSOL não apenas renunciou a apresentar uma candidatura própria a presidente no primeiro turno das eleições como sequer levantou qualquer objeção ao nome de Alckmin e em relação a outras articulações e acordos de Lula com a direita. Setores do partido chegaram ao cúmulo de achar que o PSOL errou ao criticar essas alianças no passado.
Essa construção da chamada “frente ampla”, tem contribuído para um recuo programático importante da esquerda, tornando o PSOL conivente com a política de conciliação de classes de Lula. Além disso, não é verdade que não existe espaço para um programa radical, combativo e de luta. Há figuras públicas da esquerda com um perfil mais radical ganhando espaço entre jovens e trabalhadores, mas a extrema direita também avança nesses espaços levantando um perfil antissistêmico que precisa ser combatido não com moderação mas com uma alternativa radical de esquerda.
Defender e construir um programa de esquerda e socialista não é incompatível com, de forma tática, chamar o voto em Lula no segundo turno das eleições visando derrotar a extrema direita eleitoralmente, mas sem se comprometer com um futuro novo governo de Lula.
Vínculo e dependência material do Estado burguês
Os desvios políticos e elementos de degeneração do PSOL resultam tanto de uma leitura equivocada de como se enfrenta a extrema direita como também das consequências de um partido que não conseguiu crescer com uma estrutura independente do Estado burguês e suas instituições.
Não é secundário apontar que o PSOL hoje é um partido com campanhas eleitorais milionárias graças ao fundo partidário, uma verba do Estado recebida para despesas cotidianas do partido, e ao fundo eleitoral, verba destinada para as campanhas eleitorais. Para se ter uma ideia, em 2020 o PSOL recebeu 35,5 milhões de reais (cerca de 7 milhões de dólares) de fundo eleitoral e em 2024 foram 128,6 milhões de reais (cerca de 25 milhões de dólares). Para além desse montante, ainda há verbas e centenas ou milhares de filiados empregados em cargos nos gabinetes dos mandatos no poder legislativo em nível municipal, estadual e federal, além daqueles alocados em ministérios do governo.
Hoje, o PSOL não tem uma política de autofinanciamento independente do Estado burguês e depende desse dinheiro para suas atividades, para manter suas sedes e até mesmo intervir nas lutas. Se juntamos isso com um funcionamento interno pouco democrático, temos a base para todo tipo de distorções e degeneração política.
PSOL dentro do governo Lula
Em um primeiro momento, o PSOL manteve uma postura ambígua diante do governo de Lula eleito em 2022. Supostamente o partido não deveria ter membros no governo para manter alguma independência, mas na prática abriu exceções em alguns ministérios e se colocou como parte da base de apoio ao governo na Câmara de Deputados.
Mais recentemente, o partido admitiu o ingresso de sua principal figura pública, Guilherme Boulos, como ministro da secretaria geral da presidência da república, uma posição privilegiada na hierarquia do governo com o objetivo de estabelecer relações com os movimentos sociais e ajudar na campanha eleitoral de Lula. Boulos funciona como um mediador de conflitos entre o governo e os movimentos sociais que, na prática, desestimula as lutas.
No interior do PSOL, a corrente de Boulos, o polo mais à direita do partido, defendeu que o PSOL fosse além da mera coligação eleitoral e compusesse uma federação partidária com o PT, o que significa um grau de subordinação maior e que vai além dos períodos de disputas eleitorais. Essa proposta foi derrotada no diretório nacional do PSOL e gerou uma crise na relação de Boulos com o partido que pode levar à sua saída do PSOL em direção ao PT depois das eleições.
No entanto, boa parte daqueles que se colocaram contra a federação partidária com o PT, o fizeram dentro de uma lógica de cálculo eleitoral e sem levantar questionamentos à política de apoio acrítico a Lula. Mesmo na hipótese de saída da ala mais à direita do PSOL, isso não necessariamente significará que o partido tomará um curso mais à esquerda.
Futuro da esquerda brasileira
Isso nos remete à discussão sobre o futuro da esquerda brasileira e a necessidade de construção de uma alternativa. As eleições de 2026 serão as últimas com Lula candidato e representam o capítulo final de Lula como liderança “incontestável” do campo “progressista” na política brasileira, quer ele vença ou perca as eleições.
A estratégia de Boulos e outros no PSOL de buscar ocupar o espaço que Lula deixará e assim herdar sua base social colaborando com o lulismo de forma acrítica, está fadado ao fracasso e provocará novas crises da esquerda brasileira.
Nesse processo inevitável de reorganização da esquerda no próximo período, a tarefa dos socialistas revolucionários é apostar na retomada das lutas de massas da classe trabalhadora e setores oprimidos como base para uma alternativa de esquerda e socialista que unifique setores combativos dos movimentos sociais com setores políticos de esquerda que ousam resistir ao canto de sereia do lulismo.
Parte desse processo ainda passará pelos debates e disputas no interior do PSOL, que segue sendo uma referência para muitos trabalhadores e jovens. Mas se dará também e essencialmente de forma direta nas lutas e movimentos que virão. É preciso estar preparado para esse novo ciclo da esquerda e dos movimentos sociais, construindo um polo de esquerda socialista e revolucionária e levantando um autêntico programa socialista.
















