Trump e os republicanos sofreram uma derrota esmagadora: e agora, como derrotar de vez toda a sua agenda?

A onda se transformou em um tsunami: os republicanos, com Trump à frente, sofreram uma derrota esmagadora nas eleições de meio de mandato. Dezenas de milhões de pessoas nos EUA e, literalmente, bilhões em todo o mundo, sentirão um imenso alívio com os resultados, aliado à confiança de que a agenda reacionária de Trump pode ser impedida.
Dos cortes no Medicaid [saúde pública gratuita para pessoas de baixa renda] ao terror do ICE [polícia de imigração], passando pelos ataques contra pessoas trans, do racismo descarado às demissões em massa de funcionários federais, à enxurrada de data centers e muito mais, Trump pisou sem piedade na vida da classe trabalhadora nos últimos 22 meses. Mas, acima de tudo, foi a crise da alta do custo de vida — o preço da gasolina disparando e o ressurgimento da inflação — acelerada por sua desastrosa guerra com o Irã, o que selou o resultado dessa derrota histórica.
Muitos dos ataques de Trump saíram pela culatra, incluindo seu esvaziamento racista da Lei do Direito ao Voto, que claramente mobilizou os eleitores negros no Sul, bem como as leis antiaborto. O apoio aos republicanos desabou entre os eleitores latinos à medida que a onda de terror contra os imigrantes continuava, e muitos jovens claramente abandonaram o partido. É o pior desempenho em eleições de meio de mandato do partido de um presidente desde 1974, após o escândalo Watergate de Nixon.
Enquanto isso, as vitórias de candidatos socialistas-democráticos e progressistas em disputas por todo o país mostram que milhões apoiam políticas de esquerda ousadas. O regime está encurralado e é hora de concluir o trabalho.
Nenhuma confiança nos democratas: luta de massas para concluir o trabalho
Os resultados das eleições de meio de mandato, por si só, não serão suficientes para deter os ataques reacionários de Trump, mas mostram, sem sombra de dúvida, que sua agenda como um todo pode ser derrotada de forma contundente. A ampla maioria dos democratas no Congresso significa que eles estarão sob pressão para cumprir suas promessas, especialmente no que diz respeito à crise do custo de vida, que foi a questão número um nesta eleição. Se essa mobilização eleitoral histórica se transformar em uma onda ainda mais histórica de luta de massas nas ruas e nos locais de trabalho, isso poderia até mesmo significar um processo de impeachment e a destituição do presidente.
Mas devemos deixar absolutamente claro: apesar de suas promessas intermináveis, o Partido Democrata não lutará de verdade pelos interesses da classe trabalhadora, dos pobres e dos oprimidos. Eles não liderarão o tipo de movimento que é necessário e, como defensores tão fervorosos do capitalismo quanto os republicanos, nunca eliminarão as condições que deram origem ao trumpismo em primeiro lugar.
Agora é a hora de intensificar a luta para derrubar Trump e desferir um golpe decisivo contra a extrema direita. Precisamos de protestos, ocupações e greves em grande escala para reverter os ataques de Trump dos últimos dois anos e partir para a ofensiva a fim de conquistar o que a classe trabalhadora precisa — saúde pública gratuita e universal, salários dignos, abolição do ICE, fim das guerras imperialistas e muito mais. A Socialist Alternative está pronta para fazer tudo o que pudermos nesse sentido.
Mudanças dramáticas
Faz 16 anos que nenhum dos dois partidos vence uma disputa pelo Senado em um estado onde o partido adversário tenha conquistado uma vantagem de pelo menos dez pontos percentuais na eleição presidencial anterior . Ontem à noite, os democratas conquistaram cinco. A Califórnia e o Texas elegeram seus primeiros governadores latinos, o que é especialmente significativo no Texas, que vem sendo governado por republicanos profundamente anti-imigrantes há décadas. Chris Pappas, de New Hampshire, será o primeiro senador dos EUA abertamente gay, e Keisha Lance Bottoms, na Geórgia, será a primeira mulher negra a ocupar o cargo de governadora. O Kansas agora tem seu primeiro senador democrata desde 1932. A lista de “primeiras vezes” continua.
Desde James Talarico, que liderou uma vitória esmagadora dos democratas no Texas com uma reversão de 21% dos votos latinos em favor dos democratas em relação a 2024, até Angie Nixon, uma mulher negra progressista apoiada pela DSA [Socialistas Democráticos da América] que quase venceu na “profundamente conservadora” Flórida, é difícil exagerar a importância desses resultados. A vitória de Abdul El-Sayed em Michigan é outro sinal dos tempos, tendo superado gastos recordes da AIPAC [grupo de lobby pró-Israel] contra sua candidatura, uma islamofobia desenfreada — inclusive por parte de seu próprio partido nas primárias —, o apoio de sua oponente nas primárias democratas ao candidato republicano dois dias antes da eleição e muito mais.
Embora a economia não esteja tecnicamente em recessão, para dezenas de milhões de pessoas comuns, é como se estivesse. A repetida atitude desdenhosa de Trump em relação às questões do custo de vida, depois de tanta ênfase no assunto durante sua campanha de 2024, foi o maior fator isolado que levou antigos eleitores republicanos a votarem nos democratas. Isso coloca a cúpula do Partido Democrata em uma posição difícil entre seus eleitores indignados e esperançosos e seus apoiadores bilionários. É também por isso que um programa socialista e um movimento combativo são tão necessários.
Outro ponto importante dos resultados é o que alguns chamam de “Blacklash” — o aumento na participação eleitoral da população negra em todo o Sul em resposta à guerra do Trump 2.0 contra a América Negra, em particular o esvaziamento da Lei do Direito ao Voto. Esse foi um fator-chave para a vitória dos democratas no Senado na Carolina do Sul e para que o resultado acirrado no Mississippi fosse decidido nos votos finais (talvez só saibamos o resultado na próxima semana). Homens negros com menos de 45 anos viraram seu voto em 25% a favor dos democratas em relação à eleição presidencial de 2024. Enquanto isso, quatro meses após a morte do adolescente Nolan Wells, do Mississippi, sua família ainda não tem respostas, e um movimento por justiça nesse caso está crescendo. O quadro geral é de uma reconstrução da confiança para lutar contra o racismo sistêmico, seis anos depois que a derrota do Black Lives Matter levou a uma combinação de desmoralização e uma guinada à direita entre setores da população negra.
Infelizmente, mas sem surpresa, a reprovação generalizada a Trump não se traduziu automaticamente em vitórias para todas as causas progressistas nos referendos estaduais, inclusive em estados fortemente “azuis” (democratas). Por exemplo, quatro referendos sobre propostas de leis que exigiam a proibição de atletas trans nos esportes foram aprovadas ou parecem prestes a ser aprovadas no Arizona, Colorado, Nebraska e Washington. Uma proibição no Colorado relativa aos serviços de saúde de afirmação de gênero também está perdendo, mas ainda há votos a serem contados. Na Califórnia, a amplamente apoiada Proposta 40, que teria instituído um imposto único no valor total de US$ 100 bilhões sobre os 200 bilionários do estado, foi rejeitada por mais de 10 pontos percentuais. Esses exemplos fornecem mais evidências de que o “tsunami azul” por si só não será suficiente para proporcionar ganhos concretos para a classe trabalhadora e as pessoas oprimidas, mas que será necessário ir pra ofensiva com movimentos de luta independentes.
O que os democratas farão agora?
Após quase dois anos sem fazer praticamente nada para oferecer uma oposição significativa à agenda de Trump, os democratas serão agora postos à prova diante das expectativas crescentes de seus eleitores. O “Plano das Primeiras 100 Horas”, de Hakeem Jeffries, delineia uma série de projetos de lei que eles aprovarão para tentar reverter algumas das piores políticas de Trump, desde reverter os cortes no Medicaid e restabelecer os subsídios do Obamacare que expiraram, até acabar com as tarifas de Trump. Vale ressaltar, porém, que o plano para por aí.
Mesmo para isso, permanece o fato de que os democratas precisam do apoio republicano para superar a obstrução no Senado e, além disso, para derrubar um veto de Trump — um cenário improvável, a menos que haja um enorme movimento de massas que conquiste uma parcela significativa dos eleitores republicanos. Isso é possível, mas exigiria uma verdadeira direção baseada na luta de classes por parte dos sindicatos e de organizações como a DSA.
O ICE já recebeu um financiamento de US$ 100 bilhões do atual Congresso e não vai parar com seu terror contra os imigrantes. Mesmo que os democratas aprovem mais resoluções de poderes de guerra no Congresso (já houve duas), Trump mostrou que está perfeitamente disposto a ignorá-las.
Construir uma mobilização da classe trabalhadora que vá além de simplesmente reverter os piores ataques de Trump é possível e necessário. Não está descartado que, sob pressão de um movimento de massas, os democratas — seja no nível federal e/ou em algumas legislaturas estaduais onde agora conquistaram vitórias decisivas — possam ser pressionados a ir além do que pretendiam e, de fato, aprovar alguma legislação progressista. Devemos exigir a realocação dos gastos militares para a educação pública, moradia pública acessível e de alta qualidade e o cancelamento da dívida estudantil — não apenas o fim da atual guerra contra o Irã. Precisamos exigir saúde universal e gratuita para todos — não apenas reverter os cortes de Trump na área da saúde.
Os democratas, muitos dos quais prometeram durante a campanha interromper a expansão dos data centers, ficarão divididos entre suas promessas eleitorais e as necessidades do capitalismo de apoiar a indústria parasitária de IA que sustenta a economia dos EUA. Essa pressão aumentará ainda mais quando a bolha da IA estourar; nessa situação, as direções de ambos os partidos se unirão para salvar seu sistema. Isso significará resgates de empresas na ordem de dezenas, senão centenas, de bilhões de dólares, enquanto as pessoas comuns arcarão com o fardo por meio de demissões e medidas de austeridade devido à crise que o próprio sistema criou.
Os Socialistas Democráticos
Sete membros da DSA estarão agora no Congresso (ao lado de mais de 50 outros que venceram eleições em todo o país), e a forma como eles utilizarão seus cargos será o maior teste até agora para essa tendência da política de esquerda atual. No cenário atual, em que Trump está encurralado, mas ainda não foi derrotado de forma decisiva, os representantes socialistas eleitos devem concentrar toda a sua energia na organização de lutas de massas para conquistar as reivindicações progressistas que defenderam durante a campanha e expulsar Trump.
Isso poderia começar com o DSA e seus representantes eleitos organizando assembleias em todo o país para discutir planos de protestos de massas e até mesmo greves em torno de demandas populares, como saúde universal, o fim dos data centers e o fim da guerra contra o Irã. Isso significaria, necessariamente, um confronto direto com a cúpula do Partido Democrata, que se opõe totalmente a esse tipo de estratégia — algo que, infelizmente, os representantes eleitos do DSA parecem não estar dispostos a encarar.
Apesar dos ganhos do partido, a cúpula do Partido Democrata ainda é profundamente impopular. Fraca demais para esmagar os progressistas insurgentes, sua única opção será cooptá-los. Infelizmente, a disposição dos progressistas e socialistas democráticos de fazer concessões muito além do razoável à odiada cúpula Democrata — por exemplo, com El-Sayed recebendo Obama e Harris para fazer campanha com ele — é uma indicação clara de sua vulnerabilidade diante disso. Até mesmo Darializa Avila Chevalier, da cidade de Nova York — talvez a mais à esquerda entre os eleitos da DSA e ex-líder do acampamento pela Palestina na Universidade de Columbia —, sinalizou que provavelmente votará em Hakeem Jeffries para presidente da Câmara. Isso aponta na direção completamente errada e deve ser firmemente combatido dentro da DSA, que precisa urgentemente desenvolver mecanismos transparentes de controle democrático sobre seus representantes eleitos.
A era Trump chegou ao fim?
Nas próximas semanas, os analistas farão a pergunta: “A era Trump chegou ao fim?”. Não há dúvida de que, em muitos aspectos, essas eleições de meio de mandato marcam o início do fim da carreira política de Trump, que já dura uma década. Um terceiro mandato, que já era improvável, está agora descartado. Trump, que atuava como um ímã para o Partido Republicano em 2024, está se tornando um fator tóxico para o partido.
O atual presidente da Câmara, Mike Johnson, afirmou que não buscará a reeleição como líder republicano na Câmara, e JD Vance culpou abertamente a guerra de Trump por essa derrota. É provável que mais autoridades eleitas republicanas sigam o mesmo caminho, sentindo a necessidade de se distanciar de Trump, após quase uma década em que ele foi o incontestável líder do partido. A disputa pela sucessão na liderança do Partido Republicano está oficialmente aberta.
Mas, por outro lado, responder afirmativamente a essa pergunta nos deixaria completamente despreparados para o que provavelmente está por vir.
Devemos lembrar o que aconteceu após a “onda azul” das eleições de meio de mandato de 2018, durante o primeiro mandato de Trump. Embora a derrota dele neste ano seja maior do que há oito anos, ela ilustra o tipo de reação agressiva que poderemos ver vinda de um Trump ferido. Seis semanas e meia após as eleições de 2018, Trump paralisou o governo federal devido à recusa dos democratas em conceder US$ 6 bilhões em financiamento para seu muro na fronteira entre os EUA e o México. Naquela época, a mais longa paralisação governamental da história, os democratas foram totalmente ineficazes em impedi-la, e ela só foi encerrada por ausências médicas em massa de agentes da TSA [agentes de segurança dos aeroportos], controladores de tráfego aéreo e pela ameaça de uma greve nacional do sindicato dos comissários de bordo.
Mais recentemente, quando Trump invadiu Minnesota com 4 mil agentes do ICE no início deste ano, não foram os democratas que os expulsaram — foi um movimento de massas de dezenas de milhares de pessoas que culminou em uma greve geral com 350 mil participantes. Essas lições precisam estar em primeiro plano para todos aqueles que compreendem que a agenda de Trump sofreu um revés, mas ainda não foi derrotada de forma decisiva. Trump está e continuará propenso a extrapolar, o que, no contexto de expectativas e confiança elevadas, pode desencadear lutas ainda mais explosivas.
Próximo passo: 2028 ou luta de massas?
Em ambos os partidos, a disputa pela candidatura presidencial de 2028 começará, na prática, agora, partindo das especulações da mídia e se transformando em anúncios de candidatura nos próximos meses. Mas, para as dezenas de milhões de pessoas que acabaram de impor uma derrota impressionante ao presidente mais reacionário do último século, é absolutamente fundamental que não tiremos o pé do acelerador e simplesmente “deixemos que os democratas assumam a partir daqui”.
Mais uma vez, a história é importante. De 2009 a 2011, no governo Obama, e novamente de 2021 a 2023, no governo Biden, os democratas controlaram a presidência, a Câmara dos Deputados e o Senado. Apesar das promessas de Obama de um sistema de saúde público e de Biden de consolidar a decisão Roe v. Wade [que garantia direito ao aborto em nível federal] e um salário mínimo de US$ 15, absolutamente nada disso se concretizou. Enquanto não pararmos de apoiar os democratas simplesmente porque “não são os republicanos”, esse ciclo de escolha do mal menor e de manipulação continuará.
Muitos verão as vitórias dos candidatos apoiados pela DSA como prova de que o partido pode ser empurrado para a esquerda e levado a lutar pelos trabalhadores. Mas a cúpula do partido redobrará seus esforços para marginalizar e cooptar essas figuras. A luta para conquistar suas plataformas dependerá do tipo de movimento que for construído. Conquistar essas reivindicações exigirá uma abordagem intransigente em relação à cúpula do Partido Democrata e aos interesses empresariais, que lutarão com unhas e dentes para miná-las a cada passo.
Precisamos intensificar e articular os movimentos existentes — contra os data centers de IA, o ICE, a guerra, o machismo, o racismo e por salários mais altos e melhores condições de trabalho — em uma luta poderosa capaz de conquistar ganhos reais para a classe trabalhadora e expulsar Trump de vez.
Isso significa construir nossas próprias organizações e, fundamentalmente, nosso próprio partido político da classe trabalhadora, que seria totalmente independente das grandes corporações e serviria não apenas como um veículo eleitoral, mas como um ponto de articulação para a resistência. O índice de aprovação baixíssimo dos democratas antes desta eleição e o apoio recorde a um novo partido político mostram a enorme oportunidade que existe para construir tal organização. Os bons resultados de vários candidatos independentes de esquerda nesta eleição, com alguns deles alcançando até 10%, são passos positivos a serem aproveitados.
Como vimos em eleições impulsionadas por movimentos de massas, do Brasil à Sérvia, e em lutas de massa nas ruas, da Índia à França, há um desejo generalizado de lutar contra figuras e governos monstruosamente hostis à classe trabalhadora. Mas, à medida que o conflito existencial entre o imperialismo estadunidense e o chinês continua a se intensificar — um conflito no qual os dois principais partidos políticos dos EUA estão totalmente envolvidos —, as classes dominantes em todo o mundo continuarão a militarizar, disciplinar e semear divisões na classe trabalhadora, além de reprimir a esquerda. A “era Trump” nunca se resumiu apenas ao próprio Trump. Para derrotar a direita de vez, precisamos de uma luta unida contra todo o sistema capitalista e por um mundo socialista.
















