Os 70 anos da tentativa de revolução política na Hungria

O presente artigo tem por objetivo despertar o interesse e, consequentemente a discussão, sobre os acontecimentos de outubro e novembro de 1956 na Hungria, seus impactos para o chamado bloco soviético e seu significado para aqueles que reivindicam a democracia operária.
Localizada na Europa oriental, juntamente com Romênia, Bulgária e Tchecoslováquia, a Hungria, a partir de 1945, passou a compor o que foi apelidado “cortina de ferro” soviética. Todos esses países são caracterizados pelo trotskismo, como Estados Operários Deformados, o que pode levar ao questionamento, “qual a diferença entre eles e a União Soviética?”
A URSS foi produto de uma revolução socialista que aconteceu em outubro de 1917, essa revolução foi o principal acontecimento histórico do século XX, e foi liderada por Vladimir Lênin, foi baseada no mais elevado nível de democracia operária representada pelos Sovietes, conselhos formados por operários, camponeses e soldados.
Já na maior parte dos países que compunham a “cortina de ferro” não houve um processo de tomada do poder pelos trabalhadores organizados, como aconteceu na Rússia. Esses países estiveram, durante a Segunda Guerra Mundial, ocupados pela Alemanha Nazista. Quando a guerra chegou ao fim em 1945, os mesmos foram libertados pelo exército vermelho soviético, que também derrotou Hitler e o nazismo.
Ao fim da guerra, Stalin constituiu, nos países da Europa oriental, inclusive na Hungria, governos de frente popular com setores da burguesia nessas repúblicas, governos esses que, foram dirigidos pelos partidos comunistas locais, amparados pelas tropas do exército vermelho. A partir de 1948 expropriaram as burguesias nacionais, passando a mimetizar a União Soviética, com governos baseados em expurgos em massa, terror sistemático, industrialização com metas e coletivização forçada do campo, ou seja, esses regimes não degeneraram, nasceram já deformados burocraticamente, como China, Coreia do Norte ou Iugoslávia.
Dito isso, para nos ater aos fatos cronológicos, com a morte de Stalin em 1953, a velha burocracia que o sustentou no poder por 29 anos, começa a manobrar para tentar se descolar de sua figura. Em 1956 o relatório Kruschev revela ao mundo a dimensão do que foram os crimes de Stalin, crimes esses que o próprio Kruschev apoiou, os partidos comunistas passaram a se dividir entre conservadores e reformadores (revisionistas), e isso vai se refletir internacionalmente, inclusive no Brasil, quando ocorre dentro das fileiras do PCB uma cisão que em 1962 deu origem ao PCdoB.
O primeiro partido do bloco soviético atingido pela tempestade foi o PC Polonês e seu líder Wladyslaw Gomulka, esse dirigente foi afastado do comando do Partido e do governo do país, por defender um caminho mais “democrático” para o socialismo. Enquanto isso, na Hungria, os estudantes decidem realizar um ato em solidariedade a seus colegas poloneses que haviam sido reprimidos por defender Gomulka e sua tentativa de reforma.
No dia 23 de outubro de 1956, teve início uma grande manifestação pelas ruas de Budapeste. O horário autorizado pelo governo Húngaro coincidiu com o final do expediente nas fábricas, o que levou centenas de operários, com suas próprias reivindicações a se somarem ao ato. Isso vai conferir um caráter de manifestação de massas a um ato que originalmente era estudantil.
A partir da realização desse ato, as pessoas não mais queriam retornar às suas casas, ou fábricas, surgiram comitês revolucionários e conselhos operários, que passaram a organizar a vida política e social, uma situação de dualidade de poderes. O que o povo húngaro reivindicava era exatamente o que Trotsky chamou de Revolução Política. Para ele, na União Soviética, a burocracia expropriara politicamente o proletariado e a única maneira de restaurar esse poder era a criação de conselhos operários, como expressão máxima de democracia direta contra a burocratização.
A revolução húngara significou a possibilidade de construção de um verdadeiro socialismo democrático. Apesar das contradições de sua direção, seu objetivo nunca foi a restauração do capitalismo, como tentam nos convencer historiadores e pesquisadores stalinistas, mas sim derrubar a burocracia e democratizar o Estado operário. Entre as mais populares consignas estava:
- Um governo conduzido por Imre Nagy, um popular dirigente do PC e um reformador.
- A retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia, uma espécie de OTAN do campo stalinista.
- O fim da odiosa polícia política húngara.
- O fim do ensino do idioma russo nas escolas, e maior autonomia política e econômica em relação à URSS.
A resposta soviética veio em forma de uma brutal repressão, que envolveu um aparato de 6 mil soldados e aproximadamente 700 tanques, parte significativa desse contingente precisou ser substituída porque confraternizou com os insurgentes, admitindo que naquele levante, não havia inimigos fascistas. Para fins de registro, apenas no dia 25 de outubro, a reação russa realizou um fuzilamento em massa com mais de trezentos mortos húngaros. Tudo isso para impedir o nascimento de uma Hungria socialista, democrática e soberana.
A repressão teve como seu ponto máximo o dia 04 de novembro de 1956, quando com um efetivo de quase 200 mil soldados soviéticos, os dirigentes húngaros foram presos ou mortos, e o levante afogado em sangue. Dessa forma. Precisamos tirar uma lição dessa heroica resistência, apesar das ocupações de fábricas, da greve geral e do apoio dos setores mais avançados da classe trabalhadora, alguns surpreendentes como dos chamados historiadores marxistas ingleses Edward Palmer Thompson e Christopher Hill, a falta de uma alternativa revolucionária, um partido marxista enraizado na classe trabalhadora, foi determinante para a derrota húngara. Essa alternativa segue posta no horizonte, sua construção exige dedicação, sacrifício e coerência, contudo, não existem atalhos, a maior parte das organizações de trabalhadores precisam ser reconstruídas para novamente se colocarem à altura dos desafios que a luta pela emancipação de nossa classe exige.
















