Para derrotar a extrema direita: votar 13, mobilizar nas ruas e defender um programa socialista!

Os resultados eleitorais de 4 de outubro representaram um sério revés e uma gravíssima ameaça à classe trabalhadora e ao povo brasileiro, com impacto em toda a América Latina. 

O projeto imperialista de Trump e a agenda reacionária das classes dominantes brasileiras ganharam terreno. Mas, essa história ainda está longe do fim. Virar a mesa e bloquear o caminho da extrema direita ainda é possível.

É hora de partir para o campo de batalha defendendo o voto crítico em Lula, mas armados também com as lições dessa derrota parcial. 

Para impedir um desfecho final ainda mais catastrófico no segundo turno é preciso uma mobilização independente que não tenha compromisso com os erros cometidos no primeiro turno. 

Também é preciso mobilizar-nos desde já sabendo que essa luta não termina em 25 de outubro, seja qual for o resultado. Não haverá trégua nessa batalha contra a extrema direita e o imperialismo ganhe quem ganhe.

O voto crítico em Lula nesse segundo turno é uma necessidade. Mas sua efetividade para barrar a extrema direita de uma vez por todas vai depender de nossa capacidade de mobilização e da construção de uma nova esquerda socialista enraizada na classe trabalhadora, na juventude e entre os oprimidos de forma geral.

A extrema direita sai mais forte, mas pode ser enfrentada

Para poder derrotar nosso inimigo é preciso dimensionar sua real força e seus limites. A extrema direita assumiu a dianteira na disputa presidencial e saiu muito fortalecida nas eleições legislativas e nos estados. 

Em praticamente todos os níveis, o que vimos foi o recrudescimento do que há de mais reacionário e podre na política nacional. 

Com 47,03% dos votos válidos, Flavio Bolsonaro ficou 1,87% à frente de Lula (45,16%), o que equivale a cerca de 2,3 milhões de votos em um total de cerca de 120 milhões de votantes. 

A vantagem é muito pequena e pode ser revertida, apesar dos erros acumulados até agora e do contexto ser desfavorável para as forças que se opõem à extrema direita.

O bolsonarismo espera contar com uma parte importante dos votos que foram dados a outras candidaturas de direita no primeiro turno. Somados, esses votos chegam a cerca de 9 milhões. 

Deve-se obviamente lutar para que pelo menos uma parte desses votos não se desloque para Flavio Bolsonaro. Cada voto conquistado nesse setor é precioso.

Mas, seria um erro crasso achar que a única forma de fazer isso é priorizar a busca de acordos e alianças com políticos da direita que podem vacilar no apoio a Flavio Bolsonaro. Depender de um aceno favorável de Gilberto Kassab e seu PSD, por exemplo, é assinar uma sentença de morte. 

A primeira lição importante desse primeiro turno é que a política de acordos com a direita supostamente não bolsonarista e o “Centrão” só serviram para confundir o povo e fortalecer o bolsonarismo.

Mais importante do que tentar incidir sobre a base eleitoral da direita não bolsonarista no primeiro turno é a enorme parcela de pessoas, mais de 33 milhões, que se abstiveram de votar. 

Influenciar e mobilizar uma parcela significativa dessas pessoas contra a extrema direita é a tarefa central.

Isso só poderá acontecer sobre a base de um grande movimento de massas que deve alertar sobre o enorme retrocesso que significa uma vitória do bolsonarismo e  também apontar para a possibilidade de conquistas efetivas que melhorem a vida do povo.

Para isso, será preciso construir um movimento com dinâmica independente, que não espere as diretrizes da direção do PT e do campo Lulista. 

Precisamos de um movimento que não tema o que o “mercado” e a “Faria Lima” pensarão de medidas como o fim do arcabouço fiscal, a elevação significativa do salário-mínimo, o fim da escala 6×1, a tarifa zero nos transportes, reversão das privatizações e contrarreformas, a taxação dos super-ricos e o fim do cassino especulativo da dívida pública.

Esse movimento com alto grau de espontaneidade e disposição de luta já começou a acontecer entre a juventude e as camadas mais conscientes da classe trabalhadora. É preciso que ele cresça, se organize nacionalmente a partir da base e adote um programa de transformações radicais.

Um Congresso que seguirá inimigo do povo

Flávio Bolsonaro também poderá contar no segundo turno com o impulso das vitórias obtidas pela direita e extrema direita nos estados e no Congresso, especialmente no Senado. Para tomar somente o partido de Flavio Bolsonaro, o PL elegeu 19 senadores esse ano e passará dos 15 atuais para 28 senadores a partir de 2027.

Junto com outros senadores de direita, eles devem atingir  os 3/5 necessários para aprovar emendas constitucionais e chegar perto dos 2/3 necessários para abrir processos de impeachment tanto no STF quanto no Executivo.

Para isso necessitariam da mesma proporção de votos na Câmara de Deputados, onde também se fortaleceram. Somente a bancada do PL, que passará de 98 a 121 deputados, atingirá praticamente o tamanho de toda a bancada que se costuma considerar de esquerda ou centro-esquerda na Câmara. 

O fato do PL ter crescido principalmente ocupando o espaço de outros partidos de direita faz com que a extrema direita bolsonarista se fortaleça em detrimento do chamado “Centrão” (todos também de direita, mas mais volúveis), que caiu de 140 para algo em torno de 128 deputados.

Com um apelo popular alimentado pelos escândalos recentes do caso do Banco Master, os candidatos bolsonaristas, principalmente ao senado, assumiram um discurso abertamente contra o Supremo Tribunal Federal e a favor do impeachment de Alexandre de Moraes e outros ministros. 

Em contraste, os candidatos do campo governista não conseguiram se desvencilhar da imagem de continuidade do sistema político e das instituições falidas da república, incluindo o STF.

Apesar dessa maioria conservadora e reacionária, eles podem ser derrotados. A aprovação na Câmara do projeto que acaba com a escala 6X1 e a derrota de projetos reacionários como o Projeto  de lei do estuprador e a PEC da blindagem mostram que a pressão popular é capaz de derrotar os inimigos do povo no Congresso. 

Diante da crise institucional que vive o país e que deve se aprofundar no próximo período, a defesa de transformações radicais no sistema político, em conjunto com transformações econômicas e sociais, é vital para que um movimento de massas contra a extrema direita se viabilize desde já e continue no próximo período.

Ampla maioria de direita nos governos estaduais

Nos estados, entre os 20 governadores já eleitos no primeiro turno, a maioria (cerca de 12 deles) se alinha abertamente ao campo de Flavio Bolsonaro. O PL foi o partido que mais elegeu governadores até agora, com cinco já eleitos. 

Para além do PL, a trágica vitória expressiva de Tarcísio de Freitas, do Republicanos, em São Paulo, o fortalece como alternativa burguesa de extrema direita para o futuro.

No Rio de Janeiro, contra todas as expectativas, o bolsonarista Douglas Ruas (PL) foi o mais votado com uma vantagem de quase 7% no primeiro turno e deve disputar o segundo turno em vantagem diante de Eduardo Paes (apoiado por Lula), a depender da decisão da justiça eleitoral sobre os votos dados a  Anthony Garotinho. 

Além de evidenciar a força que a extrema direita consegue manter no Rio, apesar de todos os desastres dos governos anteriores, esse resultado mostra o fracasso completo da estratégia de Lula e do PT. 

Aliar-se à direita considerada não bolsonarista como forma de barrar a extrema direita é uma receita para o fracasso. Eduardo Paes não é uma alternativa efetiva à extrema direita.

Da mesma forma, em São Paulo, ao lançar Fernando Haddad, o PT apresentou, contra Tarcísio de Freitas, um candidato que foi o pai do “arcabouço fiscal” de Lula, um ex-ministro da fazenda responsável por uma política econômica conservadora e antipopular. 

O cenário era difícil de qualquer forma, mas ajudou o fato de que, em sua campanha, Haddad estava preocupado em não melindrar a burguesia paulista e não se colocou a fundo contra as privatizações e contra a truculência autoritária e repressiva de Tarcísio.

O PT conseguiu eleger governadores em apenas três dos quatro estados em que já estava no governo (Bahia, Piauí e Ceará), sendo que ainda disputa o segundo turno no quarto deles (Rio Grande do Norte). 

A estratégia de apoiar candidatos de centro ou centro-direita aliados de Lula em outros estados mais uma vez não deu certo.

Avanço da direita e frustração com o governo

O avanço da extrema direita está diretamente relacionado à frustração em relação ao governo de Lula. Não se trata, como muitos têm insinuado depois de 4 de outubro, de uma grande ingratidão do povo em relação a Lula. 

A direção de sua campanha subestimou completamente esse sentimento de frustração, que tem base na realidade, e passou a tentar convencer o eleitor de que o quadro era muito mais belo do que de fato era sentido pela população.

Os erros da campanha eleitoral nada mais são do que uma continuidade dos limites do que foi o governo de Lula, um governo que evitou a mobilização popular, baseou-se nos acordos de cúpula com setores do empresariado e da direita, ficou amarrado por sua política de austeridade e não entregou o que havia prometido nas eleições.

Em 2022, depois de um catastrófico governo de Jair Bolsonaro, o povo queria e esperava mais e o governo não pôde oferecer porque estava comprometido com a responsabilidade fiscal ditada pelo mercado e seus representantes. 

O esperado “revogaço” dos ataques estruturais de Temer e Bolsonaro não se realizou. As contrarreformas trabalhista e da previdência permaneceram intactas, tal como as privatizações, como a da Eletrobrás. O princípio do teto de gastos foi mantido, com um “arcabouço fiscal” um pouco mais flexível, mas que continuou impondo cortes e ataques, como contra o BPC, abono salarial e seguro defeso.

Juros altos, desaceleração econômica, endividamento das famílias, preços da cesta básica, precarização do trabalho, ausência de perspectiva de futuro, tudo isso faz parte da realidade de milhões de brasileiros.

As medidas tomadas nos últimos dias da campanha, como a proibição das ‘bets’, o Desenrola 3 e o aumento no bolsa família, têm sua importância. Mas além de não representarem mudanças estruturais, foram insuficientes e tardias. Também não apontam para um projeto de futuro.

Enquanto isso, o projeto de lei que acaba com a escala 6×1 ficou parado no senado apesar das negociações de Lula com Davi Alcolumbre. 

A luta nas ruas por demandas como essa, além de aumento salarial, tarifa zero, direitos trabalhistas e sociais, é o que pode penetrar nas bases de trabalhadores iludidos com o bolsonarismo e frustrados com Lula.

Essas são bandeiras que devem ser levantadas na luta no segundo turno e depois das eleições, mesmo que não sejam abraçadas pela direção da campanha de Lula.

Para virar o jogo agora e avançar nas conquistas

Mesmo com os limites e a falta de entusiasmo da campanha eleitoral no primeiro turno, estamos vendo como a ameaça concreta e palpável de uma vitória da extrema direita mudou o ambiente. 

Mobilizações de massas estão começando a acontecer com destaque para a juventude. É fundamental estimular essa ação independente e de massas.

Demonstrar força nas ruas é fundamental para recuperar a confiança e o ânimo duramente atingidos pelos limites da campanha de Lula no primeiro turno e o verdadeiro medo das mobilizações de rua que a direção Lulista vem demonstrando há tempos.

Além de tomar as ruas, é fundamental que o ativismo de massas esteja preparado e armado politicamente para conversar com a população, rua a rua, casa a casa, com uma proposta de mudança radical que só a força do povo organizado pode conquistar.

É preciso aproveitar esse momento para construir e manter uma organização que será necessária mais do que nunca no próximo período. 

Os núcleos, brigadas, comitês de luta e assembleias que estão se formando devem manter-se organizados e seguir atuando. Devem agir com independência de governos e da estrutura burocrática dos partidos governistas.

Votar 13 e conseguir mais e mais votos, ainda que críticos, para Lula é necessário e urgente. Mas a luta contra a extrema direita e o imperialismo trumpista será prolongada e exigirá uma profunda renovação socialista e revolucionária da esquerda.

Mais do que nunca é preciso levantar um programa anticapitalista e socialista como única alternativa viável à crise do capitalismo, à agressividade imperialista e à ameaça da extrema direita.

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