Eleições SP: extrema direita à frente e uma oportunidade perdida para a esquerda socialista

Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador, tem considerável vantagem eleitoral apontada nas pesquisas. Ele era o favorito da burguesia nacional para concorrer à presidência contra Lula. O projeto só foi abandonado quando o próprio Jair Bolsonaro interviu em favor de seu filho.
Essa preferência da burguesia por Tarcísio veio das características de seu governo, baseado em um programa agressivo contra direitos e serviços públicos. Ele também poderia manter o apoio do bolsonarismo sem necessariamente promover o mesmo nível de esgarçamento institucional do ex-presidente . De certa forma, Tarcísio apareceu à elite econômica paulista como um “Jair Bolsonaro sem a mesma retórica golpista”. O que não quer dizer que ele não adotaria o caminho de uma escalada bonapartista se as circunstâncias o permitissem.
Isso levou a uma verdadeira blindagem contra críticas a seu governo na mídia corporativa. De igual maneira, o governador contou com a tradicional hegemonia da direita no estado, estabelecendo uma maioria confortável de deputados estaduais em seu apoio. A sua vantagem eleitoral, principalmente no interior do estado, região mais vinculada ao agronegócio, garantiu, também, um amplo leque de alianças dos partidos de direita em seu entorno. Algo que o próprio filho de Bolsonaro não conseguiu na disputa presidencial.
Privatizações e piora de serviços
Apesar de seu favoritismo eleitoral, o governo de Tarcísio foi profundamente antipopular. Não há nenhuma grande marca do ponto de vista social. Os serviços públicos tiveram uma franca piora com privatizações e rebaixamento nas condições do funcionalismo. Isso se concretizou na venda da Sabesp, com entrega das ações da lucrativa empresa por uma cotação muito abaixo do real. Essa privatização resultou no encarecimento das tarifas de água, muito diferente do prometido na campanha—-.
No transporte sobre trilhos, as concessões de Tarcísio somaram-se às de Doria e Alckmin, aumentando as falhas e tornando a vida cotidiana dos passageiros um verdadeiro caos. Além disso, continuam seguindo o modelo do Fundo de Compensação que, na prática, permite que as empresas privadas de transporte abocanhem os recursos gerados pelas estatais, parasitando-as.
Na educação, Tarcísio, em aliança com Ricardo Nunes, avança sobre os sistemas estadual e municipal de ensino, entregando-os para a iniciativa privada através de contratos de serviços com verdadeiros lobbys do setor, ou promovem a privatização direta da gestão de escolas. Não satisfeito, o governador busca, ainda, agradar sua base conservadora convertendo escolas públicas em civil-militares. O resultado: queda do rendimento escolar estadual.
Na segurança pública há um aumento da letalidade policial a partir da liberalidade no uso de câmeras corporais garantida pelo seu secretário da segurança, inclusive com a ocorrência de chacinas. Evidentemente, isto não contribuiu para a melhoria nos índices de crimes, com alguns deles, como o feminicídio, batendo recordes de ocorrência. As forças de segurança foram utilizadas, de fato, contra os movimentos sociais. Assim foi na ocasião da brutal desocupação da Favela do Moinho, para atender aos interesses da especulação imobiliária no centro da capital.
Tarcísio ainda fez favores a grileiros regularizando terras públicas ocupadas por eles por valores muito abaixo dos preços de mercado. Além disso, nem mesmo o tarifaço de Trump, que atinge diretamente a produção econômica do estado, fez com que ele recuasse de sua aberta ligação com a extrema direita, com direito a cerimônia de condecoração a Javier Milei, quando de sua presença no estado.
Essa política de explícito favorecimento ao capital se complementou com o aumento das isenções fiscais às empresas. E, apesar de todo discurso de responsabilidade fiscal, o déficit orçamentário do estado aumentou. O programa da atual candidatura é basicamente uma continuidade.
Uma oposição com pouco entusiasmo
Segundo a pesquisa Datafolha, publicada em 11 de setembro, Tarcísio possui 49% das intenções de votos, contra 29% do principal candidato de oposição Fernando Haddad (PT). Haddad foi o ministro da fazenda do governo Lula 3. Sua condução econômica ficou marcada pelo advento do Arcabouço Fiscal e uma busca implacável pela redução do déficit público. Isto significou a contenção de gastos em várias áreas sociais, ainda que algumas marcas progressistas tenham sido atingidas, como o caso do aumento da faixa de isenção do imposto de renda.
Haddad é, certamente, muito diferente da extrema direita, na medida em que se compromete com o regime democrático e não encampa campanhas reacionárias nas “pautas de costumes”, por exemplo. Contudo, ele não é um defensor ativo do avanço de direitos, assim como mantém um programa impopular em diversos aspectos. O mais gritante é seu declarado apoio à política de privatizações dos serviços públicos, tendo ele próprio sido autor da Lei de Parcerias Público-Privadas. Haddad se diz, no máximo, contra privatizações “mal feitas”, que seriam os casos daquelas realizadas por Tarcísio em sua opinião. Ainda assim, se recusa a “vender ilusões” de reestatização.
Se na disputa contra a extrema direita, Lula usou a imagem de seu passado como sindicalista, realizando o primeiro ato de campanha no estádio da Vila Euclides, Haddad não segue este caminho. Performa um discurso que pode soar até mesmo simpático ao empresariado de São Paulo, na medida em que parece querer se apresentar como um “gestor” mais competente do que a extrema direita conseguiria. Não é de espantar que a sua candidatura não desperte grande entusiasmo seja na massa do eleitorado, seja nos setores organizados da classe trabalhadora. Em grande medida, sabe-se que a candidatura de Haddad existe apenas para garantir um palanque estadual para Lula.
Uma oportunidade perdida para a esquerda socialista
Esta configuração, contraditoriamente, abriu mais espaço para os setores à esquerda do PT. Nesse cenário, as demais candidaturas do campo de esquerda (PSTU, UP, PCB e PCO) somam 8% na mesma pesquisa do Datafolha. Evidentemente, até a abertura das urnas esta margem tende a se estreitar (essa soma era de 10% na pesquisa de agosto) mas o dado aponta um significativo espaço que poderia ser ocupado por um programa frontalmente oposto ao representado por Tarcísio de Freitas.
Dessa maneira, a esquerda socialista perde uma oportunidade fundamental de fortalecer a sua presença no estado. Isto seria potencializado pela apresentação de uma candidatura unitária a partir de uma frente para as eleições e para as lutas, com um programa socialista. No entanto, as organizações deste campo terminaram por priorizar a autopropaganda, sequer debatendo seriamente esta possibilidade.
Por sua vez, a capitulação do PSOL ao campo petista foi praticamente completa. O partido priorizou atingir a cláusula de barreira eleitoral, apresentando apenas nomes para as eleições legislativas proporcionais, abdicando do papel de liderança do campo de esquerda que lhe cabia.
O grau de capitulação vai desde o apoio sem qualquer crítica ao programa de Fernando Haddad, até a aceitação da candidatura ao senado de Simone Tebet, parte de uma das mais tradicionais oligarquias latifundiárias do Centro-Oeste, e ex-senadora favorável ao golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, , com histórico de repressão contra a luta pela reforma agrária e dos povos indígenas.
Dado este cenário, a LSR declara apoio às candidaturas da Bancada Radical do PSOL para o legislativo (Sâmia Bomfim 5000 para deputada federal; Monica Seixas 50900, Mariana Conti 50100 e Debora Camilo 50500 para deputada estadual), e aos candidatos ao Senado do PSTU (Dra Eliana Ferreira 161 e Weller Gonçalves 160). Igualmente, apoiaremos a companheira Vera 16 (PSTU) para o governo estadual. Mas não se pode deixar de apontar os limites da esquerda neste cenário.
O caminho das lutas
Isto se deu mesmo com a ocorrência de importantes lutas no estado, apesar da contenção imposta pela maioria das lideranças sindicais. Foi o caso da heróica greve ferroviária em defesa dos empregos e contra as privatizações que obteve importantes vitórias. De igual maneira, os servidores da educação municipal da capital encabeçam uma nova articulação contra as privatizações de Ricardo Nunes. Mobilizações importantes como as greves unificadas da Sabesp, Metrô e CPTM, ocorreram durante todo o mandato de Tarcísio. Essa energia acabou não resultando em uma articulação real da esquerda, mas demonstra o caminho a ser seguido para o enfrentamento da extrema direita em São Paulo e em todo o país.
















