Violência dos colonos e do Estado israelense se intensifica na Cisjordânia — Por uma luta de massas internacional!

Sob a cobertura do terrível ataque israelense a Gaza, colonos de extrema direita e as Forças de Defesa de Israel (IDF) estão intensificando a violência contra os palestinos na Cisjordânia ocupada.
Atos de terrorismo israelense ocorrem diariamente. Desde o início da guerra em 2023, mais de mil palestinos na Cisjordânia foram mortos pelas IDF e por gangues de colonos de extrema direita. Eles regularmente ateiam fogo em casas, carros, árvores e campos, e os palestinos sofrem intimidações e violência constantes por parte de colonos armados apoiados pelos militares. Os colonos de extrema direita já mataram 25 palestinos neste ano, mais do que em todo o ano de 2025.
Nos dias que antecederam o feriado judaico de Yom Kippur, colonos religiosos realizaram novos ataques nas aldeias palestinas de Burqa e al-Daqiqa. Um colono disparou sua arma em Akraba, ferindo uma mulher, e outro espancou uma mulher com um porrete diante de sua casa em Khirbet al-Markaz. Colonos atacaram famílias palestinas e ativistas israelenses de esquerda nos arredores de Taybeh. Mais tarde, um colono foi morto por um palestino enquanto realizava um banho ritual em preparação para o feriado, o que levou a extrema direita israelense a defender a aplicação da pena de morte.
Resistir a todas as tentativas de anexação
Essa onda de violência não é acidental, nem está isolada dos acontecimentos mais amplos no Oriente Médio. No período que antecedeu a guerra de Gaza de 2023, o imperialismo estadunidense e seus aliados na região – principalmente o capitalismo israelense – identificaram uma oportunidade histórica para tentar mudar fundamentalmente as relações regionais e a correlação de forças a seu favor. A devastadora guerra em Gaza, juntamente com o severo enfraquecimento de muitas forças pró-iranianas – incluindo a queda da ditadura de Assad na Síria e o revés sofrido pela milícia do Hezbollah no Líbano –, levou o campo imperialista dos EUA e de Israel à conclusão de que poderiam transformar o Oriente Médio em uma zona comercial “amiga” sob seu controle. Esse processo de mudança da correlação de forças em favor do imperialismo estadunidense-israelense sofreu um grande revés como resultado dos desastrosos erros de cálculo de Trump no Irã. No entanto, o imperialismo estadunidense não desistiu de seus objetivos.
A ala de extrema direita do governo israelense, personificada por figuras como Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir – que nutrem aspirações messiânicas de assumir totalmente o controle do território ocupado –, estava mais do que preparada para assumir esse projeto. Outros membros do governo manifestaram disposição para anexar parte ou a totalidade do território. Nesse cenário, mesmo que os palestinos fossem autorizados a permanecer na Cisjordânia, o Estado não lhes concederia direitos democráticos básicos, como cidadania ou direito ao voto, temendo que isso acabasse com o caráter judeu do Estado. Dar esse passo transformaria o Estado de Israel em um Estado de apartheid pleno.
Essas aspirações, respaldadas pela realidade de uma ocupação ampliada no terreno e pela destruição genocida de Gaza, sepultam a ideia de dois Estados em uma base capitalista.
O cerco de Qusra
Em setembro, o Reino Unido, a França, o Canadá e outros 12 governos declararam a proibição ou restrições aos produtos fabricados nos assentamentos israelenses. Esse ato simbólico e de alcance limitado é uma reação ao grande aumento da violência e à indignação que isso provocou.
Em julho, um grupo de colonos lançou ataques contra a aldeia palestina de Tell. Durante o violento ataque, um palestino, o Sheikh Farouk Ramadan, conseguiu arrancar uma arma de um dos colonos. Ao final do confronto, Ramadan e outros três palestinos foram mortos a tiros pelas IDF, assim como um colono e um soldado, mortos por Ramadan. A mídia israelense se apressou em declarar Ramadan um terrorista, mas provas em vídeo e investigações posteriores mostraram que ele agiu em legítima defesa e foi baleado enquanto estava desarmado e recuava.
Após o incidente, forças militares entraram em ação para cercar Tell, bem como as aldeias vizinhas de Burin, Irak Burin e Beit Furik, permitindo que gangues de colonos invadissem as aldeias e aterrorizassem a população local. Isso se repetiu em aldeias próximas a Tulkarm e em outras localidades. A casa de Ramadan foi demolida e seus vizinhos foram obrigados a se retirar. Essas ações são apenas exemplos de muitas outras incursões sistemáticas, intimidações, assassinatos e apropriações de terras que aumentaram drasticamente desde 7 de outubro de 2023.
Em agosto, grupos de colonos tomaram à força casas na vila de Qusra, uma delas enquanto a família ainda estava dentro. O caso ganhou notoriedade porque o proprietário de uma das casas, um cidadão estadunidense, assistia aos eventos ao vivo de sua casa em Ohio por meio de câmeras de segurança. Várias famílias palestinas com cidadania estadunidense começaram a hastear a bandeira dos EUA na esperança de que isso dissuadisse os colonos e lhes proporcionasse alguma proteção por parte dos EUA, mas sem sucesso. Famílias palestinas em casas próximas receberam ordens das IDF para evacuar a área enquanto os militares supostamente enfrentavam os colonos. No entanto, temendo que nunca mais fossem autorizadas a voltar, as famílias permaneceram em suas casas, essencialmente sitiadas.
Essa realidade explica por que uma esmagadora maioria dos palestinos da Cisjordânia identifica a violência dos colonos (96%) e as operações das IDF na Cisjordânia (91%) como suas preocupações centrais, ao lado do desemprego (97%), de acordo com uma nova pesquisa com palestinos da Cisjordânia realizada pelo Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) da Universidade de Tel Aviv.
A maioria da sociedade israelense se opõe às ações dos colonos de extrema direita. Um relatório após o outro mostra que as forças armadas dão cobertura às gangues de colonos. O contrário também é verdadeiro: os colonos dão cobertura às forças armadas israelenses e ao Estado. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, responsável por assassinatos em massa, criticou cinicamente os colonos e fez uma distinção entre a maioria “cumpridora da lei” e a minoria “criminosa”. Da mesma forma, um número crescente de figuras militares israelenses, atuais e antigas, tem se manifestado contra o terrorismo dos colonos.
Essas críticas, no entanto, não têm como objetivo pôr fim ao colonialismo israelense na Cisjordânia, à contínua limpeza étnica em Jerusalém Oriental ou ao crescente militarismo de Israel na região. Pelo contrário, visam tornar asséptica a ocupação e legitimá-la, apontando o dedo aos extremistas que mancham a reputação de Israel no cenário mundial, sem fazer nada para detê-los. Na prática, as ações dos colonos servem ao projeto colonialista israelense e aos seus apoiadores estadunidenses em seu objetivo de eliminar qualquer ameaça ao seu poder na região.
A devastação continua em Gaza
A destruição em massa em Gaza prossegue. Um prédio danificado por um bombardeio israelense desabou recentemente, matando 21 moradores. Estimativas conservadoras apontam para mais de 76 mil mortes desde 7 de outubro, sendo a maioria civis, incluindo dezenas de milhares de mulheres e crianças.
Segundo a pesquisa antes mencionada, “a opção mais escolhida para governar a Faixa de Gaza foi um governo tecnocrático, escolhido por 32%; 21% optaram pela Autoridade Palestina, 21% escolheram um governo de unidade Fatah-Hamas e apenas 5% escolheram o Hamas”.
Embora o retorno dos assentamentos israelenses e a expulsão em massa de palestinos de Gaza não sejam prováveis em um futuro próximo, é necessária uma luta de massas contra essas ameaças e para reverter urgentemente a ocupação militar e sua tentativa de instalar um governo tecnocrático ditatorial. Não há outro caminho senão a construção de organizações de base e comitês de luta da classe trabalhadora como alicerce para um governo de trabalhadores não sectário, em oposição ao reacionário Hamas ou à colaboracionista Autoridade Palestina.
Isso deve estar vinculado a um movimento internacional de solidariedade de massas. A Coalizão da Flotilha da Liberdade está organizando uma nova tentativa de romper o cerco a Gaza a partir de portos europeus, com previsão de chegada em outubro. Sindicatos de trabalhadores portuários em seis países anunciaram um dia de ação em 30 de outubro para coincidir com essa iniciativa, o que deve servir como ponto de mobilização para o movimento de solidariedade à Palestina e contra a guerra em todo o mundo.
Eleições em Israel e o filme que aterroriza o Estado
As eleições em Israel estão previstas para o final de outubro. Pesquisas mostram uma leve vantagem dos partidos de oposição sobre a coalizão de Netanyahu, mas sem que nenhum dos lados alcance a maioria necessária.
Nenhum dos blocos eleitorais oferece uma alternativa à destruição em massa e à morte causadas pela guerra de três anos ou pelas décadas de ocupação e cerco que a antecederam. O que é necessário é uma luta de massas vinda da base para desafiar o poder do capitalismo israelense, incluindo a criação de um novo partido de luta da classe trabalhadora em Israel. Em uma medida antidemocrática, a comissão eleitoral decidiu desqualificar candidatos de partidos palestinos e comunistas, bem como da coalizão “Lista Conjunta”. A decisão final caberá à Suprema Corte. Além de as pesquisas indicarem que, somados, esses partidos conquistariam a terceira maior bancada, é provável que eles também sejam decisivos para definir se a oposição a Netanyahu conseguirá ou não formar o próximo governo.
Em pânico com a possibilidade de derrota, o grupo de Netanyahu abraçou uma nova teoria da conspiração, segundo a qual uma importante figura da oposição sabia, com antecedência, o horário e o local exatos do ataque de 7 de outubro e não avisou Netanyahu. Essa teoria foi difundida pela esposa de Netanyahu em uma entrevista televisiva. O Canal 13 de Israel revelou que 63% dos eleitores da coalizão de Netanyahu acreditam nessa versão. A popularidade dessa teoria ilustra a profunda incapacidade do regime israelense de explicar sua falha em proteger os civis em 7 de outubro.
Em um movimento estrategicamente cronometrado para ocorrer antes das eleições, o regime israelense alegou que um novo documentário, produzido pelos cineastas israelenses Rachel Szor e Yuval Abraham, poderá causar danos irreversíveis ao Estado. Intitulado NAZA (termo militar israelense para “danos colaterais”), o filme baseia-se em investigações jornalísticas e entrevistas com soldados e oficiais israelenses que testemunharam assassinatos sistemáticos em Gaza. Mesmo antes de o filme ser exibido, a direita israelense já intensificou as ameaças contra os cineastas. O ministro da Cultura e do Esporte solicitou oficialmente a revogação da cidadania deles. Embora seja pouco provável que isso aconteça, a medida não deixa de ser uma tentativa desesperada de angariar apoio político antes das eleições.
A necessidade de um programa socialista
Uma das estratégias centrais do movimento antiguerra é pressionar instituições poderosas para que retirem seus investimentos de empresas israelenses. Essa é uma demanda positiva e, compreensivelmente, vista muitas vezes como a única maneira de ativistas fora de Israel-Palestina causarem um impacto real. No entanto, não devemos depositar confiança de que essas instituições – elas próprias, muitas vezes, instrumentos de opressão e guerra – ficarão ao lado dos povos oprimidos.
O movimento também tem exigido o fim de toda a ajuda militar dos EUA a Israel, algo que apoiamos plenamente. Mas, em resposta, nacionalistas de direita nos EUA tentaram intervir de forma oportunista com a narrativa de que o Estado de Israel é quem controla os EUA como uma marionete. Isso isenta o imperialismo estadunidense de sua responsabilidade ao ofuscar seus reais interesses na região e, de fato, reduz seu apoio a Israel apenas a valores monetários, muitas vezes recorrendo a estereótipos antissemitas. Na realidade, a ajuda militar dos EUA representa cerca de 15% a 20% do orçamento total de defesa de Israel – uma parcela importante, mas ainda assim apenas uma parte – e o Estado de Israel, assim como outros aliados dos EUA, busca uma maior autossuficiência militar. Israel e os EUA compartilham um interesse mais fundamental na região, e o impacto real dos EUA sobre Israel vai muito além da ajuda militar, baseando-se na garantia de todo o seu poderio caso Israel sofra uma ameaça real. Em contrapartida, Israel atua como uma guarnição para o imperialismo estadunidense e como defensor de suas políticas e interesses no terreno.
O fim da ajuda militar dos EUA a Israel seria um passo importante, capaz de fortalecer o movimento internacionalmente, mas, por si só, não bastaria para deter os crimes do imperialismo israelense ou estadunidense. Portanto, todos aqueles que se opõem à guerra, à ocupação e à opressão devem ir além de argumentos estritamente monetários e de outras demandas mínimas, construindo um movimento de massas em oposição a todas as forças imperialistas. Tal movimento deve exigir:
- O fim imediato da ocupação, do cerco e da guerra por parte de Israel.
- A remoção de todos os assentamentos colonialistas e das forças militares da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Oriental.
- O direito de todos os palestinos deslocados retornarem à sua terra natal.
- Por uma luta socialista em ambos os lados da divisão nacional, apoiada pelo movimento internacional de massas da classe trabalhadora e pelo movimento antiguerra.
A luta deve priorizar o direito dos palestinos a uma independência nacional genuína sobre bases socialistas, ao mesmo tempo em que luta por uma mudança revolucionária em Israel, no contexto de uma luta regional por um Oriente Médio socialista. Isso significa o fim de toda intervenção imperialista, uma paz genuína baseada na solidariedade – como parte de uma confederação socialista voluntária para o bem-estar de todos – e a garantia dos direitos de todas as minorias. Somente com base nisso seria possível superar as forças nacionalistas e pró-imperialistas, bem como o sistema capitalista a que elas servem.
















