América Latina na mira do imperialismo

A extrema-direita venceu uma série de eleições no último período na América Latina, mais recentemente no Peru e na Colômbia. Donald Trump está saqueando a Venezuela, impõe um bloqueio mortífero sobre Cuba e tenta influenciar as eleições no Brasil impondo novas tarifas. Enquanto isso, na Bolívia uma poderosa greve geral de 50 dias foi descarrilada pela direção sindical. 

A América Latina reflete as tendências centrais da nossa época: a profunda crise do sistema capitalista, o aprofundamento do conflito interimperialista, a ascensão da extrema-direita, a falência do reformismo e, mais importante, o potencial de resistência da classe trabalhadora e para a construção de uma esquerda socialista revolucionária.

Intervenção imperialista escancarada

Sob o governo Trump, o imperialismo dos EUA interveio abertamente  em todo o continente, reivindicando a hegemonia de seu “quintal” sob a nova “Doutrina Donroe”. Parte fundamental  deste movimento é conter a influência da China, com Trump começando seu segundo mandato pressionando para expulsar empresas chinesas do Canal do Panamá.

A ofensiva imperialista também envolve interferência política e apoio direto à extrema-direita em toda a América Latina. País após país tem visto a vitória de candidatos de direita ou de extrema-direita em eleições recentes, incluindo Argentina, Equador, Chile, Bolívia, Honduras, Costa Rica, e agora Peru e Colômbia.

Mas há também uma contínua ameaça e agressão militar direta dos EUA na região. Desde setembro de 2025, 227 pessoas foram mortas em 68 ataques a barcos sob o pretexto de combater o tráfico de drogas, além da ação militar que sequestrou Nicolás Maduro e Cilia Flores na Venezuela.

A Venezuela está sendo saqueada

A presidenta em exercício, Delcy Rodríguez, que era vice-presidente de Maduro, age agora como uma marionete dos EUA. Marco Rubio, Secretário de Estado de Trump, está dando as cartas e sendo chamado de “vice-rei”, de acordo com o The New York Times.

A receita das exportações de petróleo está sob controle dos EUA. Segundo o Financial Times, o governo Trump arrecadou mais de US$ 13 bilhões em receitas de vendas de petróleo venezuelano no primeiro semestre, ficando com 97,5%! Isso em meio a um terremoto devastador que deixou 6,5 mil mortos e 30 mil desaparecidos.

Em 1 de setembro, foi anunciado um acordo  no qual o controle de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano (mais do que toda a reserva de petróleo dos EUA) ficaria sob o controle de uma petrolífera estadunidense, North American Blue Energy Partners. O governo nos EUA ficaria com 35% das ações da empresa e teria direito a comprar 20% da produção (ou até 100% em situação de “emergência”) a preço de custo.

Devido a uma longa crise econômica, má gestão burocrática e medidas crescentemente autoritárias, incluindo contra a esquerda e sindicatos, o governo Maduro era profundamente impopular, levando as pesquisas iniciais a mostrarem forte apoio à intervenção dos EUA. No entanto, esse apoio está colapsando rapidamente, particularmente dada a resposta tardia e inadequada à catástrofe dos terremotos.

Cuba: o próximo alvo de Trump

Trump agora tem agora Cuba em sua mira. Embora uma invasão terrestre direta permaneça improvável, ataques militares para pressionar o regime não podem ser descartados.

Desde janeiro, o bloqueio energético e as sanções de Trump aprofundaram a crise humanitária e exerceram imensa pressão sobre o governo cubano. Ao mesmo tempo, Díaz-Canel está promovendo as reformas pró-capitalistas mais profundas que Cuba já viu.

Essas reformas abrem as portas para grandes bancos e corporações privadas, acabam com o monopólio estatal do comércio exterior e permitem a privatização de empresas estatais. Díaz-Canel está tentando sinalizar para Trump que derrubar o regime é desnecessário para garantir os interesses capitalistas e imperialistas. Essa estratégia de capitulação não funcionou na Venezuela.

Nenhum dos governos ditos progressistas enfrentou efetivamente o imperialismo dos EUA. Cabe à classe trabalhadora internacional, incluindo os trabalhadores nos EUA, construir um poderoso movimento de solidariedade que pressione os governos para acabar com o bloqueio.

A onda de vitórias eleitorais da extrema-direita

O sucesso de Trump e a ascensão da extrema-direita na América Latina decorrem da profunda crise do sistema capitalista, mas também dos fracassos dos governos de centro-esquerda.

Vários governos da chamada segunda “Onda Rosa” chegaram ao poder apoiados em movimentos de massa – como no Chile, Peru e Colômbia – mas falharam em mudar as estruturas do poder econômico. Isso ocorreu enquanto grandes setores da classe dominante realizavam uma guinada reacionária para proteger sua riqueza, apoiando-se na extrema-direita.

Esses governos de direita agora estão atacando os direitos dos trabalhadores, cortando serviços públicos, privatizando e abrindo acesso para corporações dos EUA a minerais críticos como lítio, cobre e terras raras. Seguindo o manual de Javier “Motosserra” Milei, Espriella se comprometeu a cortar os gastos públicos em 40%.

Essas políticas econômicas são combinadas com ataques aos direitos democráticos e aumento da repressão. Noboa no Equador, Espriella na Colômbia e Fujimori no Peru estão imitando o modelo de encarceramento em massa de Nayib Bukele em El Salvador, prometendo mega presídios com condições horrorosas.

El Salvador permanece sob estado de exceção desde 2022. De acordo com organizações de direitos humanos, mais de 500 pessoas morreram nas prisões devido à tortura e outros maus-tratos físicos. El Salvador tem agora a maior taxa de encarceramento do mundo, 3% da população adulta. Essas táticas de estado policial são projetadas para aterrorizar qualquer oposição política.

No Chile, José Antonio Kast defende agora um “registro de vândalos e atos de incivilidade” para retirar direitos sociais – como educação gratuita, aposentadoria e moradia popular – de qualquer pessoa que ataque a polícia, bloqueie transportes, piche ou use drogas em espaços públicos. Kast também está propondo um muro na fronteira para conter a imigração “ilegal”.

A resistência da classe trabalhadora 

No entanto, esses governos enfrentam resistência. Milei já enfrentou quatro greves gerais desde que assumiu o cargo. O governo de Kast foi recebido com protestos imediatos liderados por estudantes contra seus planos de cortar gastos públicos, proteções ambientais e subsídios aos combustíveis.

A Bolívia viu esse ano um dos movimentos de massa mais poderosos da região. Rodrigo Paz foi eleito como um candidato de direita “moderado”, mas iniciou seu governo imediatamente atacando a população. Entre os ataques estavam o aumento dos preços dos combustíveis e a retirada da proteção de terras conquistadas por pequenos agricultores e povos indígenas após a revolução de 1952.

Isso provocou uma luta de massas a partir de 1º de maio, marcada por uma greve geral de 50 dias e até 150 bloqueios de estradas em todo o país, apesar da intensa repressão estatal e de confrontos com grupos fascistas. No entanto, em 19 de junho, a COB (Central Operária Boliviana) chegou a um acordo com o governo, abandonando a exigência “Fora Paz”.

Imediatamente após o acordo, Paz declarou estado de exceção para esmagar a resistência restante. Isso reflete um padrão persistente na região: lideranças sindicais e de esquerda aceitando conciliações por falta de fé na capacidade da classe trabalhadora ou por se recusarem a lutar por mudanças estruturais. Vimos isso em 2019, quando os presidentes Piñera no Chile e Moreno no Equador estavam nas cordas, apenas para serem salvos por acordos apoiados pelas lideranças.

Construir uma alternativa socialista

Apesar disso, a classe trabalhadora está longe de ser derrotada, e não há espaço para estabilidade sob o capitalismo. Estamos entrando em um período de acirramento da luta de classes que irá abrir grandes oportunidades para construir a esquerda socialista revolucionária.

Na Argentina, por exemplo, a popularidade de Milei está caindo, com mais de 60% avaliando-o negativamente em meio à disparada da inflação, desemprego, escândalos de corrupção e colapso no padrão de vida. A oposição peronista continua desmoralizada e paralisada, abrindo espaço à sua esquerda. Myriam Bregman, deputada do FIT-U (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade), tem surgido como a maior taxa de aprovação entre as principais figuras políticas. A questão é se as forças dentro do FIT-U podem superar suas divisões internas e transformar essa oportunidade em algo mais do que uma frente eleitoral de esquerda. De qualquer forma, isso destaca o potencial crescente para as ideias socialistas na Argentina e em toda a região.

Porém, para isso é necessário tirar as lições políticas dessas lutas e dos limites dos governos ditos “progressistas”, construindo uma força política capaz de levar a luta até suas últimas consequências, derrotando a extrema-direita, o imperialismo e o sistema que gera esses monstros. 

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