A crise na China se agrava: 48 milhões de desempregados

A taxa real de desemprego na China é de 10,2%, segundo um importante economista chinês. Esse número é o dobro da taxa oficial divulgada pelo regime do PCC. Isso significa cerca de 48 milhões de pessoas sem emprego – mais do que a população total da Espanha ou da Argentina. Além disso, até mesmo esse número não reflete o verdadeiro nível de desemprego na China, pois os desempregados da zona rural não são contabilizados.
Essa foi uma das várias revelações surpreendentes em um discurso feito por Li Daokui, da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade de Tsinghua, consultor de longa data dos líderes do PCC e do banco central da China.
Em seu discurso Li rejeitou a ideia – amplamente divulgada pelo regime de Xi Jinping – de que os setores de crescimento atuais, como a manufatura avançada e a inteligência artificial, possam “alavancar toda a economia”.
Economistas chineses correm riscos pessoais significativos se ultrapassarem as restrições oficiais quanto à divulgação de “notícias negativas”. É evidente que eles devem estar muito inquietos para ousarem colocar um ponto de interrogação na narrativa oficial do governo. Os economistas chineses hoje se encontram praticamente na mesma situação dos trabalhadores da saúde dos hospitais que tentaram alertar sobre uma catástrofe de saúde pública iminente no final de 2019 (Covid-19).
Gao Shanwen, outro economista proeminente que em 2024 ganhou as manchetes ao questionar a confiabilidade das estatísticas oficiais do PIB da China, foi punido, silenciado e afastado de seu cargo de economista-chefe da SDIC Securities. Xi Jinping ordenou pessoalmente que Gao fosse investigado. Isso ocorreu porque Gao afirmou que a taxa de crescimento da China provavelmente estava mais próxima de 2% do que do número oficial do governo, de 5%, na época.
A economia desacelera
O ano de 2026 viu a desaceleração econômica da China se aprofundar ainda mais. Isso tem sido parcialmente mascarado pelas exportações, que continuam crescendo, enquanto todos os outros índices econômicos apresentam queda.
O governo divulgou dados do PIB em 15 de julho, mostrando um crescimento de 4,3% no segundo trimestre. Excluindo o período de lockdown da política “Covid Zero”, esse é o pior resultado desde que os dados do PIB começaram a ser publicados na década de 1990. Nós, assim como um número crescente de pessoas, entendemos que o PIB da China e outros dados econômicos são manipulados para parecerem melhores, a fim de evitar o pânico entre os investidores e manter a “confiança” dos mercados.
O investimento está em declínio há mais de um ano, mostram os números oficiais. O investimento em ativos fixos caiu 5,7% nos primeiros seis meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. O modelo econômico autoritário de capitalismo de Estado da China é tradicionalmente muito mais dependente do investimento do que outras economias capitalistas. O fato de o investimento entrar em declínio representa uma grande mudança.
Cresce o desemprego e trabalhos informais
A força de trabalho urbana é de aproximadamente 475 milhões de pessoas, mas 40% desse total – cerca de 190 milhões de trabalhadores – são migrantes a quem é negado o acesso ao seguro-desemprego. A atual taxa de desemprego oficial é 5% (cerca de 24 milhões de desempregados). Os cálculos de Li Daokui acrescentam mais 24 milhões de desempregados “desalentados de longa data”, resultando em um total mais preciso de 48 milhões. O desemprego nas áreas rurais não é contabilizado de forma alguma.
Este ano, 450 mil alunos a menos prestaram o gaokao (vestibular nacional). Este é o segundo ano consecutivo de queda. A redução no número de candidatos ao exame é maior do que a queda no número de jovens de 18 anos.
À medida que a taxa de natalidade da China entra em colapso, isso irá gerar pressões ainda maiores. O total de 7,92 milhões de nascimentos no ano passado é menos da metade do nível registrado quando Xi Jinping assumiu o poder em 2012 (19,7 milhões). Mas a principal razão pela qual menos pessoas estão prestando o gaokao hoje é que um número crescente de jovens considera que a educação universitária é inútil na era do desemprego em massa.
Este ano, um número recorde de 12,7 milhões de pessoas se formaram. Elas entram em um mercado de trabalho brutalmente competitivo, tornado ainda mais traiçoeiro pela campanha fanática do PCC em adotar a IA, que está eliminando milhões de empregos de colarinho branco e pressionando ainda mais os salários. A obsessão do regime de Xi pela IA é um subproduto do confronto com o imperialismo estadunidense. A guerra na Ucrânia e, especialmente, a guerra no Irã mostram que o mundo entrou na era da guerra da IA e até mesmo do “imperialismo da IA”.
A economia informal de trabalhos temporários por aplicativo, sem aposentadoria, plano de saúde ou proteção trabalhista, abrange agora 44% da força de trabalho. O emprego no setor manufatureiro caiu de 52,4 milhões em 2014 para 36,8 milhões em 2024. No setor de construção, abalado pela crise imobiliária e de infraestrutura, o emprego caiu de 29,2 milhões em 2014 para 13,5 milhões em 2024, de acordo com o Anuário Estatístico do Trabalho da China de 2025.
Corte de salário e demissões nos setores de ponta
Os salários estão caindo em toda a economia. Funcionários dos governos locais, médicos, professores, trabalhadores do transporte e outros têm enfrentado vários anos de atrasos salariais à medida que a crise da dívida dos governos locais se intensifica.
Demissões e cortes salariais afetam trabalhadores em quase todos os setores, incluindo as “novas forças produtivas” preferidas por Xi, como empresas de energia solar, veículos elétricos e tecnologia. A BYD, quinta maior montadora do mundo, reduziu os salários da linha de montagem de 5.000 a 6.800 yuans para 3.000 a 4.000 yuans no ano passado, como parte de uma acirrada guerra de preços no setor de veículos elétricos da China. A BYD também cortou 100 mil empregos no ano passado. Em 2025, as maiores empresas do setor de energia solar registraram um prejuízo de US$ 60 bilhões e cortaram 87 mil empregos.
Devido às guerras de preços decorrentes de níveis absurdos de excesso de capacidade, 24% das empresas industriais chinesas tiveram prejuízo no ano passado. A parcela dos empréstimos destinados a empresas industriais dobrou nos últimos dez anos. “A relação entre a dívida das empresas chinesas e o PIB está entre as mais altas do mundo e continua a aumentar”, relata o FMI.
Governos locais – um “buraco negro”
Li argumenta que mesmo os impactos econômicos decorrentes da recessão no setor imobiliário são pequenos em comparação com a contração dos governos locais, que se tornaram, na prática, um “buraco negro” que drena a energia da economia. Segundo Li, os governos locais têm sido um dos principais motores do crescimento do PIB nas últimas duas décadas, representando 41% do PIB, comparado com o consumo (35% a 38% – dado fornecido por ele) ou as exportações (25% – dado proveniente da Autoridade Monetária de Hong Kong).
Esse é um processo que nós, marxistas, temos acompanhado atentamente nos últimos anos. O colapso do setor imobiliário, que começou há seis anos, se espalhou para os governos locais, cuja base financeira havia, por muitos anos, se fundido com o setor imobiliário e inflacionado enormemente os preços dos terrenos. Esse esquema de pirâmide desmoronou, causando múltiplas crises financeiras nos governos locais e regionais da China, exigindo sucessivos e cada vez maiores resgates financeiros de Pequim.
Essa é uma parte fundamental do processo de “Japanificação” que temos discutido extensivamente. Não se trata apenas de um colapso imobiliário, como ocorreu no Japão no início da década de 1990, mas do enorme aumento da dívida que pesa como uma montanha sobre toda a economia. A relação dívida/PIB da China está agora em torno de 350%.
O resultado, embora não seja uma recessão profunda combinada com colapsos bancários, como ocorreu nos EUA em 2008 e no Sudeste Asiático em 1997, é, no entanto, uma fase prolongada de estagnação econômica que se estende por vários anos.
Não há saída com medidas burguesas
Onde nós, marxistas, discordamos de economistas burgueses como Li é em suas recomendações, que consistem principalmente em que Pequim duplique o tamanho do resgate aos governos locais. A lógica por trás disso é uma forma de “quantitative easing” (afrouxamento quantitativo), a política de compra maciça de títulos pelos bancos centrais como aplicada pelos EUA e outros países ocidentais após 2008.
Isso não resolveria nenhum dos problemas subjacentes da economia. Na verdade, sua solução é apenas uma variação, em maior escala, das políticas atuais do regime de Xi. Significa sustentar o setor dos governos locais com ainda mais dívida.
Tanto o capitalismo do Ocidente quanto o da China estão mergulhando em crises. A resposta à crise de “Japanificação” do capitalismo chinês não é “reformá-lo” segundo os padrões do capitalismo ocidental.
A única saída é a transformação socialista, baseada na derrubada da ditadura capitalista do PCC e em um plano econômico socialista e democraticamente organizado, com a propriedade pública de todas as grandes empresas sob o controle e a gestão democráticos da classe trabalhadora.
Isso exigiria uma democratização completa de todos os níveis e estruturas do governo e da economia, por meio de eleições livres, direitos democráticos imediatos e plenos, liberdade para os partidos políticos, liberdade de expressão e a abolição da censura autoritária. A criação de um movimento de trabalhadores independente para lutar por tal programa político socialista revolucionário é o ingrediente mais crucial para estabelecer as bases dessa solução.
















