A corrida armamentista mais perigosa da história da humanidade

O aumento constante dos arsenais nucleares está colocando em risco o futuro do planeta. O antigo slogan socialista “Para que o povo sobreviva, o militarismo deve morrer” tornou-se ainda mais verdadeiro e relevante. Embora haja menos armas nucleares hoje do que nas décadas de 1960 e 1970, os arsenais nucleares atuais poderiam destruir o planeta várias vezes.
Por exemplo, as ogivas de um único submarino nuclear dos EUA possuem sete vezes o poder destrutivo de todas as bombas lançadas durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo as duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão há 80 anos.
Hoje, nove países possuem armas nucleares. Além disso, 32 países estão reunidos sob o guarda-chuva atômico da aliança nuclear da OTAN. Ao mesmo tempo, as principais potências nucleares imperialistas – Estados Unidos, Rússia e China – estão modernizando seus arsenais nucleares em termos de quantidade e qualidade. No ritmo insano atual, o arsenal nuclear da China, por exemplo, terá dobrado até 2030.
“É uma visão generalizada em Washington que o futuro requer não apenas armas nucleares mais modernas, mas também mais delas”, escreveu o site de notícias Vox em fevereiro, alertando que “as barreiras de proteção nuclear estão desmoronando”.
Em conjunto, isso constitui a corrida armamentista mais perigosa da história da humanidade.
Como resultado do militarismo e de Trump, cada vez mais países estão dispostos a adquirir suas próprias armas nucleares, não apenas na Europa, mas também em outras partes do mundo. De acordo com o Financial Times em março deste ano, a tendência alarmante atual indica que o número de países com armas nucleares poderá chegar em breve a 25, talvez até 30.
O militarismo, combinado com um capitalismo cada vez mais autoritário, está reduzindo as limitações tanto para a aquisição quanto para o uso destas armas de destruição em massa, enquanto as potências nucleares estão cada vez menos dispostas a assinar acordos que limitem a corrida armamentista.
Com o Armagedom em jogo, as armas nucleares também estão se tornando cada vez mais envolvidas nos planos de guerra das potências imperialistas. Nesses planos apocalípticos, as armas nucleares táticas – que têm um alcance menor do que as armas nucleares estratégicas, mas ainda assim podem exterminar centenas de milhares de pessoas em segundos – são reduzidas a apenas mais uma arma entre muitas. Ao mesmo tempo, a ilusão de que uma guerra nuclear pode ser “limitada” ou mantida “sob controle” está sendo revivida.
“Hoje, fala-se de armas táticas pequenas e ataques limitados. Mas a ideia de que as armas nucleares podem ser usadas sem que tudo saia dos trilhos é uma ilusão perigosa”, disse Tytti Erästö, do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), à Forskning och Framsteg em 10 de abril.
Em agosto do ano passado, o New York Times noticiou que o então governo Biden havia adotado uma nova estratégia de armas nucleares que “ordena às forças armadas dos EUA que comecem a se preparar para um possível confronto nuclear com a China, a Coreia do Norte e a Rússia”. Representantes do imperialismo russo, especialmente o ex-presidente Dmitry Medvedev, que agora é vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, têm ameaçado repetidamente usar armas nucleares contra a Ucrânia e seus aliados.
“Não víamos as armas nucleares desempenharem um papel tão proeminente nas relações internacionais desde a Guerra Fria [1945-91, quando o mundo estava dividido em um bloco capitalista liderado pelos EUA e um bloco stalinista liderado pela União Soviética]. Estamos agora em um dos períodos mais perigosos da história da humanidade. Existem várias fontes de instabilidade, como rivalidade política, desigualdade econômica, decadência ecológica e uma corrida armamentista acelerada”, alertaram pesquisadores do SIPRI (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo) em junho do ano passado.
Nas décadas após a Segunda Guerra Mundial, o número de armas nucleares cresceu rapidamente. Houve momentos em que a humanidade prendeu a respiração diante da ameaça de uma guerra nuclear entre as duas superpotências, os EUA e a União Soviética. A Crise dos Mísseis de Cuba em 1962 foi um desses momentos assustadores. Durante 13 dias, o mundo esteve extremamente perto de uma guerra nuclear.
Menos conhecida é a ameaça que surgiu pouco mais de 20 anos depois, em conexão com o exercício militar Able Archer da OTAN, que envolveu armas nucleares e foi interpretado pela inteligência soviética como o início de um ataque da OTAN com mísseis nucleares. No último minuto, o Kremlin percebeu que se tratava de uma interpretação errônea. O fato de um exercício recorrente da OTAN ser confundido com o início de um ataque nuclear também se deveu ao fato de ter ocorrido em um momento de rápido rearmamento, quando os EUA, sob o comando do belicista Ronald Reagan, decidiram implantar novos mísseis na Europa Ocidental e planejavam o programa “Guerra nas Estrelas” – guerra espacial. Tudo isso foi recebido com enormes protestos em toda a Europa.
Movimento pela paz
Entre 1980 e 1983, milhões de pessoas participaram das muitas marchas pela paz realizadas na então Alemanha Ocidental. Em 1981, meio milhão de pessoas se manifestaram contra as armas nucleares em Amsterdã, na Holanda, e em Roma, na Itália. Em 1982, mais de 100 mil pessoas marcharam contra as armas nucleares em Gotemburgo, na Suécia. As marchas pela paz no início dos anos 80 se tornaram um dos maiores movimentos de massas de todos os tempos.
O militarismo, a corrida armamentista nuclear e a guerra de hoje também darão origem à resistência e a uma nova onda de antimilitarismo, como se pode vislumbrar no movimento global de protesto contra a guerra genocida em Gaza.
Apesar de suas diferenças antagônicas, os blocos capitalista e stalinista estavam unidos pelo medo de revoltas de massas e pelo desejo comum de não perturbar a ordem mundial construída sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial. Isso, juntamente com a percepção de que uma guerra nuclear significaria destruição, criou um cenário de equilíbrio baseado na ideia de “destruição mútua assegurada”, expressão conhecida como MAD, a partir de sua abreviação em inglês.
Essa ordem mundial já não existe há muito tempo. As esperanças e promessas de que o colapso do stalinismo seria o início de um mundo mais pacífico foram destruídas pela classe dominante. Hoje, o mundo está dividido por uma rivalidade crescente entre potências imperialistas, especialmente entre os EUA e a China. As lutas pelo poder imperialista resultaram em uma nova corrida armamentista militar e levaram o mundo a uma nova era nuclear, mais arriscada e perigosa do que antes.
Este ano, várias linhas vermelhas foram ultrapassadas rapidamente e, na corrida para a guerra, as armas nucleares assumiram um lugar cada vez mais proeminente. O governo francês quer estender seu guarda-chuva nuclear ao resto da Europa. O governo polonês está caminhando para o desenvolvimento de suas próprias armas nucleares, e o novo governo alemão – uma coalizão entre a direita (CDU/CSU) e a social-democracia (SPD) – é a favor de mais armas nucleares na Europa. Em vez de a região nórdica se tornar uma zona livre de armas nucleares, agora há apelos para que ela se torne uma união nuclear e até mesmo para que a Suécia adquira suas próprias armas nucleares.
“Hoje, em 2025, ter nossas próprias armas nucleares daria credibilidade às promessas de apoio da Suécia à Ucrânia e aos aliados da OTAN. Uma ‘bomba azul e amarela’ poderia até mesmo ser desenvolvida em colaboração com a Ucrânia, que ainda na década de 1990 era a terceira maior potência nuclear do mundo. A Suécia possui grandes depósitos de urânio e conhecimento técnico, e a Ucrânia tem a experiência de armazenar armas nucleares em seu próprio território, algo que nos falta”, escreveu Johan Wennström, pesquisador convidado da Universidade de Defesa da Suécia, em um artigo de opinião publicado no Expressen em março.
A Coreia do Sul também está considerando planos para o país desenvolver suas próprias armas nucleares. “O presidente deposto Yoon abriu as portas para as armas nucleares, mas seu provável sucessor, Lee Jae-myung, que lidera o maior partido da oposição, o Partido Democrático – que era anteriormente um forte opositor das armas nucleares – também não descarta a possibilidade de o país desenvolver suas próprias armas nucleares” (Politico, 10 de abril). De acordo com estimativas, levaria apenas um ano para a Coreia do Sul desenvolver suas próprias armas nucleares.
Para o regime ditatorial da Coreia do Norte, as armas nucleares se tornaram uma apólice de seguro de vida, com o objetivo de impedir invasões estrangeiras e intimidar a população para que se submeta. O regime iraniano também não está sozinho no Oriente Médio na tentativa de permanecer no poder através da aquisição de armas nucleares. O programa de energia nuclear da família real saudita também inclui planos para desenvolver armas nucleares, e as armas nucleares também fazem parte dos planos de Erdoğan para a Turquia como superpotência.
Os social-democratas suecos também se opuseram por muito tempo às armas nucleares. Mas isso mudou com o aburguesamento do partido. Para não comprometer a cooperação militar com os EUA e a OTAN, o então governo liderado pela social-democracia se recusou a assinar o acordo da ONU para a proibição de armas nucleares em 2019. Até então, ele havia apoiado o acordo.
Na Suécia de hoje, até mesmo a liderança do Partido de Esquerda, após dar seu apoio ao atual aumento de gastos militares sem precedentes, está abandonando sua oposição às armas nucleares. De acordo com o ex-líder do Partido de Esquerda Jonas Sjöstedt, que agora ocupa uma cadeira no Parlamento Europeu, não é o momento certo para abolir as armas nucleares na Europa. “Não vivemos em um mundo onde o desarmamento e um mundo livre de armas nucleares sejam possíveis”, disse Sjöstedt ao programa 30 minuter da TV estatal em 20 de março.
A verdade é o oposto disso. Mais do que nunca, precisamos de uma luta contra o militarismo e de uma esquerda socialista que trace uma linha vermelha clara contra o aumento do poderio militar e as armas nucleares.
Somente um movimento de massas liderado pela classe trabalhadora pode impedir a catástrofe que a nova era nuclear representa.
A ameaça de uma guerra nuclear, juntamente com a crise climática e ambiental em aceleração, é uma espada de Dâmocles que ainda paira sobre a sobrevivência da humanidade e do planeta.
A menos que um novo movimento socialista e global dos trabalhadores seja construído, há um risco iminente de que os acontecimentos saiam do controle, com regimes ditatoriais desesperados em crise, presos por seu próprio belicismo, começando a ver as armas nucleares como uma forma possível de garantir o poder e a dominação. Os piores belicistas de Washington já não escondem o fato de que uma guerra por Taiwan terá uma “dinâmica nuclear”, e a ameaça do imperialismo russo de usar armas nucleares táticas na guerra da Ucrânia dá uma ideia dos horrores que o futuro reserva.
A guerra entre as superpotências imperialistas, uma nova guerra mundial, não é iminente. Mas o crescimento dos arsenais nucleares faz parte das irreconciliáveis lutas de poder imperialistas e faz parte dos preparativos para a guerra.
O internacionalismo e a solidariedade, essenciais para os socialistas, exigem uma oposição intransigente ao aumento do poderio militar e às guerras de nossa própria classe dominante. A luta pela paz é uma luta pelo socialismo global.
As muitas nuvens sombrias que se acumulam sobre o futuro da humanidade e do planeta espalham um sentimento de desesperança e paralisia. Sem compreensão política e fé nas possibilidades da luta de massas, é fácil desistir ou deixar-se levar pelos ventos temporários da opinião pública para abandonar os princípios internacionalistas, anti guerras e anti-imperialistas.
Existem forças contrárias e, na luta global, as sementes do aumento da consciência e de um mundo livre de toda a opressão e violência estão germinando. Um mundo socialista não só é possível como é uma necessidade absoluta para garantir a paz e o desenvolvimento em harmonia com a natureza.
FATOS: OS ARSENAIS NUCLEARES DO MUNDO
- Os nove países com armas nucleares (EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel) continuaram a modernizar seus arsenais nucleares e, em 2023, vários deles implantaram novos sistemas de armas nucleares ou capazes de transportar armas nucleares.
- A Rússia e os EUA, juntos, respondem por quase 90% de todas as armas nucleares.
- Índia, Paquistão e Coreia do Norte estão buscando a capacidade de implantar ogivas múltiplas em mísseis balísticos, algo que a Rússia, a França, o Reino Unido e os EUA já fazem, e que a China também fez muito recentemente. Isso permitiria um rápido aumento potencial nas ogivas instaladas, ao mesmo tempo em que permitiria aos Estados com armas nucleares ameaçar a destruição de um número significativamente maior de alvos.
















