A classe dominante dos EUA e a “Síndrome do Afeganistão/Iraque”

À primeira vista, a direita e a esquerda não concordam em muita coisa nos EUA, onde a polarização política está em um nível sem precedentes. Uma exceção significativa, que foi destacada pela preparação para o recente bombardeio de Trump a instalações nucleares iranianas, é que pessoas de todo o espectro político são contra o envio de tropas estadunidenses para guerras em solo estrangeiro. A experiência das “guerras eternas” aventureiras no Iraque e no Afeganistão – com seu custo astronômico tanto em vidas quanto em trilhões de dólares gastos, e seu desfecho fracassado – criou um legado duradouro de oposição ao envio de tropas estadunidenses para o campo de batalha. Esse legado terá que ser levado em conta se o imperialismo dos EUA, com Donald Trump à frente, quiser sair vitorioso da rivalidade cada vez mais direta em que está envolvido atualmente com seu arquirrival, o imperialismo chinês.
Os sinais de que entramos em uma nova era de nacionalismo e guerra estão por toda parte. Trump recentemente renomeou o Departamento de Defesa para Departamento de Guerra. Seu “Big Beautiful Bill” (Grande e Belo Projeto de Lei), aprovado no início deste ano, eleva os gastos anuais com defesa para mais de US$ 1 trilhão. Seu primeiro mês no cargo foi, entre muitas outras coisas, notável por expressar agressivamente o interesse em adquirir a Groenlândia e o Canal do Panamá. Atualmente, as Forças Armadas dos EUA estão enviando navios de guerra e pelo menos um submarino nuclear para o sul do Caribe, onde atacaram barcos que transportavam o que o governo Trump alega seremtraficantes de drogas, matando sumariamente as pessoas a bordo.
Trump intensificou muito o militarismo e a agressividade dos EUA, mas esse não é um foco exclusivo dos EUA. O capitalismo ocidental em geral está unificado na necessidade de combater o poderio militar da China e de seus aliados. Concentrar a atenção dos EUA no Pacífico ocidental em termos de política comercial e estratégia militar tem sido uma política bipartidária nos EUA, com o apoio total da elite democrata. O governo Biden aumentou as tarifas sobre a China, cortou seu acesso a tecnologias avançadas com a lei CHIPS e teve relações cada vez mais tensas com o regime de Pequim. Fortalecer e modernizar o poder militar dos EUA também é um projeto bipartidário, e superar a relutância generalizada da população estadunidense em enviar soldados para conflitos estrangeiros é uma meta fundamental agora, como foi após o 11 de setembro, quando os EUA iniciaram sua “guerra ao terror”.
A guerra ao terror
A “guerra ao terror” foi uma campanha do imperialismo estadunidense, liderada por sua ala neoconservadora, para aprofundar seu domínio sobre o Oriente Médio, rico em petróleo, e sobre o mundo. No início, em 2001, a invasão dos EUA sobre o Afeganistão — apresentada como tendo como alvo a Al Qaeda e Osama bin Laden — teve apoio maciço da população estadunidense, que ficou profundamente chocada e horrorizada com os ataques de 11 de setembro, que mataram quase 3 mil pessoas. Em 2003, o governo de George W. Bush ampliou dramaticamente a ofensiva ao invadir o Iraque sob a premissa de que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía “armas de destruição em massa” e estava envolvido no ataque de 11 de setembro, uma premissa que os neoconservadores do governo Bush sabiam ser falsa desde o início. As guerras no Afeganistão e no Iraque foram anunciadas como vitórias fáceis para as poderosas forças armadas dos EUA, mas ambas se prolongaram por anos, acabaram sendo fracassos militares e representaram grandes reveses para o imperialismo estadunidense, em termos de seus objetivos no Oriente Médio, seu prestígio como superpotência mundial dominante e em termos do apoio público dos EUA às aventuras militares no exterior.
Um dos slogans antiguerra mais populares nos EUA para se opor à invasão do Iraque em 2003, “No War for Oil” (“Não à guerra pelo petróleo”), se opunha corretamente ao interesse de longa data da classe capitalista dos EUA em controlar as reservas de petróleo no Oriente Médio. No entanto, a guerra não foi principalmente pelo petróleo. O conceito de “domínio de espectro total” foi um princípio orientador do imperialismo estadunidense durante os anos Bush e se refere à ideia de um mundo unipolar com os EUA no centro, dominando o resto do mundo econômica e militarmente. O capitalismo ocidental, liderado pelos EUA, estava cheio de arrogância após o colapso de seu rival global de longa data, os regimes stalinistas da União Soviética e da Europa Oriental, e a subsequente restauração do capitalismo nesses países.
Mas o “domínio de espectro total” não era possível sem superar a “síndrome do Vietnã” – a aversão generalizada do público estadunidense ao envio de tropas para conflitos em solo estrangeiro, que se desenvolveu a partir da Guerra do Vietnã.
No final, os EUA foram forçados a retirar as tropas do Vietnã porque a disciplina militar começou a se desintegrar. O serviço militar obrigatório foi eliminado em 1973, e as forças armadas passaram a ser totalmente voluntárias em resposta ao colapso do comando militar. Parte da motivação da classe capitalista dos EUA para as invasões do Afeganistão e do Iraque trinta anos depois foi finalmente se livrar da “síndrome do Vietnã”, para restabelecer o poderio militar dos EUA e a capacidade de empregá-lo em todo o mundo.
Também se pode argumentar que, devido à derrota do imperialismo estadunidense no Vietnã, os EUA não foram capazes de intervir militarmente em situações em que o teriam feito nos anos 70 e 80. Isso incluiu o sul da África, onde vários países conquistaram a independência e se tornaram aliados da União Soviética. As tropas cubanas vieram em auxílio do governo angolano, enviando dezenas de milhares de soldados em 1976 e novamente na década de 1980, infligindo grandes derrotas militares à África do Sul e seus aliados. É claro que o mais importante para o imperialismo ocidental era a ameaça de uma revolução de trabalhadores na própria África do Sul. Tanto Margaret Thatcher quanto Ronald Reagan apoiaram o regime do apartheid como um baluarte contra o “comunismo”.
Inicialmente, particularmente no caso da invasão do Afeganistão, houve sucesso na mobilização de apoio às tropas americanas enviadas ao exterior. Quando a invasão começou, menos de um mês após os ataques de 11 de setembro, a popularidade de George W. Bush era de 90%. Havia um clima generalizado de unidade nacional e determinação para acabar com a ameaça terrorista. Com o tempo, porém, a oposição à guerra no Afeganistão começou a crescer e, quando a invasão dos EUA ao Iraque parecia iminente no início de 2003, protestos realmente massivos ocorreram em algumas cidades dos EUA, incluindo várias centenas de milhares em Nova York e mais de 150 mil em São Francisco. O movimento global contra a invasão dos EUA ao Iraque foi historicamente massivo, com milhões de pessoas protestando em cerca de 800 cidades ao redor do mundo em fevereiro de 2003. Nos EUA, no entanto, a oposição à guerra no Iraque ainda era uma posição minoritária. Fitas amarelas, um símbolo de apoio às tropas americanas, foram exibidas em casas e empresas em todo o país.
Inicialmente, os EUA encontraram resistência limitada ao assumir o controle de Bagdá. George W. Bush foi posteriormente criticado por seu discurso no convés de um porta-aviões dos EUA, declarando “Missão Cumprida” e o fim das principais operações de combate no Iraque, logo após a invasão inicial. Na verdade, as maiores batalhas ainda estavam por vir em uma guerra que se prolongaria por anos. O governo Bush foi forçado a mobilizar 20 mil soldados adicionais em 2007 para tentar controlar a situação. O “surto” de Bush, como ficou conhecido, resultou em 170 mil soldados dos EUA no terreno no Iraque. Seriam oito anos de guerra no total antes que Obama conseguisse retirar a maioria das tropas.
A longa retirada
Levou quase vinte anos para os EUA finalmente se retirarem do Afeganistão, em uma retirada humilhante, enquanto o Talibã avançava sobre Cabul e as forças militares afegãs treinadas pelos EUA não ofereciam resistência e, em muitos casos, simplesmente desapareciam entre a população. O sonho neoconservador de “domínio de espectro total” desintegrou-se nos campos de batalha do Afeganistão e do Iraque. Uma guerra civil sectária brutal e extremamente sangrenta entre milícias sunitas e xiitas se desenvolveu no Iraque a partir do vácuo criado pela invasão dos EUA. Em ambos os países, houve caos e colapso social durante anos, enquanto várias forças combatentes travavam batalhas sangrentas pelo controle de diferentes regiões.
A guerra ao terror foi absolutamente catastrófica para muitos milhões de pessoas comuns no Iraque, no Afeganistão e em todo o Oriente Médio. O número impressionante de mortos na “guerra ao terror” não pode ser calculado com precisão. Mais de 400 mil civis foram mortos nas guerras no Afeganistão e no Iraque. 4,7 milhões de pessoas morreram no Afeganistão, Iraque, Paquistão, Síria e Iêmen, quando se incluem tanto as mortes diretas pela guerra quanto as mortes indiretas pelo colapso caótico da sociedade resultantes dela, de acordo com um estudo da Universidade Brown. Mulheres e crianças foram desproporcionalmente afetadas por doenças, desnutrição, violência contínua e outras causas relacionadas à guerra. O retorno do Talibã, terrivelmente reacionário, um desastre para o Afeganistão, especialmente para as mulheres, também representa uma condenação total da ocupação.
O sentimento pró-guerra nos EUA que existia no início das guerras no Afeganistão e no Iraque foi gradualmente se desgastando à medida que o impacto real se tornava mais evidente. Em vez de criar novos governos democráticos que melhorariam a vida de milhões de afegãos e iraquianos, como havia sido prometido, as guerras foram terrivelmente violentas, destrutivas e devastadoras para os povos do Oriente Médio e para muitos dos soldados estadunidenses, em sua maioria da classe trabalhadora, que lutaram nelas. Quase 7 mil soldados estadunidenses foram mortos no Iraque e no Afeganistão, e outros quase 3 mil tiveram membros amputados. O terrível impacto dos traumas psicológicos decorrentes da guerra sobre os soldados e suas famílias é um fenômeno bem conhecido na sociedade dos EUA. As estimativas da prevalência do transtorno de estresse pós-traumático em soldados que lutaram nas guerras pós-11 de setembro variam, mas podem chegar a 36%, de acordo com uma pesquisa do Pew Center. A taxa de suicídio entre os veteranos pós-11 de setembro ultrapassou a da população em geral, o que é uma reversão das tendências anteriores, e mais de quatro vezes mais veteranos morreram por suicídio em comparação com soldados mortos em combate.
Escândalos como o de Abu Ghraib e a morte por fogo amigo do astro da NFL e soldado do Exército Pat Tillman prejudicaram o prestígio das Forças Armadas dos EUA. Em 2004, as câmaras de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, administradas pela CIA e membros do Exército dos EUA, viraram manchete com fotos que mostravam militares estadunidenses sorrindo na frente de prisioneiros sendo torturados e humilhados. Havia até fotos de soldados posando com o corpo de um iraquiano que havia sido torturado até a morte dentro da prisão.
A família de Pat Tillman foi inicialmente informada de que ele havia morrido lutando contra combatentes inimigos, mas semanas após o funeral, eles foram informados da verdade: ele havia sido baleado por membros de seu próprio pelotão, que confundiram sua unidade com o inimigo. Os altos escalões do exército provavelmente queriam usar a história da morte de Tillman por fogo inimigo como ferramenta de recrutamento, mas sua família ficou compreensivelmente indignada com a mentira. O próprio Tillman considerava a invasão do Iraque ilegal e havia relatos de que ele havia marcado uma reunião com Noam Chomsky, o intelectual de esquerda antiguerra.
Profunda oposição às aventuras militares
Quase 25 anos após a invasão do Afeganistão, a “síndrome do Vietnã” tornou-se a “síndrome do Afeganistão/Iraque”, e o imperialismo estadunidense continua enfrentando uma ampla e profunda oposição ao envio de tropas para o exterior. O bombardeio dos EUA a instalações nucleares iranianas e o subsequente cessar-fogo na guerra de 12 dias entre Israel e o Irã foram, em última análise, uma vitória para Trump. No entanto, o episódio revelou uma grande oposição à guerra com o Irã e, especialmente, a qualquer noção de “botas no terreno”, vindas tanto da direita quanto da esquerda.
Figuras da direita como a congressista Marjorie Taylor Greene, Tucker Carlson e Steve Bannon se opuseram ao envolvimento dos EUA no Irã quando Trump começou a levantar essa possibilidade. A entrevista feita por Tucker Carlson com o senador Ted Cruz, um “falcão” em relação ao Irã, se transformou em uma discussão acalorada sobre se os EUA deveriam intervir no Irã. Após o acordo de cessar-fogo, os republicanos em sua maioria voltaram a se unificar, mas a rara demonstração de oposição a Trump pela direita foi impressionante e revelou rachaduras na coalizão de Trump.
Para uma parte dos eleitores de Trump, muitos dos quais são da classe trabalhadora, a crítica de Trump às “guerras eternas” foi uma parte importante de seu apelo eleitoral. No entanto, figuras importantes do MAGA [“Make America Great Again”, “Torne a América Grande Novamente”, como é conhecida a base de Trump, remetendo a seu slogan de campanha], como Greene, Carlson e Bannon, não são contra a guerra, apenas contra algumas guerras. Bannon, por exemplo, é um “falcão” radical em relação à China. Recentemente ele defendeu uma dissociação total com a China e sugeriu que todos os estudantes chineses nas universidades estadunidenses deveriam ser deportados. À medida que o conflito entre os imperialismos chinês e estadunidense se intensifica, todo o establishment político tentará fomentar o sentimento antichinês, mas o “isolacionismo” na base do populismo de direita pode se tornar um obstáculo real.
O bombardeio do Irã ocorreu logo após o desfile militar de Trump em 14 de junho, que teve uma participação fraca e foi dramaticamente ofuscado pelos milhões que saíram às ruas para protestar contra Trump nas manifestações “No Kings” (Sem Reis) no mesmo dia. O candidato do Partido Democrata à prefeitura de Nova York, Zohran Mamdani, fez uma declaração condenando o bombardeio das instalações nucleares iranianas, que ocorreu apenas dois dias antes da noite das eleições primárias, quando a vitória de Mamdani se tornou notícia nacional. Uma pesquisa da CNN realizada logo após o bombardeio mostrou que 56% dos estadunidenses se opunham ao bombardeio, incluindo 88% dos democratas. Quando Bernie Sanders, durante seu grande comício em Oklahoma, anunciou que o bombardeio havia começado no Irã, um coro de “No More War” (Chega de Guerra) irrompeu quando a multidão se levantou e Sanders teve que esperar que a multidão se acalmasse antes de poder continuar falando.
A oposição às guerras estrangeiras nos EUA é um grande problema para o capitalismo ocidental e uma grande oportunidade para o movimento da classe trabalhadora. Sem dúvida, existe matéria-prima para um poderoso movimento antiguerra nos EUA, que teria de ser totalmente independente dos dois partidos capitalistas. Em última análise, o militarismo e a tendência para a guerra por parte dos regimes imperialistas dos EUA e da China, e de muitos outros regimes em todo o mundo, só serão travados por um movimento de massas da classe trabalhadora, incluindo os próprios soldados.
















