Lições da História: Quando as lutas dos trabalhadores barraram guerras

Este artigo foi publicado originalmente na segunda edição da Marxismo Internacional em novembro 2025 (leia mais aqui).

Como explicamos em outros artigos desta edição da Marxismo Internacional, a guerra e o militarismo são partes inseparáveis do imperialismo. Mesmo em períodos de relativa estabilidade e de tensões interimperialistas menos acentuadas – como aquela que existiu durante o auge da globalização neoliberal nos anos 1990 e no início dos anos 2000, quando o número de guerras diminuiu – as contradições que produzem guerras no capitalismo não desapareceram.

Agora, entre as principais potências imperialistas e seus aliados, o som dos tambores da guerra está soando mais alto do que em qualquer outro momento desde o fim da II Guerra Mundial. Isto não significa que há um conflito global iminente ou inevitável. Mas levanta diretamente uma questão: como o impulso para a guerra pode ser parado? E como dar fim ao crescente número de guerras que nós já estamos vendo nesta nova era de conflito interimperialista – desde Gaza até a Ucrânia, passando pelo Sudão – e os seus indescritíveis horrores? 

Protestos de massas contra o início de guerras – mesmo em uma escala significativa – ainda que sejam importantes, não são, por si só, suficientes para impedir que guerras ocorram ou fazer com que terminem, quando as potências envolvidas estão determinadas e possuem os meios para prosseguir. Houve oposição massiva internacional à invasão estadunidense do Iraque em 2003, mas ela ocorreu porque a classe dominante dos EUA estava unificada em sua decisão de seguir adiante. Da mesma forma, a guerra por procuração na Ucrânia se arrasta sem fim à vista, parcialmente porque Putin prevê mais conquistas territoriais a serem obtidas se prosseguir. 

I Guerra Mundial

Se voltarmos  ainda mais na história, para o período anterior à eclosão da I Guerra Mundial em agosto de 1914, protestos e resoluções dos partidos social-democratas da classe trabalhadora na Alemanha e na França, consistentemente apresentavam sua oposição à guerra. Mas assim que os governos das potências aliadas e da Entente efetivamente declararam guerra, as moções contra a guerra foram abandonadas e a maior parte dos partidos da Segunda Internacional se alinhou atrás  de sua “própria” classe dominante. Os representantes parlamentares do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) votaram pelos créditos de guerra (o que significava autorizar empréstimos governamentais para financiar gastos de guerra) no dia 04 de agosto. No mesmo dia, os socialistas franceses votaram pela guerra e foram seguidos pelo Partido Trabalhista inglês (Labour) no dia 05 de agosto. 

Inicialmente, realmente houve uma “febre de guerra” e uma “unidade em torno da bandeira”. Os horrores da guerra mecanizada ainda não eram compreendidos por todos e existia uma ilusão generalizada de que “tudo acabaria até o Natal”. No entanto, isto revela as armas ideológicas disponíveis para a classe dominante, em especial sua capacidade de incitar o nacionalismo. Isto foi facilitado enormemente pela capitulação da direção dos partidos de massas dos trabalhadores.

Lenin, Trotsky e os bolcheviques russos estavam entre as exceções da Segunda Internacional que se posicionaram contra a guerra. Eles concluíram que a traição por partidos social-democratas importantes, ápice de um longo processo de adaptação das direções à sociedade burguesa, demonstrava a necessidade de fundar uma nova internacional. Inicialmente, eles e outros que não abandonaram o internacionalismo e posições contra a guerra eram uma minoria isolada. Um momento decisivo ocorreu quando Karl Liebknecht, um dirigente da ala esquerda do SPD alemão e membro do Reichstag (parlamento alemão), quebrou a disciplina partidária e votou contra mais verbas para a guerra em dezembro de 1914. Literalmente, ele foi o único entre 110 deputados do SPD a se posicionar daquela maneira. 

Apesar das vitórias militares iniciais da Alemanha, a guerra rapidamente se transformou em um impasse sangrento marcado pelo horror das trincheiras, com centenas de milhares morrendo em ataques inúteis que deslocavam a linha de frente alguns metros para uma direção ou para outra. A oposição começou a crescer. Em 1917, houve uma série de motins entre as forças francesas, quando as tropas se recusaram a avançar sob o fogo de metralhadoras. O comando francês ordenou que centenas de soldados amotinados fossem executados. Porém, o ponto de virada decisivo ocorreu a centenas de quilômetros ao leste. 

Como a I Guerra Mundial acabou

Em fevereiro de 1917, a primeira das duas revoluções que ocorreram na Rússia naquele ano levou ao poder um Governo Provisório que deu fim ao domínio do czar, mas que, deliberadamente, se recusou a ultrapassar os limites do capitalismo. Deixou os proprietários de terra e os capitalistas controlando a economia e manteve o envolvimento da Rússia ao lado dos Aliados na guerra, apesar de enormes baixas, condições terríveis para os soldados e deserções massivas nas tropas russas. 

Os bolcheviques se opuseram ao Governo Provisório e demandaram “pão, paz e terra”. Quando a classe trabalhadora – organizada em sovietes (conselhos) e dirigida pelos bolcheviques – chegou ao poder na segunda revolução, em outubro, eles cumpriram sua palavra. Eles imediatamente deram fim à colaboração com os Aliados e repudiaram as dívidas com outras potências parasitárias. Para completar, eles publicaram os acordos secretos que as potências aliadas estavam preparando para dividir os espólios no fim da guerra e redesenhar os mapas de acordo com os seus próprios interesses. 

Os governos aliados, como era de se esperar, recusaram-se a reconhecer a existência do governo soviético, o mais democrático que o mundo já vira até então. Ao honrar a promessa de acabar com o latifúndio e o capitalismo, além de retirar a Rússia da carnificina da I Guerra Mundial, o governo dos trabalhadores russos foi recompensado com a invasão de exércitos de 15 países capitalistas. No entanto, a Revolução Russa também acendeu uma chama que ameaçava incendiar o restante do sistema imperialista. 

A Revolução Alemã

As guerras podem terminar devido à derrota decisiva de um lado pelo outro, tal como ocorreu no final da II Guerra Mundial, com a derrota e a ocupação da Alemanha e do Japão em 1945. Mas o impasse no matadouro da I Guerra Mundial acabou por causa de acontecimentos revolucionários. O exemplo da classe trabalhadora russa em 1917 inspirou milhões. Na Alemanha, os acontecimentos caminhavam para um ponto de ruptura em 1918. Os marinheiros da Frota Alemã de Alto-Mar, instalada em Kiel, no Mar Báltico, amotinaram-se em 03 de novembro, recusando-se a cumprir a ordem de partir para mais uma batalha contra a frota britânica. Este foi um indicador de que a guerra terminava na Frente Ocidental e de que a Revolução Alemã começava.

Trabalhadores, marinheiros e soldados formaram conselhos (rate) por todo o país, inspirados pelos sovietes na Rússia. O Kaiser Wilhelm caiu, dando fim à monarquia alemã. Mas a direção do SPD, que já tinha traído a classe trabalhadora no início da guerra quatro anos antes, agora fazia horas extras para salvar o capitalismo e limitar a revolução à criação de uma república democrática (capitalista). Karl Liebknecht, Rosa Luxemburgo e outros atuavam para construir uma força política revolucionária que lutasse pelo socialismo, mas ela ainda não era forte o suficiente para dirigir a classe trabalhadora. 

Nos anos seguintes, um partido comunista de massas foi construído na Alemanha, ocupando seu lugar na recém-criada Terceira Internacional (Comintern). Houve uma série de oportunidades para a classe trabalhadora tomar o poder na Alemanha, mas elas foram desperdiçadas porque não foi construída a tempo uma direção suficientemente testada. As consequências de tal fracasso foram verdadeiramente trágicas. Se a classe trabalhadora alemã tivesse tomado o poder, a aliança da indústria alemã com os recursos russos teria criado uma base poderosa para a revolução socialista se espalhar e triunfar em diversos países. A história teria sido completamente diferente. Stalin e Hitler não teriam chegado ao poder, assim como não teria ocorrido o Holocausto ou a II Guerra Mundial. Tudo isso revela que a chave para dar fim à guerra imperialista é o desmantelamento do sistema social que a alimenta. Isso requer a vitória da revolução socialista. 

Guerra do Vietnã

Podemos encontrar um exemplo mais recente na Guerra do Vietnã. Esta foi a primeira vez na história que os Estados Unidos foram derrotados em uma guerra. Um país armado até os dentes com o que havia de mais moderno em armamento, que havia marchado para a vitória em duas guerras mundiais, viu-se paralisado diante de uma nação de camponeses colonizados e pobres lutando por liberdade. 

O exército dos EUA enfrentou um tipo diferente de inimigo: a resistência popular de trabalhadores e camponeses do Vietnã, uma onda crescente de lutas sociais em seu país e uma crescente insatisfação no interior do próprio exército. Tal como o historiador socialista Howard Zinn afirma: “foi a tecnologia moderna organizada contra os seres humanos organizados, e os seres humanos venceram”. 

A escala da guerra foi massiva. Um total de 2,7 milhões de soldados estadunidenses serviram na guerra, representando 9,7% de sua geração. O Vietnã e os países vizinhos, Laos e Camboja, foram atacados por sete milhões de toneladas de bombas dos EUA, mais do que o dobro da quantidade de bombas lançadas sobre a Europa e a Ásia durante a II Guerra Mundial. Quase 70 milhões de litros de herbicidas químicos foram pulverizados, inclusive o notório Agente Laranja. Ainda assim, o poder da luta coletiva nos EUA e no Vietnã derrotou o imperialismo dos EUA. 

A derrota no Vietnã teve consequências imediatas no futuro da política externa dos EUA que reverberam até os dias de hoje. O recrutamento militar obrigatório foi abolido e o exército passou a ser composto exclusivamente por voluntários. Uma hostilidade à guerra generalizada entre a população comum levou à “Síndrome do Vietnã”, na qual o governo dos EUA se tornou relutante em se envolver em conflitos diretos por medo de provocar oposição massiva imediata. 

Desde então, o imperialismo dos EUA vem tentando reverter a síndrome do Vietnã. Eles celebraram o fato de que foram capazes de intervir e ocupar o Afeganistão e o Iraque depois do 11 de setembro. No entanto, à medida que aquelas guerras se converteram em desastres por si só, a “síndrome do Iraque e do Afeganistão” (ver o artigo na pág. 39), vinte anos depois, ainda segue viva e ativa. O crescimento do militarismo em torno do atual conflito interimperialista está estimulando um novo impulso para reverter a “Síndrome do Vietnã”. Isso faz com que seja ainda mais importante aprender sobre como “os seres humanos venceram” no Vietnã. 

Resistência vietnamita

A força decisiva que derrotou o imperialismo dos EUA foi a heroica resistência das massas trabalhadoras e camponesas no Vietnã. Diferentemente da I Guerra Mundial, quando as potências imperialistas lutavam entre si pela redivisão do mundo, o povo do Vietnã estava lutando por independência contra o imperialismo. Além disso, lutavam por uma revolução social contra o capitalismo. Enquanto isso, os EUA lutavam para sustentar a odiada ditadura fantoche de Ngô Đình Diệm.

A luta no Vietnã foi travada pelo movimento guerrilheiro vietcongue, criado por Hồ Chí Minh e que foi o successor de Việt Minh, que derrotou o colonialismo francês na batalha de Điện Biên Phủ em 1954. Hồ foi o fundador do Partido Comunista da Indochina em 1930, durante o domínio colonial francês. Embora tenha ingressado na III Internacional em seu auge revolucionário e tenha sido um dos fundadores do Partido Comunista Francês em 1920, ele se adaptou à tomada stalinista da Internacional e à sua caricatura burocrática do marxismo. O Vietnã do Norte, sob o seu comando, foi uma ditadura burocrática criada à imagem e semelhança da União Soviética. O regime de Hồ derrubou o capitalismo e lançou um programa massivo de reforma agrária que melhorou significativamente as condições de vida da maioria da população. Mas o poder político foi tirado da classe trabalhadora e ficou concentrado nas mãos de uma casta privilegiada e parasitária no topo da sociedade. 

A política stalinista de Hồ também dificultou a luta por libertação. Durante a II Guerra Mundial, Hồ seguiu o conselho de Moscou de subordinar as lutas dos trabalhadores a uma aliança nacionalista com o imperialismo dos EUA, da França e da Inglaterra, por ser uma alternativa “progressista” em relação com o imperialismo japonês. Quando os japoneses foram expulsos da Indochina em 1945, uma greve geral explodiu em Saigon contra o retorno do domínio francês e os trotskistas protagonizaram essa luta. Hồ massacrou os trotskistas e facilitou o retorno do imperialismo francês. No entanto, apesar desta terrível traição, o Viêt Minh logo entrou em guerra contra o imperialismo francês. 

Apesar disso, valia a pena seguir o exemplo da luta por independência, reforma agrária e derrubada do capitalismo. Dado o pesadelo da estagnação capitalista e da pobreza no mundo colonial e neocolonial, a Revolução no Vietnã atraiu milhões de pessoas por todo o mundo. 

Movimento antiguerra

A resistência heroica de trabalhadores e camponeses vietnamitas ajudou a impulsionar um massivo movimento antiguerra internacionalmente e, especialmente, nos próprios Estados Unidos. O movimento começou lentamente no início dos anos 1960, mas rapidamente se transformou no maior movimento antiguerra da história dos EUA. Isto foi provocado por diferentes fatores, como o aumento do número de baixas dos EUA, o ressentimento contra os adiamentos que permitiam que jovens ricos e da classe média evitassem o recrutamento e um crescente questionamento sobre porque os EUA estavam ajudando a subjugar um povo que desejava a independência e apoiava Hồ Chí Minh.

As narrativas dominantes sobre o movimento contra a guerra no Vietnã o retratam como um movimento dominado por estudantes privilegiados, enquanto a “maioria silenciosa” da classe trabalhadora apoiava a guerra. Esta é uma distorção grosseira. Devido à natureza do recrutamento forçado, a vasta maioria dos soldados vinha das fileiras da classe trabalhadora e de grupos oprimidos. Estes foram aqueles que testemunharam diretamente os horrores da guerra. Ao mesmo tempo, a escalada da guerra no Vietnã ocorreu no contexto de um massivo movimento por direitos civis e de crescente agitação da classe trabalhadora. Ao final da Guerra, a oposição à Guerra estava em seu ápice na classe trabalhadora, especialmente entre trabalhadores pobres e negros. 

A resistência mais significativa da classe trabalhadora ocorreu no interior do próprio exército. Muitas organizações revolucionárias entraram no exército para agitar contra a guerra entre os soldados, enquanto outras montaram cafés, lojas e livrarias ao redor das  bases militares. Jornais antiguerra para soldados floresceram com nomes como Fatigue Press (Imprensa da Fadiga), Harass the Brass (Assediar os Chefes) e The Star-Spangled Bummer (A Decepção Estrelada). Estes esforços organizativos ajudaram a desorganizar o exército. Em 1971, o Coronel da Marinha Robert D. Heinl Jr. escreveu:

“Em cada indicador possível, nosso exército que permanece no Vietnã está em uma situação próxima do colapso, com unidades individuais evitando ou tendo rejeitado o combate, assassinando seus oficiais e suboficiais… A sedição, associada com a insatisfação nas fileiras, e que é fomentada externamente com uma audácia e intensidade que anteriormente eram inconcebíveis, infesta as Forças Armadas”

Esta desintegração das forças armadas foi o último prego no caixão e tornou a guerra impossível de ser vencida pelos  EUA.

A classe trabalhadora pode acabar com a guerra

Hoje, o mundo inteiro assiste a um ressurgimento do militarismo, da guerra e da ameaça de guerra. As guerras em Gaza, Ucrânia e Sudão continuam, apesar da oposição massiva. Confrontos armados de curto prazo entre os EUA e a Venezuela, Índia e Paquistão, e Tailândia e Camboja ameaçam estourar em conflitos maiores. A classe dominante responde à ameaça de guerra no exterior intensificando o militarismo domesticamente. Tudo isso gira em torno de um crescente conflito entre os imperialismos dos EUA e da China, o qual oscila à beira de uma guerra global. 

Uma lição fundamental das lutas passadas é que a guerra e o imperialismo são fundamentais para o capitalismo. Mesmo que a dignidade humana básica se horrorize com a perspectiva da guerra, a lógica do capitalismo e do imperialismo persiste. É por isso que a revolta em massa e mesmo os protestos de massas são insuficientes para, por si só, impedirem o impulso para a guerra. 

Esta compreensão aponta para o que pode cessar a guerra: as ações de massas da classe trabalhadora. Ainda que o capitalismo explore implacavelmente a classe trabalhadora em busca de lucro, ele depende do seu trabalho para funcionar. Os movimentos contra a I Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã incluíram a confraternização entre tropas, greves contra a guerra, manifestações e, até mesmo, motins. Quando a classe trabalhadora entra em luta, ela pode obstruir a máquina de guerra capitalista.

Este processo não é automático. As traições da Social-Democracia no início da I Guerra Mundial mergulharam o mundo em anos de morte e destruição até que a  classe trabalhadora ganhasse confiança para revidar. As traições dos stalinistas vietnamitas após a II Guerra Mundial temporariamente fortaleceram o imperialismo francês e prolongaram a luta por libertação. A ausência de um partido de massas da classe trabalhadora nos EUA foi um obstáculo para unificar todas as lutas socialistas que ocorreram naquela conjuntura, incluindo o movimento antiguerra, em um enfrentamento completo à classe dominante. Para superar este desafio é necessária uma direção com legitimidade e organização revolucionária que não existia, por exemplo, na Alemanha em 1918. 

Um grande ascenso da luta de classes pode impedir a guerra. Mas enquanto o capitalismo permanecer intacto, o impulso para a guerra permanecerá. É por isto que vemos hoje a retomada do militarismo em escala global, assim como as tentativas de reverter a “Síndrome do Vietnã”. Para impedir não apenas uma guerra, mas as guerras como um todo, é necessário derrubar a totalidade do sistema capitalista. Os movimentos contra a I Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã não foram apenas movimentos antiguerra. Eles foram levantes políticos e, em alguns casos, revoluções que apontaram o caminho para um novo mundo socialista. 

LENIN SOBRE A CONFRATERNIZAÇÃO DAS TROPAS

Este artigo bem curto foi escrito seis meses depois do começo da Primeira Guerra Mundial. Nele, Lenin resumiu como os soldados, por meio de vários atos de confraternização, estavam mostrando como acabar com a guerra e todas as guerras por meio de ações revolucionárias e, por outro lado, o papel totalmente traidor da direção da maioria dos partidos socialistas.

Em 8 de janeiro, os jornais suíços receberam a seguinte mensagem de Berlim:

“Ultimamente, a imprensa tem publicado repetidamente notícias sobre tentativas pacíficas feitas por homens nas trincheiras alemãs e francesas de estabelecer relações amigáveis. De acordo com o Tägliche Rundschau, uma ordem do exército datada de 29 de dezembro proíbe qualquer confraternização e qualquer tipo de contato com o inimigo nas trincheiras. O desrespeito a esta ordem é punível como alta traição.”

Assim, a confraternização e as tentativas de estabelecer relações amigáveis com o inimigo são um fato. As autoridades militares alemãs estão demonstrando preocupação com o assunto, o que significa que atribuem considerável importância a ele.

O Labour Leader britânico de 7 de janeiro de 1915 publicou uma série de citações da imprensa burguesa britânica sobre casos de confraternização entre soldados britânicos e alemães, que organizaram uma “trégua de quarenta e oito horas” no Natal, se encontraram amigavelmente numa terra de ninguém e assim por diante. As autoridades militares britânicas emitiram uma ordem especial proibindo a confraternização.

E, no entanto, com a máxima complacência e a confortável sensação de que a censura militar os protegerá contra quaisquer negações, os oportunistas socialistas e seus defensores (ou lacaios?) garantiram aos trabalhadores, através da imprensa (como fez Kautsky), que não é possível nenhum entendimento sobre ações antiguerra por parte dos socialistas dos países beligerantes (expressão literalmente usada por Kautsky em Die Neue Zeit)!

Tente imaginar Hyndman, Guesde, Vandervelde, Plekhanov, Kautsky e os demais — em vez de ajudar a burguesia (algo em que estão agora envolvidos) — formando um comitê internacional para agitar pela “confraternização e tentativas de estabelecer relações amigáveis” entre os socialistas dos países beligerantes, tanto nas “trincheiras” quanto entre as tropas em geral.

Quais seriam os resultados daqui a alguns meses, se hoje, apenas seis meses após o início da guerra e apesar de todos os chefes políticos, líderes e celebridades que traíram o socialismo, a oposição está crescendo em todos os lados contra aqueles que votaram a favor dos créditos de guerra e aqueles que aceitaram cargos ministeriais, e as autoridades militares estão ameaçando que a “confraternização” acarreta a pena de morte?

“Há apenas uma questão prática: vitória ou derrota para o próprio país”, escreveu Kautsky, lacaio dos oportunistas, em concordância com Guesde, Plekhanov e companhia.

De fato, se esquecêssemos o socialismo e a luta de classes, essa seria a verdade. No entanto, se não perdermos de vista o socialismo, isso não é verdade.

Então há outra questão prática: devemos perecer como escravos cegos e indefesos, em uma guerra entre escravocratas, ou devemos participar de “tentativas de confraternização” entre os escravos, com o objetivo de nos livrarmos da escravidão?

Essa é, na realidade, a questão “prática”.

Publicado pela primeira vez em Sotsial-Demokrat, n.º 40, 29 de março de 1915.

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