A necessidade urgente de um novo movimento internacional antiguerra

Este artigo foi publicado originalmente na segunda edição da Marxismo Internacional em novembro 2025 (leia mais aqui).

Todos os dias, testemunhamos os horrores infligidos pelo ataque assassino contra o povo de Gaza, o massacre contínuo na Ucrânia e os inúmeros conflitos na África, que, embora menos divulgados na mídia ocidental, certamente não são menos sangrentos e brutais.

Esses horrores não são resquícios do passado, ou “exceções”, mas sim uma consequência de um sistema que coloca o lucro acima da vida. Na década de 2020, o capitalismo ainda é sinônimo de guerra.

O documento de perspectivas mundiais adotado pela Alternativa Socialista Internacional (ASI) em seu Congresso Mundial em novembro do ano passado destacou que o aumento dos conflitos interimperialistas era uma característica central da nova era capitalista: “Esta é uma era de imperialismo, nacionalismo e militarismo… uma época de guerra e de preparação para a guerra”.

Na era anterior (da globalização neoliberal), os EUA e a China eram os principais motores do crescimento econômico mundial. Agora, é a luta pelo poder global entre essas superpotências imperialistas que é o eixo em torno do qual giram as relações mundiais. A globalização e o “livre comércio” são substituídos pelo desacoplamento, protecionismo, guerras comerciais, aumento da competição por recursos e guerras. Como disse o estrategista militar do século XIX Claus von Clausewitz, “a guerra é a continuação da política por outros meios”. 

De acordo com o Instituto de Economia e Paz, existem hoje 59 “conflitos ativos” em todo o mundo. Este é o número mais alto desde a Segunda Guerra Mundial. No ano passado, 17 países registraram mais de mil mortes em conflitos armados. Os conflitos também estão se tornando mais internacionais em seu alcance, com 78 países envolvidos em conflitos além de suas fronteiras.

O medo das guerras também cresceu. Uma pesquisa da YouGov realizada em maio na Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália, Espanha e Estados Unidos mostra que 41% a 55% acreditam que é provável que haja outra guerra mundial nos próximos 5 a 10 anos. No caso de uma nova guerra mundial, 68% a 76% acham que ela envolveria o uso de armas nucleares.

O breve confronto deste ano entre a Índia e o Paquistão, duas potências nucleares, aumentou ainda mais esse medo. Putin sugeriu várias vezes a possibilidade de usar armas nucleares na guerra na Ucrânia, dizendo que “espera” que isso não seja necessário.

Essas são apenas algumas das inúmeras razões pelas quais trabalhadores e oprimidos precisam de um novo movimento internacional contra a guerra. Esse movimento deve se opor firmemente a todos os governos e partidos pró-imperialistas belicistas. 

Trump prometeu acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas e resolver o conflito no Oriente Médio. Mas, longe de ser um pacificador, ele é o principal belicista, comandando a maior potência militar do planeta. Ele é o principal patrocinador do genocídio de Israel em Gaza e assumiu a liderança quando se tratou do bombardeio sem precedentes de instalações nucleares no Irã. É repugnante ver o assassino em massa Netanyahu agradecer a Trump pelas bombas usadas para matar crianças em Gaza, indicando-o para o Prêmio Nobel da Paz!

Trump tem buscado – em vão, até agora – diminuir o envolvimento na Ucrânia para se concentrar no principal conflito que preocupa o imperialismo dos EUA: o embate com a China. O Pacífico Ocidental, e especialmente Taiwan, é um teatro decisivo dessa luta pelo poder. Embora atualmente não seja um palco de conflito armado aberto, está no centro dos preparativos para a guerra, que impulsionam a corrida armamentista acelerada que domina ambos os lados do Pacífico. 

Isso também é visto no conflito crescente da China com vários países da região pelo controle do Mar do Sul da China, que seria um “ponto de estrangulamento” estratégico fundamental em qualquer guerra futura entre os EUA e a China. Os exercícios militares da China em torno de Taiwan também estão aumentando constantemente, com a exibição de novos equipamentos militares importantes, projetados especificamente para uma invasão da ilha. 

Desde que o capitalismo existe, os movimentos contra a guerra têm sido um fator importante na radicalização das novas gerações. As guerras tornam evidente que vivemos em um sistema doentio, onde recursos que poderiam garantir uma vida melhor e a proteção do meio ambiente são, em vez disso, usados para matar e destruir. Assim como o movimento contra a Guerra do Vietnã definiu a geração dos anos 1960 e 1970 em muitos países, o movimento de massa contra a guerra genocida em Gaza, que já dura quase dois anos, provocou um despertar político histórico. 

A necessidade de um movimento contra TODAS as guerras

Este genocídio em curso teve um impacto único na consciência por muitas razões. Apesar da tentativa do regime assassino de Netanyahu de, com o apoio do imperialismo estadunidense e europeu, retratar isso como uma guerra justa de “autodefesa” em resposta ao hediondo ataque do Hamas em 7 de outubro, a verdade é óbvia para milhões: o Estado israelense é o agressor, em uma escalada extrema de seu regime de ocupação, cerco, repressão, assassinatos e roubo de terras que dura décadas.

Também é óbvio como esse massacre é possibilitado pelas armas e pelos bilhões de dólares despejados na máquina de guerra israelense por sucessivos governos dos EUA e ocidentais. A destruição total de mais de 90% dos edifícios residenciais em Gaza, o deslocamento constante de mais de dois milhões de palestinos, a fome forçada e, mais recentemente, os milhares de mortos em armadilhas mortais disfarçadas de locais de distribuição de alimentos “humanitários”, tudo isso foi transmitido ao vivo nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, há muitas guerras que não recebem a mesma cobertura. Na recente guerra civil na Etiópia, de 2020 a 2022, estima-se que cerca de 600 mil pessoas tenham sido mortas. Na guerra civil sudanesa em curso, cuja fase atual começou em 2023, a estimativa é de que 300 mil pessoas tenham sido mortas e 2,7 milhões deslocadas. Na “Segunda Guerra do Congo” de 1998-2002, também conhecida como “Guerra Mundial da África”, já que pelo menos nove nações africanas estiveram envolvidas, estima-se que 5,4 milhões de mortes tenham sido causadas por doenças, desnutrição e crimes de guerra.

Essas guerras também têm suas raízes no imperialismo, no legado do colonialismo e na contínua disputa por recursos minerais. Em julho, Trump comemorou um falso “acordo de paz” entre o Congo e Ruanda, que nem sequer envolveu um dos principais grupos combatentes, a milícia M23, apoiada por Ruanda. Na realidade, foi mais um acordo para aumentar o acesso dos EUA à enorme riqueza mineral do Congo, onde as empresas chinesas vinham dominando.

Todas as guerras são acompanhadas por avalanches de propaganda de guerra para esconder os verdadeiros motivos dos belicistas e justificar os enormes “sacrifícios” exigidos das massas, que são as verdadeiras vítimas da guerra. Ao justificar a invasão da Ucrânia, Putin voltou ao século XIV para explicar por que a Ucrânia deveria pertencer à Rússia e atacou Lenin por defender o direito da Ucrânia à autodeterminação. Seu regime apresenta a guerra como uma “autodefesa” contra uma OTAN em expansão, que está invadindo as fronteiras da Rússia. 

Por outro lado, a propaganda no Ocidente apresenta a guerra na Ucrânia como uma “guerra justa” contra uma “Rússia agressiva” e em defesa da soberania da Ucrânia e da Europa em geral. Isso desencadeou uma onda de belicismo. 

Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, disse em um discurso em dezembro do ano passado que “Não, não estamos em guerra. Mas certamente também não estamos em paz”. Todas as residências suecas receberam uma brochura com o título “Em caso de crise ou guerra” para alimentar o medo na população. O governo alemão dedicou um aplicativo de celular para o mesmo fim!

Embora as massas da classe trabalhadora e do povo pobre ucraniano que resistem à invasão russa sejam, naturalmente, motivadas pelo desejo de defender suas casas e direitos, o verdadeiro significado da guerra só pode ser encontrado em sua importância como um teatro de confronto entre potências imperialistas. As forças armadas ucranianas são usadas como representantes do imperialismo dos EUA e do Ocidente. Ao mesmo tempo, a Rússia é apoiada pela China e seus aliados, incluindo o Irã e a Coreia do Norte. Nesta guerra imperialista por procuração, tanto o povo ucraniano quanto o russo pagam o preço, com centenas de milhares de vítimas.

Os conflitos imperialistas e nacionais também estão cada vez mais interligados internacionalmente. A Rússia tem conseguido resistir a pesadas sanções com a ajuda da China e tem sido apoiada no terreno por tropas norte-coreanas. O exército privado de mercenários russos, o Africa Corps (anteriormente conhecido como Grupo Wagner), tem estado envolvido em guerras na Ucrânia, na Síria e na região do Sahel, em África. Netanyahu está conduzindo uma “guerra em sete frentes” para expandir o poder israelense na região, aproveitando-se do enfraquecimento do Irã. 

O imperialismo dos EUA tem seus tentáculos em todos os lugares, apoiando a Ucrânia e está envolvido diretamente em guerras no Iraque, Afeganistão, Iêmen e, recentemente, no Irã. O uso pelos EUA das bombas “Massive Ordnance Penetrator”, as bombas não nucleares mais poderosas já fabricadas, contra o Irã não teve como objetivo apenas encurtar o que poderia ter explodido em uma guerra regional, mas também enviar uma mensagem à Rússia e à China.

Todos esses fatos apontam para uma conclusão comum: a necessidade de um movimento contra TODAS as guerras e que ataque as causas profundas dos conflitos constantes embutidos no sistema capitalista de opressão e exploração. Figuras reacionárias como Trump, Putin, Netanyahu, Modi, Xi Jinping e outros são todas expressões do mesmo sistema em crise. 

No momento, apesar dos preparativos reais para a guerra no Pacífico, uma guerra direta entre as principais potências imperialistas não é iminente. Tanto o imperialismo estadunidense quanto o chinês estão em profunda crise e teriam que pensar duas vezes antes de se envolver em uma guerra para a qual ainda não estão preparados. Ambos correm o risco de ir longe demais. Os EUA tiveram que fazer uma retirada humilhante após duas décadas de um atoleiro sangrento no Afeganistão. A Rússia, atolada na Ucrânia, não pôde fazer nada quando seu aliado Irã foi humilhado por Israel, e a China também não.

Mas a situação continua extremamente perigosa. Em resposta à crise, as únicas políticas ou métodos que esses regimes conhecem baseiam-se no agravamento da exploração e opressão da classe trabalhadora em seu país e no exterior. A nova era em que vivemos  já deixou evidente que a disputa por poder, mercados e recursos não se limitará apenas a guerras comerciais e será conduzida “por outros meios”, como disse Clausewitz. E os capitalistas estão se preparando para isso hoje.

Contra o militarismo

A preparação para a guerra é tanto material, na forma de uma nova corrida armamentista, quanto ideológica.

De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares mundiais atingiram US$ 2,7 trilhões em 2024. Isso por si só prova o quão podre é esse sistema. Esses recursos seriam suficientes para erradicar a pobreza e a fome em todo o mundo e iniciar uma transição verde para reverter as mudanças climáticas e a destruição do meio ambiente. Em vez disso, mais armas e bombas espalharão a fome e a escassez e criarão inúmeras “bombas de carbono” que aceleram a catástrofe climática.

Os EUA são, de longe, os que mais gastam, desembolsando US$ 997 bilhões em 2024 – 66% do total dos gastos da OTAN e 37% dos gastos militares mundiais. A Rússia aumentou seus gastos em 38% em 2024 e Israel em 65%.

A China também teve três décadas de crescimento constante nos orçamentos militares. Agora é o segundo país que mais gasta no mundo e responde por 50% de todos os gastos militares na Ásia e Oceania.

O Japão aumentou seus gastos em 21% em 2024, o maior aumento desde 1952, e a Alemanha se tornou o quarto país que mais gasta com militares, depois dos EUA, China e Rússia.

Enquanto cerimônias são realizadas para lembrar as vítimas da bomba atômica que matou 140 mil pessoas de uma só vez há 80 anos em Hiroshima, os gastos com armas nucleares também estão aumentando. Em 2023, os gastos globais com armas nucleares aumentaram 13% e, em 2024, outros 11%, de acordo com a Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN). 

Esses investimentos maciços continuarão a aumentar este ano. A Europa, que se mostrou totalmente dependente dos EUA durante a guerra na Ucrânia, agora está expandindo rapidamente seu orçamento militar. Em março deste ano, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, apresentou um plano para aumentar os gastos militares na Europa em € 800 bilhões nos próximos quatro anos.

Os governos tentarão pagar por isso, em parte, aumentando as dívidas, mas também cortando gastos sociais. O líder da OTAN, Mark Rutte, deixou claro em seu discurso em dezembro que aumentar os gastos militares significa “gastar menos em outras prioridades”, como aposentadorias, saúde e seguridade social. Esta é uma receita para enormes lutas de classe nos próximos anos, já que os trabalhadores e os jovens resistirão aos cortes feitos para pagar pelas armas. 

Isso significa que as classes dominantes também devem conduzir uma batalha ideológica para sufocar a oposição, promovendo o militarismo como parte de uma reação nacionalista. Parte disso também é promover uma cultura militarista machista, atacando as pessoas trans e os direitos das mulheres, reafirmando os papéis de gênero “tradicionais”. O regime do PC Chinês está promovendo uma campanha para tornar os homens mais “masculinos”, incluindo o banimento de homens “afeminados” da TV, enquanto Trump baniu as pessoas trans do exército.

Isso faz parte da virada reacionária do capitalismo em todo o mundo. Além de promover o militarismo e o nacionalismo, também tem o objetivo de dividir a oposição contra suas políticas. Eles viram as ondas de radicalização da juventude que saíram às ruas aos milhões no último período: contra a austeridade, a violência de gênero, as mudanças climáticas, o racismo, a corrupção, a ditadura e, mais recentemente, contra o genocídio em Gaza. Um aspecto importante de todos esses movimentos é um crescente internacionalismo e compreensão de que as questões estão conectadas e que o problema é sistêmico. Essas conclusões são como veneno para as elites. “Dividir para governar” é uma questão de vida ou morte para elas. Isso explica a rapidez com que o “capitalismo woke/progressivo” foi abandonado por muitos governos, líderes corporativos e figuras da mídia.

Contra todo imperialismo

Em 1916, o revolucionário russo Lenin escreveu “O imperialismo, fase superior do capitalismo”, em plena guerra mundial, para analisar a lógica por trás dessa loucura. Suas palavras continuam mais do que relevantes para entender o que está acontecendo hoje:

“O capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países ‘avançados’. A partilha deste ‘saque’ efetua-se entre duas ou três potências saqueadoras, armadas até aos dentes … que dominam o mundo e arrastam todo o planeta para a sua guerra pela partilha do seu saque.”

Os conflitos imperialistas tiveram diferentes configurações ao longo da história do capitalismo. Após o fim da Guerra Fria e o colapso do stalinismo e da União Soviética, os Estados Unidos emergiram como única superpotência, assumindo o papel de força policial mundial. Isso ficou evidente na Guerra do Golfo de 1991, quando até mesmo a Rússia apoiou o ataque dos Estados Unidos contra Saddam Hussein no Iraque. No entanto, a “Pax Americana” não durou muito, ainda que o declínio de longo prazo do domínio dos EUA parecesse ter sido interrompido por um período no auge da globalização. Mas a ascensão da China, ameaçando o domínio dos EUA, e o início da crise de 2008 puseram fim a isso.

Embora Trump tenha se afastado desse roteiro, os EUA tradicionalmente se apresentam como líderes do “mundo livre”, promovendo a “democracia”. Mas a história está repleta de invasões dos EUA a outros países, promoção de golpes e apoio a ditaduras, como se viu na grande turnê de Trump pelas ditaduras do Oriente Médio, passando pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar.

Igualmente falsa é a pretensão de Xi Jinping de liderar um contrapeso ao imperialismo dos EUA como líder do “Sul Global”. Devido à história de domínio e intervenção imperialista dos EUA, é compreensível que muitos na África, América Latina e Ásia possam ter ilusões na China ou na Rússia como alternativas progressistas. Mas isso significaria cair em uma armadilha fatal, como mostram as alianças de Moscou e Pequim com muitas outras ditaduras ao redor do mundo.

Os “investimentos” agressivos da China em muitos países não são de forma alguma progressistas. Os imperialistas chineses agem como todos os empregadores exploradores e saqueadores de recursos em busca de lucros. A China emergiu como o maior credor do mundo, seguindo um dos principais aspectos do imperialismo, conforme analisado por Lenin: a exportação de capital.

Alguns na esquerda caíram na narrativa imperialista da China e da Rússia em conflitos recentes. Durante o movimento de massas em Hong Kong em 2019, muitos velhos e novos stalinistas defenderam a China como um regime “socialista” atacado por manifestantes mobilizados pela CIA. Sobre a guerra na Ucrânia, poucos defendem abertamente a invasão da Rússia, embora alguns digam que foi uma “resposta justificada à agressão da OTAN”. É mais comum que alguns da tradição stalinista atribuam a “culpa principal” aos EUA ou até argumentem que o melhor resultado é uma vitória russa, para evitar um mundo “unipolar” dominado pelos EUA. Eles argumentam falsamente que a China e a Rússia pertencem a um “campo anti-imperialista”.

Por outro lado, há muitos na esquerda reformista que defendem ou capitulam aos EUA e à OTAN, especialmente na questão da Ucrânia e na “necessidade” de aumentar os gastos militares. Alexandria Ocasio-Cortez e Bernie Sanders, nos EUA, embora se oponham aos crimes de Israel em Gaza, apoiaram o armamento da Ucrânia. Mesmo alguns que afirmam ter uma tradição marxista revolucionária, como a mal chamada “Quarta Internacional”, capitularam a essa pressão, apoiando o envio de armas pela OTAN a Kiev.

Muitos seguem a lógica do “campismo”, de que em um conflito é preciso escolher um lado. Essa é a lógica seguida também pela Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT – uma corrente “morenista” do trotskismo) em relação ao Oriente Médio. Eles argumentam que estão “no campo militar iraniano contra o Estado sionista” e que o Irã deve “avançar para uma guerra total contra Israel”.

O que todas essas posições equivocadas têm em comum é que não partem da capacidade da classe trabalhadora de assumir uma posição independente. Em última análise, elas defendem uma posição muito pessimista, em que os trabalhadores e os jovens se limitam a escolher lados imperialistas.

Não há solução militar

Isso também está ligado à visão de que a principal solução para esses conflitos é militar e que o que importa é ter mais e  melhores armas do lado certo. Os marxistas não são pacifistas. Defendemos o direito dos povos oprimidos de se defenderem, inclusive com armas. 

Historicamente, isso incluiu a defesa do governo bolchevique, que foi estabelecido pela classe trabalhadora na Revolução Russa de 1917, e do jovem Estado operário russo contra os reacionários “exércitos brancos” e as potências imperialistas invasoras que tentaram esmagar a primeira revolução socialista vitoriosa. Mas a vitória da revolução russa contra esses exércitos (muito melhor equipados) só foi possível com base em uma revolução social que distribuiu terras aos camponeses, liberdade às nações oprimidas, direitos aos trabalhadores, mulheres e pessoas LGBTQIA+, e colocou a economia a serviço do povo trabalhador. Este é o caminho que pode levar as lutas dos povos oprimidos à vitória.

É uma ilusão pensar que o povo ucraniano conquistará a liberdade com a ajuda da OTAN, tornando-se, na melhor das hipóteses, um Estado vassalo do imperialismo ocidental. Ainda mais utópica é a ideia de que o povo palestino (ou o Irã) derrotará, apenas por meios militares, o regime israelense apoiado pelos EUA.

A primeira Intifada palestina de 1988-1993 foi uma resistência de massas, organizada pela base, e se mostrou muito mais eficiente do que os atentados e sequestros da OLP, ou os foguetes e atentados suicidas do Hamas mais tarde, sem mencionar o ataque reacionário contra civis em 7 de outubro.

Para evitar armadilhas desastrosas, o movimento antiguerra precisa se opor a todas as potências imperialistas. Por sua vez, isso só é possível se for baseado em um movimento de trabalhadores independente, armado com um programa capaz de superar e substituir este sistema podre, o que só é possível em escala internacional.

Uma posição consistente contra a guerra e o imperialismo precisa ser socialista

Opor-se ao imperialismo e à guerra de forma consistente significa opor-se ao capitalismo. 

Ao longo dos anos, isso também se refletiu de forma clara nas traições históricas de líderes de trabalhadores que abandonaram qualquer pretensão de se opor ao capitalismo e se contentaram com uma perspectiva de reformar seus piores excessos (uma abordagem que os marxistas chamam de “reformismo”).

A “Segunda” Internacional Socialista, que começou como uma organização internacional marxista e revolucionária com o objetivo de derrubar o capitalismo, passou por um processo de degeneração reformista. Uma camada de líderes partidários, parlamentares eleitos e burocratas sindicais ganhou privilégios e se distanciou tanto da base do movimento quanto de um programa de transformação socialista. 

Essa degeneração se expressou de forma mais decisiva na questão da guerra. A Internacional aprovou resoluções contra a guerra e o militarismo em seus congressos de Stuttgart, em 1907, e de Basileia, em 1912. As resoluções enfatizavam a necessidade de os partidos socialistas coordenarem esforços para resistir à guerra e convocassem uma greve geral caso a guerra começasse. Tragicamente, quando a guerra eclodiu em 1914, todos os principais partidos “social-democratas” tomaram o lado de seus próprios governos.

Esse episódio vergonhoso deu o tom para a história subsequente dos partidos reformistas, a maioria dos quais agora se transformou em partidos burgueses, apoiando e até mesmo travando guerras enquanto estão no governo. Quando George W. Bush lançou a guerra contra o Iraque em 2003, com base em relatórios falsos sobre Saddam Hussein desenvolvendo armas de destruição em massa, seu principal aliado foi Tony Blair e seu “New Labour”.

Um exemplo melhor foi dado pela organização da juventude dos social-democratas suecos há 120 anos. Em 1905, o parlamento norueguês declarou independência da monarquia sueca. A recém-formada organização da juventude social-democrata realizou seu primeiro congresso poucos dias depois e adotou um manifesto chamado “Paz com a Noruega – abaixo as armas”, defendendo protestos e greves contra a ameaça de guerra das forças reacionárias e do rei. 

Cem mil cópias do manifesto foram impressas e 250 manifestações e comícios de massa foram organizados. A solidariedade dos trabalhadores – incluindo a dos trabalhadores noruegueses com os operários suecos que enfrentavam um lock out nas fábricas pelos patrões – também foi uma característica importante. Essa impressionante campanha conteve a elite sueca, que temia uma repetição da revolução russa de 1905, que estava em andamento na época. O autor do manifesto, Zeth Höglund, passou seis meses na prisão, mas a guerra foi impedida. É essa tradição que devemos seguir!

O fato é que a luta dos trabalhadores e as revoluções sociais provaram ser a melhor maneira de impedir guerras. A Revolução Russa de 1917 e a Revolução Alemã de 1918 puseram fim à Primeira Guerra Mundial. A força do movimento contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos, que, juntamente com a resistência revolucionária do povo vietnamita, pôs fim à guerra, também veio da radicalização contínua do movimento pelos direitos civis dos negros, da luta pelos direitos das mulheres e das pessoas queer, dos movimentos estudantis e das greves dos trabalhadores.

Manifestações de massas são essenciais para mobilizar e conscientizar, mas por si só não são suficientes. Diante da invasão planejada do Iraque por Bush e companhia em 2003, foi realizado o que às vezes é descrito como o maior dia de protestos de todos os tempos em 15 de fevereiro, com dezenas de milhões de pessoas indo às ruas em todo o mundo. No entanto, a guerra aconteceu mesmo assim. Da mesma forma, vimos grandes marchas contra a guerra em Gaza, mas isso não foi suficiente.

A classe trabalhadora tem o poder de intensificar a luta usando seu poder de forma mais direta. Vimos alguns exemplos do que é possível com os trabalhadores portuários da Suécia, Bélgica, França, Grécia e Itália se recusando a carregar armas destinadas a Israel. Esse tipo de ação, incluindo greves de trabalhadores envolvidos na fabricação e distribuição de armas, ou mesmo no transporte de tropas, teria a capacidade de parar a máquina de guerra. É claro que, se deixados sozinhos, esses trabalhadores logo seriam vitimados. Portanto, eles devem ser apoiados com solidariedade, com greves de trabalhadores de outros setores, incluindo greves gerais contra o militarismo e os governos. 

Esses movimentos de solidariedade se tornarão muito mais fortes se combinados com demandas por melhorias nas condições de todos os trabalhadores. No momento em que este artigo foi escrito, 3,2 mil trabalhadores da Boeing em uma fábrica que fabrica caças nos Estados Unidos estão em greve. O movimento antiguerra também deve defender seus direitos.

Os orçamentos militares devem ser cortados e o dinheiro revertido para programas públicos de construção de moradias, investimento em escolas públicas gratuitas, saúde, transporte público e transição verde. A indústria militar deve ser nacionalizada sob o controle e a gestão dos trabalhadores, para que possa ser reestruturada para fabricar produtos socialmente úteis, e não armas. Com essa abordagem, todos os empregos estarão seguros e milhões de outros poderão ser criados. No final das contas, os governos que buscam seus interesses imperialistas fundamentais, quando decididos pela guerra, não recuam facilmente. Um movimento antiguerra deve estar pronto para ir até o fim, derrubar governos beligerantes e também se livrar do sistema que sobrevive e se renova por meio de guerras.

Um novo movimento internacional contra a guerra deve, portanto, lutar por um futuro socialista, livre de guerras, opressão e exploração! Como disse Trotsky, com sua convicção inabalável na capacidade da classe trabalhadora de construir um novo futuro: “A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente.”

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