França de 1968 – Mês da Revolução – Lições da Greve Geral

Quatro condições para a revolução

Uma situação revolucionária ‘clássica’ tinha sem dúvida se desenvolvido na França. O The Economist tomou o seu padrão para decidir se uma situação era ou não revolucionária apenas por um critério: se uma proporção grande o suficiente da população estava “convencida que suas condições de vida eram intoleráveis”. Os trabalhadores vivem por anos, até décadas, em condições intoleráveis, sem sentirem que podem fazer uma revolução. Mas como Lênin explicou muitas vezes, uma revolução ocorre apenas quando vários fatores coincidem, e é vitoriosa apenas quando as quatro principais condições são preenchidas.

Primeiramente, face a uma profunda crise, a classe dominante é incapaz de governar do velho modo e começa a se dividir em diferentes alas, cada uma procurando uma solução diferente para a crise. Segundo, as camadas médias estão em ebulição. Terceiro, a classe trabalhadora procura uma saída, não com base na velha sociedade, mas em uma nova ordem. Ela se move para a batalha de modo determinado. Quarto, a condição mais crucial, é a existência, à frente do movimento de massa dos trabalhadores, de uma direção marxista clara, com a estratégia, táticas e organização necessárias para garantir a vitória.Qualquer análise objetiva irrefutavelmente demonstra que três das quatro condições de Lênin existiam na França em maio-junho de 1968. De fato, nunca antes, na história da França ou de qualquer outro país, estas três condições objetivas para a revolução se manifestaram de um modo tão claro. Apenas os cegos pelas cataratas reformistas poderiam não ver o que estava acontecendo ante seus olhos.

Divisão da classe dominante

O primeiro elemento da revolução francesa de 1968 foi a vacilação, a crise de confiança por parte da classe dominante. O pânico da burguesia francesa era indicado pelo rápido aumento no preço do ouro e uma fuga de capital sem precedentes. Eram relatados engarrafamentos nas estradas para a Suíça!

Marx pontuou como, ao contrário das aparências, uma revolução começa de cima. As fraquezas e divisões na cúpula, que refletem a revolta subterrânea das massas, são expostas. Elas por sua vez encorajam as forças revolucionárias de baixo a avançar. Um setor quer usar o porrete para manter o seu domínio; o outro favorece concessões. O gabinete Gaullista estava claramente dividido em “falcões” e “pombas”, sobre como lidar com a crise que se desenvolvia. Gaullistas de “Esquerda” declaravam estar “com os estudantes” e deploravam o uso da CRS. Os zigues-zagues, de brutal repressão para concessão sem precedentes, e de novo a repressão, mostravam uma completa perda de domínio da situação.

Ministros do governo chegavam ao auge do desespero. Christian Fouchet declarou: “Se isto se espalha, estamos acabados!”, e Georges Pompidou: ‘Isto é o fim da minha carreira política!” Até os mais astutos burgueses – e Pompidou precisa ser incluído entre eles –, quando foram lançados violentamente nas ondas da revolução em 1968, pensavam em primeiro lugar apenas em seus próprios destinos pessoais. Antes da crise, o Ministro das Finanças Michel Debré estava dando pelo menos três entrevistas e duas declarações ao público todo dia. Desde que os eventos começaram ele ficou totalmente mudo. Então, como se para tentar consolar a si próprio, ele declarou “Seis milhões em greve? Isto não é uma revolução!” Essa atitude é conhecida como “assobiando no escuro para manter alto a sua moral”!

Durante a ausência de de Gaulle na Romênia, Pompidou provou ser mais sensível à pressão de baixo – “desimpedido”, como um comentarista descreveu, “do fardo de ter encarcerado a França”. Ele via então de Gaulle fazendo o que, de seu ponto de vista, deveria parecer como um erro após o outro, aparecendo ante os olhos de todos como um político cansado e em bancarrota. As mesmas vozes que agora condenavam de Gaulle por um erro atrás do outro, em períodos anteriores o louvavam por ser um “trabalhador do milagre”. Ele tinha, segundo eles, fornecido as bases para os deslumbrantes fogos de artifícios do boom econômico, e no processo, conseguira intimidar o poderoso proletariado francês. Tudo isto eles atribuíam ao seu carisma e às poderosas armas à disposição do bonapartismo.

Hegel, o filósofo dialético, falava há 150 anos de como a razão se torna desrazão. Os métodos de ontem, que pareciam garantir o sucesso, agora, numa situação mudada na França, transformavam-se no seu oposto. O “estado forte” estava impotente, nas palavras do Evening Standard: “Todas as armas constitucionais que ele mesmo forjou para proteger seu regime de tal crise são agora pedaços de papel, até a arma do referendo é inútil” (29 de maio). De Gaulle, o arquiteto do estado forte, estava politicamente paralisado e incapaz de tomar qualquer iniciativa. Seus métodos, longe de estabilizar a situação, acenderam uma revolução que eram impotentes para controlar. Pelo fim do mês ele estava fugindo do país. As memórias de seu Primeiro-Ministro testemunham: “Na verdade, o general sofreu uma crise de moral. Pensando que o jogo estava perdido, ele escolheu se retirar. Chegando a Baden-Baden, estava pronto a ficar ali por muito tempo”.

A classe média ganha

A segunda condição para uma revolução vitoriosa é a efervescência entre a classe média. Ela olha para uma ou outra das duas grandes classes na sociedade – os trabalhadores ou os capitalistas – por uma saída dos problemas que ela enfrenta. Na França de maio de 1968, havia uma agitação de fato, mas nenhuma vacilação. A grande maioria da classe média via seu destino ligado ao sucesso do movimento operário. Isto se aplica aos trabalhadores de colarinho branco, aos gerentes médios (cadres), aos técnicos. Isto se aplica ao campesinato no interior, tanto quanto aos profissionais e estudantes nas cidades. O seu apoio não era passivo, mais um envolvimento ativo, entusiástico, direto. Novas portas estavam sendo abertas para eles. Eles tiravam força e confiança do enorme poder manifestado pelos trabalhadores em greve. O apetite estava crescendo enquanto se comia, como diria o Gargântua de Rabelais. Parecia que nada poderia ficar em seu caminho. Juntos, eles poderiam mudar o mundo!

“Nós discordamos!” gritavam os comunistas. Este quadro é desmentido, afirmavam, por uma manifestação de um milhão da reação pequeno-burguesa. Mas isto foi em 31 de maio. Duas semanas antes, apenas 2 mil responderam ao chamado da reacionária organização para-militar “Ocidente” de manifestarem-se contra a greve! Pelo fim do mês, a contra-revolução teve tempo de reunir os piores elementos de classe média da sociedade. Mesmo então, o The Economist mostrou uma melhor compreensão da real correlação de forças na sociedade quando comparou a manifestação gaullista com uma de tamanho similar na noite anterior, organizada pelo sindicato comunista: “Em termos eleitorais as duas grandes manifestações tinham um peso quase igual, mas em tempos de levante social, foi aquela que pode paralisar a economia que teve o maior peso”.

A evidencia da terceira condição para a revolução – a prontidão da classe trabalhadora de ir até o fim – não poderia ter sido mais convincente. Escrevendo sobre as lutas de classe anteriores na França, Engels observou que a magnífica classe trabalhadora daquele país sempre se mostrou preparada para lutar até as últimas conseqüências.

Antes da greve começar, pouco mais de 2.5 milhões de trabalhadores estavam nos sindicatos. Mas 10 milhões – dois terços do total da força de trabalho – pararam de trabalhar, ocuparam os locais de trabalho e se engajaram numa discussão permanente sobre como dirigir as coisas no futuro! Seu apetite também crescia à medida que comiam. O que seria se eles se livrassem dos patrões às suas costas? Não era mais uma questão de apenas se livrar de de Gaulle e uma máquina estatal repressiva.

Os trabalhadores em seus milhões agora sentiam o poder que tinham na sociedade. Tudo estava parado. Nenhuma roda girava ou gerador operava sem sua permissão. Eles sentiam que nada mais poderia ficar em seu caminho.Num ditado favorito dos operários britânicos, “porque se satisfazer com bolo se você pode tomar toda a padaria?” Porque fazer todo esse esforço agora para obter algumas reformas econômicas quando um novo modo de dirigir a sociedade poderia ser estabelecido?

O movimento espontâneo de maio de 68 começou a partir de baixo. A massiva greve geral de um dia chamado pelos partidos de esquerda e as federações sindicais falhou em agir como uma válvula de escape, da maneira como os líderes esperavam. Agora estes “líderes” foram arrastados esperneando e gritando atrás do movimento, tentando pisar nos freios! Estes cavalheiros comunistas, como sempre, davam duro para parecerem respeitáveis. O Observer apontou o paradoxo: “Os sindicatos comunistas e o governo gaullista que eles parecem estar desafiando estão realmente no mesmo lada das barricadas”. E nenhuma outra organização com base de massas estava fornecendo uma liderança clara. A federação sindical CFDT estava mais estreitamente aliada à luta dos estudantes e trabalhadores, mas pôde apenas se declarar vagamente a favor da “democracia” e “autogestaõ” na indústria.

O PSU, um partido centrista, sob a direção de Michel Rocard (ele acabaria na extrema direita do Partido Socialista que foi formado mais tarde) soava revolucionário. Pairando entre a reforma e a revolução, suas frases refletiam de forma mais próxima as aspirações instintivas de todos os envolvidos na greve. Ele falava de “poder operário”, e sobre a situação “nunca ter estado mais favorável para a instalação de uma sociedade socialista”. Por esta razão, estava ganhando terreno rapidamente entre os trabalhadores e estudantes. Mas ele, também, era incapaz de fazer o chamado para uma ação necessária para levar a revolução adiante.

Um enorme vácuo existia no topo da sociedade. O governo estava suspenso no meio do ar. Todas as suas reservas sociais desertaram da classe dominante. Mas a quarta condição resumida por Lênin para uma revolução vitoriosa está tragicamente ausente: um partido de massas com um programa marxista e uma liderança e visão audaciosas, com a confiança de um grande setor dos trabalhadores e preparado para ir até o fim. Isto era tudo o que era necessário, tudo o que estava faltando!

O que cada trabalhador estava procurando era como forjar uma sociedade socialista, fosse este ou não o nome. Os líderes do Partido Comunista, os únicos em posição de reunir as peças do quebra-cabeças na forma de um programa concreto, abdicaram de sua responsabilidade completamente. Então, como antes, eles culparam os próprios trabalhadores. René Andrieu, editor do jornal do Partido Comunista, L’Humanité, desculpando a política de seu partido, declarou ao Morning Star (8 de junho de 1968): “Não é suficiente que as principais forças da nação estejam em movimento – que era o caso – é também necessário para elas ser ganhas paras as idéias de uma revolução socialista. Mas este não era o caso para todos os 10 milhões de trabalhadores em greve – menos ainda para os setores da classe média, particularmente os camponeses”.

Aqui está a expressão acabada do pedantismo e desdém burocrático dos líderes do Partido Comunista para as massas que se recusam a agir segundo as prescrições destes líderes. Há muito tempo Lênin desprezava aqueles escolásticos que imaginavam que uma revolução consistiria de dois exércitos alinhados, um se declarando “pela revolução”, o outro “contra”. Os trabalhadores e camponeses na Rússia queriam pão, terra e liberdade. Eles chegaram à compreensão de que isto apenas poderia ser assegurado através da revolução. Além disso, suas experiências e o papel de Lênin e Trotsky em articular teoricamente as demandas das massas, ensinaram a elas que apenas os bolcheviques poderiam completar a revolução.

Os trabalhadores franceses em sua grande massa queriam melhores condições, grandes aumentos de salários, a erradicação dos cortiços, uma educação decente para suas crianças, aumento massivo nos gastos em serviços sociais, etc. Ao mesmo tempo, eles instintivamente entenderam que não importa quais concessões de curto prazo fossem extraídas dos capitalistas, estas seriam tomadas de volta a menos que uma transformação fundamental da situação fosse implementada.

Então como os líderes do Partido Comunista mediram a “falta” de têmpera revolucionária dos trabalhadores? Numa situação similar em 1936, Trotsky criticou os líderes comunistas por sua covardia em face das magníficas greves de ocupações. “Os doutores eruditos da Internacional Comunista têm um termômetro que eles põem sob a língua da velha dama, a História, e por este meio eles infalivelmente determinam a temperatura revolucionária. Mas eles não mostram a ninguém o seu termômetro. Nós dizemos: o diagnóstico da Comintern é inteiramente falso. A situação é revolucionária, tão revolucionária quanto pode ser devido as políticas não-revolucionárias dos partidos da classe operária. Mais exatamente, a situação é pré-revolucionária. Para levar a situação à sua total maturidade, deve haver uma mobilização imediata e incessante das massas, sob o slogan de conquista do poder em nome do socialismo. Este é o único modo pelo qual uma situação pré-revolucionária se transforma numa situação revolucionária”. (Aonde vai a França?)

Estas palavras se aplicam com igual ou maior força para os líderes do Partido Comunista de 1968. Porque 10 milhões de trabalhadores se engajaram numa greve de ocupações por um mês, expulsando e eliminando o controle dos patrões nas fábricas? Porque eles não se restringiram à manifestações, greves e desfiles? É óbvio para aqueles cuja visão não está prejudicada por uma abordagem reformista ou stalinista da política que a massa da classe trabalhadora francesa percebeu que apenas as medidas mais extremas poderiam assegurar a conquista de suas demandas.

A tarefa de um genuíno partido revolucionário teria sido articular este desejo por mudanças. Ao invés disso, os líderes comunistas agiram como um freio gigante ao movimento. Sua atitude não foi melhor que a atitude arrogante dos muitos “grupelhos” que eles gostavam tanto de condenar. “Nós sabemos o que é necessário, mas os trabalhadores não entendem”, é isso o que queriam dizer. Exibiam um cinismo profundamente arraigado para com a própria classe que sozinha pode assegurar a vitória do socialismo. No caso dos stalinistas à frente das organizações operárias, sua atitude também vinha do medo. Uma vez que o movimento tivesse começado a se dirigir ao objetivo socialista, estes tímidos seriam varridos com um peteleco! Como em muitas ocasiões na história, os trabalhadores estavam milhares de vezes mais à esquerda de seus líderes, e mil vezes mais corajosos também. “Audácia, sempre audácia e ainda mais audácia!”, era a palavra de ordem de Danton na Grande Revolução Francesa. Ao invés disso, eles encolhiam-se e choramingavam, rastejavam ante o inimigo e gritavam “Silêncio!” para a classe trabalhadora!

Policia e exército oscilam

Uma nova revolução de Outubro, em um plano muito superior na França industrial, era mais do que uma possibilidade real. Mas não seria assim. “Impossível!”, “Fora de questão!”, gritavam os intrépidos comunistas na época e ainda mais violentamente depois dos eventos. “A polícia e o exército eram muito fortes!” era a sua desculpa.

Qual era a verdadeira situação? A manchete da primeira página do Evening Standard de 23 de maio era “Policia de Paris – uma greve?” Um porta-voz dos sindicatos policiais declarou que eles “poderiam ser obrigados a questionar as ordens se fossem continuamente chamados a tratar com grevistas lutando por seus direitos”. Eles “entendiam perfeitamente” os motivos dos grevistas e deploravam o fato de que fossem impedidos pela lei de adotar uma ação similar.

Eles eram 60 mil policiais municipais, 14 mil CRS e, para emergências reais, uma gendarmeria móvel de 16 mil controlados pelo exército. Já em 13 de maio, um órgão sindical policial representando 80% do pessoal uniformizado queixou-se ao governo. Eles objetaram o fato de que o Primeiro Ministro reconheceu tardiamente que os estudantes estavam com a razão e então desautorizou as ações da força policial, enviada pelo próprio governo. “O diálogo com os estudantes deveria ter sido feito antes destes lamentáveis confrontos ocorrerem”, eles insistiam. Uma petição estava reunindo bastante assinaturas entre a policia, declarando: “Não aceitamos mais o papel de palhaços!” A seção que lidava com a espionagem sobre a atividade estudantil estava deliberadamente privando o governo de informação sobre os líderes estudantis, em apoio a uma reivindicação de verbas. Tal força policial descontente e desmoralizada dificilmente se provaria um apoio confiável ao governo.

O pessoal total das forças armadas à disposição do estado estava em torno de 300 mil. Mesmo se a moral estivesse alta, eles eram completamente incapazes de fazer o trabalho de 10 milhões de trabalhadores ou forçá-los todos à trabalhar na ponta de uma arma. Além disso, o exército consistia em grande medida de conscritos (120 mil de 168 mil soldados). A maioria deles tinha grevistas em suas próprias famílias e estavam relutantes em serem usados como fura-greves. Um soldado, questionado por um correspondente do The Times se ele abriria fogo contra os estudantes e trabalhadores, respondeu: “Nunca! Penso que seus métodos poderiam ser um pouco menos violentos, mais eu também sou filho de trabalhador”. Apenas numa etapa posterior, quando o movimento estava retrocedendo e se tornando fragmentado, seria possível usar força armada para dispersar as ocupações dos locais de trabalho.

Neil Ascherson, do Observer, recordou as finas tradições do soldado conscrito francês, em março de 1988: “Lembro como, durante os estertores de morte finais da Argélia francesa, quando um enxame de esquadrões da morte estava enchendo as sarjetas de Argel com sangue, surgiu uma organização chamada OCC (Organização Clandestina de Conscritos)”. Havia uma conspiração de jovens conscritos exasperados em nome do senso comum. “Terminem esta guerra”, eles diziam, “e outorguem a independência da Argélia ou usaremos nossas armas contra todos vocês”.

No fim de maio de 1968 o porta-aviões Clemen­ceau estava a caminho do local de testes nucleares franceses no Pacífico quando um motim estourou e ele foi trazido de volta a Toulon. Três famílias foram informadas que seus filhos foram “perdidos no mar”. Uma reportagem completa disto foi impressa no jornal do sindicato estudantil, Action, de 14 de junho de 1968, mas a edição foi tomada e destruída pelas autoridades! O jornal de esquerda Nouvel Observateur relatou que após o 5º Exército ter sido posto em alerta para romper a greve, comitês de soldados foram criados para se voltarem contra seus superiores e sabotar o transporte e carros blindados. Le Monde relatou que “O Ministro da Defesa tem resistido a todas as tentativas de usar o exército de um modo que possa envolver um confronto direto com os grevistas”.

Foi lançado um panfleto por um comitê do 153º RIMECA (Regimento de Infantaria Mecanizada), estacionada perto de Estrasburgo. Apresentou demandas por oportunidades iguais para todos em relação à instrução militar, educação sexual apropriadamente integrada para os soldados, e “diálogo e gestão conjunta” (na educação), segundo os mesmos princípios exigidos nas universidades e escolas. Mas dramaticamente, ele continua para declarar: “Como todos os conscritos, estamos confinados aos quartéis. Estamos sendo preparados para intervir como forças repressivas. Os trabalhadores e jovens devem saber que o soldado do contingente nunca irá atirar em trabalhadores. Nós, do comitê de ação, nos opomos a qualquer custo a cercar as fábricas pelos soldados. Amanhã ou depois se supõe que vamos cercar uma fábrica de armamentos que 300 trabalhadores que trabalham lá querem ocupar. Confraternizaremos com eles. Soldados do contingente, formem seus comitês!”

A extensão completa de tais desenvolvimentos dentro das forças armadas talvez nunca seja revelada, mas só este panfleto mostra que terreno receptivo um apelo de classe da parte das organizações dos grevistas teria encontrado. Isto não poderia frisar o suficiente de que existia uma situação rara na história – uma oportunidade para a transformação socialista da sociedade a ser implementada pacificamente, ou relativamente de modo pacífico?

Nada disso, gritava o editor do L’Humanité mais uma vez: “Mesmo se o governo estivesse aleijado, o exército regular, com seus tanques e aviões, estava se mantendo pronto para tomar o pretexto da menor aventura para afogar o movimento operário em sangue e instalar uma ditadura militar.”

Qualquer tentativa do regime de de Gaulle de usar o exército regular, mesmo aquele estacionado no outro lado do Reno, teria tido o mesmo efeito que a marcha do reacionário general Kornilov em Petrogrado, em agosto de 1917. Os trabalhadores teriam apresentado um sólido muro de resistência. Usar o exército nesta etapa seria despedaçá-lo. Uma revolução é mais do que uma mera “aventura”; forças muito maiores estavam do lado da classe trabalhadora do que no campo oposto.

Em Podem os bolcheviques manter o poder estatal?, escrito às vésperas da revolução de Outubro, em resposta aos tímidos no Partido Bolchevique, Lênin afirma:

“Temer a resistência dos capitalistas e ainda chamar a si mesmo de revolucionário – desejar ser considerado um revolucionário – não é vergonhoso?… Eles (a classe capitalista) irão repetir a revolta de Kornilov… Não, cavalheiros, vocês não enganarão os operários. Isto não será uma guerra civil, mas uma revolta sem esperança de um punhado de Kornilovistas… Mas quando cada operário, cada trabalhador desempregado, cada cozinheiro, cada camponês arruinado, ver, não dos jornais, mas com seus próprios olhos, que o estado operário não está se humilhando perante os ricos, mas está ajudando os pobres… que a terra está sendo transferida para o povo trabalhador e as fábricas e bancos estão sendo postos sob o controle dos operários, nenhuma força capitalista, nenhuma força do capital mundial, irá vencer a revolução do povo. Pelo contrário, a revolução socialista irá triunfar por todo o mundo”.

Com exceção de estar garantida uma vitória indolor de antemão, como os covardes líderes stalinistas poderiam ter encontrado uma situação mais favorável? A correlação de forças estava esmagadoramente do lado da classe trabalhadora. No auge da greve, quando os trabalhadores ainda estavam avançando, a classe dominante estava paralisada. A máquina estatal, embora não destruída, estava suspensa no meio do ar. Por um período crítico, as alavancas do poder estavam inoperantes. Estava longe de ser descartado, é claro, que os líderes capitalistas não recorreriam à sangrentas medidas militares contra a classe trabalhadora. Por toda a história, a classe dominante francesa foi notória pela defesa implacável de sua riqueza, poder e prestígio. Mas realizar uma transformação total da sociedade, sem conflito violento, quando uma situação favorável se abriu, dependeria da liderança da classe trabalhadora.

Os líderes do Partido Comunista gemiam sobre o perigo de reação militar. Mas meias medidas, hesitação e inação são um convite para os capitalistas lançarem uma reação sangrenta. Uma liderança corajosa da classe trabalhadora, se baseando no marxismo genuíno e consciente de suas tarefas históricas, não levantaria suas mãos com horror dos perigos da luta, mas tomaria medidas decisivas para esvaziar a reação. Ela adotaria a estratégia e táticas necessárias para neutralizar o “destacamento de homens armados” do estado, mobilizando as forças superiores da classe trabalhadora para esmagar qualquer movimento na direção da contra-revolução. Por duas semanas, os líderes das organizações de massa se permitiram deixar escapar da classe trabalhadora e sua oportunidade histórica foi jogada fora. A paralisia de de Gaulle nas primeiras três semanas da crise mostra quão perto os trabalhadores chegaram de uma mudança socialista da sociedade.

Uma democracia operária?

Na última semana de maio de 1968, um chamado à classe trabalhadora para tomar o poder político em suas mãos teria feito badalar o toque de finados do capitalismo numa escala mundial. Baseando-se no programa de Lênin, através de seus comitês, os trabalhadores franceses teriam agido para construir a mais avançada forma de governo de democracia operária já conhecida. Para fazer isto eles apenas teriam que tomar o simples programa de Lênin, que era baseado na valiosa experiência dos Comunardos de Paris.

Todos os delegados e funcionários dos comitês, à nível local, regional e nacional, seriam eleitos e sujeitos à revogação a qualquer hora. Nenhum deles receberia mais do que o salário médio de um trabalhador qualificado. Não haveria um exército separado e permanente que pudesse ser usado contra os trabalhadores, mas eles seriam capazes de se defenderem coletivamente. Um sistema totalmente democrático de controle e contabilidade e uma redução drástica da jornada de trabalho capacitaria todos a participar no governo. “Qualquer cozinheiro poderia se tornar Primeiro Ministro”, como Lênin exemplificou… ou qualquer engenheiro, qualquer telefonista, qualquer motorista de ônibus, qualquer enfermeira.

Os comitês de ação operários poderiam ter sido levados a uma batalha para tomar a indústria, distribuição, finanças e a terra sob o controle público, sob sua gestão e controle. Eles teriam sido transformados de órgãos de ocupação e luta em verdadeiros parlamentos e executivos da classe trabalhadora e atraído os pequenos camponeses, pequenos negociantes e lojistas, mostrando como seus débitos poderiam ser eliminados e um novo crédito disponibilizado, sem juros mutiladores. Eles poderiam debater um plano para ser elaborado para a produção das necessidades do povo a um preço determinado por seus próprios representantes. Desperdício, aluguel, juros, lucros e pobreza poderiam ser eliminados. Um apelo para os trabalhadores de todos os países a seguir seu exemplo teria tido um efeito devastador no curso da história mundial. O pretendente ao título de direção revolucionária, o Partido Comunista, se provou capaz de tudo, menos de uma liderança revolucionária nesta situação. Isto é apenas uma “luta por salários”, os “trabalhadores não estão prontos para o socialismo”, ele ainda sustentavam. Mas o papel do partido revolucionário é precisamente defender até os desejos não verbalizados da classe trabalhadora, inspirar e encorajar os trabalhadores em seus milhões a uma ação corajosa por trás de um claro programa socialista. Isto os líderes do Partido Comunista eram simplesmente incapazes de fazer.

Na noite de 27 de maio, o vácuo no topo é ainda mais intensamente sentido. A oferta da Rue de Grenelle é rejeitada e os trabalhadores esperam uma direção. O interesse enormemente elevado na política se mostra no massivo comparecimento à um comício organizado pelo sindicato estudantil. O Estádio Charléty é lotado até a total capacidade, com uma imensa multidão estimada por alguns como maior que 50 mil. Mas o conteúdo político é confuso, nebuloso. Uma antiga figura de esquerda, Pierre Mendes-France (antigo primeiro ministro), comparece. Indicando que está pronto para um chamado “da nação” e que se identifica com os estudantes, ele não se comprometerá com qualquer programa. Ele não falou! Ninguém, mesmo neste comício, tinha um programa claro para levar o movimento adiante. Os membros do Partido Comunista receberam ordens de se ausentarem. Havia vários contingentes do CFDT, com suas bandeiras, e todos os agrupamentos estudantis. Vigier e Barjonet, agora exilados do Partido Comunista, foram entusiasticamente recebidos. Mas dez vezes mais energia foi gasta atacando o Partido Comunista da França (PCF) do que em esboçar um programa para derrubar o regime gaullista-capitalista. Outra oportunidade de ouro é perdida. No dia seguinte, 28 de maio, a CFDT chama por uma intensificação da greve. François Mitterand faz seu chamado por um “Governo Provisório” e no processo desgosta os constitucionalistas entre seus potenciais aliados e irrita o Partido Comunista por não fazer promessas de cargos para eles.

O calor sobe para os líderes do Partido Comunista e da CGT. Eles colocaram suas esperanças em um Programa Comum com a Federação de Esquerda. Receberam 9.2 milhões de votos entre eles na última eleição. O Partido Comunista estava desesperadamente lutando para remendá-la para um governo de Frente Popular. Os representantes políticos da pequena burguesia, na forma do minúsculo Partido Radical, ainda eram parte da Federação de Esquerda, e podiam ainda jogar o papel de cavalo de tróia a favor da grande burguesia. Qualquer programa comum incluiria apenas as mais mínimas medidas aceitáveis entre todas as partes. Um governo de Frente Popular provaria-se totalmente inadequado para as tarefas e inevitavelmente aplicaria os freios no movimento da classe trabalhadora. Os líderes do PCF, não obstante, são forçados a defender de boca para fora e “pôr em primeiro lugar” a nacionalização dos grandes monopólios. Eles denunciam os governos “de um tipo que não resolverão os problemas”! Mas fundamentalmente, suas políticas são falsas.

Os líderes da CGT agora insistem que sempre se recusaram a assinar qualquer coisa nas negociações com o governo! Em 28 de maio, o Morning Star trouxe a seguinte declaração inacreditável: “Alguns relatos franceses afirmam que o sr. Séguy foi vaiado na fábrica Renault… quando de fato as vaias foram reservadas para a Federação Patronal, que ele mencionou em seu discurso”! Mais adiante, no mesmo jornal, eles insistiram que não era uma questão do sr. Séguy dizendo aos trabalhadores para voltarem; lembre-se de que ele não os tinham convocado! “Têm havido falsos relatos que os líderes da CGT tentaram persuadir os trabalhadores a voltar ao trabalho! Em alguns casos, eles deixaram claro que não consideram a oferta suficiente!” Muito contra o desejo dos dirigentes dos trabalhadores – quaisquer que sejam seus protestos e sem a sua “permissão” – a greve geral continuou a crescer. Mais e mais setores dos trabalhadores foram apanhados pelo sentimento de rebeldia.